RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 19. (4 Suppl.2)

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Editorial

Editorial

Editorial

Dário Frederico Pasche

 

Humanizaçao e os Hospitais Brasileiros: experimentando a construçao de novos paradigmas e novas relaçoes entre usuários, trabalhadores e gestores

A opçao por se tomar a humanizaçao como política pública no SUS foi motivada pela necessidade para afirmá-la como valor do cuidado e da gestao em saúde e, portanto, como conceito orientador das práticas de saúde. Para ampliar as experiências de humanizaçao nos equipamentos da rede SUS, entre os quais os hospitais, foi criada em 2003 a Política Nacional de Humanizaçao (PNH), com o objetivo de deflagrar movimento político-institucional e social que alterasse os modos de gestao e de cuidado em saúde, ampliando a capacidade da rede SUS produzir mais e melhor saúde aos cidadaos e dignificar o trabalho em saúde.

Para alcançar tal efeito, de imediato, se coloca a questao do "como fazer", da questao de método. Como alterar os modos de gerir e de cuidar instituídos nas organizaçoes de saúde, avaliados como pouco efetivos para a produçao de saúde? Como ultrapassar relaçoes sociais, políticas e clínicas tao marcadas pelos interesses corporativos e de segmentos sociais e econômicos, que transformam muitas vezes o cuidado em saúde em atos desprovidos de sentido? Como contornar as relaçoes marcadas pelo pouco diálogo e pelo autoritarismo imposto pelas desigualdades nas relaçoes de poder e nas relaçoes entre sujeitos nas práticas de saúde? Como restituir aos cidadaos maior autonomia no cuidado de si?

A Política Nacional de Humanizaçao, longe de apresentar respostas prontas para estas questoes, apresenta um método, ou seja, uma estratégica para enfrentar e lidar com aquilo que tem sido designado "desumanizaçao". Para reverter a tendência da reproduçao de práticas que atentam contra a dignidade do cuidado e da gestao é necessário reverter a principal força que mantém e reproduz estes problemas: a exclusao. Reverter a exclusao requer a construçao de estratégias de inclusao, ou seja, forçar a passagem de outras perspectivas, abordagens, interesses e necessidades nas relaçoes clínicas e nos processos de gestao do trabalho, permitindo maior incidência e interferência dos sujeitos nestas relaçoes.

O modo de fazer inclusivo é o método da Política de Humanizaçao. Humanizar é incluir. Incluir é forçar a produçao de novos modos de cuidar, novos modos de organizaçao do trabalho, mais plurais e heterogêneos, os quais se imaginam mais potentes para a produçao de saúde e para a dignificaçao do trabalho.

Isto parece tarefa simples, mas nao é. Incluir é enfrentar práticas de poder enraizadas nas relaçoes do campo da saúde que foram criando culturas institucionais, atitudes e comportamentos que tornaram naturais alguns efeitos de relaçoes muito desiguais. Esta desigualdade pode significar para os cidadaos a expropriaçao da autonomia no cuidado de si, como por exemplo, sua exclusao na escolha de tratamentos e a nao consideraçao de suas opçoes na escolha de condutas. Para os trabalhadores, isto pode corresponder a experimentaçao de vivências de trabalho que tornam o trabalhar em saúde uma exigência que extrapola suas condiçoes físicas e subjetivas, fazendo adoecer, comprometendo sua qualidade de vida. Assim, humanizar implica na experimentaçao de mudanças que apontem para a construçao de soluçoes mais partilhadas, mais coletivas, mais respeitosas. Obviamente a referência ético-política aqui é a base doutrinária do SUS (direito à saúde, eqüidade e a integralidade), considerando-se aquilo que a sociedade tem definido como o que seja desejável e aceitável no campo do cuidado.

Para a melhoria no atendimento e democratizaçao das relaçoes de trabalho - efeitos da humanizaçao - é necessário, pois, enfrentar as relaçoes desiguais no cuidado na relaçao usuário/rede social e trabalhador/equipe de saúde, bem como entre trabalhadores e gestores. E assim, a humanizaçao depende do estabelecimento de condiçoes político-institucionais, cujo efeito é o reposicionamento dos sujeitos nas relaçoes clínicas e de trabalho.

A humanizaçao se propoe, entao, à criaçao de novas práticas de saúde, de novos modos de gestao, tarefas inseparáveis da produçao de novos sujeitos. Assim, a tarefa da Política Nacional de Humanizaçao é contribuir para a construçao de modos de fazer para que o universo da rede SUS, seu enorme contingente de usuários, trabalhadores e trabalhadores investidos da "figura de gestor", experimente novas possibilidades de manejo das tensoes e alegrias do trabalho em saúde, alterando modos de gerir e modos de cuidar. Sua tarefa é tornar homens e mulheres mais capazes de lidar com a heterogeneidade do vivo, de reinventar a vida, criando as condiçoes para a emergência do bem comum. Esta é a aposta ética da humanizaçao da saúde.

A publicaçao desde volume da Revista Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, nesta perspectiva, é uma iniciativa muito importante, pois abre espaço para a veiculaçao e análise de experiência de humanizaçao em hospitais universitários. Estes hospitais ocupam posiçao estratégica no SUS, quer seja por sua potencial capacidade resolutiva e a eficácia que podem agregar na rede de cuidados, quer seja por sua funçao de formaçao de trabalhadores da saúde. Experimentar a humanizaçao nestes lugares, por estas razoes, é entao estratégico.

Os hospitais brasileiros, é necessário reconhecer, há muito se colocaram o problema da humanizaçao da assistência. Desde antes da criaçao do SUS um conjunto de práticas humanizadoras tiveram curso e com a criaçao da PNH estas experiências passam a receber novos aportes conceituais e metodológicos, estimulando a capilarizaçao da humanizaçao em praticamente toda rede hospitalar. É possível se afirmar, nesta direçao, que boa parte dos hospitais brasileiros tem colocado o tema da humanizaçao como um desafio. E muitos deles tem ido além da interrogaçao, partindo para a experimentaçao de dispositivos da PNH.

A experiência de implementaçao da Humanizaçao nos hospitais tem demonstrado que nao há um único caminho a ser trilhado. E nao poderia ser diferente: a humanizaçao como valor que orienta práticas de gerir e de cuidar, mas nao as molda, pois nao haveria como apontar antes o que deve ser feito, senao construir experiências que poderiam indicar caminhos, dar pistas, apontar possibilidades a partir da humanizaçao como valor atinente ao cuidar e ao gerir em saúde.

Dar vazao, fazer conhecer e refletir sobre experiências de humanizaçao em hospitais universitários - tarefa desta publicaçao - certamente ampliará o acervo de experiências de humanizaçao registradas, bem como contribuirá para o processo de capilarizaçao da humanizaçao em outros estabelecimentos de saúde.

 

Dário Frederico Pasche
Coordenador da Política Nacional de Humanizaçao/Ministério da Saúde

 

Comissao editorial

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