RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 23. (Suppl.2) DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.2013S007

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Artigos de Revisão

Brincadeiras infantis e suas implicações na construção de identidades de gênero

Child's play and its influence on the development of the gender identity

Chaiton Washington Cardoso Bicalho

Terapeuta Ocupacional. Associação Eldorado de Apoio à vida. Contagem, Minas Gerais - Brasil. Central Saúde Ibirité. Ibirité, Minas Gerais - Brasil

Endereço para correspondência

Chaiton Washington Cardoso Bicalho
E-mail: chaitonw@bol.com.br

Resumo

Este estudo destaca a importância da compreensão do significado de gênero para o profissional de terapia ocupacional e outros, para que eles possam desconstruir a idéia vigente de que gênero é sinônimo de sexo e sexualidade e, enfatizar que os papéis de gênero são construídos no decorrer da vida dos indivíduos. Decifrar essa nova terminologia ajuda a compreender as interações sociais entre os sexos na sociedade e, as desigualdades existentes nessa relação. Assim sendo, sexo é visto em nossa sociedade como similar a gênero e, essa afirmativa determina a forma como as crianças vão ser criadas e educadas na sociedade. A apropriação e aquisição da identidade de gênero pelos menores é um processo continuo que passa por várias mudanças e transformações.No início da infância as crianças são influenciadas pela sociedade e, por diferentes meios e formas, são passados a sua cultura. Inclusive através de diversas atividades, em especial, pelas as brincadeiras infantis. Essas influências vão interferir na definição de seus papéis de gênero na sociedade. Este estudo tem como finalidade discutir a forma como as crianças constroem a sua identidade de gênero na infância através do brincar e, quais são as implicações e a interferência dos adultos e das crianças nesse processo de construção.

Palavras-chave: Identidade de Gênero; Terapia Ocupacional; Jogos e Brinquedos.

 

INTRODUÇÃO

Brincadeiras infantis e suas implicações na construção de identidades de gênero constituem-se o objeto desta pesquisa. Segundo Cravo,1 há preocupação por parte da sociedade em relação ao brincar e à construção das identidades de gênero, principalmente quando determinada cultura indica o que seja apropriado para meninos e meninas, utilizando como justificativa a diferença anatômica entre os sexos. Essa polêmica vem configurando uma série de dúvidas e gerando discussões na sociedade, sobretudo quando envolve a distinção entre brincadeiras de meninas e de meninos.

A construção de gênero é determinada por características sociais, culturais, políticas e psicológicas que são atribuídas aos indivíduos de forma singular de acordo com o sexo. Os aspectos de gênero são construções sociais e culturais que irão variar de acordo com o período histórico e que se referem aos componentes psicológicos e culturais que cada sociedade determina do que seja apropriado para o masculino e o feminino. A sociedade, por meio de suas regras e normas, dita comportamentos, ações e modos de agir distintos para homens e mulheres. Desde a mais tenra idade, a partir da forma de agir, nas palavras, no brincar, a cultura procura modelar as crianças para que aceitem e assumam os rótulos que a sociedade lhes reservou. Assim sendo, tais atitudes são arraigadas pelas relações na família, na escola, construindo valores, nem sempre explícitos, mas que sutilmente definem nossas condutas.

As brincadeiras e os brinquedos são constituídos por cada cultura e marcados pelas características específicas de determinada sociedade. Assim sendo, pode-se afirmar que as brincadeiras se constituem em um aspecto universal e possui características específicas que irão depender de vários fatores, como o ambiente físico no qual a criança brinca, a sociedade a que ela pertence, a cultura em que ela está inserida e também do aspecto subjetivo de cada criança.2

A brincadeira contribui de forma significativa para o relacionamento das crianças na sociedade, pois oferece uma forma de interação livre e independente no social. Por conseguinte, as crianças, a partir dessa interação, estão aptas a aprender valores e sentimentos que são importantes para as próximas fases de desenvolvimento, em que os valores de responsabilidade, da conquista, de negociação e de conviver com regras e resolver conflitos são essenciais para a vida adulta.

Este trabalho se justifica pelo fato de que o brincar é a principal atividade de uma criança. É preciso, então, compreender melhor como as identidades de gênero são construídas na infância e o que pode influenciar por meio das brincadeiras infantis. Sendo assim, este estudo será importante para a formação de terapeutas ocupacionais que muitas vezes são mediadores no processo de crianças e suas brincadeiras.

 

OBJETIVO

O objetivo desta pesquisa é compreender as influências das brincadeiras infantis na construção de identidades de gênero. Dessa forma, buscam-se analisar os conceitos de atividade de brincar e identidade gênero. Consequentemente, com base nessas comparações, procurou-se compreender a relação existente entre brincadeiras infantis e gênero.

 

METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão bibliográfica com o objetivo de compreender as influências das brincadeiras infantis na construção de identidades de gênero. Para a elaboração do trabalho foi realizada pesquisa de revisão nas bases de dados Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME), Literatura Latino-americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Scientific Electronic Library Online (SciELO), portal de periódicos da CAPES, biblioteca digital de domínio público e livros da área de Terapia Ocupacional. O período consultado para a pesquisa foi de 1990 a 2010 e os descritores utilizados foram: relação de gênero, identidade de gênero e Terapia Ocupacional e brincadeiras.

A partir da leitura dos títulos e resumos foram selecionados artigos que atendessem ao propósito da pesquisa a partir dos seguintes critérios - literatura nacional - e que se referissem à influência do brincar no gênero. No total, foram encontrados 51 artigos, um livro e três teses. Após analises foram identificados 10 artigos, um livro e três teses que atenderam ao objetivo do trabalho.

Conceito de brincar

As brincadeiras infantis acompanham o desenvolvimento das crianças e se transformam no decorrer dos anos, possibilitando a chance de elas desempenharem diversas atividades como desenhar, pintar, fazer colagens, pular corda, brincar de bonecas, representar e criar inúmeras situações prazerosas. Nesse sentido, a partir da atividade de brincar as crianças têm a possibilidade de serem ativas e explorarem as matérias e o ambiente e também de se comunicarem com os amigos nas atividades e desenvolverem, por meio dessa interação, a sua percepção com as diferenças de raça, de idade, de sexo, de classe social ou alguma deficiência física ou mental. Dessa maneira, as crianças interpretam e adquirem conhecimento de mundo e, por conseguinte, desenvolvem em todos os seus aspectos físicos, psíquicos e sociais. Assim sendo, o brincar é uma forma de mediação das construções e significações que a criança produz de sua realidade.

As brincadeiras infantis são atividades que se organizam de maneira individual para cada criança e satisfazem seus desejos e necessidades intrínsecas, ajudando-as a construir seus significados e desenvolver a sua linguagem e também as motivando à ação. Desse modo, pela interação com os seus amigos no brincar, a criança fica mais sociável e adquire conhecimento de mundo. Além desses aspectos socioculturais inscritos no brincar, simultaneamente ela também irá criar situações imaginárias (faz-de-conta) e regras; e o brincar com o passar do tempo vai desenvolver e culminar com a predominância de regras.3

As crianças utilizam o brinquedo como objeto de sua satisfação e elas conseguem, no brincar, por meio do faz-de-conta, romper com as barreiras do ambiente físico, a materialidade dos brinquedos e as situações propostas nas brincadeiras infantis.4 Consequentemente, as crianças passam a conduzir brincadeiras infantis de acordo com a sua imaginação e não pela materialidade dos objetos manipulados, desenvolvendo a sua porção emocional no brincar. Nesse sentido, quando as crianças brincam, sentem a necessidade de representar a sua imaginação sobre determinada ação social e durante a brincadeira seguem as regras do seu meio social ou simplesmente transgridem as regras, vivenciando-as de diferentes formas.

O brincar por intermédio do imaginário das crianças num espaço lúdico é um meio eficaz para o aprendizado e também uma forma preciosa de desenvolvimento que abrange tanto os aspectos emocionais quanto físicos e sociais em conjunto.5

Durante o processo de interação nas brincadeiras infantis, as crianças apreciam e experimentam diver sos papéis sociais, que são delimitados pelo grupo social. Nessa interação percebem a vida em sociedade e conseguem imitar essa ação social que observam no cotidiano. Desse modo, as crianças, quando brincam, conseguem se relacionar umas com as outras, aprender as normas sociais e também fazer as suas construções subjetivas dessas experiências.5

Ampliando a discussão sobre interação das crianças, ela aprende a dar e receber ordens, a esperar a sua vez de brincar, a emprestar e tomar emprestado, compartilhar momentos bons e ruins, a ter tolerância e a respeitar, enfim, seu raciocínio é desenvolvido de forma prazerosa".1,6

As brincadeiras desempenham papel primordial na infância, por ajudarem no desenvolvimento infantil em todos os seus aspectos físicos, psíquicos e sociais e na manutenção da autoestima das crianças. Outro fator essencial no brincar é a espontaneidade e a possibilidade de promover grande variedade de experiências lúdicas. No brincar as crianças se tornam mais seguras e independentes e em cada experiência adquirem mais conhecimento de si próprias e do outro e do mundo ao seu redor. A partir dessas percepções ela pode reorganizar os seus conceitos e encontrar outras formas de interagir no ambiente.

 

CONCEITO DE GÊNERO

O sexo anatômico não é uma categoria variável e, por conseguinte, é visto como dualista (sexo masculino e feminino).7 Contudo, o ser humano é mais complexo e vai mais além dos aspectos biológicos e fisiológicos do corpo, que não consegue esclarecer em todas as suas nuanças o ser humano. Assim sendo, a terminologia gênero consegue compreender alguns aspectos da psique e explicar alguns comportamentos humanos, sentimentos e anseios. Nesse contexto, o gênero é mais variável do que o sexo e esclarece que um indivíduo pode ser pertencente ao sexo feminino e ao gênero masculino, ou vice-e-versa.

A terminologia de gênero é utilizada para decifrar o significado das relações sociais entre os sexos e uma forma de compreender as diversas interações humanas na sociedade.8 Então, não pode ser utilizada para explicações de aspectos biológicos e fisiológicos do corpo, como os argumentos que foram concebidos para dominar e silenciar a mulher, usando como justificativa as diferenças entre os sexos. Essa nova terminologia foi empregada para caracterizar um individuo independente do seu sexo anatômico.

Houve quebra no paradigma da dicotomia entre gênero e sexo e a mente foi separada do corpo para ser analisada de forma distinta. Desse modo, expressar gênero para distinguir pessoas do sexo masculino e feminino constitui um grande equívoco. A definição de gênero rejeita as explicações unilaterais focadas apenas sobre viés físico e auxilia a identificar e denunciar as formas de relações sociais que são estruturadas e baseadas nas distinções anatômicas entre homens e mulheres.8

Com o desenvolvimento e aprimoramento dos estudos sobre sexo e sexualidade, o gênero ajudou a compreender e diferenciar esses aspectos, pois oferece um meio de distinguir as formas de prazeres e desejos corporais (prática sexual) entre as pessoas, dos papéis sexuais atribuídos às mulheres e aos homens na sociedade. Desse modo, a utilização de gênero destaca todo um sistema de relações que pode incluir o sexo dos indivíduos, mas não é diretamente determinado pelo sexo, tampouco determina a sexualidade.8

O significado de gênero, para Scott,8 implica pensar sobre as mulheres e homens sem nomeá-los. Consequentemente, remete ao raciocínio de que os conhecimentos sobre as mulheres e homens devem ser vistos como similares. Portanto, este estudo rejeita a ideia de que o feminino não faz parte do masculino e afirma que o temperamento masculino influencia o temperamento feminino, e vice-versa.8 Por conseguinte, não é incoerência pensar que os universos femininos e masculinos se mesclam e fazem parte um do outro. Se se pensar no ser humano desde o seu surgimento no ato da concepção humana, para ele existir e se constituir biologicamente também necessita da polaridade masculina e feminina.

Ampliando a discussão sobre a utilização da terminologia do gênero, Scott8 e Davis9 ressaltam: "penso que deveríamos nos interessar pela história tanto dos homens como das mulheres e que não deveríamos tratar somente do sexo sujeitado, assim como um historiador de classe não pode fixar seu olhar apenas sobre os camponeses".

O conceito de gênero é mais complexo e variável do que a característica anatômica; e os aspectos femininos e masculinos combinam no decorrer da vida nos grupos da sociedade e diferenciam-se de acordo com cada cultura e de acordo com o cenário histórico vivido na ocasião. Portanto, o termo gênero passa a se compor no plural, demonstrando também que os conceitos de masculinidade e feminilidade se envolvem com os vários grupos que vão constituir uma sociedade, tais como: etnia, raça, classe social e as gerações.10

Estudos na década de 80 mostram que o gênero não é visto apenas pela diferença anatômica e orgânica, mas por experiências vividas pelo ser humano no social e também subjetivas. Nisso podemos observar a forma na maneira de falar, na etnia e no grupo a que o indivíduo pertence. Portanto, o ser humano, nesse âmbito, não é apenas único, mas é dividido, múltiplo e contraditório.10

Acredita-se que para compreender o significado de gênero na sua totalidade, não se deve segregar o corpo nessa construção da identidade. Desse modo, na aquisição da identidade de gênero existe uma conexão entre sexo e gênero e é um equívoco pensar que a expressão biológica é neutra e insignificante. Portanto, o corpo influi na identidade e nos comportamentos e é por intermédio dele que se experimenta o mundo e se percebe. E é pelo nosso corpo que os outros nos percebem como indivíduo magro ou alto, belo ou feio e, também, pela nossa idade. Entretanto, a identidade de gênero é construída e arquiteta pelo corpo apenas em alguns aspectos, logo, a identidade de gênero não é definida pelo corpo.7

Pode-se entender gênero como interligado ao conceito de identidade, como uma forma de representação social e cultural ativa, que passa por vários processos de mudança e transformação, que produz o que somos hoje e o que poderemos ser no futuro.1 A constituição de gênero deve ser pensada como um processo individual que se desenvolve durante toda a vida do sujeito, de diferentes formas e em tempos distintos para cada pessoa. Afirma-se, assim, que as identidades são mutáveis e se transformam no decorrer da vida do indivíduo.

O pensamento polarizado sobre os polos masculino- feminino vem sendo discutido, não mais sob a perspectiva da ideia de que cada um desses polos está presente no outro. Mas, para abranger a complexidade, flexibilidade e pluralidade do gênero, os polos foram despedaçados internamente.4,11

A esse respeito, Silva12 afirma:

A identidade não é fixa, estável, coerente, unificada, permanente. A identidade tampouco é homogênea, definitiva, acabada, idêntica, transcendental. Por outro lado, podemos dizer que a identidade é uma construção, um efeito, um processo de produção, uma relação, um ato performativo. A identidade é instável, contraditória, fragmentada, inconsciente, inacabada. A identidade está ligada a estrutura, discursos e narrativas. A identidade tem estreitas conexões com relações de poder.

Isso posto, pensar em gênero ajuda a compreender como foi construído o comportamento e as atribuições do que seja apropriado para o masculino e feminino num contexto social, histórico, cultural e simbólico. Todavia, pensar essa terminologia ajuda a distinguir a experiência física do social, sem desconsiderar a contribuição da experiência corporal na construção da identidade de gênero. Assim sendo, decifrando o termo gênero há uma oportunidade de vincular a expressão do masculino ao feminino, para que ocorra uma troca de experiências entre ambos, não estereotipando as relações e considerando a diversidade humana. Dessa forma, compreende-se que existem várias formas de ser homem e mulher e vários graus de masculinidades e feminilidades nos indivíduos.

A construção das identidades de gênero na infância

Quando a criança nasce, a primeira coisa que se verifica é se é saudável e a próxima preocupação do grupo social a que ela pertence é saber o sexo. Após a classificação sexual, a criança vai receber o tratamento diferenciado de acordo com as normas sociais do grupo e do que eles determinam que seja apropriado para o sexo masculino ou feminino. Consequentemente, a distinção entre homens e mulheres é essencial para se compreender como pertencente a uma categoria (menino/homem ou menina/mulher). Ela determina a forma como se será tratado, como se deve portar no meio social, as influências e as expectativas que os outros vão ter a nosso respeito e também algumas restrições que a sociedade vai impor no que se deve fazer ou ser no decorrer da vida.

Para grande parte da população, sexo é sinônimo de gênero e essa ação determina a forma como as crianças devem ser tratadas e seus modos de agir.7 Entretanto, as crianças vão construir a sua identidade de gênero em conformidade ou em desacordo com os padrões de masculinidades e feminilinidades apresentados como ideais pelo grupo social. Nessas configurações podem existir identidades complexas em que os dois polos - masculino e feminino - se mesclam e se modificam no decorrer da vida. Desse modo, a identidade de gênero não é algo fixo e imutável, é algo que é ensinado durante toda a vida e é constantemente alterado e reestruturado. Depende, ainda, da forma como nós nos vemos e como os outros nos percebem. A identidade de gênero é ativa e não é somente o que se pensa e interpreta de si mesmo, é o que se faz e o modo como se apresenta, variando com o tempo cronológico e os lugares em que se transita.

A identidade de gênero é uma percepção subjetiva, que vai ajudar meninos e meninas a incorporar valores e concepções no decorrer de suas vidas. Com base nessa afirmativa pode-se intervir e reduzir ou eliminar algumas hierarquias e estereótipos que são normatizados na sociedade e que ditam como devem ser homem e mulher nesse contexto.13

O processo de aquisição da identidade de gênero é complexo e é construído com muitas dúvidas e expectativas perante os atores sociais.1 Desde a mais tenra idade as crianças são cercadas de valores e normas preestabelecidas que afetam a forma de agir nesse processo de apropriação da identidade. A criança, nesse panorama, busca sair do individualismo para o social e, no processo de socialização, necessita de liberdade para que possa conseguir viver de forma adequada às suas experiências sociais e construir a sua subjetividade com equilíbrio emocional. A finalidade é que, com isso, passe a compreender as diversidades de gênero e também rompa com as ideias preconcebidas e expresse a sua identificação sem receio ou culpa.

O corpo e seus movimentos corporais, ritmos, expressões, gestos e imagens corporais são produzidos e inventados pela nossa cultura e também construído pelas diferenças de classe social e valores sociais idealizados14. Nesse aspecto, as crianças são estimuladas, na sociedade e na cultura a que pertencem, a produzir diferenças de gênero em seus corpos, construindo, dessa forma, habilidades diferentes de acordo com o sexo. Os adultos reforçam nas crianças comportamentos, atitudes, gestos e práticas no cotidiano que são determinadas de acordo com a ótica sexista, na qual, muitas vezes, são determinadas atitudes que irão ser valorizadas entre as meninas, como: ternura, sensibilidade e carinho. Por outro lado, esses sentimentos vão ser inibidos entre os meninos. Assim, o corpo é adestrado, arquitetado, moldado e construído de acordo com a cultura vigente.

O significado de gênero abrange tanto as relações infantis como as atividades e ambém os espaços que são destinados aos meninos e meninas.15 Compreendendo a importância de gênero como elemento fundamental na constituição e construção do ser humano, deve-se construir um olhar diferente sobre a infância e estar atento quanto aos lugares que são impostos ao universo infantil e também na separação de espaços físicos entre meninos e meninas.

A construção da identidade de gênero passa por inúmeras transformações no decorrer da vida, em tempos e momentos distintos para cada criança e elas são influenciadas por todos os atores sociais que determinam restrições em seus comportamentos e, por conseguinte, no desenvolvimento. Dessa forma, a construção da identidade das crianças é um processo biopsicossocial, histórico e também simbólico e provém de experiências individuais e coletivas que vão construir diversas configurações de gênero, como identidades diferentes, únicas, múltiplas, contraditórias, instáveis e tampouco fixas.

Influências das brincadeiras infantis no gênero

A internalização dos elementos culturais não se processa de forma aleatória e solitária. O ser humano se constitui como ser cultural a partir da relação com o outro e esse processo relacional só ocorre com intermédio da mediação. As brincadeiras são concebidas como uma forma de mediação e é por meio das brincadeiras que as crianças vão constituindo seu processo de desenvolvimento psicológico e apropriação dos elementos culturais, entre eles as significações de gênero. A brincadeira é uma das formas de relação que variam de acordo com cada cultura e com o tempo histórico. Com o brincar as crianças gradativamente vão introjetando os signos de masculinidade e feminilidade contidos nas brincadeiras, que são instituídos de acordo com cada sociedade e do que eles acham apropriados para cada gênero. Todavia, as crianças não se apropriam dos elementos culturais de forma passiva, pelo contrário, aprendem os significados do gênero partilhados com o grupo, no brincar, de forma ativa e elaboram de forma subjetiva as suas concepções de mundo.

As crianças passam por um longo período para formarem a sua subjetividade e esse processo é caracterizado por aquisições, medos e frustrações, curiosidade e constantes mudanças de conduta.1 Nesse contexto, durante a brincadeira elas imaginam, recriam e tentam consertar a sua realidade e revelam conflitos ou ocultam os seus desejos interiores. Esse processo de mediação no brincar é fundamental na construção das identidades de gênero e solução dos conflitos interiores dos menores.

A identidade de gênero sustentada sobre a ótica do paradigma da dicotomia entre sexo e gênero cria regras, normas e valores que separam o ser humano em duas polaridades (masculina/feminina) e a sua prevalência é legitimada pela repetição.16 Essa forma de perceber o indivíduo restringe a subjetividade das crianças e é estruturada nas relações de poder. Entretanto, durante as brincadeiras infantis as crianças expressam formas de agir que transgridem e quebram essa lógica do pensamento binário (masculino/feminino) e revelam a insensatez dessa associação arbitrária e rígida.

A brincadeira é fundamental para o desenvolvimento integral dos menores e cada criança apresenta uma forma singular de lidar com o lúdico.1 A livre escolha das atividades infantis permite-lhes vivenciar de forma ativa os seus conflitos pessoais não expressos, os quais fazem parte da construção de sua subjetividade. No brincar as crianças percebem o mundo à sua volta e entram em contato consigo mesmas e também com o outro. Quando elas se identificam com o outro, conseguem se sentir o outro. No começo, identificam-se com a mãe, depois algumas irão se identificar com o pai ou com outras pessoas significativas no seu cotidiano. No entanto, a grande questão dessa identificação é que, a partir desse processo, elas vão incorporando e construindo as suas identidades de gênero. Outro fator primordial nessa construção é o modo como as crianças se apropriam da cultura, que é marcada por construções desiguais em relação aos sexos.

As crianças caem, rolam no chão, pulam, levantam, brigam e se abraçam e interagem com os seus coleguinhas no brincar.17 O contato corporal entre os meninos é bem limitado nesse âmbito lúdico. Por outro lado, as brincadeiras das meninas se configuram de maneira mais livre, possibilitando abraços e toques. Entretanto, o contato corporal no grupo misto é mais difícil de ocorrer e existe ainda acentuada separação em grupo de meninos e grupo de meninas nas brincadeiras. Então, os meninos e as meninas são estimulados a se separarem nas atividades lúdicas, reforçando e provocando incompatibilidade entre o universo feminino e o masculino.

As brincadeiras são fundamentais na construção da identidade de gênero.18 No início da socialização as crianças escolhem as suas brincadeiras e os seus brinquedos de acordo com o sexo e acabam estereotipando o brincar. As formas estereotipadas das crianças procedem dos pais e de outros atores sociais. Entretanto, os pais são os principais influenciadores e estimuladores dos estereótipos no início da infância, pois antes que as crianças comecem a fazer escolhas são eles que vão decidir por elas. Assim sendo, os pais dos meninos decoram o quarto de azul e colocam diversos objetos masculinos no ambiente; e os pais das meninas decoram o quarto das meninas de cor-de-rosa e o enchem de artefatos femininos.

As brincadeiras são essenciais na construção de formas coerentes de gênero, especialmente quando respeitam a subjetividade e os anseios dos menores, principalmente quando a criança sente satisfação e prazer na atividade de brincar, expressa seus pensamentos, desejos, emoções e é livre para escolher as suas atividades lúdicas preferidas. Dessa forma, percebe-se também que, a partir do imaginário, as crianças entendem a si próprias e ao outro, adquirindo conhecimento de mundo e percebendo a diversidade humana e a pluralidade de gênero. Elas escolhem coleguinhas com diferença de raça, de idade, de sexo, de classe social para brincar que podem ou não se encaixar e configurar-se nos modelos ideais ditados pela sociedade.

Brinquedos e gênero: construção de masculinidades e feminilidades

Os brinquedos estão carregados de significados que são estruturados de acordo com a cultura contemporânea. Por isso, as crianças, quando brincam, se apropriam da cultura infantil e fazem construções de acordo com a sua forma de interpretar essa cultura. Os brinquedos também são um excelente recurso para elas penetrarem no mundo do faz-de-conta e, consequentemente, entrarem em contato com a sua subjetividade e expressarem os seus anseios, sentimentos e angústias. Do mesmo modo as crianças podem explorar e conhecer o mundo que as rodeia e por meio da imaginação elas conseguem desfazer os empecilhos do ambiente em que transitam; rompem com a materialidade dos brinquedos escolhidos e desenvolvem o seu lado emocional e gradativamente fazem construções de gênero nesse processo lúdico.

Existem estereotipias de gênero no brincar na sociedade e os brinquedos são classificados e selecionados de acordo com o sexo das crianças.19 Nas brincadeiras infantis as crianças deixam ou não outros coleguinhas do mesmo sexo brincar com os brinquedos que são relacionados ao sexo oposto. Elas preferem brincar com brinquedos neutros ou com brinquedos relacionados ao seu gênero. No caso das meninas, elas são mais flexíveis e brincam com brinquedos neutros, femininos e também relacionados à esfera masculina. Entretanto, os meninos são mais estereotipados e seletivos e preferem brincar com brinquedos neutros e somente relacionados ao gênero masculino.

Os meninos evidenciam desenvoltura em empinar pipas, lançar bolinhas de gude. Por outro lado, as meninas demonstram facilidade em pular corda, bater as mãos e acompanhar as canções de roda, criando habilidades corporais distintas entre meninos e meninas.17 As brincadeiras e os brinquedos são selecionados de acordo com o sexo e, a partir deles, as crianças demonstram, refletem e incorporam os símbolos de masculinidades e feminilidades, expressando seus sentimentos e também se impondo nas interações que ocorrem no brincar.

As crianças recebem brinquedos em nossa sociedade que estão impregnados de símbolos, finalidades e intenções.14 Os brinquedos são selecionados de acordo com a ideia de que meninos e meninas têm atitudes e comportamentos distintos, que são organizados devido à diferença física entre eles. Dessa forma, as experiências corporais são diferentes entre as crianças e elas carregam e revelam em seus corpos as suas experiências lúdicas.

As brincadeiras de jogar peteca e empinar pipa são caracterizadas como atividades do universo masculino, enquanto brincar de amarelinha e elástico são brincadeiras atribuídas ao universo feminino.20 Contudo, pesquisas contemporâneas revelam que determinada estereotipia está se modificando e que nas atividades de empinar pipa existe mais segregação do que na atividade de peteca. Entretanto, as crianças que executam atividades atribuídas ao sexo oposto recebem denominação negativa no grupo.

Os brinquedos que são relacionados ao gênero masculino são espadas, bolas, robôs, aviões, bonecos de super-heróis, animais, carrinhos e outros, que marcam a separação entre meninos e meninas no universo lúdico.4 No entanto, no meio social em que as crianças passam o seu dia-a-dia, há predominância de uma visão empobrecida sobre as identidades de gêneros, que as consideram uma identidade fixa, imutável e rígida. Essas identidades de gênero são analisadas, tomando como pressuposto de análise o sexo das crianças. Quando as crianças não se adaptam às normas preestabelecidas, surgem conflitos, enquadrando-as como anormais, precisando ser direcionados para a normalidade. Outros atores sociais confundem gênero com sexualidade e acham que uma menina, quando brinca com uma atividade que é relacionada ao gênero masculino, como o carrinho, e o menino que se interessa por atividades que sejam tipicamente do gênero feminino, como brincar de boneca, terão orientação homossexual. Todavia, as crianças criam estratégias para burlar o modelo que a sociedade acredita que seja atribuída ao masculino e ao feminino e essas transgressões de gênero devem ser valorizadas. Meninos que desejam brincar com atividades que são relacionadas ao gênero feminino, como a brincadeira de casinha (lavar louças e lavar roupas), não devem ser desestimulados ou reprimidos.

Na nossa sociedade, a boneca representa um símbolo do gênero feminino. Isso faz com que um menino que brinque com bonecas seja considerado menina, diferenciando-se de outros meninos. A boneca representa uma forma simbólica de demarcar essa diferença. Consequentemente, se um menino gosta de brincar de bonecas, é estereotipado e é colocado numa posição inferior, pois não corresponde aos ideais de masculinidade. Constitui-se, nesse contexto, numa posição divergente do outro e é excluído e silenciado, porque o seu comportamento é considerado uma aberração. Essa atitude acarreta transtornos para a construção de sua identidade de gênero e também reprime outros garotos que desejam brincar de bonecas. Nossa cultura coloca como inferiores os valores afetivos e os segrega e condiciona ao sexo feminino. Por outro lado, os valores da razão são estimulados entre os meninos e são avaliados como superiores aos valores afetivos. Desse modo, colocam-se as meninas em situação inferior aos meninos e inibem os meninos de adquirem esse valores, a partir das brincadeiras que são relacionadas ao universo feminino.4

 

DEDICATÓRIA

Eu dedico meu artigo à bibliotecária Rose, que sempre me impulsionou à pesquisa.

 

CONCLUSÃO

Pode-se concluir por meio desse estudo que as crianças aos poucos vão incorporando os signos de masculinidade e feminilidade contidos na atividade lúdica e também em outras atividades do cotidiano. Dessa forma, as brincadeiras, nessa situação, podem ser utilizadas na infância como mediadoras do processo de apropriação e construção das identidades de gênero. Contudo, sexo é sinônimo de gênero na sociedade e, essa ação errônea determina a forma de tratamento e modo de agir das crianças na sociedade. Conseqüentemente, as crianças vão construir estereotipias de gênero nas atividades corriqueiras e inclusive nas brincadeiras infantis. E essas influências vão interferir na forma como as crianças irão se perceber e na definição de seus papéis de gênero na sociedade.1,7,13,15,16,19

Os meninos e as meninas são estimulados a se separarem nas brincadeiras infantis, reforçando e provocando incompatibilidade entre o universo feminino e masculino. Assim sendo, estimulando a construção de relações desiguais entre homens e mulheres na sociedade.1,4,16,17,20,19

Chegamos ao entendimento através desse estudo de que as brincadeiras são importantes na infância e, que tem relação direta com a construção das identidades de gênero e, que muitas vezes no brincar as crianças conseguem burlam os padrões impostos pela sociedade. Assim sendo, as crianças tem ser livres para se expressarem e construírem a sua identidade de gênero de forma sadia no brincar. Desconstruindo as ideologias que insistem numa visão rígida, empobrecida, patriarcal de polaridades sobre o gênero. Nesse contexto, o terapeuta ocupacional pode analisar e utilizar as brincadeiras infantis, que é uma das formas que a cultura é legitimada na infância e, pode mediar o processo de apropriação e construção das identidades de forma que as crianças criem a sua identidade de gênero de forma livre e condizente com a diversidade humana.

 

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