RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 20. Esp

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Relato de Caso

Malacoplaquia renal: relato de caso

Renal malakoplakia: a case report

Sérgio Almeida Pinheiro Chagas1; Christine Mendes Silveira2; Maurício Buzelin Nunes3

1. Médico Patologista do Serviço de Anatomia Patológica da Santa Casa de Belo Horizonte - MG, Brasil
2. Médica Patologista do Laboratório Citolab - Unidade Atenas - Montes Claros - MG, Brasil
3. Médico Patologista - Assistente Efetivo do Serviço de Anatomia Patológica da Santa Casa de Belo Horizonte - MG, Brasil

Endereço para correspondência

Sérgio Almeida Pinheiro Chagas
Rua Leopoldina, 790, 402 Santo Antônio
Belo Horizonte - MG, Brasil CEP: 30330-230
E-mail: chagassergio@task.com.br

Recebido em: 19/05/2005
Aprovado em: 19/05/2006

Instituição: Trabalho realizado na Santa Casa de Belo Horizonte - MG. Brasil.

Resumo

Relata-se caso clássico de malacoplaquia acometendo rim de paciente de 44 anos. Abordam-se aspectos histopatológicos além da patogenia da lesão.

Palavras-chave: Malacoplasia; Rim.

 

INTRODUÇÃO

A malacoplaquia é reação inflamatória incomum, mas inconfundível, de etiologia indeterminada. Embora tenha sido descrita em outros locais do trato geniturinário e fora dele, a bexiga é o local mais comum de envolvimento.1,2 A malacoplaquia pode resultar em morte se envolver ambos os rins.3

O objetivo deste relato é mostrar as características histopatológicas dessa lesão.

 

RELATO DE CASO

Paciente feminino, 44 anos, procurou o serviço com queixa de dor progressiva em flanco direito e infecções repetidas no trato urinário, iniciadas há seis meses, além de febre, anorexia e vômitos esporádicos.

Ao exame físico, apresentava-se corada, hidratada, acianótica e anictérica. À palpação, notava-se massa imóvel em flanco direito, que se aproximava da linha média, de consistência cística, levemente dolorosa à palpação e à manipulação.

O resultado do hemograma foi normal. O resultado do exame de urina rotina revelou piúria importante.

Solicitaram-se então tomografia computadorizada, que enfatizou acentuado aumento de volume e heterogeneidade do rim direito à custa de formações hipoatenuantes com realce periférico, de permeio ao parênquima, cuja espessura apresentava-se reduzida (abscesso? pionefrose?).

A paciente foi encaminhada para cirurgia.

Realizada nefrectomia total à direita.

Ao exame macroscópico, tratava-se de rim medindo 12,0 x 7,0 x 6,0 centímetros e pesando 380 gramas. Aos cortes, exibia dilatação pielo-calicial com áreas cavitárias de até 4,0 cm, apresentando paredes enegrecidas e irregulares. Notou-se, ainda, área amarelada e homogênea preenchida por material grumoso. Ureter e gordura perirrenal sem particularidades.

Histologicamente, o rim apresentava arquitetura distorcida, dilatação pielo-calicial, glomérulos esclerosados, atrofia tubular, estroma com fibrose acentuada, áreas de hemorragia e diversos agregados linfoides.

Observou-se também área caracterizada por numerosos histiócitos epitelioides formando blocos celulares, contendo, por vezes, em seus citoplasmas, estruturas arredondadas e laminadas, basofílicas, consistentes com corpúsculos de Michaelis-Gutmann.

 


Figura 1 - Histiócito contendo corpúsculo de Michaelis-Gutmann (HE, 400x).

 

DISCUSSÃO

Ao exame macroscópico, a malacoplaquia apresenta placas ou nódulos amarelos solitários ou confluentes.1 Nos rins, os nódulos confluentes de tecido amarelado e homogêneo substituem grandes áreas de parênquima renal. A fibrose também é proeminente.2

A lesão é caracterizada por histiócitos grandes, conhecidos como células de von Hansemann, e por cálculo-esférulas pequenas, basofílicas, intra ou extracitoplasmáticas, chamadas de corpúsculos de Michaelis-Gutmann.3 Esses corpúsculos são redondos, com um centro de membranas concêntricas, material amorfo ou focos de calcificação e aparecem bem na coloração PAS. A patogenia desse acúmulo celular é desconhecida, mas há evidência sugestiva de que essas lesões resultem de defeito na função macrofágica, que bloqueia a degradação lisossomal de bactérias fagocitadas e sobrecarrega o citoplasma com fragmentos celulares.2

Como diagnóstico diferencial, a nefrite intersticial megalocítica difere-se da malacoplaquia pela ausência dos corpos de Michaelis-Gutmann. No entanto, os poucos casos publicados representam, provavelmente, eventos de malacoplaquia não diagnosticados devido a erros de amostragem. Ambas as formas de doença intersticial (e provavelmente também nefrite intersticial xantogranulomatosa) estão relacionadas à infecção bacteriana, com processamento intracitoplasmático impróprio dos microrganismos. Podem representar aspectos diferentes da mesma doença.3

O envolvimento multifocal tem sido relatado também ao longo de todo o trato urotelial. No ureter, está geralmente associado à obstrução.1

A conduta na malacoplaquia é baseada, primeiramente, no controle de infecções do trato urinário. A cirurgia pode ser necessária com o progresso da doença, apesar do tratamento antibacteriano. A malacoplaquia pode resultar em morte se envolver ambos os rins.3

 

REFERÊNCIAS

1. Mills SE, Carter D, Greenson JK, Oberman HA, Reuter VE, Stoler MH. Sternberg's Diagnostic Surgical Pathology. 4th ed. Philadelphia: Lippinccot; 2004. p. 2042-3.

2. Rosai J. Rosai and Ackerman's Surgical Pathology. 9th ed. New York: Mosby; 2004. 1227 p.

3. Jonathan IE, Mahul BA, Reuter VE. Bladder biopsy interpretation. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; 2004. p. 188-9.