RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 22. 1

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Artigo Original

Validação de pesquisa qualitativa por meio de descrição quantitativa da amostra

Validation of qualitative research through quantitative description of the sample

Bernardino Geraldo Alves Souto1; Nádia Korkischko2

1. Professor Adjunto no Departamento de Medicina da Universidade Federal de São Carlos - UFSCar. São Carlos, SP - Brasil
2. Acadêmico do curso de Medicina da UFSCar. São Carlos, SP - Brasil

Endereço para correspondência

Bernardino Geraldo Alves Souto
R. Douvidor Cunha, 107 Bairro: Jardim Cardinalli
São Carlos, SP - Brasil CEP: 01356-580
E-mail: bernardino@viareal.com.br

Recebido em: 11/05/2011
Aprovado em: 29/03/2012

Instituição: Departamento de Medicina da Universidade Federal de São Carlos São Carlos, SP - Brasil

Resumo

Em se tratando de metodologia de pesquisa, tem sido crescente a associação entre estratégias qualitativas e quantitativas. Essa prática geralmente resulta numa complementação mútua de uma estratégia em relação à outra, que amplia e qualifica a abordagem do objeto pesquisado. Uma possibilidade de aproveitamento desse tipo de associação diz respeito à análise quantitativa de uma amostra qualitativa com a finalidade de identificar o potencial dessa amostra para a revelação do objeto pesquisado e inferir sobre a possibilidade de generalização dos achados. Expõe-se criticamente a experiência de um estudo qualitativo que descreveu quantitativamente a amostra de sujeitos para sua validação interna e delimitação da abrangência dos achados. A conclusão foi que a análise quantitativa de amostras qualitativas pode ser uma alternativa a mais entre as estratégias de validação da amostragem em pesquisa qualitativa a repercutir na consistência dos achados e nas inferências sobre sua generalização.

Palavras-chave: Pesquisa Qualitativa; Análise Quantitativa; Amostragem.

 

INTRODUÇÃO

É comum a manifestação de críticas à validade, à confiabilidade e ao potencial de generalização de pesquisas qualitativas fundamentadas em critérios aplicáveis a estudos quantitativos. É frequente, também, que tais críticas surjam num ambiente de equivocada compreensão de disputa entre os métodos qualitativos e quantitativos, ao passo que, na verdade, são ferramentas diferentes para distintas abordagens de objetos que não têm a mesma natureza. No entanto, a verdade é que a convivência entre os dois métodos amplia as possibilidades epistemológicas, estende e aprofunda a abordagem de um mesmo objeto e pode reforçar a validade de um estudo.1-3

Em epistemologia, a validade diz respeito à consistência de um processo de pesquisa. É um atributo de qualidade relacionado à confiabilidade dos achados de um estudo. Quanto mais consistente o processo de desenvolvimento e elaboração de uma pesquisa, isto é, sua metodologia, melhor a qualidade da mesma e mais confiáveis seus achados. Portanto, maior a validade de seu resultado em relação à verdade procurada pelo estudo.1,3

Assim, deve ser preocupação obstinada de todo pesquisador validar seu estudo e demonstrar essa validação ao relatar a pesquisa.

Quanto aos estudos qualitativos, essa preocupação não é menor que em outros tipos de pesquisas mais controladas ou que usam métodos e instrumentos mais específicos. Ao contrário, a subjetividade característica do objeto com o qual a pesquisa qualitativa trabalha, que implica no mesmo efeito sobre os métodos empregados por esse tipo de estudo, exige muito cuidado do pesquisador com a validação da pesquisa.3

Nesse sentido, existem várias estratégias para a validação dos resultados de uma pesquisa qualitativa ou para o estabelecimento de um nível de confiabilidade sobre os mesmos que, em suma, destinam-se à afirmação da qualidade do estudo.2,3 A esse respeito, duas correntes predominam na literatura: uma que propõe critérios clássicos para avaliar a confiabilidade e a validade dos estudos qualitativos, muito usados em pesquisas quantitativas, e outra que propõe o desenvolvimento de critérios que compreendam especificamente as peculiaridades do método qualitativo.2

Não obstante o critério escolhido, em todas as fases de qualquer estudo, do projeto ao relatório final, aplicam-se estratégias destinadas ao controle e garantia da qualidade do processo, independentemente da natureza epistemológica da pesquisa.1-4

Concernente à fase de amostragem, enquanto o principal cuidado da pesquisa quantitativa diz respeito à representatividade da amostra para a generalização dos achados, essa não tem sido preocupação privilegiada pelo pesquisador qualitativista, uma vez que, em geral, o mesmo trabalha com metodologia capaz de aprofundar a compreensão sobre o objeto de uma maneira bastante específica, mas limitada em compreendê-lo em sua extensão. Isso se deve não só à natureza epistemológica de muitas pesquisas qualitativas, mas também à natureza do próprio objeto abordável por esse tipo de metodologia, o qual é, em geral, de consistência difusa e multicontextual.1-5

Contudo, do mesmo modo que acontece em estudos quantitativos, interessa à pesquisa qualitativa caracterizar a amostra com a qual trabalha no sentido de se poder inferir sobre a abrangência vertical (em profundidade) e horizontal (em extensão) de seus achados. Ainda que essa caracterização se fundamente em considerações subjetivas, estratégias de amostragem quantitativa também podem ser usadas pelo método qualitativo com o objetivo de delimitar a representatividade e a generalização. Nesse caso, a descrição quantitativa da amostra de sujeitos em uma pesquisa qualitativa pode servir, entre outras coisas, para expor o perfil de relevância desses sujeitos em relação ao objeto do estudo. Um exemplo simples é a demonstração quantitativa da experiência sexual de um conjunto de pessoas investigado por uma pesquisa qualitativa que estuda comportamento sexual. Se quantitativamente essa experiência for significativa, infere-se a favor da confiabilidade dos achados do estudo em função da consistência do conteúdo da fonte em relação ao objeto pesquisado.3,4,6,7

Esse movimento metodológico torna-se útil à validação de pesquisas qualitativas no momento em que o perfil da amostra consegue definir o ambiente de produção dos achados, permitindo estabelecer o espaço no qual os resultados correspondem ou não à verdade sobre esse objeto e inferir sobre a intensidade dessa correlação entre os resultados da pesquisa e a realidade do respectivo objeto.3

Observa-se, no entanto, que o movimento metodológico em discussão nada mais é que uma forma de combinação de métodos quantitativos a qualitativos. Ou seja, a utilização das duas estratégias na mesma pesquisa. Estudos assim combinados podem ser chamados de mistos. Combinações metodológicas podem ser feitas em função de vários interesses de pesquisa, entre os quais aprofundar, qualificar ou ampliar a abordagem do objeto pesquisado. Uma, entre as várias possibilidades de combinação, por exemplo, consiste no emprego de estratégias amostrais quantitativas em estudos qualitativos com a finalidade de identificar qual a melhor fonte para o levantamento dos dados.3,8

Um fundamento que apoia essas combinações vem do fato de que toda pesquisa contém elementos estruturais e processuais. O campo da pesquisa, por exemplo, é um elemento estrutural. Já a interpretação dos achados, um elemento processual. No caso dos estudos qualitativos, enquanto os elementos processuais demandam tratamento qualitativo, é possível abordar quantitativamente alguns de seus elementos estruturais e, assim, acrescentar argumentos sobre a qualidade da pesquisa por meio de dados úteis à validação da metodologia e à delimitação do alcance dos resultados.6 Um dos elementos estruturais passíveis de abordagem quantitativa é o conjunto amostral de um estudo qualitativo.

A esse respeito, é interessante considerar que a amostragem em pesquisa qualitativa implica a identificação da melhor fonte daquilo que se procura; ou seja, onde se encontra a melhor e maior possibilidade de revelação do objeto do estudo. Isso significa que o pesquisador precisa decidir que sujeitos guardam com mais propriedade e consistência aquilo que se pretende compreender por meio da pesquisa.2 Por vezes essa decisão é difícil e subjetiva; se for equivocada, poderá invalidar o estudo ou desviá-lo significativamente de seus objetivos. Para reduzir essa dificuldade, os estudiosos do método qualitativo propõem diversas estratégias, ora fundamentadas em critérios mais abstratos, ora em critérios mais concretos, aceitando, inclusive, a contribuição dos métodos quantitativos para identificação do melhor conjunto de sujeitos para sua pesquisa qualitativa.1,2,4,5,7

No entanto, mesmo sob critérios mais abstratos, a constituição de uma amostragem para um estudo qualitativo parte da noção de que seus componentes devam ser típicos do objeto estudado, o ponto de ser possível ao pesquisador afirmar as relações da amostra com tal objeto. Ainda que essa seja uma lógica de natureza estatística, a decisão que norteia a seleção de sujeitos é tomada de maneira subjetiva; mais ainda nos casos em que a amostragem não pode ser prevista, mas constituída ao longo do próprio processo de levantamento dos dados conforme a natureza metodológica, os objetivos ou o objeto de determinados estudos qualitativos.1,2,5,7

A despeito dessa subjetividade típica do método qualitativo, não menos do que o quantitativo, o mesmo visa a uma amostra que contenha o mais representativamente possível o objeto pesquisado, tanto em termos de profundidade quanto de extensão, podendo ser privilegiado um ou outro, a depender dos objetivos da pesquisa, dos recursos disponíveis e da própria estrutura metodológica escolhida.2,5,7

Tendo em vista que, no que diz respeito à generalização em pesquisa qualitativa, é importante o questionamento das considerações e etapas que são aplicadas a fim de especificar seus domínios, torna-se interessante uma caracterização crítico-reflexiva da amostra para a extrapolação dos achados para outros ambientes em que os sujeitos tenham o mesmo perfil. Ou seja, se a descrição amostral for suficientemente objetiva e específica, o que pode ser feito por métodos descritivos quantitativos, torna-se aceitável a possibilidade dos achados valerem para outros ambientes em que uma amostra semelhante esteja presente. Em termos práticos, é possível supor que os achados de um estudo qualitativo feito num determinado hospital a partir de certa amostra de sujeitos sirva para inferir, até certo ponto, sobre outro hospital, em relação a uma população com as mesmas características sociodemográficas presente nesse outro hospital.2:362-3

Considerando, pois, que as estratégias de amostragem descrevem formas de revelar-se um campo2:127, a descrição quantitativa da amostra, quando possível e pertinente em estudos qualitativos, expõe uma medida do quanto o campo pôde ser revelado a partir de suas fontes. Essa medida permite inferências sobre a abrangência do estudo por aplicar-lhe uma dimensão de validade. Uma vez que a definição de como avaliar a pesquisa qualitativa é ainda um problema sem solução2:341 a intenção deste artigo é expor uma análise descritiva quantitativa de uma amostragem qualitativa e argumentar por sua aplicabilidade em validar o respectivo estudo qualitativo e em inferir sobre a abrangência dos achados, tanto em termos de profundidade quanto de generalização, como forma de contribuir para a avaliação da qualidade de uma pesquisa qualitativa.

 

DISPARANDO A DISCUSSÃO A PARTIR DE UM EXEMPLO PRÁTICO

Ao desenvolver um estudo qualitativo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de São Carlos (Parecer 154/2008) que tinha a intenção de compreender o significado do sexo e da vida sexual para os portadores do HIV, que sentimentos esses significados despertam nessas pessoas e como elas reagem a tais significados9, selecionou-se um conjunto de sujeitos usando as estratégias da amostragem proposital completa e por variedade de tipos, as quais são inerentes ao método qualitativo de seleção de amostras.1,2

Traduzindo o que essas estratégias significam, as pessoas foram escolhidas em função do que representavam para o tema a ser investigado e pelo princípio da homogeneidade fundamental, segundo percepções dos pesquisadores sobre o universo amostral. Esse princípio baseia-se no fato subjetivo de que a característica comum aos selecionados é o próprio tema da investigação.1 Ou seja, todos os sujeitos guardavam as características do objeto investigado e estavam em condições de revelá-lo; portanto, representavam o próprio objeto. Considerando que o tema do estudo era o sexo e a sexualidade em portadores do HIV e que as pessoas teriam que ter cognição suficiente para expor reflexivamente suas experiências, todos (amostra completa) os adultos capazes infectados por esse vírus e com experiência sexual acompanhados clinicamente num determinado serviço no momento destinado ao trabalho de campo do estudo foram convidados a colaborar.9

Isso quer dizer que a amostragem ter sido proposital permitiu indicar que sujeitos interessavam ao estudo; o fato de ter sido, também, por variedade de tipos, qualificou essa indicação e tornou específico o tipo de sujeito que deveria ser incluído no estudo, dando fundamentação e justificativa à indicação de sujeitos de modo menos subjetivo; ter sido completa determinou que, entre todos os potenciais sujeitos disponíveis, portadores das características do objeto pesquisado, nenhum ficasse de fora da amostra.

Em termos operacionais, a intenção do estudo em utilizar as estratégias de amostragem proposital e por variedade de tipos foi captar uma amostra que, em seu conjunto, contivesse um rol de experiências sexuais envoltas pelo fenômeno da infecção pelo HIV o mais variado possível, para não perder, de preferência, alguma oportunidade de decodificação do objeto pesquisado. Nesse caso, quanto maior o número de categorias de experiências sexuais diferentes estivesse dentro da amostra, mais extensa poderia ser a abordagem desse objeto.

Por outro lado, a intenção em agregar a estratégia da amostragem completa foi incluir o maior número possível de sujeitos em cada categoria de experiência sexual. Nesse caso, quanto mais alto o número de pessoas em cada categoria, mais variados são os olhares sobre o mesmo fenômeno, fato que permite abordagem do objeto com mais profundidade.

Em suma, o desejo era abordar o objeto do estudo da maneira mais extensa possível (mais generalizável possível) e, ao mesmo tempo, da maneira mais profunda possível (mais próxima possível da verdade sobre o objeto pesquisado).

Portanto, tornou-se adequado para a validação do estudo em relação a tal desejo que a amostra que foi alcançada pelas estratégias de amostragem adotadas, e efetivamente utilizada para a realização da pesquisa, fosse identificada e descrita quanto às características representativas do objeto pesquisado. A ideia foi, portanto, mensurar o quanto a amostra pôde revelar sobre o objeto, tanto em extensão quanto em profundidade, de modo a poder inferir sobre o potencial de generalização e de verdade dos achados. Ou seja, de modo a extrair uma noção do quanto as expectativas em relação à amostra foi alcançada. Em resumo, tornou-se adequada uma discussão sobre a qualidade da amostra para o estudo, em termos de sua coerência e consistência internas em relação aos objetivos da pesquisa, assim como de sua fidedignidade em relação aos resultados da mesma.

Para que essa discussão fosse possível, foi feita a seguinte descrição quantitativa sobre a amostra9:

O perfil dos entrevistados

As 21 pessoas entrevistadas tinham as seguintes características (Tabela 1):

 

 

Dos entrevistados, 62% eram homens (razão homem:mulher de 1,6:1), o que coincidiu com o perfil global da população atendida pelo serviço estudado.10 Por outro lado, segundo os cálculos das medidas de tendência central e de dispersão sobre os dados da Tabela 1, a homogeneidade etária da população pesquisada concentrou-se na faixa dos 35 aos 55 anos (Figura 1).

 


Figura 1 - Perfil de homogeneidade da faixa etária da população estudada.

 

No que diz respeito à escolaridade, o grupo é um pouco mais homogêneo como um todo (Figura 2).

 


Figura 2 - Perfil de homogeneidade da escolaridade da população estudada.

 

Conforme observado, 80,95% das pessoas tinham entre 24 e 46 anos, o que representa uma população numa faixa etária bastante jovem, produtiva e reprodutiva, porém, com nível de escolaridade predominantemente dentro da faixa do ensino fundamental. Isso indica uma limitação dos resultados da pesquisa a um conjunto de percepções restrito ao âmbito de influência possível a uma baixa escolaridade, porém com grande profundidade de significados para a vida sexual, uma vez que abordou pessoas numa faixa etária em que a vida sexual ocupa importante espaço existencial. Ao incorporar a variável sexo, a exposição gráfica a seguir complementa a noção visual dos dados apresentados até agora e seus cálculos estatísticos (Figura 3).

 


Figura 3 - Distribuição da população estudada segundo o sexo por faixa etária.

 

O que chamou a atenção na Figura 3 foi que a mediana de faixa etária entre as mulheres era muito próxima da média, diferentemente do que ocorreu entre os homens, demonstrando que o conjunto de entrevistados do sexo feminino era mais homogêneo que o masculino quanto à faixa de idade. Além disso, as mulheres eram 6,6 anos, em média, mais velhas que os homens, conforme mostram os platôs das curvas nesse gráfico. Entretanto, essa diferença não foi significativa para o tamanho de amostra estudada (p=0,0988). Esse resultado confirma a homogeneidade da faixa etária do conjunto dos entrevistados, que, conforme dito anteriormente, concentrava-se na categoria dos 35 aos 55 anos.

A esse respeito, Souto et al.10, em estudo epidemiológico anterior sobre o mesmo universo populacional onde foram selecionados os sujeitos para esta pesquisa, já haviam demonstrado que as mulheres tendem a contrair o HIV em idade mais velha do que os homens.

Em relação à escolaridade por sexo, 50% das mulheres tinham menos de sete anos de estudo, contra 15% dos homens, a despeito de que o conjunto das pessoas seja mais homogêneo em relação a essa variável. Isso aconteceu porque alta proporção dos homens (84,61%), que são maioria entre os entrevistados (61,90% do total de pessoas), concentrou-se em torno da média e da mediana, compensando a diferença proporcional de participação de homens e mulheres na faixa escolar mais baixa, consequentemente, homogeneizando a população total por nível de escolaridade, porém sem significância estatística (p = 0,7691). Entre as mulheres, 62,50% concentraram-se em torno da média e da mediana. Esse padrão de distribuição dos entrevistados segundo o sexo por escolaridade equilibrou o conjunto de sujeitos no contexto da dispersão proporcional de homens e mulheres por faixa de anos de estudo (Figura 4).

 


Figura 4 - Distribuição da população estudada segundo o sexo por anos de estudo.

 

Pode-se destacar, ainda, que 47,76% dos entrevistados encontravam-se em abstinência sexual, enquanto que 33,33% tinham prática heterossexual no momento da entrevista. Entre os últimos, 57,14% tinham parceiro fixo predominantemente não infectado pelo HIV e quase todos usavam preservativo sistematicamente nas relações sexuais. A abstinência sexual foi mais comum entre as mulheres (62,50% das mulheres contra 30,80% dos homens), porém sem significância estatística (p=0,1896). Entretanto, vale lembrar que este estudo não foi planejado para uma análise quantitativa, fato que pode estar limitando as significâncias estatísticas demonstradas. Essa exposição visa, pois, tão somente descrever a população entrevistada por interesse de validação interna da pesquisa naquilo que diz respeito ao perfil da amostra estudada.

Por outro lado, 83,33% dos que tinham menos de sete anos de estudos eram abstinentes sexuais, contra 33,33% de abstinência entre quem tinha mais de seis anos de escolaridade, mesmo não sendo as mulheres maioria na faixa escolar mais baixa. Contudo, a tabulação da relação entre tipo de parceria sexual e sexo estratificada por escolaridade mostrou que ser mulher e ter baixa escolaridade associaram-se à significativa probabilidade de abstinência sexual.

Entre os não abstinentes sexuais, as mulheres eram mais adeptas ao uso sistemático do preservativo (100,00% delas contra 66,70% dos homens - p=0,5134) e, também, as que menos usavam droga ilícita ou álcool (12,50% delas não usavam contra 30,80% dos homens - p=0,6877).

A maioria dos entrevistados (62,50%) não era usuária sistemática nem de droga ilícita, nem de bebida alcoólica. Contudo, o uso de álcool era proporcionalmente crescente na mesma direção da escolaridade, enquanto que com o uso de droga ilícita ocorreu o contrário. Ou seja, mais escolaridade, proporcionalmente mais frequente o uso de bebida alcoólica; menos escolaridade, proporcionalmente mais frequente o uso de droga ilícita. Em relação à faixa etária, o uso de álcool foi difuso, mas o de droga ilícita foi proporcionalmente mais frequente quanto menor a idade.

 

DISCUSSÃO

Pelo exposto, foi possível observar que, quantitativamente trabalhou-se com um conjunto de sujeitos significativamente representativo do objeto estudado, tanto no que diz respeito à homogeneidade intrínseca interessada a uma parte da estratégia amostral proposital por variedade de tipos, quanto à completude da amostra interessada em conter todas as possibilidades de experiência sexual com o HIV.

Os argumentos relacionados à amostra que permitem essa inferência são:

as pessoas entrevistadas estavam predominante e homogeneamente numa faixa etária em que o sexo e a sexualidade têm muita função, significado e representação existencial. Esse fato indica a fidelidade da amostra aos objetivos da pesquisa, validando a estratégia da amostragem proposital por variedade de tipos que foi utilizada e reforçando o potencial dessa amostra para o aprofundamento da abordagem do objeto pesquisado. Consequentemente, apoiando a validação da fidedignidade dos achados;

a aleatoriedade com que foram entrevistadas pessoas de todas as orientações sexuais (inclusive profissionais do sexo), de diferentes modelagens de parceria sexual e sororreatividade dos parceiros ao HIV, de ambos os sexos, e de diferentes formas de envolvimento com álcool, drogas ilícitas e uso de preservativos nas relações sexuais. Esse fato revela o perfil de extensão da amostra obtida pela estratégia da amostragem completa, por meio da qual se permitiu estudar ampla variedade de categorias de experiências sexuais;

a coincidência entre o perfil da amostra e o da população geral de portadores do HIV do serviço estudado, o que pode representar possibilidade de extrapolação dos resultados pelo menos até esse âmbito de abrangência, com grande probabilidade, também, de extrapolação para outros serviços com demanda populacional análoga ao estudado no mesmo contexto sociocultural.

Portanto, a descrição quantitativa do perfil da amostra e sua correlação com os objetivos do estudo demonstraram que, de fato, a população investigada tinha, potencialmente, grande conteúdo do objeto que se propôs a revelar, afirmando, assim, a qualidade dessa amostra e a eficiência da estratégia amostral utilizada para o fim a que se destinou. Esse aspecto, entre outras questões metodológicas, contribui para validar a própria metodologia, valorizar a confiabilidade nos resultados da pesquisa e inferir sobre até onde é possível aceitar a generalização dos achados.

Obviamente que a qualidade do estudo não pode ser considerada apenas à luz da amostra e da estratégia amostral, mas precisa considerar, também, os outros processos e a estrutura da pesquisa.

Não obstante, a análise descritiva quantitativa da amostra é mais um recurso, entre vários outros, potencialmente útil à validação interna de alguns tipos de pesquisa qualitativa, tanto no sentido de reforçar quanto no sentido de contestar a validade da mesma, a depender do resultado desta análise. Tal utilidade consiste nas possibilidades de: a) demonstração do padrão de fidelidade da amostra ao objeto e aos objetivos do estudo e da potencial repercussão disso na fidedignidade dos achados; b) inferência subjetiva sobre o potencial de profundidade da abordagem do objeto do estudo alcançável a partir da amostra; c) inferência sobre a extrapolação dos achados (generalização dos resultados) por meio da caracterização da especificidade do conjunto de sujeitos.

 

CONCLUSÕES

Ainda que a estratégia de amostragem seja qualitativa, sua descrição quantitativa no relatório da pesquisa pode contribuir para a validação do estudo e, consequentemente, permitir inferências sobre a confiabilidade e abrangência dos achados; pode fornecer, portanto, uma dimensão de qualidade para a pesquisa.

Desse modo, a análise quantitativa da amostra de um estudo qualitativo, após sua captação, pode agregar consistência aos argumentos a respeito das relações dessa amostra com o objeto da pesquisa, robustecendo a compreensão do alcance dos achados e dando uma medida de validação do estudo relacionada ao significado da amostra para tais achados.

Isso indica que o uso de análises quantitativas de amostras qualitativas pode ser uma alternativa a mais entre as estratégias de validação da amostragem em pesquisa qualitativa a repercutir na consistência dos achados e nas inferências sobre sua generalização e profundidade de abordagem do objeto pesquisado, o que representa mais um potencial de combinação complementar a ser explorado em estudos em que esse recurso seja cabível.

 

AGRADECIMENTOS

Laurene Sayuri Kiyota, Mariana Ferreira Borges, Mariana Pereira Bataline e Sabrina Boni Braga de Carvalho - Estudantes de Medicina da UFSCar; Martinho de Meneses Sousa Filho. - Médico Assistente no Centro de Promoção da Saúde de Conselheiro Lafaiete, MG.

 

REFERÊNCIAS

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