RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 22. 1

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Artigo Original

Fatores associados à procura por serviços de saúde de crianças mineiras menores de oito anos de idade

Factors associated with children under age of eight attending health care services in the state of Minas Gerais

Juliana Nunes Santos1; Natália Avila Machado2; Luiza de Marilac de Souza3; Nícia Raies Moreira de Souza4

1. Fonoaudióloga. Professora Adjunto do Curso de Graduação em Fonoaudiologia da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. Acadêmica do Curso de Graduação em Fonoaudiologia da UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil
3. Gestora de Ensino e Pesquisa da Fundação João Pinheiro. Belo Horizonte, MG - Brasil
4. Pesquisadora Pleno da Fundação João Pinheiro. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Juliana Nunes Santos
Rua Coronel Pedro Jorge, 170/201 Bairro: Prado
Belo Horizonte, MG - Brasil CEP: 30410-350
E-mail: jununessantos@yahoo.com.br

Recebido em: 10/06/2011
Aprovado em: 21/12/2011

Instituição: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil

Resumo

OBJETIVO: verificar se fatores como gênero, idade, situação censitária, autopercepção do estado de saúde, ocorrência de problemas ao nascimento, tempo de aleitamento materno, cumprimento do calendário de vacinas e presença da mãe como cuidadora principal relacionam-se com a procura ou não de serviços de saúde de crianças mineiras.
MÉTODOS: análise dos dados da Pesquisa por Amostra de Domicílios de Minas Gerais (PAD/MG) da Fundação João Pinheiro, realizada em 18.000 domicílios em 308 municípios em 2009. Foram entrevistadas as famílias de 5.672 crianças. Para a análise dos dados consideraram-se os percentuais das crianças mineiras com idade entre zero e sete anos que procuraram os serviços de saúde no mês de maio de 2009 e a possível associação com outras variáveis sociodemográficas e de saúde.
RESULTADOS: das 5.672 crianças investigadas, 1.453 (25,6%) procuraram serviço de saúde, sendo que a chance dessa procura foi 63% maior em residentes da área urbana, 87% menor nos infantes com estado de saúde bom ou muito bom. As crianças com doença crônica de saúde apresentaram 3,2 vezes mais chance de procurar os serviços de saúde e aquelas com problemas ao nascimento tiveram essa chance aumentada em 1,7 vez.
CONCLUSÃO: a procura de serviços de saúde por menores de oito anos de idade aumenta com a urbanização e relaciona-se à história pregressa de alterações ao nascimento e a doenças crônicas, sendo mais observada nos primeiros anos de vida.

Palavras-chave: Criança; Acesso aos Serviços de Saúde; Serviços de Saúde da Criança; Necessidades e Demandas de Serviços de Saúde; Assistência Integral à Saúde.

 

INTRODUÇÃO

A infância é um período crucial no desenvolvimento mental, emocional e de socialização do indivíduo e o sucesso nesse período resulta da harmoniosa interação entre características biológicas e fatores socioculturais. O contexto sociocultural em que vivem as crianças pode ou não aumentar o risco de exposição a fatores biológicos e psicossociais que afetam o seu desenvolvimento, determinando alterações que podem demandar mais procura por serviços de saúde por parte das crianças.1,2

No mundo, pelo menos 200 milhões de crianças menores de cinco anos são impedidos de alcançar seus potenciais de desenvolvimento cognitivo e socioemocional, em decorrência de quatro causas principais: desnutrição crônica, deficiência de ferro, deficiência de iodo e inadequada estimulação.1,3 Sabe-se que as privações sofridas nesse período se não diagnosticadas e tratadas precocemente levam a permanentes comprometimentos na vida adulta, podendo, inclusive, afetar futuras gerações.4

No Brasil, particularmente, as crianças são especialmente vulneráveis às violações de direitos, à pobreza e à iniquidade no país, as quais constituem o maior obstáculo para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) por parte do país.5 Embora a situação da saúde infantil no país tenha avançado na maioria das áreas, há ainda grandes desafios a enfrentar. Entre as metas almejadas pelo governo e pela comunidade internacional, destacam-se a redução da mortalidade infantil e da desnutrição, a diminuição do número de lares sem água potável e esgotamento sanitário, a promoção de políticas de saúde para a infância e para a adolescência, com mais acesso a práticas promotoras de saúde e aos serviços.5

O Ministério da Saúde, com o objetivo de facilitar a assistência no país, tem considerado como prioritárias quatro linhas de cuidado na saúde infantil: o nascimento saudável, o crescimento e desenvolvimento, os distúrbios nutricionais e as doenças prevalentes na infância.6 De acordo com o Ministério da Saúde, a partir da consulta de acompanhamento do crescimento e desenvolvimento é possível estabelecer condutas curativas dirigidas às doenças detectadas e traçar as preventivas para cada idade, sobre vacinação, alimentação, estimulação e cuidados gerais, num processo contínuo de educação para a saúde. Dessa forma, o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento é considerado o eixo central da atenção à criança7 e, desde que realizado adequadamente, minimiza os riscos a que as crianças estão expostas, diminuindo a procura das crianças por serviços de saúde de emergência.8,9

Acredita-se que a procura por serviços de saúde das crianças esteja, de certo modo, relacionada às condições socioambientais a que elas estão expostas7,10,11, podendo haver influências de fatores como as práticas parentais e história pregressa dos infantes e familiares.

Diante disso, o objetivo deste estudo é verificar se fatores como gênero, idade, situação censitária, auto-percepção do estado de saúde, ocorrência de problemas ao nascimento, tempo de aleitamento materno, cumprimento do calendário de vacinas e presença da mãe como cuidadora principal relacionam-se com menos procura de serviços de saúde por crianças mineiras entrevistadas pela PAD/MG.

 

MÉTODOS

Trata-se de estudo observacional, descritivo e transversal, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais sob o protocolo ETIC 0347.0.203.000-10. A pesquisa consta da análise do banco de dados da Pesquisa por Amostra de Domicílio (PAD-MG) 2009 da Fundação João Pinheiro. A PAD-MG foi realizada nos mesmos moldes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a PNAD do IBGE. A PAD-MG, realizada no ano 2009, é um levantamento socioeconómico baseado em amostra de 18 mil domicílios distribuídos por todo o estado, em 1.200 setores censitários de áreas urbanas e rurais de 308 municípios. A pesquisa coletou informações sobre saúde, educação, trabalho, assistência social, renda e benefícios, gastos (coletivos, de alimentos e individuais) e juventude, além das características dos domicílios e dos indivíduos.12,13

A PAD-MG abrangeu a população residente nas unidades domiciliares - domicílios particulares e unidades de habitação em domicílios coletivos. A coleta de dados aconteceu no período de junho a novembro de 2009, utilizando-se o coletor eletrônico (Ultra Móbile Personal Computer - UMPC) para realização das operações de coleta, e teve o mês de maio de 2009 como o mês de referência da pesquisa. Os entrevistadores foram pessoas contratadas pela Fundação João Pinheiro, as quais receberam treinamento teórico e prático para a realização das entrevistas domiciliares.13

O questionário da PAD/MG foi dividido em nove seções, a saber: características do domicílio, características dos moradores, educação, saúde, trabalho e trabalho infantil, rendimentos, gastos individuais e de domicílios e juventude. Esta última investigou a percepção de jovens maiores de 14 anos sobre seu futuro profissional. Neste estudo, ênfase foi dada na análise de questões da seção "Saúde".13 Para avaliação das características das crianças que procuraram os serviços de saúde no mês de maio de 2009, foram utilizados os critérios gênero, idade, situação censitária, motivo pelo qual procurou atendimento de saúde, autopercepção do estado de saúde, ocorrência de problemas ao nascimento, tempo de aleitamento materno, cumprimento do calendário de vacinas e cuidador principal dos entrevistados. Não houve conferência do cartão vacinal pelos entrevistadores da Fundação João Pinheiro, sendo considerada somente a resposta do responsável pela criança.

Para análise dos dados da população infantil, foram utilizados como critérios de inclusão crianças com idade entre zero e sete anos, de ambos os sexos e que residem no estado de Minas Gerais.

Na Tabela 1 podem ser visualizadas as questões analisadas e suas respectivas perguntas, bem como as possíveis respostas.

Neste estudo, foram analisadas as variáveis descritas considerando-se a análise dos percentuais das crianças mineiras com idades entre zero e sete anos que procuram os serviços de saúde no mês de maio de 2009, o qual foi considerado mês de referência da pesquisa.

Com base nas respostas dos entrevistados, foi gerado um banco de dados no programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS 14.0). Para fins de análise descritiva, realizaram-se a distribuição de frequência das variáveis, categorias em estudo e medidas de tendência central e de dispersão das variáveis contínuas. Os dados foram previamente conferidos. Os dados inconsistentes e as informações ignoradas trataram-se adequadamente.

Na análise univariada utilizaram-se os testes Qui-Quadrado e T Student. Na análise multivariada determinou-se associação estatística independente entre as variáveis selecionadas e a procura por serviços de saúde em crianças menores de oito anos de idade por meio da utilização do modelo de regressão logística de resposta binária. A modelagem iniciou-se com todas as variáveis do estudo. Em seguida, as variáveis foram eliminadas sequencialmente, de acordo com a importância estatística de cada uma (cuja avaliação foi feita por meio do teste de Wald). O nível de significância considerado para o modelo final foi de 0,05.

 

RESULTADOS

Da população residente no estado de Minas Gerais, foram entrevistadas 54.474 pessoas. Destas, 5.672 (10,4%) encontram-se na faixa etária entre zero e sete anos de idade e 1.453 crianças (25,6%) procuraram serviço de saúde no mês de referência da pesquisa, as quais são o foco deste estudo.

Os dados da análise univariada estão descritos na Tabela 1 e da multivariada na Tabela 2.

 

 

 

 

Do total de crianças investigadas pela PAD/MG, 2.868 (50,6%) são do sexo masculino e 2.804 (49,4%) do sexo feminino. Em relação à procura por serviços de saúde, 724 meninos e 729 meninas demandaram atendimento de saúde, não sendo observada diferença estatisticamente significante em relação ao sexo. No entanto, a idade teve relação com a procura por serviços de saúde.

As principais causas citadas para os atendimentos de saúde das crianças foram: problema respiratório em 411 casos (28,6%), controle ou prevenção em 159 casos (11,1%), tratamento de doenças crônicas em 66 casos (4,6%), diarreia e desidratação em 49 casos (3,4%), entre outros.

Da população menor de oito anos de idade, a avaliação do estado de saúde na percepção dos pais e/ou responsáveis foi: muito bom em 2.513 casos (44,3%), bom em 2.756 (48,6%), regular em 366 (6,5%), ruim em 27 (0,5%) e muito ruim em seis (0,1%). Das crianças mineiras, 4.840 (85,4%) não apresentam problema crônico de saúde.

Ao relacionar o estado de saúde das crianças com a procura por atendimento verificou-se que quanto melhor a avaliação do estado de saúde, menor a procura pelos serviços, sendo que no grupo que não necessitou de atendimento a avaliação do estado de saúde "muito bom ou bom" foi de 96,4% e o no grupo de crianças que procurou pelo serviço de saúde esse mesmo índice foi de 83%.

Quando questionados sobre a ocasião do nascimento das crianças, os pais e/ou responsáveis relataram que a maioria dos infantes investigados pela PAD/MG, 4.870 (86,0%), não apresentou problema no parto ou no período perinatal. No entanto, constatou-se significante relação entre a variável "problemas ao nascimento" e a maior procura por serviços de saúde. Dos que buscaram atendimento, 19,5% relataram ter apresentado algum tipo de problema no parto ou período perinatal.

Sobre o tempo de aleitamento materno, 2.781 (49,0%) crianças receberam aleitamento materno até os seis meses de idade. Essa variável, no modelo final, não se relacionou de maneira estatisticamente significante com a menor procura por serviços de saúde.

Em relação ao cumprimento do calendário de vacinas, 5.567 (98,2%) participantes tomaram todas as vacinas indicadas no cartão da criança. Do grupo de crianças que procuraram por serviços de saúde, 1.424 (98%) também receberam todas as vacinas.

Quanto ao cuidado das crianças, quando as mesmas estão em casa, as mães apareceram como as principais cuidadoras (77,8%), seguidas pelos avós (12,4%), pais (2,6%), irmãos mais velhos (2,2%), outros parentes (2,1%), babás (1,9%), vizinhos, empregada e outros (1%). Verificou-se que do grupo de crianças que não procuraram por serviços de saúde, a maior parte delas tem a mãe como cuidadora principal no momento em que estão em casa (78,2%), o que não diferiu em relação ao grupo de crianças que necessitou de atendimento de saúde (77,1%).

Das crianças investigadas, 4.657 (82,1%) residem em área urbana e 1.015 (17,9%) em áreas rurais. Daquelas que demandaram atendimento em saúde, 87,8% residem em áreas urbanas e 12,2% em áreas rurais. A chance de a criança procurar por serviço de saúde é 63% maior quando ela mora em área urbana.

No modelo final, as características que se revelaram estatisticamente significativas para explicar a procura por serviços de saúde pelas crianças mineiras menores de oito anos foram: doenças crónicas, problemas de saúde ao nascer, autoavaliação do estado de saúde, se reside na área urbana ou rural e a idade.

As crianças mineiras menores de oito anos que possuem doenças crónicas apresentam 3,2 vezes a chance de procura por serviços de saúde do que as que não possuem doenças crónicas. Aquelas com problemas de saúde ao nascer também exibiram mais chance de terem procurado o serviço de saúde do que as que nasceram saudáveis.

Em relação à percepção sobre o estado de saúde das crianças menores de oito anos, as que tiveram o estado de saúde avaliado como muito bom ou bom possuem a chance 87% menor de terem procurado por serviços de saúde do que aquelas que foram avaliadas como tendo o estado de saúde ruim ou muito ruim.

A idade permaneceu como sendo uma característica associada à demanda por serviços de saúde, com as crianças mais novas necessitando mais do serviço de saúde do que as mais velhas. Assim, as crianças mineiras menores de um ano de idade tiveram 2,6 vezes a chance de procura de serviço de saúde do que crianças de cinco a sete anos de idade. Para as crianças com um ano constatou-se que a chance por procura do serviço de saúde foi 2,2 vezes a da categoria de referência (cinco a sete anos). Já para as crianças de dois a quatro anos de idade a chance de procura por serviços de saúde é 33% mais alta do que a das crianças de cinco a sete anos de idade.

 

 

DISCUSSÃO

A variável de desfecho deste estudo foi a procura por serviço de saúde, baseando-se na pergunta feita à mãe ou responsável sobre se a criança procurou ou precisou de atendimento médico ou de saúde nos últimos 30 dias. Sabe-se que a utilização dos serviços de saúde é comportamento complexo resultante de um conjunto de determinantes que incluem as características sociodemográficas e de saúde, a organização da oferta e o perfil epidemiológico da população.7,10,11,14 Observou-se que 25,6% das crianças investigadas procuraram serviço de saúde no mês de referência da pesquisa. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE realizada em 2008, 18,8% das crianças brasileiras com até quatro anos de idade procuraram por serviços de saúde nas duas semanas que antecederam a pesquisa.15 A diferença entre os valores encontrados pode estar relacionada aos diferentes períodos de referência considerados pela PAD (30 dias) e PNAD (15 dias). Em Minas Gerais, a saúde infantil tornou-se uma das prioridades dos gestores de acordo com o Plano Mineiro de Desenvolvimento integrado (PMDI) 2007-2023, que tem entre seus objetivos estratégicos a universalização do acesso à atenção primária e redução das disparidades regionais no atendimento à saúde e da mortalidade infantil.16

Não se detectou diferença estatisticamente significativa entre os sexos das crianças que procuraram serviço de saúde. No entanto, a literatura mostra que ser do sexo feminino é um dos fatores que levam a população a utilizar os serviços de saúde.10,11,14,17 Vale ressaltar que, segundo a OMS, os principais fatores que interferem no desenvolvimento infantil - desnutrição crônica, deficiência de ferro, deficiência de iodo e inadequada estimulação - não diferem em relação ao sexo e têm alta prevalência em meninos e meninas do mundo inteiro.1,4

Sobre a idade das crianças participantes deste estudo, foi encontrada relação estatisticamente significante entre menor idade e mais procura por serviços de saúde, o que concorda com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE (2008), que também encontrou alta prevalência de consultas médicas na faixa etária de zero a quatro anos.15 É sabido que nos primeiros anos de vida a criança está em processo de maturação imunológica, o que a torna mais susceptível a determinadas doenças e situações de desequilíbrio, por isso demandam acompanhamento sistemático pelos serviços de saúde.7

A principal causa citada para os atendimentos de saúde nas crianças investigadas foi o problema respiratório (28,6%). De acordo com o DATA-SUS, as doenças do aparelho respiratório aparecem como a principal causa de internação da população brasileira até os nove anos de idade, atingindo 37,2% do total de internações.18 No Rio Grande do Sul, a pneumonia e outras alterações respiratórias apareceram com 88,2% das causas de primeira internação infantil.19

Em relação à ocasião do nascimento, 86,0% das crianças não apresentaram problemas. Esse dado está de acordo com a realidade nacional, em que apenas 15,0% das crianças nascidas no Brasil em 2008 apresentaram baixo peso ou prematuridade, ou seja, 85,0% das crianças brasileiras não tiveram problemas ao nascimento.20 Além disso, as crianças cujos pais relataram problemas ao nascimento aumentaram 1,7 vez a chance de procurarem por serviços de saúde. A literatura mostra elevada prevalência de transtornos de saúde e mais vulnerabilidade social em recém-nascidos com baixo peso ou outras alterações no período perinatal.1,21

Sobre o cumprimento do calendário de vacinas, das crianças estudadas 98,2% tomaram todas as vacinas indicadas no cartão da criança, o que não diferiu em relação àquelas que necessitaram de procurar um serviço de saúde. A cobertura vacinal quando olhada do ponto de vista das médias globais para o país e unidades federativas está acima de 95% para a maioria das vacinas.22 Em Minas Gerais, segundo o Sistema de Informação em Saúde, a cobertura vacinal em crianças atingiu valores próximos de 100% no ano de 200923, o que corrobora os achados da PAD/MG.

Em relação ao tempo de amamentação, 49,1% das crianças receberam aleitamento materno até os seis meses de idade. Esse dado supera a média encontrada nas pesquisas coordenadas pelo Ministério da Saúde, em que a prevalência do aleitamento materno exclusivo em menores de seis meses foi de 41,0% no conjunto das capitais brasileiras e Distrito Federal.24 Segundo essas pesquisas, observa-se a introdução precoce de outros alimentos interrompendo a amamentação exclusiva, o que deveria ocorrer apenas após os seis meses de vida. Apesar disso, houve significativa melhora dos índices de amamentação no Brasil em relação a números anteriores, porém o cumprimento das metas propostas pela Organização Mundial de Saúde e Ministério da Saúde encontra-se bastante aquém do preconizado de aleitamento materno exclusivo até os seis meses.24 No modelo final utilizado, a variável aleitamento materno não permaneceu significativa, embora a literatura seja contundente em relação aos benefícios do aleitamento materno para a mãe e o bebê, nos quais se inclui a prevenção de doenças respiratórias, diarreia e diminuição da mortalidade infantil, além do vínculo da relação mãe-bebê mais fortalecido.25

Sobre a autoavaliação do estado de saúde da população de menores de oito anos de idade, na percepção dos pais e/ou responsáveis, a maioria foi muito bom e bom (92,9%), o que se associou estatisticamente à reduzida procura por serviços de saúde. Aquelas crianças cujo estado de saúde declarado foi bom ou muito bom exibiram 87% menos de chance de procurarem o serviço de saúde. Na análise de dados da PNAD do IBGE o fator mais importante na determinação da procura por atendimento à saúde foi o estado de saúde do indivíduo, tanto na área urbana quanto no meio rural.10 Essa relação também foi observada com os usuários do Programa de Saúde da Família do município de Porto Alegre, na qual a auto-percepção de saúde ruim aumentou a probabilidade de utilização da unidade de saúde da família local.14

Quanto ao cuidado das crianças quando as mesmas estão em casa, as mães apareceram como as principais cuidadoras, independentemente da criança procurar ou não o serviço de saúde. Sabe-se que as atitudes dos pais têm importante papel na qualidade do crescimento de seus filhos e impacto em seu desenvolvimento físico, cognitivo e linguístico1,26,27, contribuindo para a melhora do quadro clínico da criança frente à doença.27

Os resultados mostraram que a situação censitária das crianças está relacionada à procura por serviços de saúde, sendo que na área urbana os infantes procuraram mais por esses serviços. Análise dos dados da PNAD revelou que alta proporção de pessoas na área urbana procura atendimento à saúde para exames de rotina ou de prevenção, enquanto que no meio rural o principal motivo são doenças, o que justifica menos procura no meio rural.10 Destarte, a literatura revela progressos no SUS de forma a melhorar progressivamente as condições de saúde da população mais pobre, minimizando as desigualdades em saúde mediante a mudança do modelo assistencial e a implantação da Estratégia de Saúde da Família.11,14

No presente estudo foi possível conhecer algumas características das crianças mineiras que procuraram serviços de saúde. Por se tratar de um estudo transversal, não se estabeleceram relações causais entre as variáveis analisadas e a utilização dos serviços de saúde infantil. No entanto, foi possível perceber relações entre a percepção do estado de saúde, idade da criança, situação censitária, alterações ao nascimento, doenças crónicas e a procura pelos serviços de saúde infantil.

Vale ressaltar que saúde e os fatores determinantes da procura e utilização dos serviços pela população são questões complexas que extrapolam as variáveis investigadas neste estudo. São necessárias outras pesquisas a fim de conhecer mais profundamente a situação da saúde infantil no estado de Minas Gerais, contribuindo, assim, para os processos de avaliação e gestão em saúde e para melhor alocação de recursos públicos na área.

 

CONCLUSÕES

Situação censitária rural, ausência de doenças crónicas e de intercorrências durante o nascimento, idade inferior a cinco anos e boa autopercepção do estado de saúde são fatores que parecem estar relacionados a menos procura por serviços de saúde por parte das crianças residentes no estado de Minas Gerais.

A procura por serviços de saúde entre menores de oito anos de idade aumenta com a urbanização e relaciona-se à história pregressa de alterações ao nascimento e a doenças crônicas, sendo mais observada nos primeiros anos de vida.

 

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