RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 15. 3

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Artigos Originais

Avaliação epidemiológica das intoxicações exógenas agudas atendidas no pronto socorro municipal de Juiz de Fora

Epidemiological evaluation of acute exogenous intoxications assisted in the municipal emergency hospital of Juiz de Fora

Lúcio Henrique de Oliveira1; Arnaud Benini de Resende2; Betânia Almeida Nadalin3

1. Médico do Pronto Socorro Municipal de Juiz de Fora; Professor do Departamento de Morfologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); Mestre em Pediatria pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Doutor em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
2. Aluno da Faculdade de Medicina da UFJF e bolsista do BIC/UFJF
3. Aluna da Faculdade de Medicina da UFJF e bolsista do BIC/UFJF(UTIN) do Hospital Sofia Feldman

Endereço para correspondência

Rua Vicente Adão Botti, 65/301 Bairro Bom Pastor
Juiz de Fora - MG - CEP: 36.021-550
e-Mail: lucioho@terra.com.br

Data de submissão: 19/09/04
Data de aprovação: 11/08/05

Resumo

As intoxicações exógenas agudas constituem grave problema de saúde pública, principalmente devido aos avanços científicos e tecnológicos que colocam à disposição da população número cada vez maior de produtos com substâncias potencialmente tóxicas ao organismo humano. Com o objetivo de submeter os casos de intoxicações exógenas agudas atendidos no Pronto Socorro Municipal de Juiz de Fora à análise epidemiológica, realizou-se um estudo retrospectivo referente ao período de junho de 2001 a maio de 2002. Os dados foram coletados a partir das fichas de atendimento médico e analisados estatisticamente, utilizando-se o software EPI-INFO 6.0. Foram encontrados 756 casos, verificando-se que os animais peçonhentos, os medicamentos e os alimentos foram os agentes mais freqüentes. Intoxicações acidentais e tentativas de suicídio foram as principais circunstâncias encontradas. As faixas etárias com maior incidência foram de zero a nove anos e 20 a 29 anos. Discute-se a necessidade da criação de um Centro de Informações Toxicológicas em Juiz de Fora, o qual seria um importante instrumento de prevenção primária e secundária e promoção da saúde.

Palavras-chave: Intoxicação por Plantas/epidemiologia; Intoxicação Alimentar/epidemiologia; Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias/epidemiologia; Mordeduras e Picadas/epidemiologia; Toxicidade de Drogas/epidemiologia; Serviços Médicos de Emergência

 

INTRODUÇÃO

Se a civilização moderna tem proporcionado numerosos benefícios ao homem, não tem deixado, por outro lado, de aumentar as fontes de risco. A possibilidade de intoxicação por agentes químicos e físicos aumenta na proporção direta do desenvolvimento da ciência e da tecnologia, que coloca à disposição da população um número cada vez maior de produtos com substâncias que podem provocar quadros de intoxicações. Numerosas substâncias nos campos médico, comercial, industrial e agropecuário, como medicamentos, inseticidas ou derivados domissanitários são potencialmente tóxicos para o homem. São, freqüentemente, agentes causais nas tentativas de auto-extermínio ou envenenamentos acidentais e ocupacionais, constituindo importante problema de saúde pública.

A OMS estima para os países em desenvolvimento que, em torno de 3% da população urbana é atingida, anualmente, por intoxicações e envenenamentos em geral.1 Recentemente, o problema das intoxicações exógenas agudas tem recebido maior atenção por parte das autoridades de saúde pública em decorrência de seu progressivo aumento.

O Pronto Socorro Municipal de Juiz de Fora constitui unidade de saúde de referência no município de Juiz de Fora para os atendimentos a casos de emergência, assistindo à população do próprio município e de localidades vizinhas. Conta com uma demanda média de mais de oito mil atendimentos por mês. É o centro de referência na região para atendimento aos casos de acidentes por animais peçonhentos.

Neste estudo, foram analisados os casos de intoxicações exógenas agudas atendidos nesta unidade de emergência por meio de um levantamento epidemiológico, relacionando a incidência de intoxicações por tipo de agente, sexo, faixa etária, horário da intoxicação, circunstâncias, assistência prestada, morbidade e mortalidade.

 

MATERIAL E MÉTODO

Trata-se de estudo retrospectivo dos casos de intoxicação exógena aguda atendidos no Pronto Socorro Municipal de Juiz de Fora, no período de junho de 2001 a maio de 2002. Os dados foram coletados a partir das fichas arquivadas no SAME (Serviço de Arquivo Médico) em roteiro previamente elaborado, codificados e digitados no software EPI-INFO 6.0 para tratamento estatístico. Adotou-se a classificação proposta por Alves2, que sistematiza as intoxicações exógenas agudas, segundo o tipo de agente: orgânico, inorgânico ou biológico.

 

RESULTADOS

De um total de 107.096 atendimentos médicos realizados no Pronto Socorro Municipal, (PSM) no período correspondente ao estudo, foram encontrados 756 casos de intoxicações exógenas agudas, correspondendo a 0,7%.

O Gráfico 1 mostra a distribuição mensal dos casos de intoxicação exógena aguda, demonstrando maior incidência no período primavera/verão (média de 71,6 casos por mês) em relação ao período outono/inverno (média de 53 casos mensais).

 


Gráfico 1 - Distribuição mensal dos casos de intoxicação exógena aguda atendidos no PSM-JF, no período de junho/2001 a maio/2002

 

Considerando-se o agente responsável por esses acidentes, os animais peçonhentos aparecem em primeiro lugar, representando 27,4% do total de casos. Em segundo lugar, estão os medicamentos com 22,2%, e em terceiro, os alimentos com 16,9%. As drogas de abuso, ocupando a quarta posição, foram também importantes como causa de intoxicação (10,1%). Os produtos domissanitários, com 6,2% dos casos, representaram a quinta maior freqüência, destacando-se as intoxicações pelo hipoclorito, responsável por cerca de um terço das intoxicações deste grupo. Em 69 casos (9,1%), não constava a especificação do agente, representando um índice significativo em que essa importante informação foi omitida no prontuário médico (Gráfico 2).

 


Gráfico 2 - Distribuição dos casos de intoxicação exógena aguda atendidos no PSM-JF, no período de junho/2001 a maio/2002, segundo a classe do agente

 

Nota-se pelo Gráfico 3, que mostra a distribuição dos acidentes por animais peçonhentos, que as aranhas e os escorpiões apresentaram as maiores incidências, aparecendo com taxas praticamente iguais, 26,1% e 25,1%, respectivamente, seguidos pelos acidentes ofídicos que representaram 19,8% dos casos. As informações sobre a identificação das espécies e o reconhecimento do animal como verdadeiramente peçonhento, tanto para aranhas quanto para serpentes, não constam nas fichas de atendimento utilizadas neste estudo. Esses dados são normalmente registrados nos protocolos do Serviço de Soroterapia do PSM, os quais não foram utilizados como fonte de dados neste trabalho. Em relação aos casos designados como "outros" (20,8%), destaca-se o predomínio do registro de picadas por insetos diversos.

 


Gráfico 3 - Distribuição dos casos de acidente por animais peçonhentos atendidos no PSM-JF, no período de junho/2001 a maio/2002, segundo o tipo de animal

 

Entre as intoxicações medicamentosas, os fármacos mais freqüentes foram os benzodiazepínicos (20%), seguidos pelos bronco dilatadores (10%), barbitúricos (9%), anti-hipertensivos (8%) e antibióticos (6%). Em 13% dos casos, houve associação de dois ou mais medicamentos. Naqueles registrados como "outros", houve predominância dos antiinflamatórios não-hormonais, analgésicos e derivados tricíclicos (Gráfico 4).

 


Gráfico 4 - Distribuição dos casos de intoxicação exógena aguda atendidos no PSM-JF, no período de junho/2001 a maio/2002, segundo o tipo de medicamento envolvido

 

As drogas de abuso foram responsáveis por 77 casos de intoxicação. Em 47 registros não havia a especificação do tipo de droga responsável pelo quadro. Dos 30 casos restantes, 15 (50%) foram causados por cocaína (Gráfico 5).

 


Gráfico 5 - Distribuição dos casos de intoxicação exógena aguda atendidos no PSM-JF, no período de junho/2001 a maio/2002, segundo o tipo de droga envolvida

 

A distribuição dos casos de intoxicação segundo o gênero apresentaram um leve predomínio do sexo masculino, com 388 casos (51,3%) enquanto o sexo feminino foi responsável por 368 casos (48,7%), fato esse que não difere da literatura2,3,4. No entanto, considerando a distribuição do gênero em relação ao agente envolvido, nota-se predomínio do sexo feminino nas intoxicações medicamentosas. Já nos casos das drogas de abuso e animais peçonhentos, há predomínio do sexo masculino. Não foi observada diferença significativa para os demais agentes (Gráfico 6, Tabela 1).

 


Gráfico 6 - Distribuição dos casos de intoxicação exógena aguda atendidos no PSM-JF, no período de junho/2001 a maio/2002, relacionando agente e sexo

 

 

 

Com relação às circunstâncias em que as intoxicações ocorreram, observa-se que a acidental predomina em metade dos casos (50,3%), seguida pelas tentativas de suicídio (15,2%) e abuso de drogas ilícitas ou medicamentos (12,04%). Entre as circunstâncias classificadas como "outras", destacam-se os casos de iatrogenia decorrentes, principalmente, de reações de hipersensibilidade, erro na dose ou administração de drogas e automedicação. Os casos não informados corresponderam a 13,89% (Gráfico 7).

 


Gráfico 7 - Distribuição dos casos de intoxicação exógena aguda atendidos no PSM-JF, no período de junho/2001 a maio/2002, segundo o tipo de circunstância

 

Entre as circunstâncias acidentais, predominam aquelas causadas por animais peçonhentos (52,9%), alimentos (19,2%), medicamentos (12,1%) e domissanitários (7,6%). Já nas tentativas de suicídio, os principais agentes encontrados foram, por ordem de freqüência, os medicamentos (67,8%), os raticidas (11,3%) e os domissanitários (10,4%) (Tabela 2).

 

 

Quando se considerou a distribuição das circunstâncias das intoxicações segundo o gênero, observou-se uma maior incidência do sexo feminino nas tentativas de suicídio; nas situações de abuso de drogas, os homens estiveram mais envolvidos. Nas circunstâncias acidentais, houve discreto, mas significativo, predomínio do sexo masculino (Tabela 3).

 

 

Em 3% dos prontuários, não havia indicação da idade do paciente. Dos 97% restantes, mais de 60% dos pacientes apresentam idade inferior a 30 anos. Entre estes, há predomínio da faixa etária de 20 a 29 anos (25,3%). Na faixa etária pediátrica, houve maior incidência dos quadros de intoxicação, na idade de 1 a 5 anos (Gráfico 8).

 


Gráfico 8 - Distribuição dos casos de intoxicação exógena aguda atendidos no PSM-JF, no período de junho/2001 a maio/2002, segundo a faixa etária

 

Ao se relacionar a idade com as circunstâncias das intoxicações, verificou-se que 88,1% dos casos situados na faixa etária de 0 a 10 anos associaram-se a circunstâncias acidentais. Nas demais faixas etárias apareceram outras circunstâncias com significativa importância: o suicídio na faixa de 10 a 20 anos e o abuso na faixa de 20 a 30 anos, embora as circunstâncias acidentais tenham-se mantido em primeiro lugar (Tabela 4).

 

 

De todos os prontuários analisados, em 184 (24%) foi registrada a hora em que ocorreu o acidente. Nestes, observou-se que o período em que ocorreu a maior parte dos casos foi entre 12 e 18 horas (45%). Considerando-se as circunstâncias, os suicídios predominaram entre 12 e 24 horas e os acidentes entre seis e 18 horas. Nesses 184 registros foi possível determinar o intervalo decorrido entre a intoxicação e o atendimento. Verificou-se, então, que 45,7% dos casos foram atendidos com menos de duas horas de intervalo e 67,4% atendidos em menos de quatro horas (Tabela 5).

 

 

A conduta tomada no momento do primeiro atendimento não foi informada em 181 fichas (23,9%). Entre os prontuários em que se encontrou essa informação, 7,1% dos casos não necessitou de nenhuma intervenção médica, apenas observação ambulatorial. Isso ocorreu com mais freqüência nos quadros de intoxicação por medicamentos (29,3%) e por animais peçonhentos (29,3%) (Tabela 6).

 

 

A principal conduta em acidentes por animais peçonhentos foi a aplicação de medicamentos como analgésicos, corticóides, anti-histamínicos, soroterapia e toxóide tetânico, tanto de forma isolada como associada a outros procedimentos. A realização de lavagem gástrica destaca-se como principal procedimento nos casos de intoxicação por medicamentos.

Os pacientes intoxicados por alimentos, drogas de abuso e produtos domissanitários foram tratados principalmente com administração de medicamentos, que constaram principalmente de analgésicos, anti-eméticos, antiinflamatórios, anti-histamínicos, corticóides e benzo diazepínicos. Nos procedimentos referidos como "outros", destaca-se o uso de carvão ativado que teve sua maior aplicação nas intoxicações causadas por medicamentos nos casos em que se utilizou a lavagem gástrica (Tabela 6).

Em 304 casos (40,3%), os prontuários não continham dados sobre a evolução. Daqueles com informação (452 casos), 66,8% evoluíram com alta para residência. Os pacientes que foram internados no próprio Pronto Socorro Muncipal corresponderam a 19,5% e aqueles que necessitaram de atendimento de maior complexidade em outro hospital somaram 2,8%.

Na distribuição da evolução dos casos em relação ao tipo de agente, observa-se que em todos eles a alta para residência manteve-se como evolução mais freqüente, exceto naqueles causados por droga de abuso, nos quais a internação no Pronto Socorro prevaleceu. Chama atenção a baixíssima taxa de óbito, representada neste estudo por apenas um caso (Tabela 7).

 

 

DISCUSSÃO

Com este estudo foi possível demonstrar, na prática, a realidade epidemiológica dos quadros de intoxicação exógena aguda atendidos no Pronto Socorro Municipal de Juiz de Fora e verificar a importância do seu conhecimento para a melhoria dos serviços de saúde dessa cidade. Esses dados poderão contribuir para a elaboração de programas tanto de prevenção quanto de assistência aos intoxicados.

A maior incidência de acidentes por animais peçonhentos e medicamentos aponta para a necessidade de desenvolver ações de prevenção específicas para esses acidentes. A importância obtida pelo grupo dos medicamentos é explicada por sua grande disponibilidade e pela facilidade com que pessoas de todas as faixas etárias têm acesso a eles. Associa-se a isso a grande extensão da prática da automedicação, o que contribui para elevar consideravelmente o número desses casos. Entre os medicamentos utilizados, destacam-se os benzodiazepínicos (20,1%), índice semelhante aos encontrados em outros estudos.3,4 Tais medicamentos situam-se entre as drogas mais receitadas para tratamentos de ansiedade, distúrbios neurológicos e psiquiátricos. Em razão do uso, muitas vezes indiscriminado, desses medicamentos, elevam-se as tentativas de suicídio, os riscos de interação dessas drogas, freqüentemente associadas entre si, além de se associarem com outras classes de medicamentos. Os broncodilatadores, segunda maior incidência (9,8%), não foram especificados em outros trabalhos, impossibilitando uma análise comparativa. Os barbitúricos (9,2%), os anti-hipertensivos (8%), os antibióticos (5,7%) tiveram também importância significativa por serem, como os broncodilatadores, medicamentos muito utilizados pela população.

A incidência de intoxicações por drogas ilícitas (10,1%) neste estudo mostrou-se acima daquelas apontadas pelo SINITOX (Sistema Nacional de Informações Toxi-Farmacológicas) na Região Sudeste (3,04%)5 e do CEATOX (Centro de Assistência Toxicológica do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) (2%)6, podendo indicar uma particularidade dessas intoxicações no contexto de Juiz de Fora. O índice alto de intoxicação por cocaína encontrado neste estudo confirma a tendência apontada pela OMS do aumento, em níveis epidêmicos, do consumo deste tóxico.7

Entre as crianças de zero a nove anos, ocorreu a maior incidência de intoxicação por medicamentos, produtos domissanitários, raticidas e plantas. A maior parte destas intoxicações foi decorrente de acidentes, que têm como importantes fatores para a sua ocorrência a curiosidade infantil, a negligência no acondicionamento desses produtos e a sua livre comercialização. Exemplo disso foi o hipoclorito, principal agente domissanitário envolvido que pode causar graves acidentes em crianças menores de cinco anos.

Como observado, a maior parte dos casos evoluiu com alta para domicílio (66,8% dos casos em que este dado foi informado) e a letalidade foi de apenas um caso. Isso demonstra serem as intoxicações pouco expressivas como causas de morte, embora, segundo Bortoletto et al.7, elas cursem com grande morbidade.

Um importante aspecto que merece destaque é o fato de que, durante a realização deste estudo, houve dificuldades na coleta de alguns dados devido ao preenchimento incompleto dos prontuários médicos. Muitas informações foram omitidas, o que prejudicou a realização de uma análise mais precisa de algumas variáveis (evolução: 40,3% de casos sem informação; horário 75,9%; intervalo 7%; tipo de droga de abuso 67,1%). Isso vem reafirmar a importância que o adequado preenchimento dos prontuários médicos tem para o serviço de saúde. É importante a elaboração de um formulário específico para esses casos, que oriente o médico no preenchimento dos dados nos quadros de intoxicação exógena aguda, que forneça informações mais precisas para futuros estudos.

Foi observado que, muitas vezes, o médico, diante de um quadro de intoxicação, acaba solicitando auxílio a um centro de informações toxicológicas de referência. Estes centros, segundo o SINITOX, têm reconhecimento internacional quanto à sua utilidade como importante fonte de informações nas situações de emergências toxicológicas. Porém, o seu número é insuficiente para cobrir o vasto território nacional e, na maioria das vezes, eles estão localizados nas capitais. A configuração de Juiz de Fora como uma cidade pólo, que centraliza os atendimentos de uma grande região da Zona da Mata, associada às deficiências já mencionadas, mostra a necessidade de se sugerir às autoridades competentes a implantação de um centro de informações toxicológicas nessa cidade. Este centro teria como objetivos a disseminação de informações aos profissionais da área de saúde e à população em geral, a promoção de campanhas preventivas, a criação e manutenção de um núcleo de estudos constante para atualização e intercâmbio de informações técnico-científicas e de trabalho com outros centros além de elaboração de publicações de caráter epidemiológico. A criação de um centro de informações toxicológicas permitiria aos profissionais de saúde atuar de forma preventiva e assistencial neste grande problema de saúde pública, em Juiz de Fora.

 

CONCLUSÃO

O presente estudo possibilitou identificar algumas características no perfil epidemiológico das intoxicações exógenas agudas atendidas no Pronto Socorro Municipal de Juiz de Fora. Os agentes mais freqüentes foram os animais peçonhentos, os medicamentos, os alimentos, as drogas de abuso e os agentes domissanitários, os quais totalizaram 626 casos de intoxicações, equivalentes a 82,8% do total de casos registrados. A causa acidental e o suicídio são as duas principais circunstâncias determinantes, respondendo juntas por 65,47% do total de intoxicações. Ocorreu discreta predominância do sexo masculino, com 51,3% dos casos. As crianças de zero a nove anos e os adultos de 20 a 29 anos correspondem às duas faixas etárias com maior número de registros, somando, aproximadamente, 46,3% dos casos. Apenas um óbito foi registrado neste estudo.

Fica evidente o ganho que se pode obter no município de Juiz de Fora com a criação de um centro de informações toxicológicas, considerando-se que a cidade é um município pólo de uma macro r região da Zona da Mata. O centro regional de informações toxicológicas poderia ter um caráter multidisciplinar e ser uma instância de interação entre a Universidade e a sociedade, através de serviços de saúde do SUS. Poderia atuar como veículo de formação continuada, contribuindo para a disseminação de informações aos diversos profissionais da área de saúde da região, bem como para a população em geral, promovendo ações de caráter científico, educativo, preventivo e assistencial.

 

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