RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 15. 2

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Artigos Originais

Risco ocupacional de infecção pelo vírus da imunodeficiência humana entre estudantes de medicina da UFMG

Occupational risk of infection by the human immunodeficiency virus in medicine students of UFMG

Márlinson Borges Rosário1; Marina de Brot Andrade1; Thaís Paes Barreto1; Ênio Roberto Pietra Pedroso2

1. Acadêmicos da Faculdade de Medicina da UFMG
2. Professor titular do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG

Endereço para correspondência

Rua Antonio Dias, 680, apto 401 Bairro Santo Antonio
Belo Horizonte-MG CEP 30130150
E-mail: marlinsonborges@yahoo.com.br

Data de Submissão: 20/06/05
Data de Aprovação: 23/10/03

Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais

Resumo

OBJETIVOS: neste estudo é feito inquérito epidemiológico entre estudantes de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para avaliar os riscos biológicos envolvidos em seu processo de aprendizado.
MÉTODO: uma turma de alunos de medicina foi acompanhada durante o curso. Eles responderam a questionários individualizados em dois momentos, quando estavam no sexto e no décimo períodos
RESULTADOS: a prevalência de acidentes observada foi de 27,4%. O período com maior freqüência de acidentes foi o oitavo (47,4%). A forma mais comum de contaminação foi a perfuração de pele íntegra.

Palavras-chave: SIDA; VIR; risco profissional

 

INTRODUÇÃO

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA) é uma pandemia, a maior já atribuída a um agente viral. Surgiu no final dos anos 70 e início dos 80, trazendo profundas alterações nos hábitos culturais e no comportamento da sociedade, sendo responsável por grandes mudanças na prática médica1,8.

No início, a doença restringia-se a determinados grupos de indivíduos, homossexuais e usuários de drogas injetáveis pela via venosa, o que originou o estigma dos grupos de risco. Com o passar do tempo, a melhor compreensão da doença e a vigilância epidemiológica permitiram a percepção de que a doença não era restrita a certos tipos de pessoas. O termo grupos de risco deu lugar, então, aos chamados comportamentos de risco. Esta definição também já está sendo contestada devido às mudanças na epidemiologia da doença, especialmente o aumento assustador da incidência e prevalência do vírus da imunodeficiência humana (VIH) em mulheres heterossexuais2.

A SIDA, ao longo dos últimos anos, revelou crescente prevalência nos países pobres ou em desenvolvimento, como o Brasil8.

O uso de anti-retrovirais em associação a múltiplas drogas conseguiu aumentar a sobrevida com qualidade dos pacientes com SIDA. Nos Estados Unidos da América, esses avanços terapêuticos foram tidos como o principal responsável pelo declínio da incidência e mortalidade da SIDA. Em muitas partes do mundo, a doença se encontra em expansão5.

Em 2002, 42 milhões de pessoas eram portadoras do VIH, 90% delas eram adultas, 50% mulheres2. Nesse mesmo ano, cerca de cinco milhões de pessoas adquiriram o VIH, dois milhões de mulheres e 800 mil crianças com menos de 15 anos. A mortalidade atingiu 3,1 milhões de pessoas2.

É incontestável o risco ocupacional de contrair o VIH a que estão sujeitos profissionais e estudantes da área de saúde. Os riscos após exposição profissional dependem de vários fatores, dentre os quais a prevalência da infecção na população, freqüência de exposições capazes de transmitir o vírus e natureza da exposição (vias percutânea, mucosa ou pele íntegra).O risco de soroconversão após uma picada de agulha ou outras exposições parenterais contendo sangue de pessoas infectadas é de aproximadamente 0,3%. O risco de exposição da pele íntegra ao sangue infectado é ainda menor4.

Daí a importância da utilização correta de equipamentos de proteção individual (luvas, máscaras, gorros, capotes e outros) de acordo com o tipo de procedimento e o simples ato de lavar as mãos, muitas vezes negligenciado6.

Este trabalho tem o objetivo de avaliar a prevalência de acidentes com materiais biológicos em uma única turma de estudantes de medicina da Universidade Federal de Minas gerais (UFMG) de Belo Horizonte-MG em dois momentos do seu curso médico com interregno entre eles de dois anos.

 

CASUÍSTICA E MÉTODO

Foram estudados os alunos de Medicina da UFMG quando estavam no sexto (1999) e depois no décimo período (2001)1. Foram utilizados questionários individualizados com alternativas objetivas, visando a prevalência de acidentes com materiais biológicos, a forma, atividade acadêmica e área física onde ocorreram.

O sexto e o décimo períodos foram escolhidos por se tratarem de momentos em que os estudantes de Medicina iniciam suas atividades profissionais e chegam ao risco máximo de se contaminarem quando estão em treinamento em serviço de urgências, respectivamente.

O questionário foi respondido de forma espontânea. Não foi requisitada identificação.

A amostra estatisticamente significativa da população de estudo foi estimada de acordo com a prevalência do evento estudado. Esta estimativa foi obtida em trabalho anterior, permitindo o cálculo da amostra necessária pelo Epi Info, considerando um erro máximo de 8%8,9.

 

RESULTADOS

Foram respondidos 66 questionários em 1999 e 73 em 2001. As amostras foram estatisticamente significativas ao nível de 0,05.

A prevalência de acidentes com material biológico entre os estudantes até o décimo período, em 2001, foi de 27,4%. Deste total, os acidentes ocorreram, por ordem decrescente de freqüência, nos períodos: oitavo (47,4%); sétimo (26,3%); nono (10,4%); décimo (10,4%) e sexto (5,3%) (Tabela 1).

 

 

Em cerca de 81% dos acidentes, ocorreu perfuração de pele; em 14,3%, houve contato da pele íntegra com sangue e em 4,8% houve perfuração de mucosa resultante de vários procedimentos (Tabelas 2 e 3).

 

 

 

 

Cerca de 47,6% dos acidentes ocorreram no Hospital João XXIII, em 23,8% durante procedimentos não ligados à atividade curricular oficial (currículo paralelo, estágios). Os demais acidentes foram distribuídos entre o ambulatório geral (4,8%), e a enfermaria (9,5%) do Hospital das Clínicas e na atividade prática (Prática de Saúde e Técnica Cirúrgica) durante aulas na Faculdade de Medicina (14,3%) (Tabela 4).

 

 

DISCUSSÃO

A freqüência de acidentes com material potencialmente contaminado entre estudantes de medicina é alta, apesar de ser menor do que a sofrida por médicos residentes3. Entre os profissionais de saúde, a transmissão documentada da SIDA em junho de 1999, segundo o Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, foi maior entre enfermeiras (23 casos), técnicos de laboratório (16 casos) e médicos não-cirurgiões (6 casos)2.

A prevalência acumulada de acidentes com material biológico entre estudantes de Medicina, até o décimo período do curso médico, sofreu queda significativa de 50% para 27,4%, de 1999 para 2001. Isto pode refletir maior conscientização dos alunos sobre os riscos envolvidos no processo de aprendizado ou melhor orientação propiciada por seus professores9,10,11.

O descuido pessoal e a inexperiência, investigados em estudos anteriores contribuíram, respectivamente, com 44,7% e 30,9% para os acidentes com material biologicamente contaminado7.

A Unidade de Pequenos Ferimentos do Hospital João XXIII em Belo Horizonte persiste como o local onde, com maior freqüência, ocorrem as contaminações profissionais; a seguir, aparecem os estágios extracurriculares (Tabela 4). A ansiedade dos alunos de Medicina em assumir a prática médica os faz buscar estágios cada vez mais precocemente em serviços para os quais nem sempre estão preparados. A supervisão de alunos em estágios extracurriculares por profissionais experientes nem sempre é garantida ou adequada.

A sutura, punção de veia e injeção com anestésicos são os procedimentos de maior risco. Constituem base da tarefa médica, justamente os mais simples e fáceis, sendo necessária sua adequada habilitação psicomotora por todos os estudantes. As perfurações potencialmente com sangue continuam como as principais causas de acidentes (Tabelas 2 e 3).

Deve-se buscar a capacitação dos alunos para a realização de procedimentos invasivos com segurança. Muitas vezes o treinamento é praticamente iniciado nos primórdios do ciclo profissional, em especial no sexto período, associada à reduzida disponibilidade de cadáveres e animais para a técnica cirúrgica, quando se deve prover conhecimento e aprimoramento psicomotor para embasar a prática com seres humanos, o que nem sempre é obtido 3,6,7.

Para maior segurança dos alunos durante o aprendizado deve-se investir numa formação teórica e prática consistente, reforçando os conceitos de biossegurança, e disponibilizando formas de treinamento antes do contato direto com o paciente. Na prática, a disponibilização de equipamentos de proteção individual e a conscientização do seu uso de forma correta devem ser, sempre, reforçadas. Além disso, deve-se avaliar se a forma de introdução dos alunos nos serviços de atendimento está sendo feita adequadamente, assim como a época em que ela ocorre. É fundamental a discussão, desde o primeiro período do curso médico, dos riscos da atividade médica e as formas mais adequadas de enfrentá-los com segurança.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1- Rampinelli CA, Lamounier Filho A, Reis JMB, Pedroso ERP. Epidemia da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida no Brasil e em Minas Gerais: dados atuais. Rev Med Minas Gerais 2000;10(4):213-5.

2- Pedroso ERP, Lamounier Filho A, Rampinelli CA, Reis JMB. Estudo descritivo dos acidentes com materiais potencialmente contaminados por sangue em ambiente hospitalar entre estudantes de medicina. Rev Soc Bras Med Trop 2000;33:257-8.

3- CDC-Center of Disease Control and Prevention. [Citado em nov. 2004]. Disponível em: www.cdc.gov/hiv/stats/hasrI201/tableI7.htm, www.cdc.gov/hiv/stats.htm#intemational

4- Karon JM, Fleming PL, Streketee R W, De Cock, Kevin M. HIV in the United States at the tum ofthe century: an epidemic in transition. Am J Public Health 2001;91(7):1060-8.

5- DeI Rio C, Cumm JW. Cecil tratado de medicina interna. 21a ed. Rio de Janeiro: Guanabara; 2001. p.2122.

6- Salles JA, Prado RS, Soares ES, Pedroso ERP. Avaliação do período cursado do comportamento sexual do estudante de medicina em relação à síndrome da imunodeficiência adquirida Rev Soc Bras Méd Trop 1999;32(supl. 1): 350.

7- Lamounier Filho A, Rampinelli CA, Reis JMB, Pedroso ERP. Abordagem do paciente com exposição acidental no trabalho a material biológico potencialmente contaminado pelo vírus da imunodeficiência humana. Rev Med Minas Gerais 2000;10(3):169-71.