RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 15. 2

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Artigos Originais

Avaliação dos efeitos cosméticos e histopatológicos do etil-2-cianoacrilato em músculo, tela subcutânea e pele, em laparotomia mediana em ratos

Evaluation of the cosmetic and histopathologic effects of the ethyl-2-cyanoacrylate on muscles, skin and subcutaneous tissue, median laparotomy in rats

Alcino Lázaro da Silva1; Lucia Porto Fonseca de Castro2; Frederico Kneipp Soares Leite3; Thiago Lisboa Cunha e Silva3; Leonardo Santos Bordoni3

1. Professor Titular de Cirurgia do Aparelho Digestivo da Faculdade de Medicina da UFMG
2. Professora Assistente do Departamento de Anatomia Patológica e Medicina Legal da Faculdade de Medicina da UFMG
3. Acadêmico da Faculdade de Medicina da UFMG

Endereço para correspondência

Frederico Kneipp Soares Leite
Tel: 32279214 - 91986616
e-mail: fredkneipp@hotmail.com

Data de Submissão: 26/01/05
Data de Aprovação: 01/06/05

Trabalho realizado na Faculdade de Medicina da UFMG

Resumo

OBJETIVO: Testar a eficiência, a reação tecidual e a reepitelização, após o uso do etil-2-cianoacrilato (EPIGLU®), no fechamento de pele e tecido muscular abdominal de ratos, comparando-o ao fechamento por sutura tradicional. Também foi realizada a análise histológica de cortes em diferentes fases da cicatrização da ferida, em ambas as técnicas.
MÉTODO: Foram utilizados 32 ratos, distribuídos aleatoriamente em grupos controle e experimento. Em todos os animais foi realizada laparotomia mediana de 3 cm, com fechamento da musculatura abdominal por sutura. A pele e o subcutâneo do grupo controle foram fechados por sutura. No grupo experimento, essas estruturas foram mantidas abertas, tendo sido adicionado à área cruenta o adesivo tecidual etil-2-cianoacrilato. Os animais foram divididos em três grupos. Cada grupo foi morto em datas diferentes (7, 15 e 22 dias), e a parede abdominal de cada animal foi retirada em bloco e enviada para estudo histopatológico.
RESULTADOS: Não houve diferença histopatológica entre o uso da cola e a sutura. O adesivo mostrou superioridade em relação à cosmética. Foram observadas, ainda, rapidez do procedimento, facilidade no uso e menor tendência à formação de abcessos.
CONCLUSÃO: A técnica se mostrou eficiente frente à sutura tradicional, porém salientamos a necessidade de novos estudos com grupos maiores de animais.

Palavras-chave: Cicatrização de feridas; Cianoacrilatos/uso terapêutico; Ratos Wistar; Laparoscopia/veterinária

 

INTRODUÇÃO

O etil-2-cianoacrilato é um adesivo tecidual da família dos cianoacrilatos, que são derivados do ácido acrílico. Eles se apresentam na forma líquida, mas em contato com a água ou com líquidos corporais rapidamente tornam-se uma fina película que firmemente une as bordas da ferida1,2. Os cianoacrilatos têm sido largamente testados há mais de 40 anos. A experiência com o uso do etil-2-cianoacrilato, especificamente, vem desde 1981, com o fechamento de feridas da pele. As vantagens dos cianoacrilatos sobre a sutura de pele, conforme têm sido demonstradas, são ausência de dor, maior rapidez na realização do procedimento, ausência de pontos, ausência de reação contra corpo estranho no tecido. Além disso, não há tendência para formação de quelóide e a cicatriz apresenta resultados estéticos idênticos aos dos fios, mas sem marcas dos furos das agulhas de sutura3-6,8-11. Outra vantagem dos cianoacrilatos é o seu efeito fungicida, bacteriostático e bactericida. Podem, também, ser usados em mucosas, cujo fechamento por sutura, devido à localização, pode ser mais difícil e incômodo para o paciente12.

O grande potencial dos cianoacrilatos ainda está sendo descoberto pelas várias áreas da medicina, embora eles já sejam freqüentemente usados em diferentes tipos de operações. São usados na oftalmologia4, na otorrinolaringologia e na cirurgia plástica. Também há testes para anastomoses colônicas2, anastomoses de vasos8. No presente trabalho, objetivou-se testar a eficiência, a reação tecidual e a reepitelização, após o uso do etil-2-cianoacrilato no fechamento de pele e também de tecido muscular abdominal de ratos, além de análise histológica de cortes em diferentes fases da cicatrização da ferida, comparadas ao fechamento por sutura tradicional.

 

MÉTODO

O estudo foi realizado de acordo com as Normas Internacionais de Proteção aos Animais17,18. Foram utilizadas 32 ratas Wistar adultas, pesando entre 250g e 300g, procedentes do biotério da Faculdade de Medicina da UFMG. As operações foram realizadas sob anestesia com associação de ronpum e cloridrato de quetamina na dosagem de 1:1. Os animais foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos: controle (n=6) e experimento (n=24). Os outros dois animais morreram durante o procedimento anestésico.

Em todos os animais foi realizada laparotomia mediana de 3 cm, expondo-se o conteúdo da cavidade abdominal. Em seguida, foi realizada sutura da musculatura abdominal com dois pontos espaçados, utilizando-se fio de náilon 5-0. A pele e o subcutâneo foram mantidos abertos, sendo adicionadas à área cruenta três gotas do adesivo tecidual etil-2-cianoacrilato nos 26 animais do grupo experimento. Os animais pertencentes ao grupo controle (seis animais) tiveram sua pele e subcutâneo suturados com fio 5-0. Em seguida, os animais foram alocados em três novos grupos (A, B, C) que continham, cada um deles, oito animais do grupo experimento e dois animais do grupo controle.

  • grupo A: os animais foram mortos após sete dias com dosagem anestésica excessiva. Sua parede abdominal foi retirada em bloco e enviada, para estudo histopatológico, ao laboratório de Anatomia Patológica da UFMG.
  • grupo B: os animais foram mortos após 15 dias com dosagem anestésica excessiva, procedendo-se como no grupo anterior.
  • grupo C: os animais foram mortos após 22 dias com dosagem anestésica excessiva, procedendo-se como nos grupos A e B.
  •  


    Figura 1 - Macroscopia da evolução cicatricial do grupo experimento. Grupo A: após 8 dias. Grupo B: após 15 dias. Grupo C: após 22 dias.

     

     


    Figura 2 - Microscopia do padrão de reepitelização do grupo experimento, parcialmente indicado pelas setas. A: após 8 dias. B: após 15 dias.

     

     


    Figura 3 - Microscopia da reação celular ao fio cirúrgico e à cola sintética. A: reação granulomatosa tipo corpo estranho (seta larga) ao fio cirúrgico (seta fina).B: gotículas de cola biológica (setas) sem reação tecidual específica.

     

    RESULTADO

     

     

    DISCUSSÃO

    As vantagens do uso do cianoacrilato sobre as diversas formas de suturas, principalmente as de pele, já foram relatadas na literatura: ausência de dor, maior rapidez na realização de procedimentos, ausência de pontos, ausência de reação contra corpo estranho no tecido, não há tendência para formação de quelóide, a cicatriz apresenta melhores resultados estéticos1,2,3,5,6,9,14,16, menor custo3,14, ausência de diferença histopatológica4,12,15 e efeito bactericida.

    Há também relatos de desvantagens, como intensa reação inflamatória2,8, absorção por pele e mucosas11, efeitos citotóxicos13, havendo ainda relatos em que a sutura mostrou-se mais efetiva10.

    No presente estudo, foi observado que o uso do adesivo mostrou superioridade em relação à sutura cosmética, além de rapidez do procedimento, facilidade no uso, ausência de diferença histopatológica entre o uso da cola e a sutura e menor tendência à formação de abcessos, o que reafirma os dados obtidos na literatura. Em países subdesenvolvidos, o custo financeiro do uso da cola ainda permanece muito superior, contrariando os relatos da literatura, exceto para pequenas suturas de aproximadamente 3 cm.

    Salienta-se que os dados aqui relatados necessitam de novos estudos com grupos maiores de animais, apesar de os resultados deste experimento terem sido satisfatórios.

     

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