RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 14. 2

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História da Medicina

Bócio endêmico, Baeta Vianna e Juscelino Kubitschek

Endemic goiter, Baeta Vianna and Juscelino Kubitschek

Fernando Araújo

Membro do Conselho Superior da Academia Mineira de Medicina e da Associação Médica de Minas Gerais

Endereço para correspondência

Fernando Araújo
Avenida Bernardo Monteiro, 766
Belo Horizonte-MG CEP: 30150-281
Fone: (0xx31) 3226-6103

Data de Submissão: 26/10/2002
Data de Aprovação: 20/02/2003

Resumo

O bócio endêmico já existia no Brasil quando Pedro Álvares Cabral aqui chegou. Sua ligação etiológica com a deficiência de iodo permaneceu desconhecida no País até sua comprovação, em 1930, pelo professor Baeta Vianna, na Faculdade de Medicina da UFMG. Mas foi somente em 1955 que o médico Juscelino Kubitschek, seu ex-assistente voluntário, assumindo a Presidência da República, decretou a obrigatoriedade da adição de iodo ao sal de cozinha, acabando com o bócio endêmico no Brasil.

Palavras-chave: Bócio endêmico/história; história da medicina; Brasil; pessoas famosas

 

INTRODUÇÃO

Em 1500, Pedro Álvares Cabral descobre o Brasil e entra em contato com os nossos indígenas. Certifica-se de que a saúde desses primitivos habitantes era excelente e as doenças reduzidas ao bócio endêmico, bouba e algumas verminoses, segundo Licurgo1. Eles eram, geralmente, dóceis e pacíficos e aceitavam, com certa passividade, a invasão das suas terras. Poucas tribos resistiram ao aprisionamento e ao serviço forçado nas lavouras, que foram sendo iniciadas. No entanto, após certo período de experiência, os invasores desistiram dessa mão-de-obra indígena e passaram a usar o africano, introduzindo a escravatura negra no nosso país. O indígena, embora fosse mais barato e dócil, foi considerado indolente, preguiçoso e de baixo nível de inteligência, o que tornava seu trabalho improdutivo. Não sabiam que aquela submissão e indolência adivinham da deficiência de iodo naquelas paragens, principalmente nas montanhas. E eles traziam no pescoço a prova disso: o bócio. Por isso, os nossos indígenas passaram a ser dizimados e substituídos pelo negro.

Evvard2, em 1928, descreveu a presença de bócio em animais, citando Berber3, que encontrara idênticos sinais em animais selvagens, como os leões das montanhas Atlas, na África, portadores de bócio endêmico e conhecidos por sua docilidade, covardia e indolência. Citou também Kalkus4 que, em 1920, demonstrara a existência nos Estados Unidos e no Canadá de bezerros, potros, cavalos, cabras, porcos, leitões etc., com bócio e apresentando sinais visíveis de hipotireoidismo, como adinamia, fraqueza, queda de pelos, pálpebras caídas, cabeça baixa, extensão dos pés dianteiros, etc. Muitos chegavam ao cretinismo. Em todas essas regiões foi demonstrada a deficiência de iodo no solo.

Em 1930, quatrocentos e trinta anos após Cabral, em Belo Horizonte, o notável cientista mineiro, José Baeta Vianna, catedrático de Química Fisiológica da Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, apresentou, pela primeira vez na América Latina, um trabalho original e inédito, denominado "Bócio Endêmico em Minas Gerais", demonstrando a relação entre a deficiência do iodo na alimentação e o bócio endêmico. Essa notável pesquisa foi publicada em 1930, nos Anais da Faculdade de Medicina5 e na Revista Brasil-Médico6 e, em 1935, apresentada no Congresso Pan-Americano de Medicina7, no Rio de Janeiro. Nesse histórico trabalho científico, Baeta Vianna chamava a atenção para as conseqüências da disfunção tireoidiana, determinada pela deficiência de iodetos na alimentação, que causava alterações somáticas e intelectuais, responsáveis pela formação de uma triste sub-raça de pessoas tendentes a uma inatividade progressiva por apresentarem reflexos morosos, cansaço fácil, retardo do crescimento e serem vítimas de quedas freqüentes - o que fazia com que procurassem ficar sempre sentadas. Esse cortejo de deficiências levava também à debilidade neuro-psiquiátrica e mesmo à imbecilidade, originando os conhecidos "cretinos", caracterizados pelo retardo mental, lábios grossos, rosto arredondado, semblante abobalhado, submissão e poucas reações emocionais. Era a fusão das raças branca, indígena e negra, originando um grupo de "derreados somática e intelectualmente e, por isso, considerados dóceis, pacíficos e submissos". Os "papos", geralmente luzidios, forçavam o queixo para cima, dando ao seu portador um certo aspecto de imponência, ou caíam sobre o peito, como cordões enrolados. Era, segundo Baeta Vianna5, uma raça inferior que crescia paulatinamente e era altamente danosa à necessidade de desenvolvimento do nosso País. O ilustre professor afirmava que "Entre os grandes problemas epidemiológicos brasileiros que reclamam urgentes medidas profiláticas, o do bócio é dos que ainda não mereceram o devido reconhecimento de parte das autoridades sanitárias".

Baeta Vianna tomou conhecimento prático desse problema durante uma de suas costumeiras viagens de estudos aos Estados Unidos, onde Marine8,9 já preconizava o uso dos iodetos no sal de cozinha, para a profilaxia do bócio naquele país.

O trabalho do professor Baeta5 foi feito em duas cidades mineiras muito conhecidas pelo elevado número de portadores de bócio endêmico: Ouro Branco e Capela Nova (Betim). Feita a dosagem do iodo nos alimentos e na água da região, dados que expressam o teor de iodo do solo, o resultado foi a confirmação da sua deficiência em ambos os municípios. Baeta Vianna chamou, veementemente, a atenção das autoridades sanitárias e publicou suas conclusões em revistas médicas5,6, defendendo a adição do iodo ao sal de cozinha. Falou em congressos7 e reuniões científicas, e não foi ouvido.

Em 1956, 26 anos depois, o mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira, ex-aluno de Baeta Vianna, assume a Presidência da República.

Para mostrar o papel importante de Juscelino Kubitschek nesta história, vamos rememorar alguns passos de sua vida médica, relacionados ao bócio endêmico:

  • Na sua infância de menino pobre em Diamantina, Juscelino freqüentava a residência de dois médicos locais, os doutores Mata Machado e José Eulálio10. Com eles aprendeu a importância das doenças endêmicas, principalmente do bócio, que apelidara um distrito de Diamantina de Arraial dos Papudos. Também com eles conheceu os livros de Monteiro Lobato10, que taxavam o nosso trabalhador rural de preguiçoso, inútil e verdadeiro "peso morto" da sociedade. Segundo esse escritor, "Para um país, então com 21 milhões de habitantes, cerca de dois terços de criaturas eram derreadas no físico e no moral pela ancilostomíase. De opilados passam a idiotas, ou mais vulgarmente papudos". Aquela imagem triste que se fazia dos seus conterrâneos acompanhou o futuro presidente.
  • Juscelino terminou o curso médico em Belo Horizonte, em 1927. Além de suas atividades na Santa Casa, após o término do curso, passou a trabalhar na cadeira de Química Fisiológica da Faculdade de Medicina, com o Professor Baeta Vianna, exatamente no período em que este preparava a sua pesquisa acerca do bócio endêmico. Segundo depoimentos dos professores Carlos Diniz11 e Enio Cardillo Vieira12 - que sucederam Baeta Vianna na Cátedra - o professor falava-lhes freqüentemente da passagem de Juscelino pelo seu laboratório na Faculdade. Da mesma forma, o escritor e colega de turma de Juscelino, Pedro Salles13, escreveu acerca desse período de Juscelino na Faculdade de Medicina: "lamento que ele não tivesse continuado, pois seria um excelente professor".
  • Ao assumir a Presidência da República, Juscelino Kubitschek determinou que fosse feito um estudo acerca do problema do bócio endêmico, encontrando cifras assustadoras em quase todo o país e, em certas regiões - como no Triângulo Mineiro - a presença do bócio em cerca de 55% das crianças ali nascidas. Imediatamente, determinou (Decreto 30.814, de 178 1956) a obrigatoriedade da adição de iodo ao sal de cozinha em todo o país14, conforme aprendera com seu mestre Baeta Vianna. Com essa corajosa medida, que contrariava os pensamentos científicos da época5, no período imediato de três anos, isto é, em 1959, a incidência de bócio em crianças caiu de 55% para 8,7%.
  • A Campanha Nacional Contra o Bócio Endêmico15 foi oficialmente iniciada no dia 20 de janeiro de 1957, na cidade de Cabo Frio - RJ, com a inauguração da primeira usina de sal iodado, junto à salineira local, iniciando a luta pela extinção dessa moléstia humilhante e degeneradora de metade do nosso povo. Nessa ocasião, o Presidente Kubitschek foi saudado pelo governador do estado do Rio, Miguel Couto Filho, Mário Pinotti, diretor do DNERu, Josué de Castro, presidente da Comissão de Saúde da Câmara de Deputados e Henrique Furtado Portugal do Serviço de Endemias de Minas Gerais. Em resposta, o Presidente Kubitschek, afirmou que "o bócio, que atinge 1/5 de nossa população, desaparecerá do nosso País, juntamente com a bouba e outras moléstias"15.

    Ao deixar Presidência da República, três anos após, a incidência de bócio em escolares baixara para 8,7 %. Nos dias de hoje, graças a Baeta Vianna e Juscelino Kubitschek, o bócio endêmico desapareceu do nosso país.

     

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    1- Santos LCF. História geral da medicina brasileira. São Paulo: Editora USP; 1977.

    2- Evvard JM. Iodine deficiency symptoms and their significance in animal nutrition and pathollogy. Am J Surg 1928

    3- Berger apud Evvard JM. Iodine deficiency symptoms and their significance in animal nutrition and pathology. Am J Surg 1928.

    4- Kalkus apud Evvard JM. Iodine deficiency symptoms and their significance in animal nutrition and pathology. Am J Surg 1928.

    5- Baeta Vianna J. Bócio endêmico em Minas Gerais. An Fac Med UFMG 1930 (II).

    6- Baeta Vianna J. Bócio endêmico em Minas Gerais. Brasil_Méd 1935;(48):1067-77.

    7- Baeta Vianna J. Bócio endêmico em Minas Gerais. In: Congresso Pan-Americano de Medicina, 1935, Rio de Janeiro.

    8- Marine D, Kimball OP. The prevention of simple goiter in man. JAMA 1921;1068-78

    9- Marine D. Etiology and prevention of simple goiter. Med 1924;(3):479-89.

    10- Araújo F. Juscelino Kubitschek, o médico. 3a ed. Belo Horizonte: RC Editora; 2002.

    11- Diniz C. Comunicação pessoal. Belo Horizonte; 2003.

    12- Vieira EC. Comunicação pessoal. Belo Horizonte; 2003.

    13- Salles P apud Araújo F. Juscelino Kubitschek, o médico. 3a ed. Belo Horizonte: RC Editora; 2002. p.201.

    14- Brasil. Senado Federal. Decreto 39814 de 12 ago. 1956. Diário Oficial da União 1956 12 ago.

    15- Brasil. Ministério da Saúde. Campanha Nacional contra o Bócio. Diário Oficial da União 1957 22 jan.