RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 13. 4

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Artigos Originais

A Paracoccidioidomicose em pacientes atendidos no hospital das clínicas da UFMG (HC-UFMG)

Paracoccidioidomycosis in patients attended in a university hospital

Cecília Campos Valadares Gontijo1; Renata Silva Prado2; Cláudia L. S. Neiva3; Ricardo Miguel Freitas2; Fábio Luis Silva Prado1; Ana Rosa A. Pereira4; Ivie Braga Paula5; Enio Roberto Pietra Pedroso6

1. Acadêmico do 8º período da Faculdade de Medicina da UFMG
2. Especialista em Clínica Médica
3. Especialista em Clínica Médica e Reumatologia
4. Residente em Clínica Médica do Hospital Semper
5. Especialista em Radiologia
6. Professor Titular do Departamento de Clínica Médica da FM-UFMG, Doutor em Medicina pelo Curso de Pós- Graduaçao em Medicina Tropical da UFMG Centro de Treinamento e Referência em Doenças Infecto-Parasitárias (CTR-DIP) da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte

Endereço para correspondência

Cecília Campos Valadares Gontijo
R. Muzambinho, 208, - Anchieta
Belo Horizonte, MG CEP.: 30310-280
E-mail: dracica@bol.com.br

Resumo

A paracoccidioidomicose (PCM) é a infecçao fúngica sistêmica de maior prevalência na América Latina. Sua real prevalência, entretanto, nao é conhecida, pois nao é de notificaçao compulsória. Foram analisados, retrospectivamente, 74 pacientes com PCM atendidos no HC, entre 1975 e 2001. As informaçoes foram analisadas através do aplicativo EPIINFO 6.04. Os pacientes apresentaram a seguinte distribuiçao: 1) 54 (73%) eram homens; 2) 43 (58,1%) residiam em áreas urbanas e 26 (35,1%) em áreas rurais de MG; 3) 47 (63,5%) relataram contato com área rural; 4) 28 (37,8%) eram lavradores, 19 (25,7%) eram prestadores de serviços em áreas urbanas, 15 (20,3%) eram estudantes, 6 (8,1%) eram "do lar" e 4 (5,4%) eram domésticas; 5) 31 (41,9%) eram feodérmico, 21 (28,4%) eram leucodérmicos, e 19 (25,7%) melanodérmicos.

Palavras-chave: Paracoccidiomicose, blastomicose sul americana

 

INTRODUÇAO

A paracoccidioidomicose (PCM), descrita pela primeira vez por Adolpho Lutz, em 19081, no Brasil, é a infecçao fúngica sistêmica, causada pelo Paracoccidioidis brasiliensis2, de maior prevalência na América Latina, com cerca de dez milhoes de pessoas infectadas3 e pelo menos 2% delas com potencialidade de desenvolverem a doença.4

A maioria dos casos ocorre no Brasil, principalmente nas regioes Sul e Sudeste, onde alguns estados como Sao Paulo, Minas Gerais, Paraná, Goiás, e Rio Grande do Sul sao considerados áreas endêmicas.5 Ainda nao foi possível a delimitaçao dessas áreas, embora os fatores gerais climáticos e fisiográficos determinantes da sua extensao em alguns países sejam conhecidos.6 Observa-se que o P. brasiliensis habita, preferencialmente, regioes com grande umidade, temperaturas amenas, vegetaçao abundante e elevados índices pluviométricos.7

A PCM nao é de notificaçao compulsória, nao sendo possível estabelecer sua prevalência em bases reais. Os dados disponíveis se baseiam em informaçoes colhidas em publicaçoes feitas independentemente por várias instituiçoes localizadas nas regioes de endemia. Trata-se, principalmente, da descriçao das formas disseminadas da doença, o que exclui 30% a 40% dos casos que apresentam formas de localizaçao exclusivamente pulmonar. Além disso, há falta absoluta de dados em vastas regioes do continente, devido, principalmente, à carência de suporte micológico para seu diagnóstico.8

Nao se comprovou a transmissao inter-humana da PCM, admitindo-se que a infecçao ocorra após exposiçao acidental ao P. brasiliensis em seu microambiente.2 Acredita-se que o pulmao represente a sua principal porta de entrada por meio de inalaçao de estruturas do fungo e, a partir daí, ocorra a disseminaçao sistêmica pela corrente sangüínea e/ou linfática.7

 

OBJETIVO

Descrever os dados clínico-epidemiológicos da identificaçao de pacientes adultos atendidos no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, isto é, sexo, procedência, contato com área rural, profissao e cor.

 

MÉTODO

Foram analisados, retrospectivamente, 74 pacientes com PCM atendidos no HC entre 1975 e 2001. A coleta das informaçoes foi realizada em protocolo padronizado e os dados foram obtidos no Sistema de Arquivo Médico e Estatístico (SAME) do HC - UFMG e analisados no aplicativo EPIINFO 6.04.

 

RESULTADOS

A identificaçao dos pacientes revelou a seguinte distribuiçao: 1) em relaçao ao sexo: 54 eram masculinos (73%) (Gráfico 1), evidenciando relaçao homem/mulher de 2,7/1; 2) em relaçao à moradia: 47 pacientes (82%) viviam exclusivamente na área rural, enquanto 10 (18%) moravam em cidades. Cerca de 17 pacientes nao possuíam dados (Gráfico 2), evidenciando relaçao moradia em área rural/área urbana em 4,6/1.

 


Gráfico 1 - Identificaçao dos pacientes em relaçao ao sexo

 

 


Gráfico 2 - Identificaçao dos pacientes evidenciando a relaçao moradia em área rural/área urbana

 

3) Em relaçao à profissao: 28 pacientes (37,8%) eram lavradores, 15 (20,3%) eram estudantes, 6 (8,1%) eram "do lar", 4 (5,4%) domésticas, 19 (25,7%) eram prestadores de serviços (eletricista, vigia, costureira, motorista, construtor civil, alfaiate, biscateiro, aposentado). Dois pacientes (2,7%) nao tinham registro de profissao (Gráfico 3), evidenciando relaçao entre lavradores para outras atividades profissionais de 0,63/1.

 


Gráfico 3 - Identificaçao dos pacientes em relaçao à profissao

 

4) Em relaçao à cor: 31 (41,9%) pacientes eram feodérmicos, 21 (28,4%) eram leucodérmicos, e 19 (25,7%) eram melanodérmicos. Nao foi mencionada no prontuário a cor de três pacientes (Gráfico 4).

 


Gráfico 4 - Identificaçao dos pacientes em relaçao à cor

 

Evidenciou-se relaçao entre negros e nao-negros de 0,36/1.

 

DISCUSSAO

A PCM apresentou distribuiçao de 2,5 homens para 1 mulher. A principal justificativa parece relacionada ao fato de o homem executar trabalhos que o conduzem a maior contato com o solo.8 Também deve ser levado em conta que a mulher é menos susceptível à doença por fatores hormonais, que exercem papel protetor, possivelmente pela açao do estrógeno como potencializador da resposta imune celular.6 Segundo Martinez1, até a puberdade, a incidência da moléstia é igual para ambos os sexos, contudo, na idade adulta, cerca de 2/3 dos pacientes sao do sexo masculino, de acordo com a observaçao aqui descrita.

Na amostra aqui analisada, cerca de 58,1% dos pacientes residem em regioes urbanas do estado de Minas Gerais. Apesar disso, 47 pacientes (63,5%) relataram contato com a área rural. A PCM é reconhecidamente doença que necessita de contato com área rural, entretanto cresce o número de casos que procedem de zonas suburbanas e urbanas, o que pode representar emergência de características epidemiológicas novas para o P. brasiliensis. A PCM nao se limita a lavradores. Vários indivíduos de profissoes diversas sao também acometidos por ela.1

Os lavradores, entretanto, foram os mais atingidos, representando 37,8% da amostra. Esse achado é coerente com a literatura, segundo a qual a grande maioria dos contaminados com o P. brasiliensis exercem, ou já exerceram, alguma atividade agrícola.8

A doença acometeu indivíduos feodérmicos em maior proporçao (41,9%), vindo em segundo lugar os leucodérmicos (28,4%) e, por último, os melanodérmicos (25,7%). De acordo com Londero8, nao se pode fazer avaliaçao de incidência da micose ativa nos diferentes grupos raciais, pois sao desconhecidas suas proporçoes nas populaçoes estudadas. Presume-se que nao haja preponderância de raças, embora seja conhecida a gravidade da doença entre imigrantes asiáticos no Brasil. Uma possível explicaçao para esse fenômeno é que a falta de exposiçao prévia ao microorganismo torna estes indivíduos altamente susceptíveis à PCM.6

A avaliaçao dos pacientes aqui apresentados reforça os dados disponíveis de que a PCM é doença preferivelmente de homens, feodérmicos, residentes em área urbana e lavradores.

 

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

1- Martinez R. Paracoccidioidomicose: epidemiologia e ecologia. In: Veronesi R, Focaccia R, editores. Tratado de infectologia. Rio de Janeiro: Atheneu; 1997. p.1080-3.

2- Lacaz CS. Paracoccidioids brasiliensis: morfologia, ciclo evolutivo, manutençao em vida saprofítica, biologia, posiçao sistemática. In: Del Negro G, Lacaz CS, Fiorillo A M. Paracoccidioidomicose Blastomicose Sul Americana. Sao Paulo: Sarvier; 1982. p.11-21.

3- Mcewen JG, Garcia AM, Ortiz BL, Botero S, Restrepo P. In search of the natural habitat of Paracoccidioids brasiliensis. Arch Med Res 1995;26:305-6.

4- Lacaz CS. Paracoccidioidomicose. In: Lacaz CS, Porto E, Martins J E C. Micologia médica. Sao Paulo: Sarvier; 1991. p.248-97.

5- Almeida OP, Jorge J, Scully C, Bozzo L. Oral manifestations of paracoccidioidomycosis (South American blastomycosis). Oral Surg Oral Med Oral Pathol 1991;72:430-5.

6- Handan JS, Rocha RI. Epidemiologia da Paracoccidioidomicose. An Fac Med UFMG 1987;36(1/2):52-61.

7- Oliveira PT, Yurgel LS, Lorandi CS, Moraes ACS. Estudo de 54 casos de paracoccidioidomicose no Serviço de Estomatologia do Hospital Sao Lucas da PUC-RS. Rev Med PUC-RS 1997;7(4):161-6.

8- Londero AT. Epidemiologia. In: Del Negro G, Lacaz CS, Fiorillo AM. Paracoccidioidomicose Blastomicose Sul America. Sao Paulo: Sarvier; 1982. p.85-90.