RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 13. 4

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Artigos Originais

Relação entre abortamento e desenvolvimento de doenças da tireóide

Relationship between abortion and development of thyroid disease

Luiz Ronaldo Alberti1; Raquel Del-Fraro Rabelo2; Paulo Henrique Duarte2; Andy Petroianu3

1. Residente de Cirurgia Geral do Hospital Júlia Kubitschek - FHEMIG
2. Acadêmicos da Faculdade de Medicina - UFMG
3. Professor Titular do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina - UFMG, Docente Livre da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP, Docente Livre da Escola Paulista de Medicina - UNIFESP, Doutor em Fisiologia e Farmacologia, Pesquisador IA do CNPq

Endereço para correspondência

Prof. Andy Petroianu
Av. Afonso Pena, no 1626/1901
CEP 30130-005, Belo Horizonte - Minas Gerais
Fone(FAX): (31) 3274-7744
E-mail: petroian@medicina.ufmg.br

Instituto Alfa de Gastroenterologia - Hospital das Clínicas Universidade Federal de Minas Gerais Av. Alfredo Balena, no 190, CEP 30130-100 Belo Horizonte - Minas Gerais.

Resumo

OBJETIVO: As afecções da tireóide estão relacionadas a complicações de fertilidade, gravidez e puerpério, com destaque para um aumento na incidência de abortamentos. Esta complicação pode ser, em parte, conseqüência de os hormônios da tireóide e sexuais femininos possuírem uma mesma subunidade estrutural. Dada a importância dos abortamentos na prática médica, o objetivo do presente trabalho foi avaliar uma possível associação entre essa complicação gestacional e o desenvolvimento de afecções da tireóide.
MÉTODOS: Estudo retrospectivo realizado com pacientes dos ambulatórios da Santa Casa de Belo Horizonte, divididas em dois grupos: Grupo 1 (n=53): pacientes com doença da tireóide após o período reprodutivo, subdivididas em hipotireóideas (n=28) e hipertireóideas (n=25); Grupo 2 (n=60): pacientes sem doença da tireóide. Foram avaliados como parâmetros: idade atual, idade da primeira gravidez, número de gestações, presença de hiper ou hipotireoidismo, época da menarca e história gestacional, além de comorbidades pessoais e familiares. Os dados foram comparados pelo teste qui-quadrado, com significância para valores correspondentes a p< 0,05.
RESULTADOS: a incidência de abortamentos no Grupo 1 foi de 43,3% (23 mulheres), com uma prevalência de 46,4% entre as hipotireóideas e de 40,0% entre as hipertireóideas. No Grupo 2, houve 24 (40,0%) pacientes com abortamentos. Os dados não mostraram diferenças entre as pacientes hipotireóideas ou hipertireóideas e mulheres sem afecção tireóidea.
CONCLUSÃO: O presente estudo não encontrou associação entre a história gestacional de abortamento e o desenvolvimento de doenças tireóideas após o período reprodutivo.

Palavras-chave: Tireóide, abortamento, gravidez, hipertireoidismo, hipotireoidismo

 

INTRODUÇÃO

Segundo a literatura, afecções da tireóide estão relacionadas a complicações da fertilidade, gravidez e puerpério1-6, Além de um aumento na incidência de abortamentos. Estudos com vista a essa associação constataram que os hormônios do eixo hipotálamo-hipofisário que agem sobre a função tireoidiana e sexual feminina possuem a mesma subunidade estrutural, denominada hormônio tireotrófico-alfa (TSH-α) ou subunidade a do hormônio luteinizante (LH) e do hormônio folículo-estimulante (FSH). Essa molécula também se assemelha à gonadotrofina coriônica humana-alfa (HCG-α). É possível que essa semelhança entre o TSH e o HCG possa influenciar a atividade tireóidea no início da gravidez, com a presença de um aumento da tetraiodotironina (T4).7,8,9 O efeito do HCG sobre a tireóide pode ser evidenciado em pacientes com gravidez molar e outras doenças trofoblásticas, que cursam com altos níveis de HCG e apresentam hipertireoidismo bioquímico.

Há evidências de que as doenças auto-imunes da tireóide tendem a melhorar durante o período gestacional, seguindo-se uma piora após o parto.10,11 De acordo com a literatura, a imunidade celular e humoral estão deprimidas durante a gravidez normal, ocorrendo diminuição dos linfócitos T helper (CD4+) e aumento dos linfócitos T citotóxicos (CD8+).12,13,14,15

As doenças da tireóide não são uma barreira para a concepção, mas afetam a fertilidade, devido à alta prevalência de ciclos anovulatórios. Existem poucas informações sobre a evolução da gravidez em pacientes com hipotireoidismo não tratado, porém complicações estão relacionadas com a gravidade do hipotireoidismo materno, taxas aumentadas de parto prematuro, anomalias congênitas, anemia, pré-eclâmpsia e placenta prévia, além de um número aumentado de partos por cesariana.11,13,15

Os abortamentos espontâneos destacam-se entre as complicações gestacionais.1,3,5 Wilcox et al16 analisaram, diariamente, urinas coletadas de 221 mulheres saudáveis e detectaram perdas fetais em 31% delas. Entretanto, existe controvérsia com relação às incidências dessas perdas. Há uma grande variedade de etiologias para esses abortamentos, incluindo alterações genéticas, anatômicas, hormonais e infecciosas, além de influência ambiental. Há também um número significativo de casos cuja etiologia permanece desconhecida, principalmente quando o abortamento é precoce, mesmo antes da evidência clínica de gravidez. Uma das principais causas conhecidas de abortamento espontâneo é a reação imunológica contra o embrião. Os anticorpos envolvidos nesse processo poderiam também estar na etiopatogênese de afecções autoimunes da tireóide. Estas últimas decorrem de liberação exagerada de antígenos tireóideos em algum momento da vida reprodutiva.

Portanto, é possível que desordens hormonais do sistema reprodutivo influenciem diretamente a regulação dos hormônios da tireóide e vice-versa.9,10,13 Constatando-se esse aparente hiato na literatura e a necessidade de se conhecer melhor tal associação, o objetivo deste trabalho foi avaliar eventual relação entre a incidência de abortamento e o surgimento de afecções da tireóide.

 

CASUÍSTICA E MÉTODO

O presente estudo foi realizado de acordo com as recomendações das Declarações de Helsinque e foi aprovado pela Comissão de Ética da UFMG.11

Foram estudadas retrospectivamente 113 pacientes atendidas nos ambulatórios de Endocrinologia da Santa Casa de Belo Horizonte, no período de janeiro de 2001 a janeiro de 2002. Essas pacientes foram divididas em dois grupos:

• Grupo 1 (n=53): pacientes acima de 40 anos com doença da tireóide no período pós-reprodutivo, pertencentes ao Serviço de Endocrinologia e Metabologia, com comprovação da moléstia tireóidea e que foram subdivididas em hipotireóideas (n=28) e hipertireóideas (n=25).

• Grupo 2 (n=60): pacientes também acima de 40 anos, sem doença da tireóide, com base em exame clínico e complementar.

Os dados foram coletados por meio de entrevista com as pacientes. A veracidade dos dados foi estimulada pela garantia de sigilo. Pesquisaram-se os seguintes parâmetros: idade atual, idade da primeira gravidez, número de gestações além da presença de hipertireoidismo ou hipotireoidismo, história gestacional e comorbidades pessoais.

Foram excluídas as pacientes em que não se obteve com exatidão os parâmetros propostos e também as pacientes que relataram dúvida em suas respostas. Os resultados foram comparados por meio do teste qui-quadrado. As diferenças foram consideradas significativas para valores correspondentes a p< 0,05.

 

RESULTADOS

A Tabela 1 mostra dados relativos à história reprodutiva das pacientes avaliadas.

 

 

Nota-se uma média maior de filhos nas pacientes com relato de abortamento tanto para o grupo de tireoideopatas quanto para o grupo controle. Não houve diferenças na incidência de abortamentos entre os grupos 1 (43,3%) e 2 (40,0%). Observa-se número ligeiramente maior de abortamentos entre as pacientes com hipotireoidismo (46,4%), do que naquelas com hipertireoidismo (40,0%).

O número médio de filhos foi maior entre as pacientes do grupo controle com relato de abortamentos. Existe também ampla variedade das idades da primeira gestação em ambos os grupos.

Entre as mulheres que relataram abortamento no Grupo 1, havia história familiar direta de abortamento em 60% das hipertireóideas e em 54% das hipotireóideas. Por outro lado, entre as mulheres nas quais não se verificou abortamento, a história familiar de abortamento esteve presente em 53,3% das hipertireóideas e em 20% das hipotireóideas. Portanto, verifica-se significativa associação de abortamento familiar nas pacientes hipotireóideas, que também tiveram gestação interrompida naturalmente.

A Tabela 2 registra as comorbidades atuais mais freqüentes no Grupo 1.

 

 

Observa-se maior número de pacientes com hipertensão arterial sistêmica e diabetes melito tanto para as hipotireóideas quanto para as hipertireóideas. Observa-se que houve incidência maior de abortamentos em pacientes que desenvolveram essas afecções posteriormente. Não se notou associação com significância estatística entre as outras comorbidades encontradas e as doenças específicas do sistema endócrino em estudo.

 

DISCUSSÃO

Foram estudadas mulheres com mais de 40 anos, pois a partir dessa idade a incidência de doenças de tireóide é mais elevada (idade reprodutiva tardia ou pós-reprodutiva). Dessa forma, poderiam ser detectadas afecções da tireóide eventualmente subestimadas na época da gravidez. No presente estudo, não se encontrou relação estatisticamente significativa entre abortamento e desenvolvimento de hipertireoidismo ou hipotireoidismo após o período fértil. Entretanto, não encontramos na literatura qualquer estudo que avaliasse o risco de se desenvolver doença tireoidiana baseando-se em complicações da gravidez, apenas se atribui ao hipotireoidismo um papel importante no abortamento.3,7 De fato, alguns estudos têm relatado risco aumentado de abortamento apenas na presença de anticorpos materno, independentemente de idade e do padrão tireóideo funcional, o que sugere incidência aumentada de abortamento apenas no contexto de desordens imunológicas maternas e não com a presença somente de doença tireóidea por si só. Um outro dado que sustenta tal hipótese é o fato de a terapia com reposição hormonal de T4 não mostrar benefícios no sentido de diminuir as perdas fetais e de a maioria das mulheres não apresentar evidências bioquímicas de disfunção glandular.18 Apesar de não termos encontrado incidência aumentada de abortamentos nas pacientes que vieram a ter disfunção tireóidea após o período conceptivo, ou que pelo menos não evidenciavam tal afecção clínica e laboratorialmente, é prudente considerar que a deficiência tireóidea materna, durante a gravidez, correlaciona-se com prejuízo para o desenvolvimento neuropsicomotor da criança.1, 18,19

Percebe-se, ainda, que as afecções da tireóide não interferiram de forma evidente no número de filhos. A literatura é muito controversa com respeito a essa relação, tendo em vista o número maior de ciclos anovulatórios em tireoideopatas; contudo, esse fato não influenciou o total de gestações.14,15 É importante ressaltar que outros fatores, como o uso de métodos contraceptivos, causas econômicas, além de fenômenos ambientais e sociais, podem influenciar nas taxas de fertilidade, dificultando uma análise mais acurada. O fato de terem ocorrido abortamentos também não interferiu no número global de gestações a termo.

As comorbidades mais freqüentemente encontradas estão de acordo com suas prevalências na população da faixa etária estudada. Segundo a literatura, a presença de uma desordem endócrina auto-imune está associada a aumento da possibilidade de se desenvolver uma outra doença auto-imune. Isso explica a associação encontrada com o diabetes melito.17 Houve incidência maior de hipertensão arterial sistêmica nas pacientes com tireoidopatias. Esse achado está de acordo com a literatura, que mostra uma ocorrência maior de tal afecção na presença de doenças da tireóide, principalmente hipotireoidismo.14

A idade da primeira gravidez não parece estar relacionada com a ocorrência de abortamentos ou o desenvolvimento de doenças tireóideas, pois não houve diferença entre os grupos e subgrupos avaliados.

 

CONCLUSÃO

De acordo com os resultados desta pesquisa, não houve relação causal entre a história de abortamento e o desenvolvimento de doenças tireóideas após o período fértil.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem ao CNPq e à FAPEMIG pelos auxílios financeiros que permitiram a realização deste trabalho.

 

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