RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 13. 4

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História da Medicina

Retrospectiva histórica dos 50 anos da faculdade de medicina do triângulo mineiro

A fifty year historical retrospective the triangulo mineiro medical school

Maria Antonieta Borges Lopes1; Edmundo Chapadeiro2

1. Historiadora, formada pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santo Tomás de Aquino, de Uberaba, MG. Estagiária do Departamento de História da UFMG, em 1968. Membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro
2. Professor Emérito da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro e Membro da Academia Mineira de Medicina

Endereço para correspondência

FMTM Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro
Rua Frei Paulino, 30
38025-180 Uberaba - MG

Resumo

O texto aborda a evoluçao histórica da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, situando-a no contexto histórico e político que justificou sua fundaçao como escola privada, sua federalizaçao e sua transformaçao em autarquia federal. Analisa a criaçao do regime de tempo integral, desde o início de sua instalaçao e as soluçoes aventadas para o problema do ensino das cadeiras clínicas, através de convênios com entidades hospitalares, até a construçao do Hospital Escola. Finalmente, destaca a importância da pesquisa e da pós-graduaçao na qualificaçao dos docentes da Instituiçao e para a soluçao de problemas regionais na área de saúde.

Palavras-chave: Faculdade de medicina do triângulo mineiro/história, história da medicina, escolas médicas/história.

 

Este artigo tem como objetivo fazer uma retrospectiva histórica da trajetória da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (FMTM), por ocasiao das comemoraçoes do seu cinqüentenário, iniciadas em 27 de abril p.p., com uma homenagem aos seus dezoito fundadores e ao primeiro diretor, Dr. Mozart Furtado Nunes.

Ao mesmo tempo, tem a intençao de propor ou provocar reflexao mais aprofundada sobre o papel e a contribuiçao dada por uma Faculdade de Medicina interiorana, para o progresso do ensino médico e da pesquisa na área de Saúde, em nosso país.

 

ANTECEDENTES

Lançando um olhar retrospectivo sobre as diversas iniciativas tomadas em Uberaba no campo da educaçao superior, num passado remoto, podemos observar as inúmeras tentativas frustradas de aqui se instalar e manter algumas Faculdades:

entre 1885 e 1899, funcionou o Instituto Zootécnico que formou uma única turma de engenheiros agrônomos, sendo o seu funcionamento suspenso, a seguir, pelo governo estadual.1
entre 1927 e 1934, funcionaram uma Escola de Odontologia e Farmácia e uma de Direito, esta de vida ainda mais efêmera.2

Em meados do século XX, especialmente no campo da Medicina, a cidade já era considerada um centro avançado. Desde 1927, fora criada uma Sociedade Médica que, a partir de 1947, tomou a iniciativa de realizar por quatro anos o Congresso do Triângulo Mineiro (Uberaba, Uberlândia, Araxá e, novamente, Uberaba). Em 1951, com a realizaçao do 5º Congresso em Goiânia, o nome foi mudado para "Congresso Médico do Triângulo Mineiro e Brasil Central", como propósito de incluir Goiás e Mato Grosso. A presença de importantes professores e profissionais dos grandes centros do país nesses congressos e o bom número de trabalhos científicos neles apresentados, especialmente sobre o "mal de Chagas", comprovam o caráter pioneiro da cidade de Uberaba, nesse campo de estudo e pesquisa.3

A regiao triangulina foi, também, pioneira nas campanhas de profilaxia da doença de Chagas. Em 1949/1950, ocorreu na regiao um movimento no sentido de se iniciar uma ampla campanha de combate à doença e ao inseto transmissor. Em 7 de maio de 1950, é lançada em Uberaba a "Campanha Nacional contra o mal de Chagas", que teve repercussao internacional, como comprova a vinda do famoso professor argentino, Cecílio Romaña, para conhecer, em detalhes, aquela proposta.4

 

A FUNDAÇAO E A INSTALAÇAO DA FMTM

Existem várias versoes para explicar o nascimento da FMTM. Apesar de algumas divergências entre elas, há consenso em alguns aspectos: a Faculdade nasceu sob a égide da política: foi um fato político partidário, gestado pelas lideranças do Partido Social Democrata (PSD) e Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Havia, entao, descontentamentos latentes na sociedade uberabense, em relaçao à política tributária do Estado de Minas Gerais, governado, entre 1950 e 1954, por Juscelino Kubitschek de Oliveira, declaradamente candidato à sucessao de Getúlio Vargas, na Presidência da República, pela aliança daqueles dois partidos. Ao mesmo tempo, crescia na cidade o número de adeptos da candidatura do paulista Ademar de Barros, do Partido Social Progressista (PSP).

O governador decide, entao, realizar uma sondagem para conhecer os maiores anseios dos uberabenses, através de consulta às associaçoes de classe da cidade. Isso lhe forneceria as bases para estudar as possibilidades de satisfazê-los. Em início de abril de 1953, o Governador reuniu-se na Associaçao Comercial e Industrial de Uberaba (ACIU) com essas lideranças, que lhe confirmaram que uma de suas reivindicaçoes era a criaçao de uma Faculdade de Medicina, pois a cidade, considerada como um centro médico avançado, almejava tornar-se uma "cidade universitária".

As primeiras conquistas nesse sentido já haviam sido obtidas pela açao do deputado Mário Palmério, presidente da Sociedade de Educaçao do Triângulo Mineiro, que criara, em 1947 e 1951, respectivamente, as Faculdades de Odontologia e de Direito. As Irmas Dominicanas instalaram, em 1948, a primeira Escola de Enfermagem e, em 1949, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras "Santo Tomás de Aquino", em Uberaba.

A proposta do governador Juscelino Kubitschek de Oliveira, feita inicialmente através do deputado Mário Palmério e de seu correligionário político, Lauro Fontoura, foi clara: daria apoio ao grupo de 18 profissionais, (16 médicos, um político e um advogado) para criar uma Faculdade de Medicina privada, mantida pela Sociedade Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, oficialmente fundada em reuniao de 27 de abril de 1953. Em seguida, com a aprovaçao pela Assembléia Legislativa, doou-lhe, para constituir o seu patrimônio inicial, o prédio da Penitenciária do Estado (Figura 1), que se tornaria a futura sede da FMTM, e 20 milhoes de cruzeiros em títulos da dívida do Estado, cujos juros serviriam para sua manutençao.

 


Figura 1 - Prédio Histórico da FMTM em três momentos.

 

Estava dado o passo inicial e fundamental para a criaçao da FMTM. Na mesma reuniao de 27 de abril, foram escolhidos para presidente da Sociedade, Dr. Lauro Savastano Fontoura, e para diretor da Faculdade, Dr Mozart Furtado Nunes.

Participaram da reuniao e assinaram a ata os seguintes fundadores: Alfredo Sebastiao Sabino de Freitas, Allyrio Furtado Nunes, Antonio Sabino de Freitas Júnior, Carlos Smith, Fausto da Cunha Oliveira, Hélio Angotti, Hélio Luiz da Costa, Joao Henrique Sampaio Vieira da Silva, Jorge Abrahao Azôr, Jorge Henrique Marquez Furtado, José de Paiva Abreu, José Soares Bilharinho, Lauro Savastano Fontoura (advogado), Mário de Ascençao Palmério (professor e político), Mozart Furtado Nunes, Odon Tormim, Paulo Pontes, Randolfo Borges Júnior.

A autorizaçao para funcionamento, assinada pelo Presidente da República, Getúlio Vargas, e pelo Ministro da Educaçao, Antonio Balbino, se deu através do Decreto nº 35.249, de 24 de março de 1954.

Ao divulgar esse fato, o jornal local "Lavoura e Comércio", em sua ediçao de 1º de abril de 1954, lançou pioneiramente, em manchete de primeira página, a idéia de se partir "Rumo a Universidade".

Obtida a autorizaçao para funcionamento em março de 1954, o Conselho Técnico Administrativo (CTA) convocou e realizou o primeiro exame vestibular, no qual se inscreveram 168 candidatos, de diferentes estados do país, sendo aprovados 52.

A aula inaugural, proferida em 28 de abril, pelo governador do estado, Juscelino K. de Oliveira, realizou-se no salao nobre da Faculdade de Odontologia do Triângulo Mineiro. Nas instalaçoes desta mesma Faculdade, foram ministradas as aulas durante o ano de 1954, enquanto se processava a reforma do prédio da Penitenciária do estado, para transformá-lo em Escola de Medicina. Daí teria nascido a frase atribuída ao Presidente Juscelino: "ainda farei desta cadeia uma grande faculdade", um local onde, segundo um dos primeiros professores, Monsenhor Juvenal Arduini "as algemas foram substituídas pelo bisturi".

Durante o ano de 1953 e início de 54, o diretor Mozart Furtado perambulara pelo eixo Rio - Sao Paulo - Belo Horizonte, em busca de professores para a FMTM. Através de contatos com o professor de Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade de Sao Paulo (USP), Renato Lochi, foi encaminhado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde conheceu os professores Liberato Di Dio, Luigi Bogliolo e Baeta Vianna. Aí surgiu a oportunidade para contratar os primeiros professores: Edmundo Chapadeiro, Olavo Soares Andrade, Sales Jesuíno Oliveira e Allyrio Furtado Nunes, este último transferido de Goiânia. Posteriormente, vindos do Rio, a eles se juntaram: César Pinto, Mauritano Rodrigues Ferreira, Francisco Mauro Guerra Terra e Pedro Falcao. Todos formaram o grupo inicial das cadeiras básicas, contratados em regime de tempo integral. Alguns anos após, o Diretor Mozart Furtado trouxe, para compor o corpo docente da área clínica, Josefino Aleixo de Belo Horizonte e Homero Pinto Valada, de Sao Paulo.

Sobre este trabalho de procura e contrataçao dos primeiros professores, assim se expressou o Diretor Mozart Furtado Nunes: "Quando aceitei a incumbência de organizar e dirigir a Faculdade, impus uma condiçao:"carta branca" para constituir o corpo docente e liberdade de açao. Condiçao aceita. A responsabilidade era toda minha. Um dos médicos mais antigos de Uberaba, eu me sentia com conhecimentos relativamente a todos os colegas. (...) Comecei meu trabalho de convites. Nao considerei amizades, simpatias ou antipatias. (...) Começou a luta pela constituiçao definitiva do corpo docente. Alguns colegas, por motivos que sempre recebi como justos, deixaram de assumir "suas cadeiras".

(...) Como resultado do estudo de diversos regimentos de faculdades de medicina,(...) do contato com professores de toda parte do país, (...) e de demorada análise da situaçao do ensino médico, senti que, em uma cidade como Uberaba, ainda sem vivência dos problemas universitários, exigindo pesadas improvisaçoes, tendo que lutar com a falta de recursos, (...) pelo menos algumas cadeiras básicas precisavam ser ocupadas sob o regime de tempo integral. De início, eu mesmo me apavorei diante da idéia, tao longe e aérea, em face de nossas modestíssimas possibilidades. Foi necessário recorrer a uma incomensurável dose de otimismo e a uma coragem quase temerária para persistir na resoluçao".5

Na época, havia poucos professores qualificados disponíveis. Apesar de nao possuir uma formaçao universitária, o convívio com os professores Velho da Silva e os irmaos Alvaro e Miguel Osório de Almeida, no Rio de Janeiro, dera ao Dr. Mozart Furtado Nunes a antevisao da importância de se batalhar para a instalaçao do regime de tempo integral, numa faculdade particular e localizada no sertao. Isso seria fundamental para que ela nascesse nao como mais uma escola de medicina, mas como uma escola de medicina de qualidade. O regime de tempo integral foi, portanto, um elemento que diferenciou a FMTM de outras instituiçoes privadas.

 

OS PRIMEIROS TEMPOS COMO INSTITUIÇAO PRIVADA (1954- 1960)

O regime de tempo integral, considerado eixo fundamental do progresso do ensino médico, tornou-se o alicerce da FMTM, fato que provocava admiraçao e estranheza, devido às dificuldades para mantê-lo. Mas, também lhe abriu caminho para obter futuros recursos, como os da Fundaçao Rockfeller e da COSUPI, com os quais, a partir de 1957, foram mais bem equipados os laboratórios das cadeiras básicas, permitindo-lhes planejar e construir novas acomodaçoes.

Os recursos disponíveis eram parcos, mas preciosos. Além das anuidades pagas pelos alunos (irrisórias para as despesas de uma escola médica) e da renda das apólices do estado, foi necessário um permanente trabalho para obtençao de mais recursos junto ao MEC e em outras fontes. Através do Ministro da Educaçao, Clóvis Salgado, garantiu-se uma dotaçao de 5 milhoes de cruzeiros durante cinco anos. Em 1959, conseguiu-se uma verba do Ministério da Saúde, através de emenda no Senado, para o Hospital da Associaçao de Combate ao Câncer do Brasil Central (ACCBC), uma das unidades que já funcionava como hospital-escola.

 

A "OPERAÇAO MED"

As vésperas de 1959, ano da formatura da primeira turma, o Centro Acadêmico Gaspar Vianna (CAGV), órgao representativo dos alunos, fundado em 1954, empreendeu uma grande campanha entre alunos, pais de alunos, professores e a comunidade uberabense para uma ampla remodelaçao do prédio da FMTM, que se apresentava inadequado para a instalaçao de novas disciplinas e laboratórios (Fig.1), tendo como idealizador e grande líder o Prof. Mauritano Rodrigues Ferreira. A reforma, que transcorreu durante todo o ano de 1959, ficou conhecida como "OPERAÇAO MED" e se tornou um motivo de grande orgulho para os alunos de todos os tempos (Figura 2).

 


Figura 2 - Alunos envolvidos na "Operaçao MED".

 

A Lei Municipal nº 5.346, de 19 de maio de 1994, decretou o tombamento do prédio da antiga Penitenciária do estado, depois transformado em instituiçao de ensino, devido à sua importância histórica e arquitetônica, pois, apesar das adaptaçoes que sofreu, sua estrutura e estilo primitivos foram mantidos (Figura 1).

 

A CAMPANHA DA FEDERALIZAÇAO: O PAPEL DO CAGV

Entre 1956 e 1960, o diretor, os professores e alunos empenharam-se duramente na luta pela federalizaçao da Escola, cientes de que esta seria a única condiçao de sobrevivência da FMTM, dadas as dificuldades financeiras crescentes e a impossibilidade de obter recursos para criar e manter um hospital de clínicas.

Em março de 1956, através de "O Epíplon" - órgao noticioso oficial do Centro Acadêmico - o primeiro presidente, Wander Magalhaes Moreira, lançava a campanha da federalizaçao da Escola como "o objetivo máximo do CAGV". Esta campanha estendeu-se, através de avanços e recuos, obstáculos e grandes exemplos de solidariedade, pelos anos de 1956 a 1960, ano da federalizaçao.

Por ocasiao das festas do 1º Centenário da cidade de Uberaba, em maio de 1956, e da visita oficial do Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira à Exposiçao Feira Agropecuária, o CAGV entregou-lhe ofício, assinado por todos os alunos, solicitando-lhe que completasse a sua obra, federalizando a FMTM e enfatizando a urgência da medida. O presidente visitou as dependências do Centro Acadêmico e ali fez sua primeira promessa: "prometo federalizá-la".6

Em 1957, criou-se uma comissao permanente para tratar do assunto: um grupo de alunos, juntamente com o Diretor, o Prefeito Municipal e fundador Jorge H. M. Furtado e o deputado Mário Palmério dirigiram-se ao Rio de Janeiro, onde cumpriram um intenso programa de contatos e audiências com diversas autoridades: o Ministro da Educaçao Clóvis Salgado - um dos mais autênticos defensores da federalizaçao - seu chefe de gabinete, deputado Celso Brant, Ministro Paschoal Carlos Magno e o Professor Jurandir Lodi, Diretor do Ensino Superior do MEC.

A primeira medida concreta para a federalizaçao chegou de surpresa: em 3 de junho de 1956, o senador mineiro, Arthur Bernardes Filho, a pedido da direçao da FMTM, apresentara uma emenda ao projeto que tornava federal o Instituto de Química do Paraná, englobando no processo a FMTM. Entretanto, dias após, chega a desalentadora notícia de que a emenda caíra no Congresso.

Em abril de 1960, visitaram a FMTM os candidatos ao governo de Minas, Dr.Tancredo Neves, e à presidência da República, general Henrique Teixeira Lott. Ambos asseguraram que nao mediriam esforços em favor da causa da federalizaçao.

Mais uma vez, em maio, por ocasiao da visita do presidente a Uberaba, os estudantes de Medicina o arrebataram, ainda no aeroporto, das maos das lideranças rurais e políticas e o levaram, em ônibus, até à Faculdade. No trajeto, juntamente com o diretor, solicitaram-lhe que se manifestasse sobre o assunto, no seu discurso no Parque Fernando Costa, palco das exposiçoes de gado zebu. O presidente assim o fez, prometendo enviar mensagem ao Congresso no seu retorno. A mensagem, acompanhada de exposiçao de motivos, foi realmente enviada em 14 de maio de 1960 e publicada no Diário Oficial, em 27 do mesmo mês.

Paralelamente, um grupo minoritário, mas poderoso, articulava a derrocada daquele projeto de lei que representava anos de luta e o futuro da FMTM, pretendendo transformá-la numa fundaçao. As controvérsias entre os que lutavam pela federalizaçao e o grupo contrário levaram, em novembro, o Diretor Mozart Furtado, entusiasta e batalhador da causa, à atitude corajosa da renúncia, para nao ceder ou compactuar com os opositores.5

Um fato político também viera colaborar para aquela decisao. A vitória, nas eleiçoes de outubro de 1960, do candidato das oposiçoes - Jânio Quadros - sinalizava para a possibilidade tanto de demissao do diretor, como de reversao do processo de federalizaçao, que era defendido pelas forças políticas apoiadoras do candidato oficial derrotado, general Henrique Teixeira Lott. (Mozart Regis Furtado Nunes, comunicaçao pessoal)

A diretoria do CAGV, empossada em outubro de 1960, procurou movimentar toda a classe discente, buscando alianças nas forças sindicais da cidade, solicitando sua participaçao e envolvimento na campanha. As entidades responderam positivamente e o movimento ganhou as ruas, com passeatas, comícios e o envio de centenas de telegramas à Câmara e à Comissao de Educaçao e Finanças.

Em novembro, nova comissao do CAGV viaja para Brasília para acompanhar a votaçao da mensagem presidencial no Congresso, enquanto a diretoria do CAGV organizava, junto com outros diretórios acadêmicos da cidade, uma grande concentraçao popular. Como resultado, chegaram à Secretaria Geral da Câmara mais de quatro mil solicitaçoes, entre ofícios, telegramas, cartas e circulares.6

A mensagem, aprovada pela Câmara em 25 de novembro de 1960, subiu ao Senado, sendo ali aprovada em 14 de dezembro de 1960 e recebendo a sançao presidencial em 18 de dezembro de 1960. Estavam presentes nesse ato, em Brasília, representantes da Diretoria e da Congregaçao da FMTM e uma comissao do CAGV. Logo após, o Presidente Juscelino K. de Oliveira recebeu toda a comissao no Palácio da Alvorada (Figura 3).

 


Figura 3 - Representantes do corpo docente e discente da FMTM recebidos pelo Presidente Jucelino Kubistschek de Oliveira no Palácio da Alvorada, por ocasiao da Campanha de Federalizaçao.

 

 

EVOLUÇAO ADMINISTRATIVA E ACADEMICA (1961 - 1981)

O período que se seguiu à federalizaçao caracterizou-se pelas sucessivas gestoes de professores que fizeram sua formaçao em diferentes Faculdades de Medicina do país: Randolfo Borges Júnior (dezembro de 1960-1962, Faculdade Nacional de Medicina-FNM, da Universidade do Brasil), Edmundo Chapadeiro (1962-1965, UFMG), Alfredo S. Sabino de Freitas (1965-1968, USP), Eduardo Velloso Vianna (1968-1973, Universidade Federal da Bahia-UFBA), Alvaro Lopes Cançado (1973-1977, FNM), Joao Francisco Naves Junqueira (1977-1981, FNM).

Caracterizou-se, ainda, pela adaptaçao às normas do serviço público, pela grande ampliaçao do espaço físico, através de construçoes realizadas tanto junto ao prédio central (Campus I), como junto à Santa Casa de Misericórdia (Campus II). E, finalmente, pela luta pela encampaçao e federalizaçao da Santa Casa (1967/68) e construçao do Hospital Escola (1971/1981).

Neste período, através de muitas opinioes divergentes, discutia-se o futuro da FMTM. Uma sugestao que ganhou corpo foi a da filiaçao à UFMG, idéia defendida pelo Ministro da Educaçao do governo Castelo Branco, Raimundo Muniz de Aragao. Esta idéia, surgida em 1964, prolongou- se até 1967, obtendo, inclusive, o apoio dos alunos que promoveram dois meses de greve em 1966, em defesa da proposta, maciçamente rejeitada pela Congregaçao.

Nesta ocasiao, em entrevista publicada pelo Jornal Lavoura e Comércio, de 22 de abril de 1967, sob o título de "Universidade Federal de Uberaba é a soluçao", o Prof. Humberto de Oliveira Ferreira, Titular da cadeira de Pediatria da FMTM, inquirido sobre a posiçao do corpo docente em face à pretensao dos alunos, assim se expressou: "desejamos a criaçao da Universidade Federal de Uberaba. Nossa cidade (...) tem legítimo direito a esta aspiraçao."

Finalmente, depois de muitas articulaçoes políticas, chegou-se a um consenso e a FMTM foi transformada em autarquia federal, pela Lei 70.686, de 7 de junho de 1972.

Remontando aos depoimentos de alguns diretores, é possível obter uma idéia mais concreta das dificuldades e lutas desse período.

O ano de 1961 foi de adaptaçao à nova realidade como Escola Federal. Na direçao, estava provisoriamente o professor Dr. Randolfo Borges Jr, um dos seus fundadores, dedicado e idealista. Era a pessoa indicada para realizar a transiçao: respeitado e admirado como médico e como professor.

A tarefa era árdua, prolongada e penosa. Iniciou-se o processo de preenchimento das cadeiras que, no dizer daquele Diretor, foi "aborrecido e desgastante, principalmente junto ao corpo discente, que vetava professores, promovia greves e ignorava que os indicados tinham direitos adquiridos junto à Diretoria do Ensino Superior. Ultrapassada a crise, pudemos indicar alguns nomes para chefes das cadeiras. A liberaçao da verba, constante da lei que federalizou a Escola, foi muito difícil, devido à implantaçao do regime parlamentarista, quando as quedas dos ministros eram quase mensais."7

Sobre as dificuldades enfrentadas nestes primeiros tempos, assim se expressou o Prof. Edmundo Chapadeiro, primeiro diretor eleito após a federalizaçao: "A euforia dos primeiros momentos, seguiu-se um período de depressao. Um ano se passou sem que fosse regularizada a situaçao dos professores catedráticos; e dois anos sem que fosse normalizada a situaçao dos funcionários administrativos e do pessoal técnico. Foi admirável, sem dúvida, a resistência quase estóica desses funcionários, passando alguns deles as maiores privaçoes. Quanto aos professores assistentes, inteiramente desamparados pela lei da federalizaçao, três anos de luta contínua foram necessários para que tivessem uma situaçao definida. E o corpo de assistentes, que era incompleto e sem estrutura, passou a contar com 47 professores auxiliares, distribuídos entre as diversas cadeiras, de acordo com a especialidade de cada um.

Embora muito já tivesse sido conseguido nesses três anos de federalizaçao, a Faculdade continuava sem laboratório de Biofísica, Farmacologia, Microbiologia, por absoluta falta de espaço; a Biblioteca teve que fechar as suas portas. As perspectivas nao eram boas nesse sentido: as dotaçoes orçamentárias da Faculdade aumentavam em pequenos saltos de ano para ano e havia a crescente desvalorizaçao do nosso dinheiro, que era insuficiente para se promover a instalaçao daqueles departamentos.

Estávamos (...) neste impasse, quando a Faculdade foi solicitada a receber 81 alunos excedentes, aprovados no vestibular (...) da Universidade Católica de Minas Gerais. Mostramos ao governo a impossibilidade de os recebermos, em vista da insuficiência de nossas instalaçoes, o que somente seria possível mediante ajuda substancial. Recebemos 40 milhoes de cruzeiros por três anos consecutivos (...) E, de fato, com apenas parte dos recursos liberados, (...) foi construído um novo pavilhao para instalaçao definitiva e com capacidade para 80 alunos, dos Departamentos de Anatomia Humana e Patologia. (...) No prédio primitivo puderam ser instalados os laboratórios de Biofísica, Farmacologia e Microbiologia. A Histologia tornou-se independente da Patologia e a Biblioteca foi reaberta e reorganizada.

Todavia, o ensino das cadeiras de clínicas continua difícil. A insuficiência de recursos (...) nao tem permitido aos hospitais locais um padrao de assistência condizente com as necessidades do ensino clínico. " 8

 

AMPLIAÇAO DO ESPAÇO FISICO E MELHORIAS NA QUALIDADE DO ENSINO

O atendimento às reivindicaçoes do MEC em relaçao à aceitaçao da matrícula dos alunos excedentes gerou, durante alguns anos, recursos adicionais que se estenderam pelas administraçoes de 1962 a 1973 e que foram empregados na construçao de três prédios anexos ao prédio central, e outras benfeitorias junto à Santa Casa de Misericórdia. No terreno do prédio central (Campus I), foram construídos mais dois prédios onde se instalaram a nova Biblioteca, salas de aula, laboratórios, a administraçao e a sede do Centro Acadêmico. No Campus II, junto à Santa Casa os dois anfiteatros, a sede própria da nova Biblioteca "Frei Eugênio" (1981); também foi providenciada a reforma e ampliaçao do Ambulatório "Maria da Glória".

Um convênio com o governo do estado de Minas Gerais, em 1962/63, permitiu a criaçao do Posto Médico Legal de Uberaba, junto ao necrotério da Santa Casa, fato importante, especialmente para as disciplinas de Anatomia e Patologia, para garantir a realizaçao das sessoes anátomo-clínicas, fundamentais para o desenvolvimento das cadeiras clínicas.

Como fruto dessas novas condiçoes materiais, o ensino clínico passou a ser mais qualificado, facilitando a instalaçao da Residência Médica oficiosa em Pediatria e Anatomia Patológica.

Na vida acadêmica, merece registro a crescente qualificaçao do corpo docente, sendo realizada a primeira defesa de tese de Doutoramento (1965), de Docência Livre (1968) e o primeiro concurso para Professor Titular da Instituiçao (1977). A partir de 1974, é estabelecido um plano de expansao do pessoal docente. Para o provimento das vagas abertas, realizaram-se diversos concursos públicos para contrataçao de professores assistentes, professores adjuntos e auxiliares de ensino.

A partir do decreto Lei 96/66, toda a movimentaçao de verbas que, até entao, era feita por delegaçao aos órgaos fazendários do estado, passa a ser realizada diretamente pelo Banco do Brasil, cabendo a cada instituiçao efetuar seus pagamentos, assumindo toda a responsabilidade pela ordenaçao de despesas. Ao Conselho Departamental, que substituiu o CTA, caberia fazer a proposta orçamentária e eleger a comissao de fiscalizaçao e aplicaçao dos recursos recebidos.

No final da década de 70, encerra-se o período em que a FMTM foi dirigida por professores oriundos de outras faculdades. Daí em diante, ela terá sempre, como diretores, seus próprios ex-alunos.

 

A QUESTAO DO HOSPITAL DAS CLINICAS: OS CONVENIOS

Desde os primeiros tempos de funcionamento das Cadeiras Clínicas, a Santa Casa de Misericórdia (Figura 4) funcionou como o principal hospital disponível para a prática dos alunos.

 


Figura 4 - Santa Casa de Misericórdia construída em 1934 e que funcionou como Hospital das Clínicas da FMTM entre 1956 e 1982.

 

A construçao da primeira Santa Casa de Uberaba teve início por volta de 1858, sob a direçao do missionário capuchinho, Frei Eugênio Maria de Gênova. Com a morte de Frei Eugênio em 1871, as obras foram interrompidas e só retomadas mais tarde, sendo o hospital reinaugurado em 14 de junho de 1898. Funcionou sem interrupçoes até 1921, quando foi destruído por um incêndio.9

A reconstruçao deveu-se ao trabalho do médico, entao provedor da Santa Casa de Misericórdia, Dr. José de Oliveira Ferreira. As obras, iniciadas em 1926, foram concluídas em 1935. 10

Dada sua importância arquitetônica e histórica, o prédio da antiga Santa Casa de Misericórdia foi tombado, em 19 de maio de 1994, pela Lei Municipal no 5.348, do Poder Executivo Municipal.

Seu funcionamento sempre enfrentou grandes dificuldades. Em 1965, a Congregaçao das Irmas Servas de Maria assumiu a administraçao, depois que as dominicanas se retiraram, encontrando o hospital em precária situaçao. Funcionavam apenas 70 leitos, nao havia atendimento de emergência (que era feito no Ambulatório Maria da Glória situado no extremo oposto do terreno). O porao era utilizado para manutençao de um banco de sangue e dormitório de médicos residentes.

Em 8 de junho de 1967, o Decreto Federal nº 60.837 autorizou a incorporaçao da Santa Casa de Misericórdia ao patrimônio da FMTM, transformando-a, em agosto do mesmo ano, em hospital-escola. Em abril de 1968, após toda a tramitaçao burocrática, o patrimônio da Santa Casa incorporou-se definitivamente ao da Uniao, passando a fazer parte da FMTM. Esta incorporaçao tornou-se possível graças à decisao da Diretoria e Provedoria da Santa Casa de Misericórdia que, naquela data, já contava com um expressivo número de professores da FMTM e era dirigida pelo Dr. Fausto da Cunha Oliveira, professor Catedrático de Ginecologia e Obstetrícia . A partir daí, abria-se para os futuros diretores o desafio de construir o Hospital- Escola.

Entre 1956 e 1982, data em que se completou a construçao do Hospital-Escola, outros hospitais, além da Santa Casa, mantinham convênios com a FMTM, para funcionamento mais adequado do ensino das disciplinas clínicas:

Asilo Sao Vicente de Paula - primeiro Pronto Socorro, ambulatório inicial e local das primeiras necrópsias para fins de ensino.
Hospital da Criança - em 1955, já com 20 anos de funcionamento; recebeu a 1ª turma de doutorandos em 1959.
Instituto dos Cegos do Brasil Central - antiga entidade filantrópica onde se instalou o Hospital Oftalmológico.
Associaçao de Combate ao Câncer do Brasil Central (ACCBC), hoje Hospital Hélio Angotti, - um dos primeiros a oferecer suas instalaçoes para o ensino prático.
Sanatório Espírita - Hospital Psiquiátrico que ofereceu a prática de psiquiatria.
Hospital do Pênfigo - também filantrópico, deu suporte à prática de dermatologia.

 

A CONSTRUÇAO DO HOSPITAL-ESCOLA

O projeto de construçao denominado "Projeto de Ampliaçao do Hospital-Escola", elaborado na gestao do Prof. Eduardo Velloso Vianna, teve de ser reformulado e modificado na gestao seguinte, do Prof. Alvaro Lopes Cançado, pois apresentava algumas dificuldades e super dimensionamento de alguns itens. Apesar das restriçoes feitas pelo MEC, que exigia o reinício de todo o processo, o Diretor contratou diretamente uma firma especializada, justificando aos órgaos competentes a urgência da obra e alegando os prejuízos que o retardamento das mesmas traria à Instituiçao.

Em 1977, o diretor, Joao Francisco Naves Junqueira, constatou que, apesar de todos os esforços do período anterior, o hospital ainda estava para ser construído: havia apenas um esqueleto que era urgente completar. Durante um ano e meio, ele buscou apoio político para obter as verbas necessárias para o prosseguimento das obras e para superar um obstáculo inesperado: a aprovaçao da planta do hospital que, naquele momento, dependia de adequaçao às novas exigências do Ministério da Saúde. Novos problemas surgiram também em Uberaba, para obter a aprovaçao do prefeito e do Serviço de Aguas para a realizaçao do dispendioso trabalho de implantaçao da rede de água e esgoto.

No final dos anos 70, reformado o antigo hospital da Santa Casa e somando-se à parte construída as portarias e os blocos A, B e C, o HE atingira uma área de 11.598m2, onde se agrupavam importantes departamentos. Passara também por um processo de modernizaçao e avanço tecnológico significativo: os equipamentos foram substituídos por modelos mais recentes e as enfermarias já contavam com 122 leitos.

 

EVOLUÇAO ADMINISTRATIVA E ACADEMICA (1981-2003)

Nestes decênios, a FMTM teve como diretores os seguintes ex-alunos: José Fernando Borges Bento (outubro 1981 - outubro 1985), Nilson Camargos Roso (outubro 1985 - outubro 1989; outubro 1993 - outubro 1997), Valdemar Hial (outubro 1989 - outubro 1993; outubro 1997 - outubro 2001), Edson Luiz Fernandes (outubro 2001 - outubro 2005).

O período se caracterizou pela grande expansao do espaço físico, decorrente das construçoes junto ao Campus II, transformado em um verdadeiro complexo hospitalar pelo crescente incentivo à capacitaçao do corpo docente e pela instalaçao de novos cursos na área de saúde.

A década de 80 se inicia com uma verdadeira batalha para nomeaçao dos funcionários do Hospital-Escola (HE), recém-inaugurado e fechado por falta de recursos humanos. O Governo Federal proibira a contrataçao de funcionários. O diretor da época, José Fernando B. Bento, precisou usar um perigoso e ousado estratagema para conseguir as nomeaçoes dos 300 concursados para o trabalho no HE.

Através da criaçao da Fundaçao de Ensino e Pesquisa de Uberaba (FUNEPU), obteve-se um convênio com o INAMPS, que trouxe novos recursos para a manutençao do HE e para equipá-lo melhor.

Ainda nos anos 80, teve início o trabalho para a criaçao da pós-graduaçao stricto sensu. A instalaçao da pós-graduaçao, através do Curso de Patologia, veio completar o estágio de maturidade científica em que a FMTM se encontrava. Em 1996, a CAPES concedeu nível A ao mestrado daquele curso, o que, segundo o Diretor Nilson C. Roso, "colocou a Faculdade como instituiçao possuidora de massa crítica e desenvolvimento científico, tornando-se a "sala de visitas" da FMTM junto ao MEC e, principalmente, junto aos órgaos financiadores como CAPES, CNPq, FINEP e FAPEMIG". Buscou-se, também, enriquecer o corpo docente da Instituiçao, trazendo da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade do Estado de Sao Paulo (UNESP) e da UFMG novos professores já titulados. (Nilson C. Roso, comunicaçao pessoal).

A estrutura organizacional foi bastante modificada e modernizada com a criaçao de novos cargos de chefia, que resultaram nas diversas Pró-diretorias e Coordenadorias.

Na área de informática, deu-se um grande passo com a aquisiçao de um moderno computador que permitiu a implantaçao da informática hospitalar. Os profissionais desta área constituíram o Departamento de Sistemas e Métodos (DSIM).

A partir de 1989, o sistema de escolha do diretor sofreu uma mudança substancial, dentro do espírito de democratizaçao da gestao e maior participaçao e responsabilidade das pessoas na vida das instituiçoes, incentivado e previsto na Constituiçao de 1988 e na nova legislaçao do ensino daí decorrente. Os diretores e vice-diretores, desde a federalizaçao, eram escolhidos pela Congregaçao, em uma lista, a princípio tríplice, e depois sêxtupla, enviada a seguir ao MEC, para a escolha final que, geralmente, recaía sobre quem obtivera maior número de votos. A partir daquele ano, toda a comunidade (docentes, discentes e pessoal técnico-administrativo) passa a ser consultada. Este sistema sofreu, mais tarde, algumas modificaçoes, sendo atribuídos pesos diferentes aos votos de cada segmento e estabelecendo-se uma média ponderal.

No início dos anos 90, elaborou-se um Plano Diretor baseado no tripé da universidade: Ensino, Pesquisa e Extensao e Assistência na Area da Saúde, e implantou-se, em 1993, uma nova estrutura organizacional que permanece até os dias de hoje. Em 1991, um novo currículo foi proposto, criando novas disciplinas e adaptando o ensino às necessidades representadas pela rápida evoluçao da carreira médica.

A partir de 1995, a FMTM passa a integrar a CINAEM (Comissao Interinstitucional Nacional de Avaliaçao do Ensino Médico), visando reverter o rumo da educaçao médica, até entao centrada nos hospitais, para aquela voltada a atender as necessidades sociais, colocadas em prática pela concretizaçao do Sistema Unico de Saúde (SUS). Em 1997, a Faculdade sedia o 35º Congresso Brasileiro da Associaçao Brasileira de Educaçao Médica e vem, desde entao, tentando modificar a filosofia vigente tradicional do educar médico, centrando no aluno o processo ensino-aprendizagem e tentando capacitar seu quadro docente rumo às novas diretrizes da educaçao em saúde. Essas medidas resultaram na criaçao do estágio em Saúde Coletiva, cujo internato teve o período de sua integralizaçao ampliado de um para dois anos. (Prof.Marcos Fábio Prata Lima, comunicaçao pessoal).

A estrutura física da Escola tem sido bastante ampliada, com aquisiçao de vários terrenos em torno do Campus II, para instalaçao de novos serviços e departamentos. Entre estas construçoes, devem ser relacionados o Centro de Reabilitaçao "Fausto da Cunha Oliveira", o Centro Educacional e Administrativo (CEA), a Central de Material e Medicamentos (CEMAM), o Hemocentro, a Clínica Civil, o novo ambulatório da FUNEPU e a reforma total do Ambulatório "Maria da Glória". Fora dos dois Campus, no bairro das Mercês, foi anexado pela FMTM o Centro Poliesportivo, construído anos antes, em parceria com a Faculdade de Zootecnia e Agronomia (FAZU), o Biotério Central e o Canil.

 

A IMPLANTAÇAO DE OUTROS CURSOS

A falta de técnicos na área da Saúde para atender a demanda dos hospitais e serviços de Saúde levou à criaçao do Centro de Formaçao Especial de 2º Grau em Saúde (CEFORES), implantado em 1989/1990 e do Curso de Enfermagem, iniciado em 1989. Em 1999, foi implantado o curso de BIOMEDICINA que, em 2003, forma sua primeira turma.

Em 1987, durante uma reuniao do CODESFI - (Conselho dos Dirigentes das Instituiçoes de Ensino Superior), um dos convidados, o Sr. Geraldo Navarro, da Secretaria de Controle Interno do MEC, sugeriu, em conversa com o professor Edmundo Chapadeiro, que a Faculdade passasse a ministrar cursos técnicos na área da Saúde e que os iniciasse por um curso de preparaçao de técnicos para Anatomia Patológica. Assim nasceu a idéia, pois a falta desses profissionais era e ainda é um dos problemas que o Brasil enfrenta.(Nilson C. Roso, comunicaçao pessoal)

No ano de 1988, a FMTM, através do Serviço de Patologia Cirúrgica e da disciplina Patologia Especial, ministrou o Curso de Histotecnologia, que foi bem-sucedido e motivou a criaçao de outros cursos na área técnica.

No primeiro semestre de 1989, foi criado o Projeto CEFORES - Centro de Formaçao Especial de 2º Grau em Saúde - baseado nos recursos humanos da FMTM e nas necessidades da cidade e da regiao. Porém, o CEFORES só foi implantado no ano seguinte pela Portaria nº 73, de 29 de junho de 1990, da Secretaria Nacional de Educaçao Tecnológica, do MEC, que autorizou o seu funcionamento, com sete habilitaçoes profissionais. Em 16 de julho de 1992, a Portaria nº 435, da mesma Secretaria, declara a regularidade dos Cursos Técnicos em: Enfermagem, Radiologia Médica, Auxiliar de Farmácia e Auxiliar de Enfermagem. Em julho de 1997, foi regularizado o Curso de Técnico em Patologia Clínica, autorizado o Curso de Suplência em Auxiliar de Enfermagem e a transformaçao do Curso de Auxiliar de Farmácia em Curso Técnico de Farmácia.

A criaçao do Curso de Enfermagem merece uma retrospectiva histórica. Uberaba sediara, de 1948 a 1980, uma Escola de Enfermagem denominada "Frei Eugênio", mantida pelas Irmas Dominicanas. Funcionou, inicialmente, na Santa Casa de Misericórdia (1948 e 1955) e, depois, em prédio próprio, anexo ao Hospital Sao Domingos.

Em 1986, o diretor das Faculdades Integradas de Uberaba (FIUBE) procurou o diretor da FMTM, para propor um convênio entre as duas instituiçoes, a fim de viabilizar a criaçao de um Curso de Enfermagem. Levada a solicitaçao à Congregaçao da FMTM, esta a rejeitou unanimemente e pediu ao diretor que estudasse a viabilidade de criá-lo dentro da própria instituiçao. Justificava-se a sua instalaçao pela carência de profissionais na regiao. O projeto ficou algum tempo parado no MEC, até que o Presidente Sarney o autorizou pelo Decreto 97.081 de 21/11/1988. (Nilson C. Roso, comunicaçao pessoal)

Inicialmente, o Curso deveria oferecer duas habilitaçoes: Enfermagem Médico-Cirúrgica e Enfermagem Obstétrica. Mas, "percebendo-se que isso seria um fator de restriçao que nao resolveria integralmente as demandas regionais e locais já diagnosticadas, definiu-se pela oferta apenas da Habilitaçao Geral em Enfermagem" (Processo de Reconhecimento, 1992)

A Portaria nº 893, de 11 de junho de 1992, assinada pelo Ministro da Educaçao José Goldenberg, concedeu o Reconhecimento do Curso que se instalou, inicialmente, no prédio da antiga Escola de Enfermagem Frei Eugênio. Aí, funcionou até 1993, quando se transferiu para o Campus I da FMTM.

O Curso já passou por quatro reformas curriculares, atendendo ao MEC e ao Conselho Federal de Enfermagem. Em 1991, tornou-se semestral e mudou sua denominaçao para Curso de Graduaçao em Enfermagem (CGE).

Em reuniao da Congregaçao, realizada em 13 de agosto de 1993, a proposta de criaçao de seis novos cursos na Instituiçao comprovavam o seu interesse pela criaçao da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e tinha por objetivo criar condiçoes para a aprovaçao do projeto. Logo a seguir, no dia 16, as cartas-consultas sobre a questao foram protocoladas no Conselho Federal de Educaçao.

Em 19 de outubro de 1994, o entao Ministro da Educaçao e do Desporto, Murilo Hingel, em visita a Uberaba, anunciou que cabia à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal votar o projeto de transformaçao da FMTM em Universidade.

Após transitar pelas diferentes comissoes do Congresso, a Coordenadoria Geral de Planejamento e Articulaçao do MEC, em 27 do mesmo mês, pautada no critério de "excelência acadêmica", considerou "inoportuna a transformaçao da FMTM em Universidade", sendo o projeto, entao, arquivado.

Em dezembro de 1998, submeteu-se novamente ao MEC o Projeto para transformaçao da FMTM em Universidade Especializada na Area da Saúde. A oportunidade para criaçao de universidades especializadas surgira com a aprovaçao, em 1996, da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educaçao. No referido projeto, constava a proposta de criaçao do Curso de Ciências Biológicas -Modalidade Médica. Devido à recomendaçao constante do ofício COSUP/SESu/MEC/2344/99, para oferta do citado curso, a proposta para sua criaçao foi protocolada em março de 1999. No final de junho, o Ministro Paulo Renato Souza concedeu a autorizaçao para a implantaçao do Bacharelado (Portaria 966/99), com 20 vagas anuais.

O objetivo do curso era formar profissionais e docentes para integrarem os grupos de pesquisa em diferentes áreas de Saúde, tais como Bioquímica, Biofísica, Microbiologia, Biologia Molecular, Parasitologia, Fisiologia e Patologia, assim como para ingressarem na carreira docente em outras instituiçoes de Ensino Superior. Em 2002, a FMTM resolve ampliar as habilidades daqueles futuros profissionais, concedendo-lhes habilitaçao em Análises Clínicas e mudando a denominaçao do curso para Biomedicina. O curso, em tempo integral, tem a duraçao de oito períodos diurnos. Em julho de 1999, realizou-se o primeiro exame vestibular que bateu recorde de disputa: 261 candidatos para as dez vagas oferecidas para o 1º período.

Espera-se, para os próximos meses, a autorizaçao de funcionamento do Curso de Nutriçao e, em seguida, o de Fisioterapia e Terapia Ocupacional.

 

AMPLIAÇAO E MELHORAMENTOS NO HE

Inaugurado em agosto de 1981, o novo complexo hospitalar do HE totalizava 8.223m2, sendo entregue ao público em janeiro de 1982. Na segunda metade da década de 80, iniciou-se a construçao do bloco D e foram completadas as ligaçoes internas entre os diferentes blocos. O Ambulatório Maria da Glória foi ampliado de 530m2 para 1.813m2. (Figura 5)

 


Figura 5 - Vista aérea do complexo Hopitalar e Administrativo da FMTM (Campus 2).

 

Hoje, o Hospital-Escola com sua sede própria, seus dois ambulatórios e o Centro de Reabilitaçao representam 20.780 m2 de área construída, abrigando 343 leitos, 148 consultórios e 18 salas de cirurgia. É o principal campo de aprendizado dos cursos de graduaçao em Medicina, Enfermagem e Biomedicina, dos Cursos Técnicos, assim como dos de Pós-Graduaçao. É, ainda, centro de referência em média e alta complexidade para os pacientes do SUS. Detém tecnologia de ponta, desenvolvendo procedimentos de alta complexidade, em várias especialidades médicas.

Acompanhando a modernizaçao e os avanços tecnológicos na área da saúde, foram implantados os Laboratórios de Pesquisa em Imunologia e de Bioquímica e, no HE, os Setores de Hemodinâmica e Litotripsia e Extra-corpórea, Cirurgia Cardíaca e Tomografia Computadorizada.

No entanto, como no passado, a situaçao do HE tem sido, com poucas exceçoes, permanentemente crítica, pondo em risco nao só a formaçao dos futuros profissionais de saúde da FMTM, como o atendimento de mais de 1,5 milhao de cidadaos. Nos últimos tempos, o HE tem vivido graves problemas financeiros, o que obrigou a direçao atual a suspender, em 26 de novembro de 2002, as internaçoes seletivas e a desativar gradativamente o seu funcionamento. Em 2003, ainda em meio a grandes dificuldades, reiniciou as cirurgias eletivas e reativou, em fevereiro, cerca de 200 leitos.

Apesar das dificuldades, o HE, em 2002 (entre Pronto Socorro, enfermarias ambulatórios, UTIs, Centro de Reabilitaçao, isolamento) atendeu 346.985 pacientes, compreendendo 848.918 procedimentos. Entre esses pacientes, estao cidadaos de 405 cidades, oriundos de 14 diferentes estados da Uniao.

 

A PESQUISA E A POS-GRADUAÇAO "SENSU STRICTO"

Existem registros de pesquisas na área de Saúde em Uberaba antes mesmo da fundaçao da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, como comprova o levantamento bibliográfico coordenado por Thomazelli et al. em 1989. Os Anais dos Congressos Médicos do Triângulo Mineiro e do Brasil Central, na década de 40, a Revista Médica da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Uberaba (1950) e alguns outros dados ratificam essa afirmativa.

Mas é a instalaçao da FMTM em 1953 que, sem dúvida, constitui o grande marco para o desenvolvimento da pesquisa na área da Saúde, nao só em Uberaba como em todo o Triângulo Mineiro.

Nos primeiros tempos de funcionamento da FMTM, questionou-se muito a validade de se desenvolver esta atividade numa instituiçao particular, com escassos recursos e localizada em pleno interior do país, dadas as dificuldades naturais que todo trabalho de pesquisa envolve. Contudo, a visao de alguns dos primeiros professores da FMTM mostrou ser possível realizar trabalhos científicos de valor, mesmo nas precárias condiçoes da época. Esses pioneiros entendiam que a pesquisa - além de melhorar a qualidade dos docentes e discentes - confere aos primeiros uma visao crítica, e nao apenas livresca, de grande valor para o ensino.

Acreditavam, também, que cabe ao pesquisador procurar soluçoes para os problemas que afligem o meio onde exerce as suas atividades, trazendo benefícios à comunidade. Tinham ainda consciência de que uma boa pesquisa nao só projeta nacional e internacionalmente as instituiçoes, como atrai recursos e vantagens: estimula a vinda de novos profissionais qualificados, facilita intercâmbios científicos e com órgaos de fomento, complementa o equipamento de laboratórios, permite melhorar o acervo da biblioteca, etc.

Por ocasiao da criaçao da FMTM, um dos maiores problemas médico-sociais - senao o maior - do Brasil Central era a alta freqüência da Doença de Chagas (DC). Constituía um verdadeiro desafio aos pesquisadores da Instituiçao esclarecer inúmeros aspectos até entao obscuros que a tripanossomiase apresentava. A FMTM respondeu a esse desafio em poucos anos, desenvolvendo projetos de pesquisa sobre o tema, a exemplo do ocorrera poucos anos antes, na Faculdade de Medicina de Ribeirao Preto (USP).

As primeiras pesquisas desenvolvidas na FMTM em DC, estavam relacionadas à anatomia patológica, ao ciclo gravídico puerperal, à forma aguda e à terapêutica.

Também foram de grande importância, nao só histórica, mas também científica, as pesquisas realizadas entre 1955 e 1958 pelo entao professor da FMTM, Dr. Adib Jatene, que, décadas depois, viria a ser Ministro da Saúde. Seus trabalhos - que culminaram no projeto e fabricaçao de um "coraçao-pulmao" - foram assim descritos pelo ex-professor, Dr. Randolfo Borges: "arrastando toda sorte de sacrifícios, inevitáveis em um empreendimento desta natureza, sacrificando suas horas de lazer, mobilizando esforços e energia, o ilustre médico fabricou um aparelho que lhe permitiu operar vinte caes, com sobrevida, coroando-se, assim, as experiências no coraçao a céu aberto."

Devem ser salientadas, também, as pesquisas desenvolvidas, ainda na década de 60, pelo Professor Josefino Aleixo, no Hospital do Pênfigo de Uberaba, sediado nesse tempo junto à Santa Casa de Misericórdia.

A partir de 1970, surgiram trabalhos que permitiram a criaçao de linhas de pesquisa em outras áreas, especialmente em Bioquímica, Hematologia, Fisiologia, Morfologia, Ortopedia, Nutriçao, Cirurgia, Parasitologia, Imunologia.

Em 1977, com auxílio do Conselho Nacional de Pesquisa do Brasil (CNPq), a FMTM instalou, na vizinha cidade de Agua Comprida, um campo para estudo da DC até hoje em atividade.

A criaçao da pós-graduaçao stricto sensu deu ensejo a que novos professores e pesquisadores se fixassem na FMTM. Dentre outros, retornou a sua terra natal o Prof. Aluízio Rosa Prata, criador do Núcleo de Medicina Tropical da Universidade de Brasília (NMT/Unb). Com a sua vinda, estreitaram-se as relaçoes entre a FMTM e o NMT/Unb, o que estimulou o aprofundamento de pesquisas na FMTM em outras doenças tropicais, sobretudo leishmanioses, malária e paracoccidiodomicose.

Em 1971, o CNPq passou a apoiar a FMTM, especialmente por meio do Programa Integrado de Doenças Endêmicas(PIDE). A partir de 1976, outros órgaos internacionais passaram também, a financiar alguns dos programas de pesquisa desenvolvidos na Instituiçao. Nos últimos anos, dezenas de projetos vêm sendo financiados pela Fundaçao de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG).

Essas pesquisas tiveram também papel fundamental no estabelecimento de convênios com outras instituiçoes de ensino e pesquisa do Brasil e de outros países: Fundaçao Oswaldo Cruz, Ministério da Saúde, Instituto Nacional de Saúde Pública (Estados Unidos da América), Centro de Imunologia de Marseille-Luminy (França), Centro de Patologia e Imunologia Celular da Cidade do Porto (Portugal), entre outros.

Cabe realçar que essas atividades de pesquisa contribuíram para que a FMTM, que em 1960 contava com apenas três livre-docentes e dois doutores em seu quadro de professores, seja hoje uma das instituiçoes médicas brasileiras com maior percentual de mestres e doutores no seu corpo docente.

A existência de linhas de pesquisa, algumas altamente produtivas, associadas à política de qualificaçao do corpo docente, veio facilitar a implantaçao na FMTM, a partir de 1987, de Cursos Pós-Graduaçao "sensu stricto". O primeiro a ser criado foi o de Patologia, recomendado pela Capes em 31 de julho de 1987.

Atualmente, a Instituiçao mantém dois cursos de pós-graduaçao "sensu stricto", ambos em nível de mestrado e doutorado. O Curso de Pós-Graduaçao em Patologia, em seus quinze anos de funcionamento, formou 33 mestres e 11 doutores. Oferece, atualmente, cinco áreas de concentraçao: Anatomia Patológica e Patologia Forense1, Patologia Clínica2, Patologia Geral2, Patologia Ginecológica e Obstétrica1, Patologia Tropical1. Em 2003, 32 alunos matricularam-se no Curso de Mestrado e 17, no de Doutorado.

Em fevereiro de 1998, foi criado o Curso de Pós-Graduaçao em Medicina Tropical e Infectologia, que oferece duas áreas de concentraçao: Clínica de Doenças Infecciosas e Parasitárias (Obs.1) e Parasitologia e Imunologia Aplicadas (Obs.2). Este curso formou até 2002 sete mestres e, atualmente, tem 33 alunos matriculados (2003).

Estes dois Cursos de Pós- Graduaçao, desde sua criaçao, têm sido avaliados positivamente pela CAPES, obtendo nota 4, na última avaliaçao.

Obs. 1-oferecidos apenas a graduados em Medicina; Obs. 2-oferecidos a graduados em cursos da área de saúde.

 

AS ATIVIDADES DE EXTENSAO E A POS-GRADUAÇAO "SENSU LATO"

A atençao para com as atividades de extensao remonta aos primeiros anos da FMTM. Em 1963, por iniciativa de um grupo de alunos, fundou-se a "Liga Brasileira de Combate à Moléstia de Chagas"-Secçao de Uberaba, com o objetivo de colaborar na divulgaçao de açoes necessárias para melhor conhecimento da doença e dos meios de evitá-la e tratá-la.

O Departamento Científico do CAGV, nesse mesmo ano, promoveu o 1º Curso Anual de Eletrocardiografia, sob a orientaçao dos profs. Randolfo Borges Jr, Ézio de Martino e Sylvio Pontes Prata, que se prolonga até os dias atuais, tendo completado, pois, 40 anos de atividade.

Outro importante projeto de extensao, o "Programa de Bem-Estar da Família" foi implantado pela disciplina de Ginecologia e Obstetrícia, sob a orientaçao dos Profs. Dr. Fausto da Cunha Oliveira e Dra. Rosa Maria Bilharinho. Tinha por objetivo dar orientaçao a mulheres jovens sobre educaçao sexual, planejamento familiar e métodos de controle da natalidade. Depois, com a denominaçao de "Planejamento Familiar", o programa continua prestando orientaçao e assistência aos casais, para um planejamento responsável de suas famílias.

As atividades de Extensao, desenvolvidas por todo o complexo da FMTM, vêm se constituindo em um processo educativo, cultural e científico, que tem procurado contribuir para a açao transformadora da Faculdade e da sociedade. Ao longo do tempo, vêm sendo desenvolvidas açoes de extensao, através de programas, projetos, eventos, cursos e prestaçao de serviços, na área hospitalar e saúde coletiva, além de atividades voltadas para o atendimento de necessidades sociais.

Nos últimos anos, vem ganhando destaque as Ligas de Trauma, Oncologia e Hipertensao Arterial.

Algumas atividades estao mais voltadas para a área de Saúde, levando os alunos a vivenciar a realidade da estrutura dos serviços e atender às necessidades básicas da populaçao. Outras têm por objetivo proporcionar novos conhecimentos e estimular novos contatos e relaçoes com a comunidade.

A partir de 2001, a FMTM passou a oferecer, dentro dos programas de Pós-Graduaçao Sensu Lato, 21 Programas de Residência Médica. A própria FMTM vem complementando, com recursos próprios, o custeio de novas bolsas para alunos desses cursos. Em 2003, estao matriculados 132 médicos nos diferentes programas de Residência Médica oferecidos. A Instituiçao oferta, ainda, desde 1998, o Curso de Especializaçao em Medicina Tropical e Infectologia (com 10 vagas), Curso de Especializaçao em Saúde Coletiva (40 vagas), que, até 1996, tinha financiamento pela CAPES. Funciona também um Curso de Especializaçao em Enfermagem Obstétrica com 15 vagas.

A FMTM, em parceria com o Ministério da Saúde, vem ofertando, desde 2001, o Curso de Especializaçao em Saúde da Família, em associaçao com a UFMG. Vem também promovendo Cursos de Profissionalizaçao dos Trabalhadores em Enfermagem (PROFAE), com recursos do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), tendo já formado profissionais das regioes do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba.

Atualmente, a Instituiçao desenvolve cerca de trinta outros programas de extensao.

 

CONCLUSAO

A FMTM tem enfrentado, a partir da última década do século XX, uma série de problemas decorrentes da nova ordem econômica mundial e seus reflexos no país, em especial na educaçao superior:

decréscimo geral do orçamento da FMTM, com cortes nos recursos para custeio, manutençao e programas de fomento de ensino, pesquisa e extensao;
falta de concessao de ajustes salariais, gerando perspectivas negativas para as carreiras docente e técnico-administrativas;
mudanças anunciadas na previdência social, provocando insegurança e aumento das aposentadorias, com a impossibilidade de repor os recursos humanos;
a situaçao crítica dos Hospitais Universitários, o que levou o HE a fechar suas portas por absoluta falta de recursos humanos e materiais, no final de 2002;
situaçao de falência da FUNEPU, com reflexos negativos na manutençao da FMTM e do HE.

A situaçao atual e o futuro do Hospital-Escola sinalizam para a necessidade de uma grande mobilizaçao de toda a comunidade da FMTM e de Uberaba numa nova OPERAÇAO MED que possa resgatar a importante atuaçao desta Instituiçao, um grande orgulho para os uberabenses nos últimos 50 anos.

Paralelamente, retoma-se o antigo projeto de transformaçao da FMTM em Universidade.

O crescimento e os avanços da FMTM foram resumidamente demonstrados neste texto. O sonho e a persistência dos fundadores, o idealismo, a coragem e o compromisso dos diretores e professores, a dedicaçao e o esforço dos funcionários, a esperança, a ousadia e as lutas dos estudantes frutificaram e estao expressos nas 45 turmas de Medicina, totalizando 2924 médicos (dos quais aproximadamente 600 fixaram-se em Uberaba); 12 turmas de Enfermagem, com 326 enfermeiros; 1.922 técnicos em Saúde e a primeira turma de oito biomédicos.

Todos estes profissionais hoje se espalham pelo Brasil, dando sua contribuiçao à melhoria da saúde do povo brasileiro. Parafraseando Monsenhor Juvenal Arduini, pode-se dizer que a "semente miúda", mas fértil, nascida no solo considerado estéril, dos chapadoes do sertao, pisada e machucada por pressoes, brotou, tornou-se árvore e pelos seus frutos entregou uma herança. O crescente número de candidatos ao vestibular da FMTM que, a partir de 1996, atingiu mais de 7.000 candidatos para 80 vagas (4.869 para 40 vagas, só no vestibular do 2º semestre de 2003) é a grande demonstraçao do nível de qualificaçao que a Instituiçao atingiu.

Hoje, a Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, com seus 50 anos vividos, no apogeu de sua maturidade e capacidade produtiva, está a enfrentar, da mesma forma como quando menina-moça, os novos desafios que lhe sao impostos neste recém-inaugurado século XXI. Eles continuarao a exigir de todos os seus construtores a mesma dedicaçao, criatividade e coragem que a caracterizaram no passado, na busca de novas soluçoes para os novos problemas e situaçoes adversas, sempre presentes na vida das pessoas e das instituiçoes.

 

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

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