RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 24. 2 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20140063

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Relato de Caso

Doença de Grover associada a Sarcoptes Scabiei: relato de caso

Grover's disease associated with Sarcoptes scabiei: case report

José Henrique Pereira Pinto1; Chan I Lym2; Clarissa Maria Serpa Vieira3; Chan Kun Wa4; Chan I Thien4

1. Médico. Professor titular de Imunologia da Faculdade de Medicina de Itajubá - FMIt. Itajubá, MG - Brasil
2. Médico. Pós-graduando em Dermatologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Rio de Janeiro, RJ - Brasil
3. Médica. Hospital Escola da FMIt. Itajubá, MG - Brasil
4. Acadêmicos do curso de Medicina da UFRJ. Rio de Janeiro, RJ - Brasil

Endereço para correspondência

Chan I Lym
E-mail: ilymchan@yahoo.com.br

Recebido em: 01/12/2011
Aprovado em: 24/04/2014

Instituiçao: Hospital Escola da Faculdade de Medicina de Itajubá-FMIt Itajubá, MG - Brasil

Resumo

A doença de Grover, ou dermatose acantolítica transitória, consiste em uma dermatose papulovesiculosa pruriginosa, caracterizada histologicamente por acantólise. A maior parte dos casos está representada por homens brancos acima de 40 anos de idade. Nao existe etiologia conhecida, mas o calor e o suor excessivos sao descritos com frequência como fatores desencadeantes ou agravantes. O diagnóstico é feito por suspeiçao clínica e confirmado pela biópsia das lesoes cutâneas. Neste estudo é relatado o caso de um paciente de 53 anos de idade, com doença de Grover associada à infestaçao por Sarcoptes scabiei.

Palavras-chave: Sarcoptes scabiei; Escabiose; Acantólise.

 

INTRODUÇAO

A doença de Grover (DG) foi descrita pelo dermatologista americano, Ralph Grover, em 1970. Em seu relato ele descreveu os casos de seis pacientes que apresentavam lesoes papulosas e papulovesiculosas, localizadas no tronco, acompanhadas de intenso prurido, que apareciam nas mudanças de estaçao e que regrediam depois de algumas semanas. A biópsia dessas lesoes demonstrou pequenos focos de acantólise, motivando o autor a denominar a doença de dermatose acantolítica transitória (DAT).

O primeiro caso de DAT descrito no Brasil foi publicado por Azulay-Abulafia, em 1986, e apenas outros dois casos foram descritos posteriormente, por Manfrinato et al.1, em 1999. Embora a DG se caracterize por ter curso autolimitado e transitório2, com média de duraçao de 22 meses, segundo artigo de Mark D.P. Davis et al.,3 alguns pacientes cursam com manifestaçoes crônicas da doença.4,5 Na sua análise de 72 casos, 13 pacientes apresentaram recidivas em períodos variáveis.3

A maior parte dos casos de DG retrata homens brancos com idade acima de 40 anos4-6 e a extensao e duraçao da enfermidade se agravam com a idade avançada dos pacientes.1,7

 

RELATO DO CASO

Paciente do sexo masculino, etnia oriental, 53 anos de idade. Em outubro de 2007, entrou em contato com uma paciente portadora de escabiose (Sarcoptes scabiei). Adquiriu essa parasitose apresentando lesoes papuloeritematosas de aproximadamente 3 mm, acompanhadas de intenso prurido, em todo o tronco e porçoes proximais de membros superiores e inferiores. Fez tratamento com ivermectina 15 mg (dose única) e permetrina loçao tópica 50 mg/mL, ocorrendo resoluçao parcial dos sintomas.

Após duas semanas, houve piora do quadro dermatológico. As lesoes confluíram e formaram placas eritematosas, com diâmetros variando entre 2 e 4 cm, em todo o tronco e regioes proximais de membros superiores e inferiores (Figuras 1 e 2). Essas lesoes eram acompanhadas de intenso prurido e sensaçao dolorosa. Como fatores de piora, relatou calor e suor; e de melhora, banho com água fria.

 


Figura 1 - Lesoes no tronco.

 

 


Figura 2 - Lesoes no tronco.

 

Ao exame físico, o paciente apresentava apenas as lesoes cutâneas. Os exames laboratoriais realizados foram normais. Fez uso de prednisona 20 mg/dia e hidroxizina 75 mg/dia, sem melhoras. Fez biópsia das lesoes cutâneas e os achados histopatológicos sao compatíveis com doença de Grover.

Foi iniciado tratamento com metotrexato, na dose de 15 mg por semana durante 10 semanas, e houve remissao rápida do quadro. Após seis meses, porém, ocorreu recidiva das lesoes. Optou-se por reiniciar o tratamento com metotrexato, na mesma dose, durante 12 semanas, associado a acetato de retinol (50.000 UI/dia) e a suspensao de atividade física aeróbica, tendo as lesoes regrediram prontamente.

Atualmente, o paciente continua com o uso diário de acetato de retinol (50.000 UI/dia), apresentando lesoes dermatológicas compatíveis com doença de Grover em pequeno número no tronco (Figura 3).

 


Figura 3 - Lesoes remanescentes.

 

DISCUSSAO

A doença de Grover é caracterizada por formaçoes papulosas, papulovesiculosas ou papuloceratósicas que podem variar de 1 a 10 mm.3-6 Formas vesiculopustulosas, bolhosas, foliculares, herpetiformes e em placas eritematosas já foram descritas.3,5 As localizaçoes mais comuns das erupçoes sao no tórax e raiz de membros, enquanto que couro cabeludo, face e pescoço sao regioes menos acometidas. E, ainda, nas mucosas e palmas das maos e plantas dos pés têm-se descriçoes raras na literatura.3-6,8,9 Numa agudizaçao, as pápulas eritematosas podem confluir, formando placas eritematosas (Figuras 1 e 2). O prurido é uma queixa frequente e sua intensidade é variável. Quando é intenso, acompanha-se de sensaçao de ardor e é de difícil controle.4 A faixa etária mais acometida pela DG é a partir da 5ª década, com predomínio da etnia caucasiana e com proporçao de homens para mulheres de 3:1 e de acordo com alguns autores de até 8:1.3,4

A etiologia e patogênese da DG permanecem desconhecidas. Muitos fatores têm sido associados a essa doença e sao apresentados como desencadeantes e/ou agravantes de seus sintomas. Fatores físicos locais, como: calor, exposiçao à luz solar, radiaçao ionizante, sudorese excessiva e febre, sao descritos com frequência.4,10 Outros, como irritaçao e inflamaçao da pele, infecçoes cutâneas causadas por Malassezia furfur, Demodex folliculorum e Sarcoptes scabiei, trauma, gravidez, repouso no leito em internaçoes prolongadas e vestuário com poliéster, também foram relatados. Em menor número de descriçoes, encontram-se doenças de pele nao infecciosas que desencadeariam a DG encontrados na literatura, como: eczema asteatótico, dermatite de contato, dermatite atópica, pênfigo bolhoso e foliáceo, líquen plano, psoríase, pioderma gangrenoso, dermatite seborreia, ptiríase versicolor.10,11

Doenças associadas ao desenvolvimento da DG: alguns medicamentos, doenças sistêmicas relacionadas: gamopatia monoclonal benigna, timoma, glomerulonefrites, gastrite crônica, artrite reumatoide, infecçoes por HIV, vírus da poliomielite, síndrome carcinoide, esclerose sistêmica progressiva. Tumores sólidos malignos descritos: tumores do trato geniturinário, adenocarcinoma de estômago, pulmao, próstata, cólon, mama, laringe e carcinoma de ovário. Neoplasias hematológicas relatadas: leucemia mieloide aguda e crônica, leucemia linfocítica aguda e crônica, mieloma múltiplo, síndrome mielodisplásica e linfoma periférico de células T.11-16

Em sua publicaçao original, Grover sugeriu que a DG seria uma forma de dermatite irritante em pessoas geneticamente predispostas.2,17 Segundo alguns autores, uma reaçao dermatológica a uma síndrome paraneoplásica também seria uma possível explicaçao.3

No que diz respeito ao presente caso, é possível que uma reaçao alérgica ao ácaro Sarcoptes scabiei ou a seus produtos tenha exacerbado uma reaçao de hipersensibilidade imediata e tardia no paciente, causando as lesoes de pele e produzido os sintomas.

O diagnóstico da DG é baseado no achado histopatológico de acantólise focal, com ou sem espongiólise, na epiderme e em nível suprabasal ou subcorneal, em exemplar de pele submetido à biópsia.4,10,18 Em alguns casos, ela é indistinguível histologicamente de outras doenças acantolíticas (por exemplo, doença de Darier), sendo necessário realizar a correlaçao clínico-histológica em todos os casos.4

A DG constitui-se em uma enfermidade subdiagnosticada, provavelmente devido ao grande número de casos oligossintomáticos e/ou transitórios ou devido a ela clinicamente coexistir ou ser confundida com outras doenças, dificultando o diagnóstico.3

Foi em 1977 que Chalet et al. descreveram as quatro formas histológicas aceitas atualmente e que se caracterizam por acantólise com formaçao de vesículas: padrao similar a pênfigo vulgar ou foliáceo, padrao semelhante à enfermidade de Darier, padrao-símile à doença de Hailey-Hailey e um padrao com espongiólise focal. Os padroes pênfigo vulgar-símile e o Darier-símile sao os mais comuns.3

No caso do nosso paciente, a biópsia e exame histopatológico de dois segmentos de pele evidenciaram achados compatíveis com as formas pênfigo foliáceo-símile, Darier-símile e Hailey-Hailey-símile.

Quanto ao tratamento da DG, nao existe uma padronizaçao de condutas. Medidas para evitar sudorese excessiva devem ser introduzidas precocemente, como evitar exposiçao solar, calor e atividade física intensa. É importante, também, minimizar a irritaçao da pele com o uso de sabonetes suaves, tecidos de algodao de cores claras e hidrataçao adequada.

Em manifestaçoes leves, o uso de substâncias tópicas tem mostrado reduçao das lesoes e melhora do prurido. Normalmente, sao utilizados derivados de vitamina A, calcipotriol, loçoes de ácido lático, pomadas de ureia, pomadas de óxido de zinco e corticosteroides para esses fins.4,6-9,19

Nas lesoes mais extensas e persistentes, é preconizada a terapia sistêmica. A literatura descreve o uso de retinoides (isotretinoína e etretinato) e citostáticos (metotrexate), além de corticoides (prednisona e triancinolona) na remissao das lesoes. Observa-se que, ao término do tratamento com os corticoides, a recidiva das lesoes é frequente. Alguns estudos mostram que o uso de fototerapia com psoraleno e ultravioleta A (PUVA) pode ser um recurso útil; entretanto, seu mecanismo de açao nao é totalmente esclarecido.3,5-7 Em casos em que o prurido é muito intenso, podem ser utilizados como terapia adjuvante os anti-histamínicos (hidroxizina, cetirizina). Antibióticos (tetraciclina e eritromicina) e antifúngicos (itraconazol) sao indicados quando há infecçao secundária. 8,20-22

 

REFERENCIAS

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