RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 24. 2 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20140066

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Carta ao Editor

A síndrome da exclusão social

The syndrome of social exclusion

Antonio Benedito Lombardi

Médico Psiquiatra da Infância e Adolescência. Doutor em Pediatria. Professor do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Antônio Benedito Lombardi
E-mail: lombardiab@uol.com.br

Recebido em: 22/04/2014
Aprovado em: 23/04/2014

Instituição: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil

 

Belo Horizonte, 21 de abril de 2014

Prezado Editor,

Quero apresentar-lhe o livro "A Síndrome da Exclusão Social" fruto do meu trabalho no período de 1978 a 2010 no Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (FM-UFMG).

O trabalho que originou o livro começou na segunda metade da década de 80. Naquela ocasião criei um ambulatório de Psiquiatria infantil, que funcionou certo período de tempo no ambulatório São Vicente de Paula do complexo do Hospital das Clínicas da FM-UFMG. Percebi, após alguns meses de funcionamento daquele ambulatório, que a maioria das crianças encaminhadas (de aglomerados, vilas, bairros distantes e mesmo do interior de minas) apresentava como queixas principais problemas relacionados à escola. Concluí que problemas escolares não deveriam ser abordados em um ambulatório localizado no centro de Belo Horizonte, mas sim próximo do domicílio das pessoas onde melhor integração entre saúde e educação poderia ser mais promissora.

Assim, algum tempo depois, passei a trabalhar em uma comunidade. Isso só foi possível graças à mudança curricular da FM-UFMG, que resultou na criação dos estágios nos postos de saúde da periferia de BH, assim chamados na época.

Na ocasião, como ponto de partida, senti a necessidade de conhecer melhor o perfil biopsicossocial da criança que ingressava na escola do aglomerado. Isso resultou em uma pesquisa (1990) que se transformou em uma dissertação de mestrado (1995).

Constatei que:

muito antes das crianças ingressarem na escola elas já tinham sido expostas a múltiplos fatores de risco;
ao ingressarem na escola a grande maioria já estava impactada biopsicossocialmente;
três anos após a primeira avaliação (1993) o prejuízo escolar da amostra examinada era muito grande.

No período de 1995 a 2008, verifiquei no trabalho de campo que as dificuldades escolares eram como a ponta de um iceberg gigante denominado exclusão social, fenômeno complexo, multidimensional, potencialmente capaz de produzir efeitos devastadores e muito piores que as dificuldades escolares. Estas, por sua vez, eram apenas um dos múltiplos sintomas.

Detectei que, no caso do Brasil, o fenômeno da exclusão social está estreitamente ligado à nossa história de exploração do meio ambiente e, principalmente, da escravidão de índios, negros e de seus descendentes. Perpetua-se até o momento, pela cultura excludente da indiferença, inicialmente materializada pela escravidão e, hoje, pelas políticas públicas incapazes de proporcionar verdadeira e definitivamente a libertação da população atingida por este holocausto brasileiro.

Essas descobertas sobre a exclusão levaram-me a revisitar o trabalho do mestrado. Estávamos no ano de 2008. Já haviam se passado 18 anos desde aquela pesquisa. Não tinha como fugir de uma pergunta: o que acontecera com aquelas crianças examinadas no mestrado?

Uma das formas de responder era a partir de outra pesquisa. Assim foi feito. Das 39 crianças que examinei no mestrado, localizei 28. Destas, 26 concordaram em participar da entrevista.

Constatei que:

as crianças vitimadas pelo fenômeno da exclusão social são expostas a múltiplos fatores de risco biopsicossociais, desde a gestação e em todos os períodos iniciais do ciclo de vida (período neonatal, de lactente, pré-escolar, escolar, adolescente, adulto jovem);

aquelas pessoas, em muitos momentos do estudo, principalmente ao entrarem para a escola, estavam multiplamente impactadas, ou seja, apresentavam simultaneamente sintomas físicos, psíquicos e sociais. Os achados sugerem também que esses múltiplos impactos ocorrem em todos os períodos do ciclo de vida;

nas condições adversas que viviam algumas daquelas pessoas do estudo, assim como familiares e amigos, tornaram-se vulneráveis a dois eventos muito marcantes entre nós: o primeiro, a maior predisposição ao uso e abuso de drogas provavelmente como recurso para aliviar os impactos subjetivos negativos; e o segundo, que predispõe os sujeitos a alto risco de entrar para o tráfico como um caminho de resolver o problema de desenvolvimento afetivo, pessoal e financeiro, todos ameaçados pelas adversidades. Ambos os eventos têm frequentemente como desfecho a violência, detenção e morte, fatos muito presentes na nossa sociedade atual. O conhecimento da ocorrência desses eventos foi uma das contribuições mais significativas do estudo;

na idade adulta jovem a inserção social de praticamente a totalidade da amostra era muito frágil, o que poderia agravar mais ainda a já vulnerabilidade da amostra estudada.

A impressão final que se tem é de que esse conjunto de sintomas apresenta uma origem bem definida e um quadro evolutivo mais ou menos uniforme e previsível. A descrição do quadro facilita a intervenção e, sobretudo, indica caminhos para a prevenção, para a promoção da qualidade de vida e a escolha do local onde essas medidas precisam ser colocadas em prática, no caso, a comunidade.

Assim, finalmente, resta esclarecer como se dá a associação da exclusão social com os múltiplos sintomas. Entendo que:

a cultura da indiferença e da exclusão iniciou-se no país com a colonização e de forma predatória e escravocrata;

essa cultura excludente exerce os seus efeitos perversos, ao materializar-se como fatores de risco e ao agravar os já existentes;

finalmente, esses fatores de risco, quase sempre múltiplos e concomitantes, provocam os impactos biopsicossociais no sujeito. Esses impactos, por si sós, são autoexcludentes e, uma vez interagindo sinergicamente com os fatores de risco extrínsecos perpetuadores, empurram o sujeito para a espiral da exclusão social, apesar da resistência oferecida por ações inclusivas presentes.

Prezado editor, portanto, após essa descrição, estou apresentando esse trabalho para a sua avaliação e, assim, poder anunciar para a comunidade médica esse quadro, que denominei de "A Síndrome da Exclusão Social" e que, recentemente, converti em um livro eletrônico (e.bookKindle) editado pela Editora Folium e que pode ser encontrado na Amazon.com.br. Tenho certeza de que este livro faz uma ponte sólida entre a nossa história e geografia e as condições desfavoráveis de saúde de grande parte da população iniciadas em um momento tão sensível e crítico como são os períodos iniciais do ciclo de vida.

 

Atenciosamente agradeço,

Antonio Benedito Lombardi.