RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 24. (Suppl.5) DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20140067

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Artigo Original

Conquistas e desafios dos Grupos de Pesquisa da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais

Achievements and challenges of the Hospital Foundation of Minas Gerais research groups

Deise Campos1; Roberto Marini Ladeira1; Fernando Madalena Volpe2; Jacqueline Saldanha Mendes da Costa3; Marcelo Militão Abrantes4; Vanderson Assis Romualdo5

1 Médico(a). Doutor(a) em Saúde Pública. Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais-FHEMIG. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. Médico. Doutor em Psiquiatria e Psicologia Médica. FHEMIG. Belo Horizonte, MG - Brasil
3. Administradora. Doutora em Demografia. FHEMIG. Belo Horizonte, MG - Brasil
4. Médico. Doutor em Pediatria. FHEMIG. Belo Horizonte, MG - Brasil
5. Fisioterapeuta. Mestre em Farmacologia. FHEMIG. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Deise Campos
E-mail:nap@fhemi.mg.gov.br

Instituição: Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais - FHEMIG Belo Horizonte, MG - Brasil

Resumo

INTRODUÇÃO: A reunião de pesquisadores em torno de projetos tende a originar Grupos de Pesquisa liderados por um pesquisador mais experimentado. A área de pesquisa na Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG) tem caminhado em busca de maior qualidade em seus produtos e na formação de recursos humanos para a pesquisa.
OBJETIVO: Descrever os Grupos de Pesquisa credenciados pela FHEMIG com ênfase na descrição do perfil dos líderes dos grupos.
MÉTODOS: Os dados sobre os Grupos de Pesquisa e seus líderes foram coletados no site do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), nos bancos de dados do Núcleo de Apoio ao Pesquisador da FHEMIG e nos relatórios da Comissão Interna do Programa de Bolsas de Iniciação Científica e Tecnológica (PIBIC).
RESULTADOS: A instituição possui 74 linhas de pesquisa em 29 Grupos de Pesquisa constituídos por 375 pessoas, dentre as quais 42 são líderes de grupos. Os Grupos de Pesquisa e os bolsistas do PIBIC concentram-se nos Hospitais de Ensino da Rede FHEMIG, porém os médicos residentes ainda não aderiram a esses grupos conforme o esperado. Metade dos grupos tinha o cadastro atualizado no sítio do CNPq.
CONCLUSÕES: Desde a implantação dos Grupos de Pesquisa, houve crescimento e consolidação da atividade de pesquisa na Fundação, mas de maneira geral, ainda é necessário o desenvolvimento de estratégias de estímulo à atividade de pesquisa assim como de melhor estruturação dos grupos e de maior compromisso em manter as informações atualizadas.

Palavras-chave: Grupos de Pesquisa; Pesquisadores; Hospital de Ensino; Pesquisa nos Serviços de Saúde.

 

INTRODUÇÃO

Um grupo de pesquisa pode ser definido como um conjunto de pessoas organizadas em torno de uma ou duas lideranças que se envolvem profissional e permanentemente com a atividade de pesquisa. Essas atividades se organizam em torno de linhas comuns de pesquisa que se subordinam ao grupo.1

A reunião de pesquisadores em torno de projetos tende a originar grupos de pesquisa. Esses projetos são grandes "guarda-chuvas" constituindo um processo de formação de alianças por conveniência, assim como uma combinação de forças para a obtenção de recursos para o desenvolvimento de projetos. Por outro lado, essa reunião pode representar uma tendência ao fortalecimento da "comunidade cientifica".1

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em ação conjunta com o Ministério de Ciência e Tecnologia, desenvolveu o Diretório de Grupo de Pesquisa no Brasil (DGP/CNPq) e elegeu o grupo de pesquisa como unidade elementar desse diretório.2 Seu objetivo é a constituição de um sistema de informação sobre a atividade de pesquisa cientifica e tecnológica com cobertura nacional, divulgando informações sobre os grupos de pesquisa em atividade no Brasil com um caráter censitário.1

Tem-se observado um crescimento constante no número de grupos de pesquisa assim como no número de pesquisadores doutores envolvidos nesses grupos. Outros indicadores também demonstram esse desenvolvimento: número de artigos publicados, número de estudantes por grupo e número de instituições de pesquisa participantes.2

Dentro da concepção de que a área de pesquisa na Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG) é considerada estratégica, a Fundação foi credenciada como instituição de pesquisa junto ao CNPq em 2008.3,4 Com a edição da Portaria Presidencial nº 525, em 17 de novembro de 2008, foram estabelecidos os critérios para criação e certificação dos Grupos de Pesquisa.5 Atualmente, tem-se caminhado em busca de maior qualidade em seus produtos e na formação de recursos humanos para a pesquisa. A certificação do Grupo de Pesquisa é o passo necessário para a oficialização de sua existência, a partir da obediência a critérios mínimos: registro oficial nos Núcleo de Ensino e Pesquisa da unidade assistencial; todos os integrantes com currículo atualizado na Plataforma Lattes; líder com vínculo efetivo com a Fundação, produção científica relevante e ter, preferencialmente, título de doutor ou, no mínimo, de mestre expedido por Programa de Pós-Graduação recomendado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) do Ministério da Educação.

No mesmo ano de certificação dos primeiros Grupos de Pesquisa na FHEMIG, deu-se início a outro processo para a consolidação da área de pesquisa. A FHEMIG firmou um convênio com a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), passando a oferecer anualmente uma cota de bolsas de iniciação científica dentro do Programa de Bolsas de Iniciação Científica e Tecnológica (PIBIC/FAPEMIG). A Comissão Interna de Avaliação do PIBIC/FAPEMIG é responsável por selecionar orientadores e candidatos à bolsistas de acordo com as normas da FAPEMIG.6

Procurando dar visibilidade às atividades de pesquisa na Rede FHEMIG, o presente estudo teve por objetivo descrever os Grupos de Pesquisa credenciados pela FHEMIG junto ao CNPq, com ênfase na descrição do perfil dos líderes dos grupos.

 

MATERIAL E MÉTODO

Este é um estudo descritivo dos Grupos de Pesquisa certificados pela FHEMIG e cadastrados no CNPq. Foram avaliados os Grupos de Pesquisa e seus líderes no período de 2008 a junho de 2014.

As fontes de dados foram: os bancos de dados do Núcleo de Apoio ao Pesquisador e da Coordenação de Residência Médica da Gerência de Ensino e Pesquisa da Diretoria de Gestão de Pessoas (GEP/DIGEPE), o sítio do Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq (DGP/CNPq) disponível em http://lattes.cnpq.br/web/dgp e os Relatórios da Comissão Interna de Avaliação do PIBIC/FAPEMIG na FHEMIG.

No sítio do DGP/CNPq foi possível visualizar cada um dos Grupos de Pesquisa. Foram obtidos os dados sobre o ano de cadastro e certificação do Grupo, as linhas de pesquisa, os líderes, os pesquisadores, estudantes e técnicos, o nível educacional dos componentes e a produção científica dos líderes. Nos relatórios da Comissão Interna de Avaliação do PIBIC/FAPEMIG foi possível identificar os orientadores e alunos contemplados com bolsas de iniciação científica da FAPEMIG por ano, desde 2008, quando se iniciou a disponibilização das cotas de bolsas para a FHEMIG. No banco de dados do Núcleo de Apoio ao Pesquisador foi possível identificar os artigos científicos publicados em revistas indexadas notificados pelos NEP, em 2013 e 2014. No banco de dados da Coordenação de Residência Médica de abril de 2014, foi obtida a listagem atualizada com os nomes dos residentes e a qual Unidade da Rede FHEMIG eles estão vinculados.

Para esse estudo foram considerados os conceitos básicos apresentados no site do DGP/CNPq, no Manual da FAPEMIG e nas metas do Acordo Interno de Resultados da FHEMIG:

O grupo de pesquisa é definido como um conjunto de indivíduos organizados hierarquicamente em torno de uma ou, eventualmente, duas lideranças: a) cujo fundamento organizador dessa hierarquia é a experiência, o destaque e a liderança no terreno científico ou tecnológico; b) no qual existe envolvimento profissional e permanente com a atividade de pesquisa; c) cujo trabalho se organiza em torno de linhas comuns de pesquisa que se subordinam ao grupo (e não ao contrário); d) e que, em algum grau, compartilha instalações e equipamentos. Grupo certificado pela instituição é o grupo de pesquisa enviado ao DGP/CNPq pelo líder que foi certificado pelo dirigente de pesquisa da instituição que o abriga. Grupo não-atualizado é o grupo certificado que permaneceu mais de 12 (doze) meses sem sofrer nenhuma atualização.

O Dirigente de Pesquisa (ou Dirigente Institucional de Pesquisa) é o gerente superior da atividade de pesquisa na instituição. Atribuições: identificar e cadastrar os líderes de grupos da instituição; decidir sobre a certificação ou não dos grupos enviados por esses líderes; cobrar a participação de líderes e pesquisadores da instituição que ainda não participam do DGP/CNPq; incentivar as atualizações dos grupos e dos currículos Lattes, de forma que a base de dados represente as atividades de pesquisa na instituição.

Uma linha de pesquisa subordina-se aos grupos e representa temas aglutinadores de estudos científicos que se fundamentam em tradição investigativa, de onde se originam projetos cujos resultados guardam afinidades entre si. Um grupo pode ter uma ou mais linhas, sendo que elas não precisam, necessariamente, estar associadas a todos os integrantes do grupo.

Projeto de pesquisa é a investigação com início e final definidos, fundamentada em objetivos específicos, visando a obtenção de resultados, de causa e efeito ou colocação de fatos novos em evidência. Em um Grupo de Pesquisa, os projetos devem estar inseridos em uma linha de pesquisa do grupo.

O pesquisador líder de grupo é o personagem que detém a liderança acadêmica e intelectual no seu ambiente de pesquisa. Tem a responsabilidade de coordenação e planejamento dos trabalhos de pesquisa do grupo. Sua função aglutina os esforços dos demais pesquisadores e aponta horizontes e novas áreas de atuação dos trabalhos. Um grupo pode admitir até dois líderes, denominados 1º Líder e 2º Líder. Pesquisador é um membro graduado ou pós-graduado da equipe de pesquisa, envolvido com a realização de projetos e com a produção científica. Quem estiver matriculado em um curso de pós-graduação (especialização, mestrado ou doutorado) deve ser incluído como estudante, desde que seu orientador seja um pesquisador do grupo. Estagiários pós-doutorais devem ser considerados como pesquisadores do grupo, e não como estudantes. Estudante é um aluno em iniciação científica ou em cursos de pós-graduação que participa ativamente de linhas de pesquisa desenvolvidas pelo grupo, como parte de suas atividades discentes, sob a orientação de pesquisadores do grupo.

A classificação dos componentes de um Grupo de Pesquisa é feita pelo líder do grupo diretamente no site do DGP/CNPq. São consideradas categorias dos recursos humanos nesses grupos os pesquisadores, estudantes, técnicos e colaboradores estrangeiros. Em geral há dupla contagem no número de pesquisadores e estudantes, pois um indivíduo que participa de mais de um grupo de pesquisa é computado mais de uma vez no CNPq. Portanto, o número total de pesquisadores está superestimado. Por outro lado, a formação acadêmica pode ser doutorado, mestrado, mestrado profissionalizante, especialização, especialização residência médica, graduação, curso de pouca duração e outros. Essa informação advém dos Currículos Lattes dos componentes do grupo e depende de sua atualização pelo pesquisador.2 Para que o Currículo Lattes de um pesquisador seja considerado atualizado, para fins deste estudo, a data de atualização deveria ser igual ou posterior a 01 de janeiro de 2014.

O número de artigos publicados em revista indexada de estudos envolvendo a FHEMIG ou um de seus servidores é um indicador do Acordo de Resultados da área de Ensino e Pesquisa da FHEMIG. Para este estudo foram contados como artigo publicado pelo Grupo de Pesquisa quando pelo menos um autor é integrante do grupo e o artigo foi enviado pelo Núcleo de Ensino e Pesquisa de cada Unidade da Rede (NEP) para a GEP/DIGEPE.

Outro indicador do Acordo de Resultados é a proporção de residentes em Hospitais de Ensino participantes em Grupos de Pesquisa da FHEMIG. Esses residentes podem se vincular a qualquer um dos Grupos de Pesquisa da instituição que for de seu interesse. Esta estratégia foi uma das ações de integração entre ensino e pesquisa proposta no último Fórum Científico da FHEMIG. São Hospitais de Ensino o Hospital João XXIII (HJXXIII), Hospital Infantil João Paulo II (HIJPII), Hospital Maria Amélia Lins (HMAL), Hospital Júlia Kubitschek (HJK), Maternidade Odete Valadares (MOV) e Instituto Raul Soares (IRS).4

As Unidades da Rede FHEMIG e as siglas que as identificam estão apresentadas na Tabela 1. Neste trabalho, os dados do MG Transplantes foram reunidos com os dados do Hospital João XXIII.

 

 

Foram realizadas análises descritivas com o uso do software Excel, versão 7 (Microsoft Corp., Estados Unidos).

Este trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da FHEMIG, em 30/07/2014, com o Parecer Consubstanciado nº 732.635.

 

RESULTADOS

Os primeiros grupos de pesquisa da FHEMIG foram certificados em 2008. Entre 2008 e junho de 2014, a FHEMIG certificou 30 Grupos de Pesquisa e um deles foi excluído por inatividade. O maior número de certificações ocorreu em 2009, quando 11 grupos foram criados, seguidos de 2012 com seis novos grupos. Atualmente, dezenove dos 29 grupos concentram-se em cinco Unidades da Rede FHEMIG: ADC, HJK, IRS, HIJPII e HJXXIII (Tabela 2). Foram cadastradas 74 linhas de pesquisa. Em junho de 2014, 15 Grupos de Pesquisa estavam com seu cadastro desatualizado no site do CNPq.

 

 

Os recursos humanos inseridos nos Grupos de Pesquisa da FHEMIG são divididos entre Pesquisadores e Estudantes. No total, 375 pessoas participam de um ou mais Grupos de Pesquisa. Na Tabela 2, as colunas intituladas Residência Médica, Mestrado e Doutorado indicam a maior titulação dos Pesquisadores, porém não foram apresentados aqui os números dos pesquisadores de outros níveis de graduação. Não há recursos humanos classificados nas categorias de Técnicos ou Colaboradores Estrangeiros. Os que tiveram origem em Hospitais de Ensino agregam maior número de estudantes (n=71) e médicos que concluíram (n=31) ou estão cursando a Residência Médica (n=6). A relação percentual entre o número de doutores e o número desses pesquisadores em Grupos de Pesquisa de Hospitais de Ensino foi de 23% e nas Demais Unidades foi de 31%. Na FHEMIG, essa relação alcançou o valor de 26,6% (Tabela 3).

 

 

Desde 2008, 85 bolsas PIBIC foram disponibilizadas para a FHEMIG. Dezesseis dos 23 orientadores selecionados estão atualmente inseridos em Grupos de Pesquisa. Muitos desses orientadores seguiram uma linha de pesquisa ao longo dos anos, recebendo bolsistas durante a realização de projetos de mais longo prazo. Ainda que não seja critério de seleção de orientador pelo PIBIC/FAPEMIG, em 2013 e 2014, as bolsas de iniciação científica disponibilizadas foram distribuídas para orientadores que também eram líderes ou pesquisadores de Grupos de Pesquisa da instituição.

Atualmente, esses grupos têm no total 42 líderes diferentes, dos quais dois são líderes em mais de um grupo, 30 (71%) são do sexo masculino e 35 (83%) são médicos. Quinze Grupos de Pesquisa possuem dois líderes e 14, apenas um. Considerando como atualizado o Currículo Lattes com data igual ou posterior a 1º de janeiro de 2014, 27 (64%) dos líderes estão em dia com seu cadastro de pesquisador no CNPq. Considerando a distribuição dos líderes segundo a Unidade da Rede FHEMIG com a qual possuem vínculo, 26 (62%) estão vinculados a Hospitais de Ensino. Vinte e sete líderes (64%) possuem doutorado e estão distribuídos em 24 Grupos de Pesquisa. Portanto, cinco grupos têm como liderança um pesquisador com nível mestrado. A relação entre trabalhos e resumos publicados em anais de eventos e artigos publicados em periódicos foi de 1,5 (Tabela 4).

 

 

Em 2013 e 2014, dos 42 artigos científicos publicados em revista indexada, 30 eram de autoria de pesquisadores inseridos nos Grupos de Pesquisa que citaram a FHEMIG na vinculação do autor ou na metodologia do estudo, conforme critérios para contabilização no Acordo Interno de Resultados (AIR).

A proporção de residentes de Hospitais de Ensino em Grupos de Pesquisa da instituição foi 6,1% (15 residentes), em dezembro de 2013. Em junho de 2014, havia 276 residentes em Hospitais de Ensino da Rede FHEMIG, mas apenas seis deles integravam grupos de pesquisa (2,2%), especificamente nos grupos denominados "Grupo de Pesquisa do Hospital Maria Amélia Lins" e "Terapia Intensiva Adulto".

 

DISCUSSÃO E COMENTÁRIOS

Segundo o DGP/CNPq, 41% dos grupos de pesquisa no País (n=11.285) foram criados entre 2007 e 2010. Em 2010, data do último censo disponível, Minas Gerais possuía 10,3% do total dos Grupos de Pesquisa e 14.859 pesquisadores, sendo que 3.278 doutores eram líderes de grupo. Das 59 instituições com Grupos de Pesquisa, a FHEMIG figura em 19º lugar em número de pesquisadores cadastrados e em 24º lugar em doutores como líderes de Grupo de Pesquisa. As instituições que lideram o ranking são as Universidades Federais de Minas Gerais, de Uberlândia, de Viçosa e de Juiz de Fora e a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.2

A respeito dos dados disponibilizados pelo DGP/CNPq, Mocelin (2009) comenta em seu ensaio que a diminuição dos recursos disponibilizados por agências de fomento em relação ao número de pesquisadores propiciou sua reunião em Grupos de Pesquisa aumentando a chance de obtenção dos recursos. O autor se refere a esse fenômeno como um aumento da concorrência entre os pesquisadores pelo crédito científico e recursos para pesquisa, isto é, a disponibilidade reduzida de recursos promoveu a instituição de parcerias entre os pesquisadores. Assim, os Grupos tendem a aglutinar um grande número de pesquisadores de alto nível e um grande número de colaboradores para as tarefas propostas "a fim de superar a condição de concorrência".1

Tendo isso em vista, verificou-se neste estudo que as bolsas PIBIC foram direcionadas a pesquisadores em Grupos de Pesquisa na instituição. Também foi possível observar que a criação dos Grupos de Pesquisa trouxe uma consolidação da atividade na instituição, embora de forma heterogênea entre as Unidades e dentro das Unidades da FHEMIG.7

Por outro lado, chama a atenção o elevado número de linhas de pesquisa. Uma "linha" é um traço com uma só dimensão, que determina o rumo e limita o campo específico do conhecimento produzido pelo Grupo. Deve ser relacionada ao grupo de trabalho e não a um indivíduo, incluindo vários projetos afins. Portanto, infere-se que essas linhas de pesquisa na FHEMIG representem mais o interesse de um pesquisador ou apenas um único projeto de pesquisa, sem uma discussão institucional (como preconiza a Portaria nº 525) ou do Grupo de Pesquisa na sua determinação.8

Futuramente, deverão ser pactuados os critérios para manutenção do credenciamento de um grupo de Pesquisa, baseados fundamentalmente na execução de projetos, na produção científica e no registro desta produção mediante a atualização permanente dos currículos na Plataforma Lattes e do Grupo de Pesquisa no sítio do CNPq.

Nesse sentido, também há necessidade de padronizar o que o líder do GP classifica como pesquisador ou estudante e como mestres e doutores. Da mesma forma, o membro classificado como Estudante que já concluiu o curso permanece no Grupo de Pesquisa como Estudante por falta de adequada atualização do Diretório pelo líder. Deve-se atentar para a padronização das definições de recursos humanos do DGP/CNPq tendo em vista que essa classificação é utilizada para estatísticas nacionais sobre os Grupos de Pesquisa.

A proporção entre o número de doutores e o número de pesquisadores é menor nos Hospitais de Ensino do que nas Demais Unidades. Isso provavelmente acontece porque nos Hospitais de Ensino há um maior incentivo à participação de residentes e estagiários. Segundo Odelius9, o maior benefício que um Grupo de Pesquisa propicia a seus membros é o aprendizado do "fazer fazendo", com alguns dos pesquisadores, especialmente os doutores, servindo de referência para os recém-chegados à equipe. O aprendizado com o trabalho cooperativo serve não apenas para o desenvolvimento de competências na área da pesquisa, mas também para o mercado de trabalho.9

O PIBIC está estabilizado e funcionando adequadamente na FHEMIG, embora a disponibilidade de financiamento para os projetos seja um fator limitante para o crescimento do quantitativo de bolsas. É muito desejável a inclusão dos acadêmicos do PIBIC/FAPEMIG nos Grupos de Pesquisa. A formação do aluno dentro de uma equipe de trabalho traz maior benefício e oportunidades. Os estudantes que participam de Grupos de Pesquisa assimilam a organização em grupos como sendo parte inerente à atividade de pesquisa, "como parte do fazer científico".1

Ao coordenador do Grupo de Pesquisa cabe passar aos demais pesquisadores o objetivo de um projeto com exatidão e o que é preciso para a tarefa ser realizada. Odelius9 considerou em seu trabalho que os procedimentos relacionados ao desenvolvimento de pesquisa que são fruto de aprendizagem continuada seriam: fazer revisão bibliográfica, definir amostra, montar um instrumento de coleta de dados, analisar os dados e comunicar os resultados.9

Observou-se com este estudo que cinco grupos são liderados por mestres e não por doutores como é preconizado. Esta excepcionalidade está prevista na Política de Pesquisa da instituição e foi autorizada em virtude de situações como liderança na área de conhecimento, pela sua produção científica ou por estarem cursando o doutorado. Por outro lado, 64% dos líderes de grupo na FHEMIG possuem doutorado, mas em Minas Gerais esse percentual chega a 90%, o que reforça as preocupações com o crescimento qualitativo da área da pesquisa na instituição. Espera-se que ações gerenciais estimulem mudanças nesse quadro. 2

Percebe-se ainda a necessidade de haver uma adequação e/ou atualização das linhas de pesquisa. O elevado número de linhas de pesquisa aliado a uma temática muito restrita produz resultados mais limitados em termos de publicação e desenvolvimento de pessoas. Deve-se entender que uma linha de pesquisa deve conter vários projetos e evidenciar as similaridades no conhecimento produzido pelos membros do grupo.1

Semelhantemente, os dados sobre a (des)atualização dos Grupos de Pesquisa no DGP/CNPq mostram que ainda há uma irregularidade no processo de alimentação das informações, requerendo atenção por parte da instituição também nesse quesito.

Destaca-se a elevada proporção de médicos entre os líderes dos grupos de Pesquisa, que reflete o predomínio desta categoria entre os profissionais com doutorado. Ainda que no banco de dados do Núcleo de Apoio ao Pesquisador da GEP/DIGEPE observem-se muitos trabalhos em Enfermagem, Fisioterapia, Psicologia e Farmacologia, essas categorias não se fazem representar na mesma proporção nos Grupos de Pesquisa (dados não apresentados).

Uma vez que o principal ganho com as atividades de pesquisa na FHEMIG seria a obtenção de uma maior qualidade na assistência à saúde, uma das principais necessidades na FHEMIG é ter acesso rápido às informações sobre as publicações dos pesquisadores para divulgação na intranet. Por outro lado, os autores devem reportar as suas publicações ao NEP de sua Unidade, como parte atuante que eles são no cumprimento da meta do Acordo Interno de Resultados. O Acordo Interno de Resultados privilegia a produção de artigos científicos em periódico indexado como forma de alcançar maior qualidade na publicação dos pesquisadores. Porém, mais que isso, para a melhoria da assistência, os resultados de pesquisas metodologicamente adequadas deveriam ser divulgados em seminários e encontros que extrapolem os limites das Unidades da FHEMIG que os geraram.

O número de trabalhos e resumos publicados em anais de eventos pelos é bem maior entre os Grupos de Pesquisa dos Hospitais de Ensino que das Demais Unidades. Isso poderia ser explicado pelo maior número orientações concluído por esses líderes (quase 2 vezes mais). Os orientandos, muitos deles estudantes e residentes, poderiam estar produzindo trabalhos mais simples como resumos enviados para eventos.

Por outro lado, diante do número de doutores e mestres líderes dos Grupos de Pesquisa e do número de orientações concluídas não há justifica para o pequeno número de artigos publicados por eles no período deste estudo (2008-2014), como observado em seus Currículos Lattes.

O pequeno número de médicos residentes incluídos nos Grupos de Pesquisa revela o sub-aproveitamento da Residência Médica enquanto um espaço para formação e desenvolvimento na área de pesquisa. Em geral, os residentes procuram um pesquisador para lhe prestar auxílio na realização de seu trabalho de conclusão de curso. Cabe aos líderes de grupos de pesquisa a articulação com os preceptores de residência para que os médicos residentes sejam incluídos nos grupos desde sua entrada no programa e receba treinamento adequado para a atividade científica, além de compor a equipe de execução de projetos de pesquisa. Os resultados mostram que alguns médicos que já concluíram o Programa de Residência Médica permanecem nos GP como tal. Não há informações fidedignas se isto representa a manutenção do vínculo com o grupo ou se trata apenas de falta de atualização das informações.

Ainda que a desatualização das informações referentes aos Grupos de Pesquisa da FHEMIG no DGP/CNPq tenha sido um fator limitante neste estudo, percebe-se a necessidade de avanços tanto no entendimento do que os Grupos de Pesquisa representam para aqueles que o compõem quanto nas ações institucionais de incentivo ao desenvolvimento de atividades de pesquisa por parte dos servidores para que a FHEMIG continue caminhando na melhoria da qualidade da assistência à saúde a partir de seus próprios quadros.

 

CONCLUSÃO

Desde a implantação dos Grupos de Pesquisa, houve crescimento e consolidação da atividade de pesquisa na Fundação, mas de maneira geral, ainda há necessidade de melhor estruturação dos grupos e de maior compromisso em manter as informações atualizadas.

A FHEMIG tem um grande potencial para a pesquisa, seja pelo seu contingente de recursos humanos, seja pelo seu imenso e variado campo para a investigação em saúde. Isso se reflete no expressivo número de Grupos de Pesquisa e de pesquisadores interessados em aprofundar seus conhecimentos em temas os mais diversos dentro da instituição. Entretanto, é necessário o desenvolvimento de estratégias de estímulo à atividade de pesquisa, com a implantação de mecanismos de remuneração e a destinação de recursos financeiros para desenvolvimento de projetos em temas prioritários para a instituição.

 

COLABORADORES

DC e RML participaram da concepção, redação e revisão final do trabalho. VAR, MMA, JSMC e FMV participaram da redação e revisão final do artigo.

 

REFERÊNCIAS

1. Mocelin,DG.Concorrência e alianças entre pesquisadores: reflexões acerca da expansão de grupos de pesquisa dos anos 1990 aos 2000 no Brasil. RBPG. 2009;6(11):35-64.

2. Brasil. Ministério de Ciência e Tecnologia. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Diretório de Grupo de Pesquisa no Brasil. [Citado em 2014 jun 01]. Disponível em: http://lattes.cnpq.br/web/dgp.

3. Volpe FM, Capanema FD, Chaves JG, Abrantes MM, Romualdo VA. Indução, estruturação e consolidação da produção científica e inovação tecnológica na FHEMIG. Rev Med Minas Gerais. 2010;20(Supl 4):13-8.

4. Abrantes MM, Brandão CMR, Campos D, Volpe FM, Capanema FD, Ladeira RM, Romualdo VA. Integração ensino, pesquisa e inovação tecnológica na FHEMIG. Rev Med Minas Gerais. 2012;22(Supl 2):S1-S172.

5. Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais. Portaria Presidencial Nº 525, de 17 de novembro de 2008. Institui a Política de Pesquisa, Inovação Tecnológica e Proteção à Propriedade Intelectual da FHEMIG. Belo Horizonte: FHEMIG; 2008.

6. Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais. Manual da FAPEMIG. Belo Horizonte: FAPEMIG; 2014. [Citado em 2014 Jun 01.] Disponível em: http://www.fapemig.br/wp-content/uploads/2011/05/manual.pdf.

7. Campos D, Romualdo VA, Brandão CMR, Volpe FM, Capanema FD, Abrantes MM, Ladeira RM. O Núcleo de Apoio ao Pesquisador e o Comitê de Ética em Pesquisa: uma estratégia de fomento à pesquisa na Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais. Rev Med Minas Gerais. 2012;22(Supl 2):S1-S172.

8. Borges-Andrade JE. Em busca do conceito de linha de pesquisa. RAC. 2003;7(2):157-70.

9. Odelius CC, Sena AC. Atuação em grupos de pesquisa: competências e processos de aprendizagem. R Adm FACES J Belo Horizonte. 2009;8(4):13-31.