RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 24. (Suppl.6) DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20140092

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Educaçao Médica

Proposta do curso de Medicina da Faculdade da Saúde e Ecologia Humana: algumas reflexoes

The Faculty of Health and Human Ecology medical course: some thoughts

Aristides José Vieira Carvalho

Médico. Mestre em Ciências da Saúde. Professor da Faculdade de Saúde e Ecologia Humana-FASEH. Vespasiano, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Aristides José Vieira Carvalho
E-mail: ariscar@terra.com.br

Instituição: Faculdade da Saúde e Ecologia Humana - FASEH Vespasiano, MG - Brasil

Resumo

O curso de Medicina da Faculdade da Saúde e Ecologia Humana surgiu como resultado das discussões realizadas por profissionais ligados à área docente e assistencial. Este artigo tem como objetivo apresentar a proposta institucional em relação à formação médica. Trata-se de relato de experiência que faz uma abordagem descritiva e traz reflexões sobre o processo e os desafios que acompanharam a criação e a implementação do curso de Medicina. Entre os principais destaques desse relato cabe destacar a busca pelo "novo", a coragem de mudar e a ousadia de buscar a coerência.

Palavras-chave: Estudantes de Medicina; Escolas Médicas; Educaçao Médica.

 

INTRODUÇAO

Em 2002, sob a atuaçao do Professor Assuero Rodrigues da Silva, intensificaram-se as discussoes sobre a criaçao e organizaçao do curso de Medicina da Faculdade da Saúde e Ecologia Humana (FASEH). Foram vários momentos de reuniao, de debate, de busca apaixonada por um novo modelo de formaçao capaz de responder às expectativas da sociedade em relaçao ao profissional da categoria médica. Destaca-se a participaçao dos professores Carlo Américo Fattini, Joao Lúcio dos Santos Júnior, Hérica Soraya Albano Teixeira, Aristides José Vieira de Carvalho e Carlos Ernesto Ferreira Starling e todos os outros fundadores.

De forma ousada, a FASEH nao teve receio de compartilhar olhares de diferentes profissionais com vasta experiência na área de ensino, pesquisa e assistência, que traziam suas propostas, seus questionamentos, insatisfaçoes e seus sonhos em relaçao a uma formaçao médica de qualidade.

A FASEH conseguiu construir de forma cuidadosa e corajosa, a partir de várias contribuiçoes, uma nova proposta de formaçao profissional. Em outubro de 2003 o curso de Medicina iniciou suas atividades.

Este artigo tem como objetivo apresentar quais valores e princípios orientaram a FASEH em sua proposta de formaçao médica.

 

METODOLOGIA

Trata-se de relato de experiência que utilizou como instrumento a abordagem descritiva e procura refletir sobre a trajetória da FASEH e suas opçoes em relaçao à criaçao e à implementaçao do curso de Medicina.

Vários docentes e profissionais de saúde participaram da construçao que é descrita neste artigo. Cabe destaque aos primeiros docentes que pensaram o projeto pedagógico inicial da FASEH para o curso de Medicina e que, de forma entusiasmada, deixaram a sua participaçao nos textos elaborados para a autorizaçao do curso e, posteriormente, para o seu reconhecimento.

A estrutura curricular do curso de Medicina da FASEH tem como uma de suas inovaçoes a disciplina Atividades de Integraçao Teórico Clínicas 1, 2, 3 e 4, que procura fazer a articulaçao do saber teórico e prático com as outras disciplinas. Entretanto, o espírito de integraçao permeia todas as disciplinas do curso e nasceu com a instituiçao. Nesse sentido, os docentes sao a todo o momento provocados por esse objetivo institucional. Para além da disciplina de Atividades de Integraçao, a FASEH ousou na introduçao de outras disciplinas, como Introduçao a Ética Médica, Bioética, Deontologia, Tutoria, além de dar um tom todo especial às disciplinas clínicas e aos seus internatos.

O relato de experiência procura resgatar o espirito fundante, que animou, deu vida à instituiçao e que a acompanha à medida que abre novas frentes e ganha credibilidade junto à populaçao e aos profissionais de saúde, em especial à categoria médica.

A busca pelo novo

Em sintonia com as Diretrizes Curriculares do curso de Medicina vigentes em 20031, a FASEH, quando iniciou em outubro com a primeira turma do curso de Medicina, nao poupou esforços para investir no "novo". E o que seria o novo? Em certo sentido, seria algo diferente, ainda nao praticado ou praticado de forma tímida em nosso país. De forma paradoxal - e estranhamente conceitual, utilizado neste texto - o novo também seria a busca pelo esquecido, pelo que é conhecido e imprescindível, mas que ficou à margem do processo de formaçao.

Ao falar no novo que nao é praticado ou o é de forma tímida, a FASEH, com a sua primeira turma, iniciou a inserçao dos alunos nos serviços de saúde com o objetivo de propiciar o conhecimento do Sistema Unico de Saúde (SUS), da Estratégia de Saúde da Família, da atuaçao dos profissionais e das demandas populares. Utilizando-se de metodologias ativas, procurou provocar os alunos no sentido de fazê-los pensar a atuaçao médica e a correlaçao entre o saber teórico e prático. Os alunos conheceram o território das Equipes de Saúde da Família, visitaram famílias, conversaram com os usuários do SUS - na rede básica de saúde e nos serviços hospitalares-, construíram projetos de pesquisa voltados para questoes do dia-a-dia dos serviços de saúde e participaram das discussoes sobre a prática médica.

A inserçao dos alunos nos serviços de saúde foi facilitada graças ao apoio da Secretaria Municipal de Saúde de Vespasiano, que abriu as suas portas e realizou importante e forte parceria com a Faculdade de Medicina.

A discussao sobre o SUS foi utilizada como ponto de partida para o acompanhamento e a vivência dos alunos nos serviços de atençao primária. As metodologias participativas e interativas tornaram-se importantes recursos para facilitar a apropriaçao do tema e o acompanhamento das diferentes questoes relacionadas à universalidade, à equidade e à integralidade das açoes de saúde nos cenários de prática estabelecidos pela instituiçao.

No que diz respeito à integralidade das açoes, um dos princípios do SUS2,3, a formaçao do aluno caminhou de forma progressiva, procurando conhecer a realidade, pensá-la de forma crítica e humanista, realizar diagnósticos e apresentar propostas de intervençao no sentido de transformá-la. Dessa forma, a FASEH conseguiu tornar realidade uma das orientaçoes das diretrizes curriculares de Medicina de 2001, que foi referendada e reforçada nas diretrizes curriculares publicadas em 20141,4, o que permitiu a percepçao da complexidade da atuaçao dos serviços de saúde, do desafio e da responsabilidade do profissional da área médica.

É importante comentar também sobre o "novo", utilizado como sinônimo do que já é antigo e conhecido, mas que ficou esquecido. Antigo porque remonta a Hipócrates5 e a Maimônides6, perpassando por Potter7 e pelos avanços da discussao bioética atual. A inovaçao da FASEH foi abraçar a formaçao Ética/ Bioética do aluno de Medicina. De forma ousada introduziu em sua estrutura curricular as disciplinas Introduçao à Ética Médica, Bioética e Deontologia. Partindo na frente e coerente com a tendência atual de introduçao da discussao ética nas faculdades de Medicina8, a FASEH ousou ao implementar a discussao de temas que conversavam diretamente com a prática médica e tentou, desde o início, quebrar a resistência dos alunos em relaçao às discussoes que sao primordiais para o profissional médico e que devem sustentar a sua prática.

Os debates relacionados à atividade médica foram orientados pelo Código de Ética Médica, utilizando como metodologia a discussao de casos clínicos e contando, sempre que possível, com a participaçao de profissionais da própria instituiçao e da Secretaria de Saúde, da Educaçao, de Assistência Social e lideranças comunitárias, dando o tom da formaçao médica balizada pelo Código de Ética Médica, "que contém as normas que devem ser seguidas pelos médicos no exercício de sua profissao"9.

A formaçao humanista, crítica e reflexiva1,4 ocupou lugar de destaque na grade curricular e foi um dos pontos fortes da instituiçao e um dos seus diferenciais. A necessidade de uma formaçao ampla, que envolve outros conhecimentos como os da Filosofia, da Sociologia e da Bioética10, foi identificada desde o início e as discussoes foram feitas a partir dos contatos com os serviços e/ou com profissionais convidados em sala ao contribuírem com a reflexao sobre a prática médica e a relaçao médico-paciente.

A coragem de mudar

As mudanças muitas vezes amedrontam. Tiram a estabilidade e a posiçao confortável. Para muitos, é melhor nao mexer, deixar como está. Mudar implica coragem. A FASEH nao poupou esforços em modificar, inovar, acolher o que há de novo e que é benéfico, faz crescer. Assim fez ao introduzir a tutoria dos alunos, ao organizar os trabalhos de final de curso, ao organizar os internatos, ao visitar as instituiçoes representativas da categoria médica e ao permitir e apoiar a participaçao dos discentes e docentes nos vários espaços institucionais.

Mantendo o clima agradável de uma faculdade acolhedora e aconchegante, nao se acomodou e nao esqueceu os seus desafios. Atenta e aberta às inovaçoes do curso de Medicina, acatou as orientaçoes e contribuiçoes dos vistoriadores do Ministério da Educaçao e Cultura (MEC), introduziu disciplinas novas, contratou novos profissionais e manteve-se firme no seu propósito inicial de dar a melhor formaçao possível aos seus alunos.

A FASEH procurou mudar com responsabilidade, garantindo a qualidade da formaçao. Manteve avanços, questionou iniciativas, foi à frente, voltou e buscou sempre, em uma posiçao de flexibilidade, garantir que os alunos tivessem segurança em relaçao à seriedade institucional. O desempenho dos alunos egressos da instituiçao nos serviços de saúde e/ou nas residências médicas atesta a qualidade da instituiçao.

A ousadia de buscar a coerência

Manter-se fiel aos sonhos que gestaram a instituiçao é o grande desafio de qualquer serviço sério e comprometido. Com a FASEH nao foi diferente. Em seu nascedouro, a inovaçao, a ética, a humanizaçao da prática médica e a atividade interdisciplinar estiveram fortemente presentes. O caminhar institucional sempre foi motivado por esses valores que deram vida e impulsionaram a sua criaçao. Assim como toda instituiçao no decorrer da caminhada, corre-se o risco de perder a inspiraçao inicial. O desafio é acatar as novidades e os avanços conquistados pelas melhores evidências científicas, ao mesmo tempo em que se mantém a coerência com os sonhos e as construçoes feitas a várias maos pelos docentes, discentes e gestores.

O processo avaliativo institucional tem esse papel. A partir dele a instituiçao se reaviva, se reencontra com sua história e ganha fôlego para seguir em frente de forma firme e transparente.

Um dos exemplos da busca permanente pela coerência sao os trabalhos desenvolvidos na cidade de Vespasiano, onde, em sintonia com as Novas Diretrizes Curriculares, os alunos têm atuado em serviços de saúde, escolas, creches, instituiçoes de longa permanência, na perspectiva da integralidade da assistência, com senso de responsabilidade social e compromisso com a cidadania, como promotores da saúde integral do ser humano.4

 

CONSIDERAÇOES FINAIS

A proposta da FASEH é numa educaçao de qualidade. Sua história iniciou a partir da discussao sobre valores fundamentais para um serviço de excelência. No decorrer da sua caminhada, a instituiçao primou pela coerência com as suas motivaçoes iniciais e sempre se manteve aberta a novos avanços para a formaçao médica. Essas características dao à Faculdade de Medicina da FASEH a credibilidade e o reconhecimento da populaçao, dos docentes, discentes e da categoria médica.

 

REFERENCIAS

1. Brasil. Ministério da Educação e Cultura. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CES nº 4, de 7 de novembro de 2001. Brasilia/DF: Explanada dos Ministérios; 2001.

2. Brasil. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasilia, DF: Senado Federal; 1988.

3. Carvalho AJV. A saúde no Brasil: uma introdução ao Sistema Único de Saúde. Vespasiano: FASEH; 2006.

4. Brasil. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Diretrizes curriculares nacionais do curso de graduação em Medicina. [Citado em 30 set 10]. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/Med.pdf

5. Munõz DR. Bioética: a mudança da postura ética. Rev Bras Otorrinolaringol. 2004;70(5 Pt 1):578-9.

6. Jorge Filho IJ. Os compromissos do médico: reflexões sobre a oração de Maimônides. Rev Col Bras. Cir. 2010;37(4):306-7.

7. Pessini L. As origens da bioética: do credo bioético de Potter ao imperativo bioético de Fritz Jahr. Rev Bioét. 2013;21(1):9-19.

8. Gerber VKQ, Zagonel IPS. A ética no ensino superior na área da saúde: uma revisão integrativa. Rev. Bioét. 2013;21(1):306-7.

9. Conselho Federal de Medicina; Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais. Código de Ética Médica. Resolução CFM nº 1931/2009. Belo Horizonte/MG, 2009. Brasilia: CFM; 2009.

10. Gonzalez RF, Branco R. Reflexões sobre o processo ensino-aprendizagem da relação médico paciente. Rev Bioét. 2012;20(2): 244-54.