RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 24. 3 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20140111

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Relato de Caso

Cisto mesentérico: linfangioma abdominal

Mesenteric cyst: abdominal lymphangioma

Diogo Gontijo dos Reis1; Nícollas Nunes Rabelo1; Sidnei Jose Aratake2

1. Acadêmico do curso de Medicina da Faculdade Atenas. Paracatu, MG - Brasil
2. Médico. Professor orientador da Faculdade Atenas. Paracatu-MG, Brasil. Chefe do Serviço de Cirurgia Geral do Hospital São Francisco. Taquaral, GO - Brasil

Endereço para correspondência

Nicollas Nunes Rabelo
E-mail: nicollasrabelo@hotmail.com

Recebido em: 27/02/2012
Aprovado em: 24/04/2014

Instituição: Faculdade Atenas Paracatu, MG - Brasil

Resumo

O linfangioma é uma afecção rara, benigna, com mais prevalência em crianças. Sua sintomatologia é bem variada, desde ausente até capaz de provocar abdome agudo. A ultrassonografia pode, na maioria das vezes, fazer o diagnóstico, entretanto, ele baseia-se na análise anatomopatológica. Na maioria das vezes tem bom prognóstico. Este relato descreve linfangioma abdominal em adulto, de aparecimento raro, mostrando os métodos de diagnóstico e tratamento.

Palavras-chave: Cisto Mesentérico; Linfangioma/diagnóstico; Linfangioma/terapia.

 

INTRODUÇÃO

Cisto mesentérico é definido como qualquer lesão cística localizada entre os folhetos do mesentério, do duodeno ao reto, sendo mais comumente encontrado no nível do íleo. Foi descrito inicialmente em 1507, por Benevienae, e até 1993 foram relatados 820 casos.1-3

Linfangiomas são tumores benignos, de origem provavelmente congênita e são mais comuns em regiões cervicais e axilares. São incomuns em localização abdominal e pancreática.1 Estima-se sua incidência em torno de 1:100.000 a 1:250.000 em adultos e 1:20.000 em crianças, internados em hospital. A primeira excisão foi realizada por Tillaux, em 1802.2 Apesar do longo tempo de seu reconhecimento, a sua origem, classificação e patologia permanecem controversas.

A maior incidência encontra-se entre a terceira e quarta décadas de vida, sendo 75% dos casos diagnosticados após os 10 anos de idade, de modo acidental, com discreto predomínio do sexo feminino.

O termo linfangioma é usado quando há isolamento hemodinâmico, ou seja, a lesão não está relacionada ao sistema arterial ou venoso.2,3 Os linfangiomas constituem um dos grandes grupos dos hamartomas vasculares, que resultam de falha no desenvolvimento evolutivo do sistema vascular, incluindo linfáticos e/ou artérias e veias.2

Esses tumores linfáticos (linfangiomas) são divididos em:

simples, com canais linfáticos capilares;

cavernosos, com linfáticos dilatados e cápsula; e

malformações macrocísticas, clinicamente denominados higroma cístico.2

O higroma cístico é o tipo mais comum e os locais mais acometidos são cabeça e pescoço. O principal diagnóstico diferencial é feito com hemangioma, cisto branquial, lipomas e rabdmiossarcoma. É preciso atenção para seu diagnóstico diferencial com a hidatidose. O diagnóstico de certeza é feito por biópsia de nódulo suspeito e o principal tratamento utilizado é a excisão cirúrgica.4-9

 

RELATO DE CASO

PCM, 58 de idade, masculino, procedente da chácara São Caetano Moreira, Goianorte-TO. Procurou o Hospital São Francisco, em Taquaral, de Goiás, sem diagnóstico ou tratamento, em 14/10/2010, devido ao desenvolvimento, há mais de um ano, de nodulação de evolução lenta. Negava dor, cefaleia, febre, diarreia e outros sintomas associados. Apresentava bom estado geral, acianótico, afebril, hidratado, com pressão arterial sistêmica de 120x80 mmHg; bulhas normofonéticas rítmicas, em dois tempos, simétricas, sem sopro; e nodulação móvel de 10 cm de diâmetro no abdome, sem dor à palpação superficial e profunda.

A dúvida diagnóstica em relação à estrutura abdominal palpada exigiu a realização de ultrassonografia (Figura 1) e tomografia computadorizada (Figura 2), que revelaram lesão nodular sem aparente aderência, caracterizando-se como cisto.

 


Figura 1 - Ultrassonografia de abdome revelando cisto volumoso intraperitoneal aparentemente mesentério.

 

 


Figura 2 - Tomografia computadorizada de abdome, com contraste que revelou nodulação hiperdensa de aspecto cístico, não captante de contraste, medindo 9,0 x 7,1 cm nos seus maiores eixos transversos, localizada no hipogástrio, sem aderência à bexiga.

 

Foi submetido à laparotomia exploratória através de acesso mediano supraumbilical que revelou cisto intraperitoneal na região do saco de Douglas, não aderido a alguma estrutura e avascular.

A análise anatomopatológica do cisto revelou:

macroscopia: lesão cística unilocular de paredes finas e transparentes e conteúdo com aspecto em "água de rocha", mas discretamente viscoso; forma ovoide; consistência cística; peso: 316,27 g; medidas: 11,0X 8,0 X 5,0 cm;

microscopia: parede cística coberta internamente por epitélio atrófico e achatado e parede com tecido escleroconjuntivo, tendo de permeio alguns capilares linfáticos. O diagnóstico estabelecido foi o de cisto de mesentério (linfangioma).

O paciente recebeu alta hospitalar em 16/10/2010, sem intercorrências e assintomático.

 


Figura 3 - Aspecto macroscópico do cisto abdominal retirado à laparotomia exploradora, que revelou tratar-se de linfangioma

 

DISCUSSÃO

O cisto mesentérico não possui sintomatologia patognomônica, entretanto, Santana et al.10 relataram, em 18 casos, dor e massa abdominal, vômitos e constipação e abdome agudo em 12, cinco e um pacientes, respectivamente.

A palpação da lesão é, usualmente, indolor e seu contorno é liso e bem definido, com grande mobilidade no sentido transversal e ao redor do seu eixo. O encontro de massa abdominal compressível com grande mobilidade no sentido transversal e ao redor de um eixo central é chamado sinal de Tillaux.2,3 O aumento do volume abdominal é lento e progressivo, sendo em alguns casos só notado tardiamente, confundindo-se com ascite em 18-20% dos casos.

Existem poucos relatos de cistos mesentéricos malignos, geralmente sarcomas de baixo grau. Kurtz et al. revisaram 162 casos de cisto mesentéricos, encontrando somente 3% de malignização e todos em adultos.10

Os cistos mesentéricos são, usualmente, diagnosticados de forma incidental por ocasião de laparotomia ou exames de imagem em até 40% dos casos. O desenvolvimento de abdome agudo ocorre quando há ruptura, infecção, hemorragia ou torção do cisto, sendo eventualmente confundidos com apendicite aguda ou aneurisma de aorta.

A propedêutica complementar pode ajudar muito a estabelecer o diagnóstico, especialmente os exames de imagem. O estudo radiológico simples do abdome pode evidenciar calcificações; a arteriografia e o trânsito intestinal podem acusar massa compressiva. A ultrassonografia, a tomografia computadorizada e a ressonância magnética são os exames que proporcionam melhor acuidade diagnóstica. O diagnóstico de certeza, entretanto, é reconhecido pelo exame anatomopatológico e classificado, à histopatologia, por microscopia óptica de luz, como: seroso; serossanguinolento; mucoide; quiloso; quilossanguinolento.

O cisto mesentérico deve ser ressecado, a fim de evitar suas complicações.2,3 Sua excisão cirúrgica completa deve ser indicada em todos os casos, para evitar sua recorrência, possível transformação maligna e complicações como hemorragia, torção, obstrução, ruptura traumática e infecção.11-13

A drenagem interna pode ser opção quando há possibilidade de síndrome do intestino curto. Em casos selecionados, a abordagem laparoscópica pode ser uma opção.

 

REFERÊNCIAS

1. Liew SCC, Glenn DC, Storey DW. Mesenteric cyst. Aust N Z J Surg. 1994;64(11):741-4.

2. Chung MA, Brandt ML, St-Vil D, Yazbeck S. Mesenteric cyst in children. J Pediat Surg. 1991 Nov; 26(11):1306-8.

3. Araújo FC. Machado FL, Perdigão B. F-Linfagioma cístico: uma rara apresentação de abdomen agudo. Rev Col Bras Cir. 2000;27(2):137-8.

4. Alvarez GC, Silveira ML, Costa EM. Linfangioma cístico do pâncreas. Rev Col Bras de Cir. 2000;27(6):430-1.

5. Tucker SM. Vascular lesions of the orbit. In: Duane's clinical ophthalmology. Philadelphia: Lippincott-Raven; 2000.

6. Pereira JF, Trindade PS, Velasco AA, Salum PT. Linfangioma Orbitrario: Relato de Caso. Arq Bras Oftalmol. 2010;73(1):84-6.

7. Boecha PR, Nogueira ARR, Goraib JÁ, Brito SM, Leal EC, Silva RCS, et al. Linfangioma abdominal nas crianças: apresentação de oito casos. J Pediatr. (Rio J). 1996;72(5):335-40.

8. Coelho UCJ. Manual de Clínica Cirúrgica. São Paulo: Atheneu; 2009.1662 p.

9. Wootton-Gorges SL, Thomas KB, Harned RK, Wu SR, Stein-Wexler R, Strain JD. Giatt cystic abdominal masses in children. Pediatr Radiol. 2005;35(12):1277-88.

10. Santana WB, Pedroso WLS, Alves JAB, Melo VA, Barros C, Fakhouri R. Cisto mesentérico e aspectos clínicos e anatomopatologicos. Rev Col Bras Cir. 2010;37(4):260-4.

11. Bliss DP Jr, Coffin CM, Bower RJ, Stockmann PT, Ternberg JL. Mesenteric cyst in children. Surgery. 1994;115(5):571-7.

12. Vara-Thorbeck C, Toscano Méndez R, Herrainz Hidalgo R, Mata Martín JM, Vara-Thorbeck R. Laparoscopy resection of a giant mesenteric cystic lymphangioma.Eur J Surg. 1997;163(5):395-6.

13. Okumu M, Salman T, Gùrlen N, Salman N. Mesenteric cyst infected with non-typhoidal salmonella infection. Pediatr Surg Int. 2004;20(11-12):883-5.