RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 24. 3 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20140113

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Relato de Caso

Cisto pericárdico volumoso em atleta

Massive pericardial cyst in an athlete

Anderson Ferreira Leite; Igor Ferreira Sales

Medico. Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Anderson Ferreira Leite
E-mail: anderson_med125@yahoo.com.br

Recebido em: 26/03/2012
Aprovado em: 08/05/2014

Instituição: Hospital das Clínicas da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil

Resumo

Tumores e cistos do coração são raros. Este relato apresenta a evolução de cisto pericárdico com aspecto radiográfico atípico. O diagnóstico foi sugerido pelo ecocardiograma transesofágico e tomografia computadorizada de tórax e confirmado após toracotomia e estudo anatomopatológico em atleta com descompensação cardíaca significativa e remissão após intervenção cirúrgica.

Palavras-chave: Cisto Mediastínico; Insuficiência Cardíaca; Cirurgia Torácica.

 

INTRODUÇÃO

Os tumores e cistos do coração e pericárdio são raros.1 São essencialmente congênitos, com incidência estimada em 1:100.000 e responsáveis por 6-7% das massas mediastinais.2,3 Na maioria das vezes são assintomáticos e, geralmente, diagnosticados incidentalmente por meio de radiografia de tórax. Sua sintomatologia pode se apresentar como dispneia e dor torácica, além de complicações como tamponamento cardíaco, o que justifica a necessidade de diagnóstico rápido e abordagem adequada que impeçam a morte.

Este relato descreve um atleta saudável, com descompensação cardíaca devido à compressão de um grande cisto pericárdico e que foi submetido a tratamento cirúrgico.

 

RELATO DE CASO

Homem de 40 anos de idade, fisiculturista, usuário de varfarina devido à trombose venosa profunda, procurou atendimento médico de urgência devido a dispneia progressiva e tosse seca associadas a pequenos esforços. Seu início ocorreu há três meses, tendo sido submetido ao estudo ecocardiográfico transtorácico sem elucidação diagnóstica. O exame mostrava sinais de congestão sistêmica e pulmonar, ingurgitamento jugular, crepitações no terço inferior de ambos os hemitóraces e hepatomegalia.

O ecocardiograma transesófagico (Figura 1) ressaltou compressão extrínseca das câmaras cardíacas direitas por formação cística volumosa e espessamento do pericárdio com repercussão hemodinâmica. A função e morfologia das câmaras esquerdas eram levemente reduzidas e sem alterações significativas nas valvas cardíacas. A tomografia de tórax com uso de contraste venoso (Figura 2) revelou coleção líquida de grande dimensão com bordas calcificadas entre o esterno e o ventrículo direito, comprimindo as estruturas cardíacas.

 


Figura 1 - Imagem de ecocardiograma transesofágico com visibilização das quatro câmaras cardíacas demonstrando compressão extrínseca das câmaras direitas por formação cística volumosa (pontas de seta) e espessamento pericárdico.
Fonte: arquivo pessoal.

 

 


Figura 2 - Imagem de tomografia computadorizada de tórax com contraste venoso evidenciando coleção líquida volumosa com bordas calcificadas entre o esterno e o ventrículo direito.
Fonte: arquivo pessoal.

 

Foi submetido à toracotomia, devido às alterações hemodinâmicas, com excisão completa da massa mediastinal, com sua histopatológica confirmando a suspeita pré-operatória de grande cisto pericárdico medindo 10 x 3 x 0,3 cm, com parede fibrosa repleta de líquido fibrino-hemorrágico antigo. A alta ocorreu cinco dias após a cirurgia, sem intercorrências pós-operatórias.

O ecocardiograma transesofágico pós-operatório (Figura 3) registrou pericárdio espessado, melhora da função biventricular (fração de ejeção ventricular esquerda = 64%), entretanto, persistia variação respiratória do fluxo tricúspide, indicando algum grau de comprometimento hemodinâmico.

 


Figura 3 - Imagem de ecocardiograma transtorácico pós-operatório em corte apical com visibilização das quatro câmaras cardíacas demonstrando pericárdio espessado, todavia, com desaparecimento da formação cística.
Fonte: arquivo pessoal.

 

Em seguimento ambulatorial de dois meses o paciente apresentou remissão completa da sua sintomatologia.

 

DISCUSSÃO

Os cistos pericárdicos são anomalias congênitas incomuns que ocorrem quase exclusivamente em adultos na quarta e quinta décadas de vida.4 São causados por defeito no desenvolvimento da cavidade celômica, estando aderido ao folheto pericárdico, embora a comunicação com a cavidade pericárdica aconteça apenas na minoria dos casos.5 Os cistos variam em diâmetro de 2 a 5 cm ou mais e representam 6% das massas mediastinais e 33% dos cistos mediastinais,6 sendo a maioria assintomática e diagnosticada incidentalmente à telerradiografia de tórax. Raramente se calcificam ou se rompem. Cistos adquiridos são extremamente raros e podem estar associados a neoplasia mediastinal, infecção parasitária, doença traumática ou cirurgia cardíaca.7

Este relato trata-se de um homem de 40 anos de idade, faixa etária comum de apresentação de cisto pericárdico, entretanto, com atividade esportiva caracterizada por múltiplos traumas torácicos, o que inclui a possibilidade de lesão adquirida. Destaca-se o tamanho incomum do cisto e as suas características anatomopatológicas. Conteúdo hemorrágico pode sugerir ruptura ou associa-se ao uso de anticoagulante oral, sem implicar sua gravidade.

A sintomatologia mais comum, quando presente, é caracterizada por: dor torácica, dispneia ou taquipneia paroxística, tosse e palpitações. Ocasionalmente, podem alterar a hemodinâmica cardiovascular ou a expansibilidade pulmonar e simular estenose tricúspide, estenose pulmonar ou pericardite constritiva.8

Neste relato, os sinais clínicos de comprometimento restritivo biventricular foram evidentes, com alterações hemodinâmicas ao ecocardiograma.

O ecocardiograma transtóracico geralmente é suficiente para estabelecer o diagnóstico, sendo ocasionalmente necessária a complementação propedêutica com o exame transesofágico em casos de localização atípica ou de difícil visibilização. A tomografia computadorizada e a ressonância magnética também contribuem para o diagnóstico diferencial com outras massas mediastinais.9 A punção aspirativa é alternativa, por ser diagnóstica e terapêutica e apresentar baixa mortalidade. O diagnóstico definitivo, entretanto, só é firmado por meio anatomopatológico.

Suas complicações incluem ruptura, tamponamento cardíaco, obstrução do brônquio fonte direito, obstrução do trato de saída do ventrículo direito e insuficiência cardíaca aguda de câmaras direitas.10

A resolução espontânea do cisto pericárdico foi descrita em poucos casos, provavelmente por ruptura do cisto.11 O tratamento conservador deve ser reservado para os casos assintomáticos; e, em casos sintomáticos, deve-se realizar a aspiração percutânea e a esclerose com etanol, reservando a remoção cirúrgica apenas em casos de insucesso com esta terapia ou diante de sintomatologia com repercussões cardiorrespiratórias.12

Neste relato a remoção cirúrgica por toracotomia foi a alternativa para tratamento, em face das dimensões do cisto e do comprometimento hemodinâmico.

 

CONCLUSÃO

Os cistos pericárdicos são raros, geralmente assintomáticos e diagnosticados incidentalmente. Podem se manifestar com dor torácica, dispneia ou taquipneia paroxística, tosse e palpitações e, como neste relato, podem causar repercussão hemodinâmica com sinais de insuficiência cardíaca aguda. Os métodos de imagem fornecem informações diagnósticas e ajudam a definir a proposta terapêutica, que pode ser conservador até ressecção cirúrgica.

 

REFERÊNCIAS

1. Engle DE, Tresch DD, Boncheck LI, Foley WD, Brooks HL. Misdiagnosis of pericardial cyst by echocardiography and computed tomography scanning. Arch Intern Med. 1983;143:351-2.

2. Davis RD Jr, Oldham HN Jr, Sabiston DC Jr. Primary cysts and neoplasms of the mediastinum: recent changes in clinical presentation, methods of diagnosis, management, and results. Ann Thorac Surg. 1987;44:229-37.

3. Cohen AJ, Thompson LN, Edwards FH, Bellamy RF. Primary cysts and tumors of the mediastinum. Ann Thorac Surg. 1991;51:378-86.

4. Saad R, Carvalho WRd, Ximenes Neto M. Cirurgia torácica geral. São Paulo: Atheneu; 2005.

5. Gilbert-Barness E. Potter's Pathology of the fetus and infant. 4. ed. St. Louis: Mosby, Year Book; 1997.

6. Maisch B, Seferovic PM, Ristic AD, Erbel R, Rienmüller R, Adler Y, et al. Guidelines on the diagnosis and management of pericardial diseases executive summary. The Task force on the diagnosis and management of pericardial diseases of the European Society of Cardiology. Eur Heart J. 2004;25(7):587-610.

7. Borlaug BA, DeCamp MM, Gangadharan SP. Neoplastic pericardial disease. In: Basow DS, editor. UpToDate. 2008. Waltham: UpToDate; 2008.

8. Klatte EC, Yune HY. Diagnosis and treatment of pericardial cysts. Radiology. 1972;104:541-4.

9. Wang ZJ, Reddy GP, Gotway MB, Yeh BM, Hetts SW, Higgins CB. CT and MR imaging of pericardial disease. Radiographics. 2003; 23 Spec No:S167-80.

10. Patel J1, Park C, Michaels J, Rosen S, Kort S. Pericardial cyst: case reports and a literature review. Echocardiography. 2004;21(3):269-72.

11. King JF, Crosby I, Pugh D, Reed W. Rupture of pericardial cyst. Chest. 1971;60:611-2.

12. Nina VJS, Manzano NCE, Mendes VGG, Salgado Filho N. Cisto pericárdico gigante: relato de caso. Rev Bras Cir Cardiovasc. 2007;22(3):349-51.