RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 24. (Suppl.9) DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20140117

Voltar ao Sumário

Artigo Original

Medidas das circunferências abdominal e cervical para mensurar riscos cardiovasculares

Measures of abdominal and neck circumferences to measure cardiovascular risks

Isabela Lage Pimenta1; Rafaella Calvano Sanches1; Joao Pedro Rodrigues Pereira1; Bruno Filgueiras Houri1; Eduardo Luis Guimaraes Machado2; Flávia Santos Guimaraes Machado3

1. Acadêmico(a) do Curso de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. Médico Cardiologista da Santa Casa de Minas Gerais, Coordenador da disciplina de cardiologia da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG - Brasil
3. Médica Cardiologista da Santa Casa de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Isabela Lage Pimenta
E-mail: isabelapimenta@live.com

Trabalho financiado pela FAPEMIG.

Instituição: Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais e Centro de Especialidades Médicas de Minas Gerais (CEM-MG) Belo Horizonte, MG - Brasil

Resumo

INTRODUÇÃO: as cardiopatias são a principal causa de morte e de alocação de recursos públicos em hospitalizações no Brasil. Levando-se em conta que o IMC é pouco descritivo quanto à distribuição de tecido adiposo/muscular, há outro método para obter a relação com riscos cardíacos: circunferência abdominal e cervical. A gordura visceral é vista como depósito patogênico, conferindo riscos metabólicos. Já a circunferência do pescoço reflete o acúmulo de gordura na parede das artérias carótidas. Considerando essa incidência, trabalhos que abordem esses aspectos demonstram relevância no contexto de obesidade e sedentarismo.
OBJETIVOS: evidenciar a relação entre as medidas das circunferências abdominal e do pescoço e a hipertensão arterial sistêmica.
METODOLOGIA: estudo realizado no CEM-MG, com medidas das circunferências do pescoço e abdome e IMC de 328 cardiopatas após TCLE e questionário. O nível de confiança é de 95%. Com fatores de inclusão/exclusão.
RESULTADOS: a circunferência abdominal acima do valor aumenta 3,87 vezes a chance de hipertensão (valor-p=0,000). Já a cervical aumenta 2,38 (1,09; 5,19) vezes (valor p=0,026).
CONCLUSÃO: embora não interfiram diretamente sobre cardiopatias, as medidas analisadas têm papel secundário sobre estas. Isso porque foi comprovada com o estudo a significância de tais medidas para hipertensão, que representa um importante desencadeante para as demais cardiopatias. Assim, há forte relação das circunferências abdominal e cervical sobre as cardiopatias e os fatores de risco para desenvolvê-las. Essa mensuração mostra-se importante também para mapeamento da saúde dos pacientes.

Palavras-chave: Hipertensão; Circunferência Abdominal; Obesidade; Indice de Massa Corporal; Fatores de Riscos.

 

INTRODUÇÃO

No contexto atual do nosso país as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte e são responsáveis pela principal alocação de recursos públicos em hospitalizações no Brasil. São vários os estudos que evidenciam a nítida correlação entre o ganho ponderal e a hipertensão arterial.1

Levando em conta que o índice de massa corporal (IMC) é pouco descritivo quanto à distribuição de tecido adiposo-muscular, há outro método de alta relevância para obter a relação com riscos cardíacos: circunferência abdominal e cervical.2-4 A gordura visceral nos tecidos confere riscos de metabolismo, como resistência à insulina e consequente estado hiperadrenérgico, que promove vasoconstrição da musculatura, aumentando a pressão arterial, assim como aumento da reabsorção de sódio. Já em relação à circunferência do pescoço, acredita-se que seu aumento é reflexo do acúmulo de moléculas de gordura na parede das artérias carótidas.2

O excesso de gordura abdominal é constatado quando se acha um valor de circunferência abdominal maior que 94 cm nos homens e maior que 80 cm nas mulheres, o que significa um marcador de risco. Já valores maiores que 102 cm nos homens e que 88 cm nas mulheres identificam alto risco de hipertensão arterial, dislipidemia, diabetes mellitus e, assim, de doenças cardiovasculares.1,5 Para circunferência cervical, valores maiores que 34 cm nas mulheres e 37 cm nos homens já indicam um marcador de risco para as doenças cardiovasculares, em especial para a hipertensão arterial sistêmica.2 Todos os índices antropométricos foram positivamente associados à pressão arterial sistólica e triglicérides, enquanto a circunferência do pescoço foi associada à pressão arterial diastólica.2,6,7

 

OBJETIVOS

O projeto visa a evidenciar a relação entre as medidas das circunferências abdominal e do pescoço e os riscos cardíacos de indivíduos portadores de doenças cardiovasculares, dando um foco principal para a hipertensão arterial.

 

METODOLOGIA

O estudo foi realizado nos ambulatórios de Cardiologia do Centro de Especialidades Médicas (CEM), nos quais os pacientes que aguardavam consultas eram abordados a partir da assinatura no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, seguido pela aplicação de questionário. Após a aprovação do paciente, eram feitas as medições das circunferências abdominal e cervical e cálculo de IMC. A amostra foi composta de 328 pacientes, com nível de confiabilidade de 95%, sob os critérios de exclusão: indivíduos impossibilitados de responder o questionário por algum motivo ou que apresentassem alterações da tireoide, linfomas na regiao cervical, ascite ou qualquer outro sintoma/doença que pudesse interferir no perímetro abdominal ou cervical.

Para a aferição da circunferência abdominal os indivíduos foram medidos em posição ortostática, com os braços afastados, pés juntos e com a camisa levantada até a altura do diafragma e abdome relaxado no final do movimento expiratório. Foi utilizada uma fita métrica flexível e inextensível, posicionada tendo como referência o ponto médio entre a crista ilíaca e a última costela, assim como recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Já para a aferição da circunferência cervical, a medida foi feita com o indivíduo em posição ortostática, utilizando-se a mesma fita métrica, no ponto médio da altura do pescoço com o indivíduo em apneia inspiratória e com a cabeça paralela ao solo para minimizar possíveis variações sobre essa variável antropométrica.

Após a coleta dos dados, foram avaliadas as circunferências abdominal e do pescoço, buscando-se correlacioná-las à existência ou não de hipertensão arterial. Para verificar a influência das variáveis circunferência abdominal e circunferência cervical foi utilizado o teste de qui-quadrado. O nível de significância adotado no trabalho foi de 5%. O software utilizado na análise foi o R versão 3.0.1.

 

RESULTADOS

A Tabela 1 apresenta a descrição das variáveis dos pacientes, podendo-se destacar os seguintes aspectos:

 

 

DISCUSSÃO

A circunferência abdominal acima do marcador é um fator de risco significativo para hipertensão (valor-p=0,000), uma vez que a chance de um paciente com circunferência abdominal acima do marcador de risco aumenta em 3,87 (1,79; 8,35) a chance de ser hipertenso. Já para circunferência cervical acima do marcador de risco (valor p=0,026), aumenta o risco de ser hipertenso 2,38 (1,09; 5,19) vezes.

Os pacientes acima do peso e obesos a partir do IMC são fatores de risco significativos para hipertensão (valor-p=0,000), uma vez que a chance de um paciente com sobrepeso ser hipertenso é 5,11 (2,05; 12,76) vezes maior. Já a chance de um paciente obeso ser hipertenso é 6,40 (2,08;19,67) vezes maior.

Tal abordagem pode ser ilustrada na Tabela 2 e Figura 1.

 

 

 


Figura 1 - Gráfico de barras e Boxplot dos fatores que influenciam na hipertensão.

 

Na Figura 1 pode-se visualizar a diferença da circunferência abdominal e cervical e IMC entre os hipertensos e não hipertensos, como já apresentado na Tabela 2.

 

CONCLUSÃO

Diante do que foi apresentado, pode-se perceber que, embora não interfiram diretamente sobre doenças cardíacas em geral, as circunferências abdominal e cervical desempenham papel fundamental secundário sobre estas. Esse papel secundário foi comprovado com este estudo a partir da significância de tais medidas para a existência de hipertensão arterial, que representa um desencadeante em potencial para as demais doenças cardiovasculares.

Dessa maneira, com este trabalho foi possível reforçar o que já consta em algumas bibliografias, as quais revelam a forte relação direta das circunferências abdominal e cervical sobre o risco de desenvolver hipertensão arterial e consequentes doenças cardiovasculares. Pôde-se, também, ressaltar sua importância como auxílio ao mapeamento da condição dos pacientes.

 

REFERÊNCIAS

1. Santos RD, Timerman S, Spósito AC, Halpern A, Segal A, Ribeiro AB, et al. Diretrizes para cardiologistas sobre excesso de peso e doença cardiovascular dos Departamentos de Aterosclerose, Cardiologia Clínica e FUNCOR da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Arq Bras Cardiol; 2002 abr; 78(supl.1):01-13.

2. Chavaglia AF, Silva CA. Análise dos fatores de risco cardiovascular na hipertensão arterial sistêmica. Belém: Unama; 2010. [Citado em 2014 nov 02] Disponível em: http://www.unama.br/novoportal/ensino/graduacao/cursos/fisioterapia/attach-ments/article/130/ANALISE-FATORES-RISCO-CARDIOVASCU-LAR-HIPERTENSÃO.pdf.

3. Liubov (Louba) Ben-Noun, Arie Laor. Relationship between changes in neck circumference and cardiovascular risk factors. Exp Clin Cardiol. 2006 Spring; 11(1):14-20. Clinical Cardiology

4. Preis SR, Massaro JM, Hoffmann U, D'Agostino RB Sr, Levy D, Robins SJ, et al. Neck circumference as a novel measure of cardiometabolic risk: the framingham heart study. J Clin Endocrinol Metab. 2010 Aug; 95(8):3701-10. [Citado em 2014 nov 02]. Disponível em: http://jcem.endojournals.org/content/95/8/3701.full.pdf.

5. Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Hipertensão, Sociedade Brasileira de Nefrologia. VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão. Arq Bras Cardiol. 2010; 95(1 supl.1):1-51. [Citado em 2014 nov 02]. Disponível em: http://publicacoes.cardiol.br/consenso/2010/Diretriz_hipertensão_associados.pdf

6. Vasques AC, Rosado L, Rosado G, Ribeiro RC, Franceschini S, Geloneze B. Indicadores antropométricos de resistência à insulina Arq Bras Cardiol. 2010 jul; 95(1):e14-e23.

7. Androutsos O, Grammatikaki E, Moschonis G, Roma-Giannikou E, Chrousos GP, Manios Y, Kanaka-Gantenbein C. Neck circumference: a useful screening tool of cardiovascular risk in children. Pediatr Obesity. 2012 June; 7(3):187-95. [Citado em 2013 nov 02]. Disponível em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.111/j.2047-6310.2012.00052.x/abstract