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RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 21. 3

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Artigo Original

Efeito do extrato hidroalcoólico de pyrostegia venusta na mutagênese "in vivo", e avaliação antimicrobiana, e interferência no crescimento e diferenciação celular "in vitro"

Effect of the hydroalcoholic extract of Pyrostegia venusta on in vitro mutagenesis, antimicrobial assessment, in vitro growth and cell differentiation

Adriana Ponciano Fernandes1; Grazielle Esteves Ribeiro2; Luciana Rosa Alves Rufino1; Lucimara Maria da Silva3; Marcelo Fabiano Gomes Boriollo3; Nelma de Mello Silva Oliveira1; João Evangelista Fiorini1

1. Laboratório de Biologia e Fisiologia de Microrganismos da Universidade José do Rosário Vellano, UNIFENAS. Alfenas, MG - Brasil
2. Acadêmico do Curso de Biomedicina da Universidade José do Rosário Vellano, UNIFENAS. Alfenas, MG - Brasil
3. Laboratório de Genética da Universidade José do Rosário Vellano, UNIFENAS. Alfenas, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Laboratório de Biologia e Fisiologia de Microrganismos – Unifenas
Rodovia MG – 179, KM 0
Cep: 37130-000 Alfenas, MG – Brasil
E-mail: microrganismo@unifenas.br

Recebido em: 15/09/2010
Aprovado em: 25/05/2011

Instituição: Universidade José do Rosário Vellano, UNIFENAS Alfenas, MG - Brasil.

Resumo

Analisa-se a atividade antibacteriana e antifúngica, o crescimento, a diferenciação celular e a ação mutagênica do extrato hidroalcoólico de Pyrostegia venusta (cipó-de-são-joão) em Herpetomonas samuelpessoai. As atividades antimicrobianas foram analisadas por intermédio de métodos de difusão em ágar e macrodiluição. O crescimento e a diferenciação celular de H. samuelpessoai foram realizados em meio quimicamente definido a 28ºC/48 h e analisados quantitativa (câmara de Neubauer) e qualitativamente (formas pró/para/opistomastigota) após coração panótica. A avaliação mutagênica foi realizada pelo teste do micronúcleo em eritroblastos de camundongos Swiss albinus após tratamentos via gavagem (1.000-2.000mg/kg) e decorridos os tempos de 24-48 h. Os resultados mostraram: a) ausência de atividade antimicrobiana para todas as cepas testadas, isto é, B. cereus, B. stearothermophilus, B. subtilis, E. aerogenes, E. coli, K. pneumoniae, M. luteus, P. mirabilis, P. aeruginosa, S. typhimurium, S. aureus, S. epidermidis, S. pyogenes, S. salivarius, C. albicans, C. neoformans e S. cerevisiae, independentemente das concentrações (72,6-145,2 mg/mL); b) ausência de efeitos sobre o crescimento e a diferenciação celular de H. samuelpessoai; c) ausência de efeitos potencialmente clastogênico e/ou aneugênico, independentemente de sexo, tempo e dosagem. Esses dados sugerem que o extrato de Pyrostegia venusta é seguro, podendo ser administrado por via tópica e oral, uma vez que não apresenta potencial carcinogênico/mutagênico. Pelas condições propostas o mesmo não deve ser usado como antimicrobiano.

Palavras-chave: Produtos com Ação Antimicrobiana; Mutagênese; Diferenciação Celular; Pyrostegia venusta

 

INTRODUÇÃO

A utilização de plantas medicinais como recurso terapêutico representa instituição generalizada na Medicina popular brasileira. Os conhecimentos acumulados ao longo do tempo, entretanto, evidenciam que seu efeito nem sempre é benéfico, podendo promover efeitos nocivos. A fitoterapia é muito usado na automedicação e, devido à facilidade do acesso, pode agravar seus riscos potenciais.1,2

Os tripanosomatídeos do gênero Herpetomonas têm sido amplamente empregados como modelos experimentais em estudos da Biologia e Fisiologia dos protozoários. As vantagens de se trabalhar com tais organismos incluem a facilidade de manuseio, ausência de riscos de contaminação e a relativa simplicidade com que eles se desenvolvem em meios artificiais.3-5

Apesar de a utilização de tripanosomatídeos como modelos para o estudo de ação de drogas sintéticas ser bastante investigada no meio científico, ainda é pouco explorado seu uso em testes com extratos vegetais e, consequentemente, quais efeitos exercem em nível celular in vitro.6

O método do micronúcleo baseia-se na análise da frequência de danos ocorridos ao DNA, os quais são resultantes de mitoses ou meioses celulares que, em contato com agentes clastogênicos e aneugênicos, podem gerar a perda de fragmentos ou de cromossomos inteiros, formando, assim, os micronúcleos.7,8

A Pyrostegia venusta é uma planta da família Bignoniaceae popularmente conhecida como cipó-de-são-joão, encontrada, frequentemente, dispersa em campos, margens de estradas e cercas de pastagens.5 Suas flores são usadas na Medicina popular para tratamento de manchas brancas no corpo (leucoderma, vitiligo) e como tônico antidiarreico.10, 11

Não existem relatos na literatura relacionados a pesquisas sobre a atividade antimicrobiana e mutagênica dessa planta, assim como efeitos em sistemas eucarióticos unicelulares in vitro. Desta forma, o presente artigo mostra os resultados sobre a ação antimicrobiana do extrato de folhas de Pyrostegia venusta, seu efeito no crescimento e na diferenciação celular de H. samuelpessoai e sua ação mutagênica in vivo.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Coleta das espécimes - as folhas de Pyrostegia venusta foram coletadas em Alfenas - MG, à beira da Rodovia MG-179, km zero, no mês de junho de 2008 e identificadas pela equipe do Laboratório de Botânica da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL), sendo a exsicata armazenada no Herbário da Universidade José do Rosário Vellano (UNIFENAS), Alfenas-MG, sob o nº 270.

Obtenção do extrato - o extrato das folhas frescas de Pyrostegia venusta foi obtido utilizando-se álcool etílico a 70%, conforme técnica descrita por Caceres et al.12. Foram pesados 600 g das folhas da planta e colocados em 3.000 mL de álcool. Essa mistura foi macerada em balão volumétrico (5.000 mL) e armazenada à temperatura ambiente por 15 dias, ao abrigo da luz. Após 15 dias o mesmo foi filtrado e mantido sob refrigeração. Posteriormente, foi concentrado e passado em filtro Millipore® (0,22 µm). O extrato assim obtido foi colocado em frasco âmbar estéril e mantido sob refrigeração a 4ºC.

Ação antimicrobiana - para os experimentos de ação antimicrobiana, foram utilizadas as seguintes cepas bacterianas e leveduras: Bacillus cereus (ATCC 11778), Bacillus stearothermophilus (ATCC 7953), Bacillus subtilis (ATCC 6633), Enterobacter aerogenes (ATCC 13048), Escherichia coli (ATCC 25922), Escherichia coli (ATCC 8739), Klebsiella pneumoniae (ATCC 13883), Micrococcus luteus (ATCC 9341), Proteus mirabilis (ATCC 25933), Pseudomonas aeruginosa (ATCC 25619), Pseudomonas aeruginosa (ATCC 27853), Salmonella typhimurium (ATCC 14028), Staphylococcus aureus (ATCC 6538), Staphylococcus epidermidis (ATCC 12228), Streptococcus pyogenes (ATCC 19615), Streptococcus salivarius (IAL 1863), Candida albicans (ATCC 10231), Cryptococcus neoformans (ATCC 20509) e Saccharomyces cerevisiae (ATCC 2601).

Os testes de atividade antimicrobiana do extrato vegetal de Pyrostegia venusta foram realizados por dois métodos, de acordo com padrões do National Commitee for Clinical Laboratory Standards (NC-CLS)13: teste de difusão em ágar e teste de diluição em tubo. Foram utilizadas as concentrações de 72,6 mg/mL e 145,2 mg/mL de extrato.

Crescimento e diferenciação celular - o crescimento de Herpetomonas samuelpessoai (ATCC 30252), incubada juntamente com concentrações crescentes do extrato hidroalcoólico de Pyrostegia venusta, foi estimado pela contagem em câmara de Neubauer. A diferenciação foi realizada em meio de cultivo quimicamente definido.14 Cerca de 106 de células foram incubadas juntamente com doses crescentes do extrato hidroalcoólico de Pyrostegia venusta a 28ºC por 48 horas. Os percentuais de formas para, pró e opistomastigota foram determinados a partir de microscopia óptica, após coloração pelo método panótico rápido. Pelo menos 200 células foram examinadas em cada preparação.

Determinação da DL50 - a determinação da DL 50 foi realizada conforme as normas preconizadas pela Organization for Economic Co-operation and Development (OECD). Foram usados camundongos Swiss albinos, fêmeas, com peso corporal entre 30 e 40 gramas, mantidos em caixas de polietileno em ambiente climatizado a 22ºC ± 3ºC, umidade relativa do ar igual a 50% ± 20% e em ciclos de luminosidade de 12 horas, tratados com ração comercial Labina Purina® (Nestlé Purina Petcare Company) e água ad libitum. Os animais foram selecionados aleatoriamente e agrupados em caixas, marcados de modo a permitir-se sua identificação individual e mantidos por cinco dias a fim de se aclimatarem às condições do Laboratório. Os animais jejuaram por quatro horas (o alimento foi negado, mas não a água) antes do início do tratamento. Em seguida ao período de jejum, os animais foram pesados e o extrato administrado em dose única por gavagem, usando-se um tubo gástrico. Após, o alimento ainda foi negado por mais uma a duas horas. Três animais foram usados em cada passo. A dose inicial testada foi de 300 mg/kg de peso corporal e, posteriormente, de 2.000 mg/kg. Estes foram observados individualmente após a administração da dose pelo menos uma vez durante os primeiros 30 minutos, periodicamente durante as primeiras 24 horas, com especial atenção durante as primeiras quatro horas e, após, diariamente, num total de 14 dias. No término do teste, os animais sobreviventes foram pesados e sacrificados humanitariamente (câmara de CO2).

Teste de mutagenicidade - para o teste do micronúcleo (MN), a técnica utilizada para a obtenção das células de medula óssea para o estudo da frequência de micronúcleos foi a descrita por Schimd15 e modificada por Zambrano et al.16. O tratamento foi administrado por gavagem uma única vez, empregando-se cinco grupos de animais (três machos e três fêmeas por grupo) em duplicata, para posteriores análises nos tempos de 24 e 48 h (tratamentos de 1.000, 1.500 e 2.000 mg/kg). Controles negativo (NaCl 0,9%) e positivo (50 mg/kg de N-Nitroso-N-etilurea) foram incluídos. Após os tempos de tratamento, os animais foram sacrificados por inalação de CO2 em câmaras de acrílico adaptadas. Os fêmures foram retirados e, rapidamente, células da medula óssea foram coletadas (1 mL de NaCI 0,9%), homogeneizadas e centrifugadas (1.000 rpm/5 min). Os sedimentos celulares foram ressuspensos (500 µL de formol 4% em NaCI 0,9%). As lâminas foram preparadas por esfregaço, mantidas à temperatura ambiente e submetidas à coloração (Leishman eosina-azul). Eritrócitos policromáticos (PCEs) foram analisados quanto a micronúcleos (aumento de 1.000×).

Estatística - para os ensaios de ação antimicrobiana e diferenciação celular foi adotada estatística descritiva. Os dados obtidos no teste do micronúcleo foram submetidos à análise estatística de variância, em delineamento inteiramente casualizado e esquema fatorial 5×2×2 (tratamentoxsexoxtempo), e ao teste Tukey (5% de significância), empregando-se o software SAS® (versão 8.01).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

No que diz respeito ao peso seco do extrato, este apresentou a concentração de 726 mg/mL de extrato hidroalcoólico das folhas de Pyrostegia venusta.

Com referência à atividade antimicrobiana do extrato, pela técnica de difusão em ágar, não foi constatada ação deste para as 19 cepas testadas de bactérias e fungos. Desta maneira, não houve formação de halos de inibição nas concentrações testadas (72,6 mg/mL e 145,2 mg/mL).

Nas concentrações testadas, não foram constatadas, pelo método de diluição em caldo, nem a capacidade em inibir o crescimento microbiano (CIM) nem mesmo a propriedade microbicida mínima (CMM), quando repicados para meios sólidos.

A atividade antimicrobiana de extratos e óleos vegetais deve-se, em sua maioria, a produtos do metabolismo secundário, como terpenoides e compostos fenólicos, como flavonoides e saponinas, que também, na forma pura, exibem atividade. A diferença entre achados de atividade antimicrobiana descritos em plantas pode estar relacionada com a quantidade de princípios ativos presentes nos extratos, visto que essa quantidade está relacionada à ação dos mesmos.17

Apesar de constatados por Ferreira et al.18 em estudos fitoquímicos da planta Pyrostegia venusta compostos associados à atividade antimicrobiana, como os flavonoides, o extrato deste vegetal, no presente estudo, não apresentou resultados que afirmassem a ação contra agentes microbianos. Esse fato também pode estar relacionado a diferenças entre os locais de coleta da planta, sazonalidade, concentrações ensaiadas e metodologia de extração dos princípios ativos, entre outras.

Os resultados obtidos na determinação da CIM e CMM corroboraram os resultados encontrados na técnica de difusão em ágar, demonstrando que o extrato aqui usado não possui atividade antimicrobiana para as 19 cepas testadas, nas condições propostas neste estudo.

O estudo realizado por Gonçalves et al.19 avaliou a atividade antimicrobiana de extrato hidroalcoólicos obtidos de 17 espécies de árvores nativas do Brasil. Para os ensaios de antibiose, foi utilizado o método da difusão em ágar com 10 diferentes microrganismos, isolados de inóculos obtidos de focos de infecções clínicas. Dos 170 testes realizados, 25% mostraram alta atividade antimicrobiana, destacando-se extratos de Bixa orellana, Psidium guajava e Anacardium occidentale. Excepcional atividade antimicrobiana foi observada em Mimosa tenuiflora contra Streptococcus pyogenes, Proteus mirabilis, Shigella sonnei, Staphylococcus aureus e Staphylococcus spp. coagulase-negativa; e os extratos de Stryphnodendron adstringens e Eugenia uniflora contra Escherichia coli, Providencia spp., Streptococcus pyogenes, Proteus mirabilis, Shigella sonnei, Staphylococcus aureus e Staphylococcus spp. coagulase-negativa. Entre estas, os extratos das plantas A. colubrina (Mimosoideae), G. americana (Rubiaceae), C. sylvestris (Flacourtiaceae) e T. avellanedae (Bignoniaceae) não apresentaram atividade antimicrobiana contra as cepas testadas.

Cunico et al.20 também avaliaram o efeito antimicrobiano do extrato bruto etanólico dos órgãos totais de O. martiana realizando ensaios com Enterococcus faecium, Enterobacter aerogenes e Pseudomonas aeruginosa, usando os métodos de difusão em ágar e bioautografia. Os resultados obtidos por difusão em ágar mostraram que o extrato de O. martiana apresenta potencial antibacteriano contra E. faecium e não comprovaram ação antimicrobiana contra as outras cepas testadas.

Zauli et al.21 avaliaram o potencial antimicrobiano do extrato etanólico de Dillenia indica L, popularmente conhecida como flor-de-abril, nas cepas de Escherichia coli, Staphylococcus aureus, Salmonella typhimurium, Pseudomonas aeruginosa, Streptococcus mutans e Streptococcus salivarius, utilizando a técnica de difusão em ágar e microdiluição seriada em tubo. Constataram atividade antimicrobiana para P. aeruginosa, S. aureus, S. mutans e S. salivarius, não apresentando halos de inibição, nas quantidades testadas, para as cepas de E. coli e S. typhimurim, concluindo, portanto, que o extrato de Dillenia indica L. apresentou atividade antimicrobiana in vitro bastante significativa apenas para alguns microrganismos.

Lopes et al.22 avaliaram, como nesta pesquisa, a atividade antimicrobiana do extrato seco de insulina (Cissus sicyoides) e do óleo de copaíba (Copaífera langsdorfii) em diversas cepas microbianas - Salmonella typhimurium, Staphylococcus aureus, Staphylococcus epidermidis, Escherichia coli, Enterococos faecalis, Enterococos aerogenes, Pseudomonas aeruginosa, Bacillus cereus, Bacillus subtilis, Candida albicans e Cryptococcus neoformans -, verificando que o óleo de copaíba inibiu o crescimento de S. aureus, E. coli. B. subtilis e E. faecalis, sendo os demais microrganismos resistentes. A CIM para as bactérias sensíveis variou de 6,05 a 30,25 mg/mL, com CMM de 18,15 mg/mL para E. faecalis. O extrato de insulina não foi efetivo na avaliação antimicrobiana.

Também, Pereira et al.23 investigaram a atividade antimicrobiana pela técnica de difusão em ágar dos extratos hidroalcoólicos de Sambucus nigra L. e Rudgea viburnoides (Cham.) Benth, conhecidos popularmente como congonha e sabugueiro, respectivamente, a partir de 14 microrganismos padronizados pela ATCC. Constataram que o extrato de congonha foi efetivo, nas concentrações de 10 e 12 mg/mL, para 92,86% dos microrganismos testados, não inibindo apenas o crescimento de E. coli. O extrato de sabugueiro, nas concentrações de 10 e 15 mg/mL, inibiu 64,29% das cepas ensaiadas.

Na tentativa de aumentar o conhecimento sobre plantas medicinais, Pinto et al.24 realizaram estudo sobre atividade antimicrobiana do extrato da planta Cassia angustifolia vahl. Estes foram avaliados em quatro bactérias Gram-positivas e quatro Gram-negativas e dois fungos. Os resultados foram satisfatórios apenas para as bactérias Gram-positivas.

Em estudos de atividade antimicrobiana de extratos brutos de espécies vegetais, o potencial antimicrobiano muitas vezes não se deve a uma única substância, mas sim a um conjunto dessas substâncias. Um extrato bruto de uma espécie vegetal que possui efeito bactericida satisfatório poderia não necessitar, portanto, de processos de isolamento de substâncias ativas, reduzindo etapas químicas e, consequentemente, custos financeiros. Isto viabilizaria a possível utilização como fitoterápico. Por outro lado, geralmente os compostos presentes em reduzida proporção na planta são os que apresentam melhores efeitos biológicos.25 Por este motivo, existe a necessidade de trabalhos com análise mais ampla de extratos, em que se obtêm extratos purificados, frações e, finalmente, os compostos puros. Neste sentido, torna-se indispensável a análise da potência das frações e das substâncias puras em relação à sua concentração26, bem como às suas atividades bactericida e bacteriostática.

O crescimento de Herpetomonas samuelpessoai em meio definido de Roitman, testado com diferentes doses do extrato hidroalcoólico da folha de Pyrostegia venusta, por 48 horas, está expresso pela média de números de células/mL e a diferenciação celular foi expressa em percentual de formas promastigota, paramastigota e opistomastigota (Tabela 1).

 

 

Conforme demonstrado na Tabela 1, o experimento de crescimento celular de Herpetomonas samuelpessoai, em presença do extrato, demonstrou que o número de tripanosomatídeos alterou de forma não estatisticamente significante as diferentes concentrações utilizadas do extrato, o que demonstra que este não inibe, de fato, o crescimento de Herpetomonas samuelpessoai nessas concentrações. Também em relação à diferenciação celular, não foram observadas formas diferenciadas (paraopistomastigota) estatisticamente significantes nas concentrações que variaram de 36,3 a 726 mg/mL, quando comparados ao sistema controle.

Alguns estudos semelhantes foram realizados com outras plantas e substâncias de uso medicinal, objetivando verificar a ação sobre Herpetomonas samuelpessoai, o que possibilitaria sua aplicação mais segura em seres humanos, uma vez que extratos de plantas indutoras de diferenciação celular em protozoários podem apresentar potencial mutagênico para células eucarióticas. Em relação à inibição ou estímulo do crescimento, reflexos semelhantes poderão ocorrer nessas células.

Em outro estudo realizado por Holetz27 foram avaliados os efeitos dos extratos brutos de plantas no crescimento e diferenciação celular de Herpetomonas samuelpessoai. Efeito antiprotozoário positivo foi encontrado nos extratos de L. alba, T. vulgare e P. regnellii, na concentração de 1.000 µg/mL, com 90,7, 97,4 e 99,5% de inibição de crescimento, respectivamente. Os extratos de A. millefolium, E. uniflora, M. glomerata, P. major, P. guajava e P. granatum mostraram fraca atividade inibitória. Por outro lado, A. lappa, E. speciosa, S. canadensis e S. acmella demonstraram estímulo no crescimento de H. samuelpessoai.

Outro estudo realizado por Holetz et al.28, utilizando o extrato de Stryphnodendron adstringens (barbatimão), revelou que este apresenta atividade inibitória sobre o crescimento de Herpetomonas samuelpessoai.

Chaves29 ressaltou que a bupivacaína, um anestésico local quatro vezes mais potente e tóxico que a lidocaína, inibiu o crescimento celular de H. samuelpessoai, em doses superiores a 0,05%, tendo sua ação potencializada quando associada à epinefrina, sendo também registrado aumento de células diferenciadas paramastigotas induzidas pelo anestésico.

Em pesquisa realizada por Lopes et al.22 avaliando a ação do extrato seco de insulina (Cissus sicyoides) e do óleo de copaíba (Copaífera langsdorfii) na diferenciação, no crescimento e na morfologia do tripanosomatídeo Herpetomonas samuelpessoai, foi constatada a inibição do crescimento pela copaíba na concentração de 0,2178 mg/mL. Quanto ao extrato de Cissus sicyoides não foi verificada inibição do crescimento nem diferença significativa nas contagens de pro, para e opistomastigota em relação à diferenciação celular.

Aguiar Neto et al.30 avaliaram a ação do extrato hidroalcoólico de Dillenia indica L. (flor de abril) no tripanosomatídeo H. samuelpessoai. De acordo com os resultados obtidos sobre o crescimento, pode-se notar que, à medida que aumentou o tempo de cultivo (24, 48, 72, 96 e 120 h), verificou-se queda acentuada do número de células. E no que se refere à diferenciação, apurou-se que curta exposição a diferentes concentrações do extrato aumentou a forma paramastigota comparativamente ao controle. Entretanto, esse mesmo extrato causou efeito inverso em ensaios com Herpetomonas roitimani, tripanosomatídeo que produz elevado número da forma opistomastígota espontaneamente.31

Analisando o efeito do extrato de Cassia angustifolia vahl. na diferenciação e crescimento celular em Herpetomonas, Pinto et al.24 constataram que nas concentrações de 5,9 a 59 mg/mL o extrato não provocou significativo aumento no número de células, mas também não foi observada inibição total do crescimento e este se mostrou capaz de induzir o processo de diferenciação nas concentrações de 24, 30, 35, 41 e 53 mg/mL, porém em menor proporção.

No tocante à determinação da DL50, após tratamento dos camundongos Swiss albinos, com concentrações de 300 mg/kg e 2.000 mg/kg do extrato hidroalcoólico de Pyrostegia venusta, e observação detalhada pelo período de 14 dias, não foi referido óbito, indicando que esse extrato não apresenta toxicidade relativa para esses animais.

O método do micronúcleo baseia-se na análise da frequência de danos ocorridos ao DNA, os quais são resultantes de mitoses ou meioses celulares que, em contato com agentes clastogênicos e aneugênicos, podem gerar a perda de fragmentos ou de cromossomos inteiros, formando, assim, os micronúcleos.32(Tabela 2).

 

 

Os dados da Tabela 2 mostram os resultados do teste do micronúcleo obtidos em camundongos Swiss fêmeas e machos, tratados com as três doses do extrato de Pyrostegia venusta (1.000, 1.500 e 2.000 mg/kg) e os controles positivo e negativo, nos tempos de 24 e 48 horas, respectivamente. São apresentados os números de eritrócitos policromáticos micronucleados (PCEMNs) para cada animal e a média de cada grupo. A Tabela 2 também mostra a média da razão entre o número de eritrócitos policromáticos (PCE) e normocromáticos (NCE) em 2.000 células analisadas/ animal.

No teste do micronúcleo, a análise da relação entre eritrócitos policromáticos e normocromáticos fornece uma ideia se o extrato está diminuindo a produção de novos eritrócitos (policromáticos). Se isto ocorrer, a droga poderá ser considerada citotóxica.7

Os resultados revelaram diferenças estatísticas significativas do número/índice percentual de PCEs micronucleados entre o grupo de animais do controle positivo (ENU 50 mg/kg) e controle negativo (NaCl 0,9%), bem como controle positivo e tratamentos (1.000 - 2.000 mg/kg). Entretanto, essas diferenças não foram observadas entre o grupo de animais do controle negativo e o grupo de animais tratados com o extrato e, ainda, entre os sexos e os tempos de tratamento (24 - 48 h), sugerindo que o extrato hidroalcoólico de folhas de P. venusta não apresenta potencial clastogênico e/ou aneugênico.

Corroborando os resultados obtidos, Ribeiro et al.33 não encontraram atividade mutagênica na fração clorofórmica do extrato do caule de Austroplenckia populnea (mangabarana).

Entretanto, Fagundes et al.34, investigando a toxicidade genética de Annona Corioteca (araticum-do-cerrado), demonstraram que o extrato das sementes possui potencial significativo para induzir danos ao DNA.

Outros estudos destacaram que diversos extratos vegetais podem ou não apresentar potencial genotóxico, utilizando-se o teste do micronúcleo.7,35-37

Nesta pesquisa, os resultados obtidos nos ensaios de diferenciação e crescimento de H. samuelpessoai e DL 50 corroboraram o teste do micronúcleo, pois nestes o extrato hidroalcoólico de Pyrostegia venusta, nas concentrações testadas, não demonstrou citotoxicidade in vitro e in vivo.

Pyrostegia venusta é uma planta pouco estudada, conforme constatado neste estudo, o que pode ser verificado pela carência de artigos encontrados na vasta literatura consultada que possam ser comparados com esta pesquisa.

 

CONCLUSÃO

O extrato hidroalcoólico da planta Pyrostegia venusta, nas concentrações testadas, não possui atividade antimicrobiana sobre as 16 cepas bacterianas e três fúngicas usadas.

Não houve alteração do crescimento celular de Herpetomonas samuelpessoai em presença de extrato hidroalcoólico de Pyrostegia venusta. E quanto à diferenciação celular, não foram observadas formas diferenciadas, estatisticamente significantes, quando comparados ao sistema controle.

O extrato hidroalcoólico de Pyrostegia venusta não apresentou DL50 nas concentrações testadas (300 a 2.000 mg/kg), o que sugere a ausência de toxicidade dessa planta.

A partir do teste do micronúcleo, o extrato não apresentou toxicidade para a medula óssea de camundongos Swiss albinos, nas doses testadas, não sendo considerado aneugênico e/ou clastogênico, quando administrado oralmente aos animais.

 

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