RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 25. 1 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20150007

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Artigos Originais

Fatores associados ao excesso de peso e ao índice de massa corporal em três escolas de Itaúna - MG

Factors associated with overweight and body mass index in three schools of Itaúna - MG

Raquel Cristina Mendes1; Cristiane Gomes Tavares2; Gabriela Fraga Delfino Figueredo2; Rafaela Lacerda Silva2; Kiara Gonçalves Dias Diniz2; Celiana Martins3; Reginaldo Gonçalves4; Lucilene Rezende Anastácio5

1. Nutricionista. Mestranda em Doenças Metabólicas e Comportamento Alimentar pela Universidade de Lisboa. Lisboa - Portugal
2. Nutricionista. Itaúna, MG - Brasil
3. Nutricionista. Mestre em Tecnologia de Alimentos. Professora do Curso de Nutrição da Universidade de Itaúna. Itaúna, MG - Brasil
4. Educador Físico. Doutor em Ciências da Saúde da Criança e do Adolescente. Professor do Curso de Educação Física da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil
5. Nutricionista. Doutora em Ciências Aplicadas à Saúde do Adulto. Professora do Curso de Nutrição da Universidade de Itaúna e Centro Universitário Unifemm de Sete Lagoas. Sete Lagoas, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Raquel Cristina Mendes
E-mail: raquelc.mendes@hotmail.com

Recebido em: 06/08/2013
Aprovado em: 22/10/2014

Instituição: Instituição Universidade de Itaúna (UIT) Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

Resumo

OBJETIVO: verificar a prevalência e os fatores associados ao excesso de peso e ao índice de massa corporal (IMC) de escolares.
MÉTODOS: trata-se de estudo transversal, epidemiológico, no qual foram avaliadas 60 crianças de seis a 10 anos de idade, de três escolas públicas de Itaúna-MG. Elas foram classificadas quanto ao IMC/idade e seus pais responderam a questionário para obtenção de dados demográficos, história familiar e pregressa, estilo de vida e frequência alimentar semiquantitativo. Os dados foram avaliados com auxílio dos softwares Excel e SPSS. Foram usados testes estatísticos de regressão logística múltipla e linear múltipla.
RESULTADOS: a prevalência de excesso de peso, eutrofia e baixo peso identificada pelo IMC/idade foi de 21,6% (p=13), 76,7% (p=46) e 1,7% (p=1), respectivamente. O excesso de peso foi independentemente associado à obesidade materna (p=0,004). Foi encontrada associação direta entre IMC e obesidade materna (p=0,02), ingestão de pães (p=0,03) e salgadinhos tipo chips (p=0,08) e associação inversa entre IMC e ingestão de iogurte (p=0,007) e sorvete (p=0,09).
CONCLUSÃO: a prevalência de excesso de peso encontrada na população estudada foi alta, demonstrando a importância de mais atenção a esse aspecto, uma vez que ele pode estar associado a fatores potencialmente modificáveis, como os dietéticos.

Palavras-chave: Sobrepeso; Obesidade Pediátrica; Índice de Massa Corporal; Dieta.

 

INTRODUÇÃO

O excesso de peso corporal (obesidade e sobrepeso) está em crescente escalada em todas as populações humanas,1 sendo, atualmente, o quinto maior fator de risco para mortalidade em todo o mundo.2 O índice de obesidade entre os jovens vêm crescendo e boa parcela das crianças com sobrepeso se torna adulta obesa.3

A obesidade é multifatorial, incluindo em suas causas fatores orgânicos, ambientais, comportamentais, psicossociais e socioeconômicos. A principal causa comportamental é o sedentarismo, caracterizado por mais horas por dia de permanência em frente à televisão, computador e videogame como atividades de lazer, associada à facilidade de acesso aos alimentos industrializados, ricos em açúcares e gorduras, e aos fast foods.1

O sobrepeso e obesidade infantil contribuem para o surgimento de diversas doenças ao longo da vida, como diabetes melittus tipo 2, hipertensão arterial sistêmica, dislipidemia e síndrome metabólica, que aumentam os riscos de cardiopatias, osteoporose e câncer.4,5

O aumento da prevalência da obesidade infantil tem incitado à busca de possíveis fatores associados e à forma mais eficaz de que seja prevenida e combatida. Este estudo objetiva identificar fatores associados ao índice de massa corporal (IMC) e ao excesso de peso de escolares de escolas públicas.

 

MÉTODOS

Trata-se de estudo transversal realizado em Itaúna (Minas Gerais) com escolares na faixa etária de seis a 10 anos de idade, matriculados em três instituições públicas. Foram coletados no segundo semestre de 2010 os dados demográficos, socioeconômicos, da história pregressa e familiar, do estilo de vida, dietéticos e antropométricos.

Optou-se pela adoção das variáveis excesso de peso e IMC, priorizando os dados que possivelmente pudessem influenciar essas condições e/ou estivessem relacionadas ao seu maior valor.

A seleção das crianças foi feita de forma aleatória, obedecendo a critérios estatísticos. Para se determinar o tamanho mínimo necessário para a amostragem foi realizado levantamento (estudo-piloto) com 25 alunos, abrangendo-se as idades de seis a 10 anos e ambos os sexos. Foram medidas as variáveis pressão arterial sistêmica sistólica (PAS) e diastólica (PAD), colesterol total e frações (HDL, LDL), triacilgliceróis e insulinemia e obtidos seus respectivos e desvios-padrão e médias. Foi estabelecido o erro máximo de tolerância permitido para a estimativa da média populacional de cada variável, que não comprometesse a confiabilidade dos resultados. Para o cálculo da amostra mínima em cada variável utilizou-se o respectivo desvio-padrão amostral como estimativa populacional em nível de significância de 5%.

Optou-se por assumir o tamanho amostral máximo entre os mínimos obtidos, a insulinemia, que, por sua vez, foi a variável limitante para a amostragem, por apresentar a maior variabilidade. A essa amostra acrescentaram-se 50%, considerando-se as perdas. Foi realizada estratificação por sexo e idade dentro de cada escola para que a proporção de idade e sexo fosse mantida. Com os dados obtidos de cada escola, os alunos foram numerados em cada série em ordem sequencial. A seguir, utilizando-se uma tabela de números aleatórios gerada pelo software Excel 2003, foram selecionadas as crianças de número correspondente na lista criada em cada série, até atingir o número necessário para compor a amostra para aquele sexo e idade naquela escola.

As crianças selecionadas tiveram como critério pertencer à faixa etária compreendida entre seis e 10 anos e estarem matriculadas em três escolas da rede estadual, em turnos da manhã ou tarde da classe introdutória até o quarto ano. Não foram incluídos adolescentes, pelas mudanças corporais ocorridas nessa fase.

O estudo foi realizado somente com as crianças cujos pais autorizaram sua participação mediante assinatura no Termo de Consentimento Livre Esclarecido e que comparecesse no dia marcado para a coleta dos dados. E foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa das Universidades Federal de Minas Gerais e de Itaúna, sob os protocolos de números ETIC 0040.0.203.000-10 e 012/10, respectivamente.

Este estudo foi realizado em dois momentos: no primeiro, a criança compareceu à escola com um responsável, o qual respondeu ao questionário contendo questões relativas aos dados demográficos, socioeconômicos, história pregressa e familiar; estilo de vida, dietéticos, antropométricos.

O questionário socioeconômico e a história familiar permitiram informar sobre o número de pessoas na casa, número de filhos, sexo, idade, peso e centímetros ao nascer, prematuridade, aleitamento materno e obesidade dos pais.

A avaliação dietética foi feita por intermédio do questionário de frequência alimentar semiquantitativo (QFASQ), além de perguntas referentes à ingestão de sal e açúcar em adição, número de refeições e hábito de realizar as refeições assistindo à televisão. O questionário foi elaborado com base em trabalho semelhante adaptado para crianças de seis a 10 anos.6 A análise do QFASQ usou as respostas classificadas em porções por mês, semana ou dia, transformadas em consumidas por dia.

No segundo momento, foi realizada a medição da altura e peso das crianças. O peso foi obtido em balança eletrônica digital Tanita, modelo BF-683 W, com capacidade máxima de 150 kg, precisão de 0,1 kg. A medida da estatura foi realizada utilizando-se antropômetro vertical Alturaexata, com graduação em centímetros (cm) até 2,13 metros, precisão de 0,01 m.

A partir dos dados de peso e estatura, foi calculado o IMC. As crianças foram classificadas de acordo com o IMC/idade por meio das novas curvas de crescimento recomendadas pelo Ministério da Saúde e propostas pela Organização Mundial de Saúde.7 As crianças com IMC/idade acima do percentil 85 e 97 foram classificadas como excesso de peso e obesidade, respectivamente, e as que estavam com percentil abaixo de três, como baixo peso.

Os dados foram analisados com o auxílio dos softwares Excel da Microsoft® e do Programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS)® versão 17.0. Variáveis categóricas foram apresentadas sob a forma de percentuais e valores absolutos. As variáveis numéricas foram submetidas ao teste de verificação de normalidade dos dados (teste de Kolmogorov-Smirnov) para a decisão de como seria a apresentação de dados, bem como dos testes secundários a serem realizados. Todas as variáveis relativas à ingestão alimentar por porções diárias obtidas com o QFASQ tiveram distribuição não normal (p<0,05) e por isso foram apresentadas sob a forma de mediana, mínimo, máximo e por quartis.

A avaliação de fatores associados ao excesso de peso infantil (IMC/idade > percentil 85) de forma univariada deu-se por meio dos testes de qui-quadrado, teste exato de Fisher e Odds Ratio (para variáveis categóricas associadas à existência ou não de excesso de peso) e dos testes de Mann-Whitney e T de Student (conforme a distribuição das variáveis numéricas). O nível de significância adotado foi de 5% para a apresentação das variáveis associadas ao excesso de peso de forma univariada.

Realizou-se também análise multivariada por meio da criação de modelo de regressão logística múltipla, utilizando-se como critério de entrada das variáveis no modelo aquelas cujo valor de p na análise univariada foi inferior a 0,2. O modelo foi posteriormente elaborado de acordo com o método de stepwise backward, no qual as variáveis com maior valor de p foram retiradas, uma a uma, até que só restassem variáveis com p<0,05 no modelo. O teste de Hosmer e Lemeshow foi empregado para verificar o ajuste do modelo (p>0,05). Por meio desse método, obtiveram-se apenas variáveis associadas de forma independente ao excesso de peso infantil.

Análise de regressão linear múltipla também foi realizada com o intuito de se discriminar variáveis associadas aos valores de IMC das crianças estudadas. O modelo de regressão linear foi obtido pelo método de stepwise backward.

 

RESULTADOS

Foram avaliadas 60 crianças entre seis e 10 anos de idade e idade média de 8,3 anos. As características gerais das crianças estudadas, como sexo e a classificação do IMC/idade, encontram-se na Tabela 1.

 

 

A média de pessoas na casa e do número de filhos foi de 4,35±1,2 e 2,4±1,1, respectivamente, sendo que 20% (n=12) das crianças eram filhos únicos. A média de peso e centímetros ao nascer foi de 3,3±0,6 kg e 50±2,2 cm, respectivamente, e cerca de 5% (n=3) das crianças nasceram prematuras. A prevalência de crianças nascidas com peso igual ou inferior a 2,5 kg foi de 18,3% e com peso igual ou superior a 4,0 kg foi de 5%.

Em relação ao aleitamento materno, 18% (n=11) das crianças não foram amamentadas. Das crianças amamentadas, a mediana de aleitamento exclusivo foi de 5±4,8 meses e a mediana do aleitamento materno não exclusivo foi de 6,5±9,7 meses.

A amamentação materna exclusiva foi observada em 42% (n=27) e 58% (n=36) das crianças por no mínimo seis e quatro meses, respectivamente. A porcentagem das crianças amamentadas exclusivamente até os seis meses e com alimentação complementar até os 24 meses, conforme indicação do Ministério da Saúde, foi de 57 e 10%, respectivamente.

A mediana de peso das crianças estudadas foi de 29,3 kg, sendo o mínimo de 19 kg e o máximo de 70,4 kg. A estatura mediana foi de 134,6 cm. O IMC variou de 12,3 a 37,5 kg/m2, com mediana de 16,7 kg/m2.

O estado nutricional das crianças masculinas foi de eutrofia e sobrepeso em 70 e 30%, respectivamente; e femininas, de eutrofia, sobrepeso e baixo peso em 86, 11 e 3%, respectivamente. Foram encontrados 21,6% (n=13) das crianças com IMC/idade acima do percentil 85; destas, 69% (n=9) eram masculinas e 31% (n=4), femininas. A obesidade materna e paterna foi observada em 11,6 e 10% dos casos, respectivamente.

O hábito de realizar as refeições assistindo à televisão foi anotado em 68,3% (n=41) das crianças. A adição de sal e/ou açúcar ao alimento já preparado foi relatada por 53,3% (n=32) das crianças. Em relação ao número de refeições diárias, 40% (n=24) a realizavam entre três e quatro e 60% (n=36) entre cinco ou mais.

Houve apenas uma variável independentemente associada de forma estatisticamente significante ao excesso de peso infantil: obesidade da mãe (p=0,004). Das crianças cujas mães apresentavam obesidade, 71,4% tinham excesso de peso versus 15,1% das demais, sem mães obesas (OR: 14,06; IC: 2,31-85,41).

O modelo de regressão logística múltipla final, ajustado pelo teste de Hosmer Lemeshow (p=0,919), incluiu as variáveis obesidade materna e ingestão diária média em porções de carne frita, embora esta última variável tenha permanecido no modelo sem significância estatística (Tabela 2). O modelo gerado apenas com a variável obesidade materna não pôde ser ajustado e, por isso, optou-se pela escolha do modelo contendo ingestão diária média em porções de carne frita, o qual foi capaz de predizer corretamente o excesso de peso infantil em 83,3% dos casos.

 

 

Considerando-se o IMC como variável resposta, o modelo de regressão linear múltipla revelou associação estatisticamente significante dos maiores valores de IMC com a obesidade da mãe (p=0,02), a maior ingestão diária média em porções de pães (p=0,03) e a menor ingestão diária média em porções de iogurte (p=0,007) (Tabela 3).

 

 

Entretanto, nesse modelo final também permaneceram variáveis que tenderam à significância (maior ingestão diária média em porções de salgadinhos do tipo "chips", p=0,08, e menor ingestão diária média em porções de sorvete, p=0,09). Presume-se que essas variáveis, de alguma forma, promoviam efeito de interação com as demais, pois, se retiradas do modelo, as outras variáveis perdiam a significância (exceto para a variável obesidade materna).

 

DISCUSSÃO

A prevalência de sobrepeso/obesidade encontrada na presente pesquisa foi alta (21,6%) quando comparada aos dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) para o ano de 2009 em crianças acima de sete anos de idade (8,7%) na cidade de Itaúna-MG.8 A prevalência de sobrepeso e obesidade encontrada por Ribeiro et al9, no "Estudo do coração de Belo Horizonte", foi de 8,4 e 3,1%, respectivamente. Já estudo realizado no Paraná com 356 crianças de zona urbana com idades entre seis e 10 anos evidenciou prevalência de sobrepeso/ obesidade superior, 27%.10

Pesquisa conduzida com 528 escolares de seis a 10 anos de idade classificou sobrepeso e obesidade por meio do IMC segundo padrão internacional e indicadores de adiposidade. Tal estudo concluiu que o IMC/idade é adequado para classificação de sobrepeso e obesidade na faixa etária em questão, uma vez que apresentou concordância com os indicadores de adiposidade.11 Embora fosse relevante utilizar pregas cutâneas e circunferências para classificação do estado nutricional, optou-se pela utilização apenas dos dados para classificação segundo IMC por idade no presente estudo, conforme Giugliano e Melo.11

Neste estudo não houve relação entre excesso de peso e sexo, embora a prevalência de sobrepeso no sexo masculino (30%) tenha sido maior do que no feminino (11%). Em São Paulo também se encontrou prevalência maior de excesso de peso entre meninos;12 e em Pernambuco e Sorocaba a prevalência de excesso de peso foi superior em meninas.1,13

Nenhuma relação entre excesso de peso e valores de IMC foi registrada em relação ao número de irmãos. Entretanto, a relação entre sobrepeso infantil e crianças unigênitas é citada em diversos estudos.14,15,16 Neste trabalho também não foi encontrada relação significativa entre o aleitamento materno e o excesso de peso, o que pode ter sofrido interferência por dificuldades ocorridas durante a coleta dos dados. Quando a criança foi acompanhada pelo pai, por exemplo, houve, na maioria das vezes, dificuldade em se obter resposta sobre o período de aleitamento materno correto e confusão em relação ao aleitamento exclusivo com período de desmame.

O aleitamento materno possui inúmeros benefícios às crianças, inclusive protegê-las contra o sobrepeso e a obesidade.17,18 Estudo realizado em Recife com 409 crianças pré-escolares concluiu que as crianças que receberam aleitamento materno por quatro meses ou mais tiveram menor prevalência de sobrepeso quando comparadas àquelas com tempo de aleitamento inferior.18

O Ministério da Saúde19 recomenda que as crianças devem ser amamentadas com leite materno exclusivo e com alimentação complementar até os seis e 24 meses de idade, respectivamente, o que não foi aqui encontrado, uma vez que a mediana de tempo de aleitamento materno exclusivo foi inferior a cinco meses.

Não foi evidenciada, na amostra avaliada, qualquer relação entre peso ao nascer e prematuridade e o excesso de peso infantil ou os valores de IMC das crianças. Martins e Carvalho20 descreveram a relação entre o peso ao nascer e o excesso de peso na infância e constataram que, embora a maioria das crianças macrossômicas possua elevado risco de obesidade infantil, há relatos de que o baixo peso ao nascer também possa ter associação com a obesidade infantil.

A prematuridade21 é identificada como fator de risco para o excesso de peso em crianças, entretanto, não foi aqui observada essa associação.

A obesidade dos pais foi avaliada por meio de questionário, no qual o responsável pela criança relatava a presença ou não de obesidade nos pais. Essa variável seria mais específica se as medidas antropométricas dos pais tivessem sido efetivamente avaliadas e o estado nutricional classificado. Tal avaliação foi inviável, pois a presença de ambos os pais no momento de coleta de dados não foi possível. Apesar da ausência da antropometria dos pais, a variável obesidade da mãe, relatada pela própria mãe ou pelo responsável da criança, teve relação com a variável resposta, o que está de acordo com vários estudos.15,22,23 Tal fato pode estar relacionado tanto à genética familiar como às influências ambientais, uma vez que a convivência da criança no mesmo ambiente dos pais influencia quanto à obtenção dos mesmos hábitos alimentares e de vida.24,25 A obesidade materna pode estar mais relacionada ao sobrepeso infantil do que a paterna, uma vez que é a mãe, em geral, quem escolhe e prepara os alimentos, e se possui hábitos alimentares inadequados, a tendência é que sejam repassados aos filhos.15

Os hábitos alimentares das crianças têm sofrido diversas modificações, notando-se cada vez mais a diminuição da ingestão de frutas e hortaliças e o aumento no consumo de guloseimas e refrigerantes, o que tem contribuído para o aumento do excesso de peso.24 Em adolescentes o baixo consumo de frutas e hortaliças e o alto consumo de lipídeos e doces parecem estar associados ao percentual elevado de excesso de peso (21%).26

Neste trabalho foi encontrada associação entre a maior ingestão de porções diárias de pães e o maior IMC, o que pode estar relacionado à quantidade de carboidratos presentes nesse grupo de alimentos. Durante a coleta, não foram diferenciados grupos de pães (doces, franceses, light, integrais, etc.), o que pode ser considerada sua limitação. O consumo de carboidratos é essencial, pois esses são importante fonte de energia corporal.27 Porém, observa-se27,28 que indivíduos com dieta rica em energia proveniente de carboidratos de alto índice glicêmico (IG) possuem mais chances de desenvolver doenças cardiovasculares, obesidade e diabetes mellitus. A ingestão de grãos integrais, os quais são ricos em fibras, em detrimento de outras fontes de carboidrato, pode minimizar essa situação, pois possuem diferentes IG. O alto IG estimula a lipogênese, causando o aumento dos adipócitos, enquanto dietas com baixo IG inibem essa resposta.28

O maior consumo de salgadinhos tipo "chips" também esteve associado aos elevados valores de IMC neste trabalho. Pierine et al.29 salientaram, em 441 escolares do ensino médio e fundamental, que 28% dos escolares consumiam salgadinhos tipo chips na alimentação escolar. Esses alimentos possuem baixa quantidade de nutrientes essenciais ao desenvolvimento das crianças, alta densidade energética e quantidades excessivas de sódio e gorduras, podendo aumentar os riscos de obesidade, hipertensão e doenças cardiovasculares.30

A relação inversa entre o IMC e a ingestão de iogurte e sorvete encontrada na presente pesquisa pode estar ligada à grande quantidade de cálcio disponível nesses alimentos. Santos et al.31 encontraram associação negativa entre o consumo de cálcio e o IMC de adolescentes de médio nível socioeconômico da cidade de Ouro Preto (Minas Gerais). Crisóstomo et al.32 concluíram que a ingestão de cálcio e produtos lácteos pode contribuir para modificações metabólicas que auxiliam no controle do peso, gordura corporal e resistência à insulina; e ressaltam que a influência da ingestão de cálcio na obesidade precisa ser mais bem estudada.

Uma das limitações encontradas neste trabalho foi a ausência de alguns dados que seriam importantes, como, por exemplo, escolaridade dos pais, fatores socioeconômicos e nível de atividade física da criança, fatores já identificados como associados ao excesso de peso infantil.33

Este estudo identificou grande prevalência de excesso de peso em escolares de seis a 10 anos de idade; e sugere que este resultado possa estar relacionado à obesidade da mãe e à alta ingestão de pães e salgadinhos e esteja inversamente proporcional à ingestão de iogurte e sorvete.

Este estudo não é conclusivo, já que a amostra não caracteriza efetivamente a população de escolares, e possui limitações na coleta de dados, entretanto, alerta para o valor dos hábitos nutricionais saudáveis, além de incitar à busca de mais conhecimento para melhor caracterizar o estado nutricional dos escolares e promover medidas de intervenção nutricional.

 

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