RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 25. 2 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20150029

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Editorial

Conceito de vulnerabilidade e sua aplicação aos transtornos do uso de drogas

The concept of vulnerability and its application to drug use disorders

Frederico Garcia

Coordenador do Centro de Referência em Drogas da UFMG
Líder do Núcleo de Pesquisa em Drogas, Vulnerabilidade e Comportamentos de Risco a Saúde - UFMG
Professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG. Psiquiatra Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria. Doutor em Medicina Molecular pela Université de Rouen, França

 

Como podemos integrar o conceito de vulnerabilidade aos transtornos por uso de substância? Como este conceito pode contribuir para nossa compreensão do risco, dos danos, da possibilidade de prevenção e redução de danos?

Quando considerados conjuntamente, o álcool, o tabaco e as drogas ilícitas estão implicados em 12% da mortalidade mundial, constituindo, assim uma das principais causas de morte que podem ser prevenidas. Essas substâncias são responsáveis por aproximadamente 10% da carga global de doenças.1,2 Contudo, esses indicadores referem-se a uma minoria da população de usuários de drogas, ou seja, aqueles que têm um transtorno por uso de substância, como o uso abusivo ou a dependência de drogas. Sabemos também que, apesar da elevada frequência de experimentação e uso de drogas na vida, somente minoria de pessoas evolui para uso abusivo ou a dependência. Surge então a questão de como identificar quem irá evoluir ou não para uso abusivo ou dependência.

Parece-nos que o conceito de vulnerabilidade pode ajudar a melhor responder a esta questão. A propensão à dependência química pode ser dividida em três níveis de vulnerabilidade. O primeiro nível abrange fatores sociodemográficos, populacionais (ex. cultura e localização geográfica) ou individuais (ex. idade, sexo, nível educacional, raça, necessidades especiais). O segundo nível corresponde aos aspectos psicológicos e psiquiátricos que acabam por refletir ou determinar as escolhas, preferências, experiências ou problemas individuais (ex. tipo de droga usada, sua ação, a percepção do usuário em relação ao uso da substância e o valor atribuído a ela). O terceiro nível refere-se aos fatores biológicos e genéticos que determinarão os efeitos fisiológicos de uma droga e sua valência adictogênica.3 A todo o instante esses três níveis estabelecem interações entre eles, associando-se e modificando constantemente o grau de vulnerabilidade a dependência.

No campo da saúde, compreender as vulnerabilidades a que estão expostas as pessoas é compreender não apenas as condições que podem deixá-las em situação de fragilidade e expô-las ao adoecimento, mas também os recursos de que cada indivíduo ou grupo social dispõe para enfrentar essas fragilidades.

 

REFERÊNCIAS

1. World Health Organisation-WHO. World Health Organization report on the global tobaco epidemic. Geneva: WHO Press; 2009.

2. World Health Organisation-WHO. Global health risks. Mortality and burden of diseases attributable to selected major risks. Geneva: WHO Press; 2009.

3. Swendsen J, Le Moal M. Individual vulnerability to addiction. Ann N Y Acad Sci. 2011;1216:73-85.