RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 25. 2 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20150053

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Carta ao Editor

Abscesso de iliopsoas

Iliopsoas abscess

Vitorino Modesto dos Santos

Médico. Universidade Católica de Brasília e Hospital das Forças Armadas. Brasília, DF - Brasil

Endereço para correspondência

Vitorino Modesto dos Santos
E-mail: vitorinomodesto@gmail.com

Recebido em: 27/05/2015
Aprovado em: 11/06/2015

Instituição: Hospital das Forças Armadas Brasília, DF - Brasil

Resumo

Souza et al. descreveram um abscesso de iliopsoas causado por Streptococcus agalactiae em primípara com 30 anos de idade e que no puerpério apresentou dor em glúteo direito, lombociatalgia, claudicação, edema em membro inferior, febre (39ºC) e 50.400 leucócitos/mm3. O relato é bem documentado, mas alguns comentários poderiam salientar a importância crescente das infecções por S. agalactiae, além de abscessos de iliopsoas com etiologia menos comum.

Palavras-chave: Abscesso; Abscesso do Psoas; Streptococcus agalactiae.

 

Sr. Editor,

Souza et al.1 descreveram um abscesso de iliopsoas causado por Streptococcus agalactiae em primípara com 30 anos de idade e que no puerpério apresentou dor em glúteo direito, lombociatalgia, claudicação, edema em membro inferior, febre (39ºC) e 50.400 leucócitos/mm3. Os autores enfatizaram a raridade da doença, as principais etiologias - Staphylococcus aureus, Escherichia coli, Bacteroides sp, Mycobacterium tuberculosis, Streptococcus viridans, Enterococcus faecalis e Peptostreptococcus, além de sua taxa de mortalidade de 2,5 a 18,9%.1 O relato é bem documentado, mas alguns comentários poderiam salientar a importância crescente das infecções por S. agalactiae,2,3 além de abscessos de iliopsoas com etiologia menos comum.4

S. agalactiae pertence ao grupo B de estreptococos beta-hemolíticos e coloniza as vias urinárias e os tratos gastrintestinal e genital de adultos saudáveis.2,3 Por esse motivo, tem sido comumente descrito como agente causador de septicemias puerperais e em recém-nascidos.2,3 Infecções generalizadas por esse germe tem aumentado em não gestantes e em homens adultos.2,3 Os abscessos são menos comuns - subcutâneo, iliopsoas, torácico, aórtico, miocárdico, epidural, renal ou perirrenal, subfrênico, tubo-ovariano, supraesternal, adrenal e prostático.3 Condições predisponentes relacionadas às infecções por S. agalactiae incluem diabetes mellitus, malignidades, insuficiência renal ou hepática, uso de imunossupressores e infecção por HIV.2 Chaiwarith et al. (2011) revisaram dados de 186 pacientes com infecção por S. agalactiae e a média de idade foi de 52 anos; 54,8% mulheres - 6,6% grávidas e 3,8% no terceiro trimestre.2 Das 12 gestantes, 10 apresentaram corioamnionite, sete delas no terceiro trimestre gestacional; ocorreram seis rupturas prematuras de membranas, dois abortos e uma morte fetal intrauterina.2 A taxa de mortalidade dos pacientes do grupo de portadores de infecções invasivas foi 14,6% e na maioria desses casos (58,3%) a contagem de leucócitos apresentava-se acima de 11.000/mm3.2 Dos 12 óbitos verificados, oito relacionaram-se à septicemia - associada ou não a meningite -, dois com artrite, um com infecção urinária e um com infecção de tecido subcutâneo.2 Os autores enfatizaram que nenhuma das grávidas teve infecção com risco de morte, fenômeno que pode se relacionar às faixas etárias mais jovens e reduzida ocorrência de comorbidades.2 Mesmo com leucocitose acima de 50.000/mm3, a puérpera ora comentada teve bom prognóstico.1

Recentemente (2015), um abscesso de iliopsoas causado por Streptococcus sanguis foi descrito em um paciente com 81 anos de idade, que foi tratado com sucesso utilizando-se antimicrobianos além de punção aspirativa guiada por imagens de tomografia computadorizada.4 Apesar de se tratar de idoso com leucocitose de 13.800/mm3, sua evolução também foi favorável. S. sanguis pertence ao grupo de Streptoccocos viridans habitante da cavidade oral e dos tratos gastrintestinal, geniturinário e respiratório e, usualmente, não é agente causador de abscessos.4

É bem conhecido o papel adverso de fatores como o envelhecimento e comorbidades no sucesso do manuseio de pacientes com abscessos de iliopsoas. Além de antibioticoterapia, há consenso quanto à realização de drenagem dos abscessos por cirurgia ou punção aspirativa.1-5 Entretanto, há relatos de resultados favoráveis em abscessos de iliopsoas, inclusive causados por S. aureus, utilizando apenas antibióticos sem a realização de drenagem de conteúdos purulentos.5 Esse paciente, diabético e debilitado, não tinha condições para suportar intervenção cirúrgica invasiva e não havia condições técnicas que permitissem a introdução do cateter de drenagem.5

Como o diagnóstico se estabelece com exames sofisticados de imagem e alguns abscessos se curam apenas com antibióticos, é possível que a real frequência seja maior que a estimada. Essa hipótese pode merecer reflexão adicional, especialmente em regiões não industrializadas.

 

REFERÊNCIAS

1. Souza AB, Teixeira JCA, Drumond AF. Abscesso de iliopsoas em puérpera - relato de caso. Rev Med Minas Gerais. 2014;24(4):542-4.

2. Chaiwarith R, Jullaket W, Bunchoo M, Nuntachit N, Sirisanthana T, Supparatpinyo K. Streptococcus agalactiae in adults at Chiang Mai University Hospital: a retrospective study. BMC Infect Dis. 2011;11:149.

3. Ulett KB, Shuemaker JH, Benjamin WH Jr, Tan CK, Ulett GC.Group B streptococcus cystitis presenting in a diabetic patient with a massive abdominopelvic abscess: a case report. J Med Case Rep.2012;6:237.

4. Santos VM, Fachinelli LR, Farage L, Lima GS, Carvalho MRM, Andrade IGN. An 81-year-old male with iliopsoas abscess by Streptococcus sanguis. Infez Med. 2015;23(1):56-60.

5. Santos VM, Silva Leao CE, Borges Santos FH, Fastudo CA, Machado Lima RI. Iliopsoas abscess and spondylodiscitis by Staphylococcus aureus: successful clinical treatment. Infez Med. 2011;19(2):120-4.