RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 25. 3 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20150070

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Artigos Originais

Avaliação do retardo pré-hospitalar no cuidado ao infarto agudo do miocárdio no Centro Oeste de Minas Gerais, Brasil

Evaluation of prehospital delayed care of acute myocardial infarction in the Midwest of Minas Gerais, Brazil

Paulo Rafael Fonseca Silva1; Clareci Silva Cardoso2; Hector Yuri Souza Ferreira3; Juliano Cleriston da Silva4; Marco Túlio Barros Torres5; Roniere Souza e Silva6; Eduardo Dias Chula7

1. Médico Residente em Psiquiatria no Hospital Odilon Behrens. Belo Horizonte, MG - Brasil. Pesquisador do Grupo de Pesquisas em Epidemiologia e Avaliação de Novas Tecnologias em Saúde, da Universidade Federal de São João Del Rei - UFSJ/Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq. Divinópolis, MG - Brasil
2. Psicóloga. Pós-doutoranda da Universidade de São Paulo - USP. Professora do Curso de Medicina da UFSJ. Pesquisadora, líder do Grupo de Pesquisas em Epidemiologia e Avaliação de Novas Tecnologias em Saúde da UFSJ/CNPq. Divinópolis, MG - Brasil
3. Médico Residente em Anestesiologia na Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte. Belo Horizonte, MG - Brasil. Pesquisador do Grupo de Pesquisas em Epidemiologia e Avaliação de Novas Tecnologias em Saúde da UFSJ/CNPq. Divinópolis, MG - Brasil
4. Médico. Estratégia de Saúde da Família. Ibiá, MG - Brasil. Pesquisador do Grupo de Pesquisas em Epidemiologia e Avaliação de Novas Tecnologias em Saúde da UFSJ/ CNPq. Divinópolis, MG - Brasil
5. Médico. Pesquisador do Grupo de Pesquisas em Epidemiologia e Avaliação de Novas Tecnologias em Saúde da UFSJ/CNPq. Divinópolis, MG - Brasil
6. Médico Residente em Anestesiologia pelo Hospital da Baleia. Belo Horizonte, MG - Brasil. Pesquisador do Grupo de Pesquisas em Epidemiologia e Avaliação de Novas Tecnologias em Saúde da UFSJ/CNPq. Divinópolis, MG - Brasil
7. Médico Cardiologista. Mestre. Professor do Curso de Medicina da UFSJ. Pesquisador do Grupo de Pesquisas em Epidemiologia e Avaliação de Novas Tecnologias em Saúde da UFSJ/CNPq. Divinópolis, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Dra. Clareci Silva Cardoso
E-mail: clarecicardoso@yahoo.com.br

Recebido em: 05/04/2014
Aprovado em: 18/08/2015

Instituição: Universidade Federal de São João Del Rei - UFSJ Campus Centro Oeste Divinópolis, MG - Brasil

Resumo

INTRODUÇÃO: complicações do infarto agudo do miocárdio (IAM) estão associadas à sua evolução rápida e desconhecimento de sua sintomatologia pela população.
OBJETIVO: avaliar o tempo entre início da sintomatologia e a chegada do paciente com diagnóstico de IAM ao serviço especializado e os fatores associados ao tempo gasto pela atenção pré-hospitalar.
MÉTODO: estudo de coorte prospectivo com vigilância do IAM em cinco serviços de emergência. Os pacientes foram entrevistados durante a internação com registro dos procedimentos e evolução clínica. Realizada análise descritiva e multivariada utilizando árvore de classificação e regressão.
RESULTADOS: 40 pacientes foram diagnosticados com IAM e três deles foram a óbito durante a internação. Houve atraso na busca de atendimento em 37,5% dos pacientes. A chegada ao hospital é mais precoce naqueles com IAM com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST). Foram também associados a esse tempo a idade, escolaridade, número de pessoas na residência e sexo. Os principais tratamentos foram angioplastia primária e fibrinólise, porém a terapia de reperfusão não foi realizada para 62,5% dos pacientes. Entre aqueles que receberam fibrinolíticos, o tempo porta-balão foi de mais de 90 minutos em 85,7% e o tempo porta-agulha acima de 30 minutos em 61,5%. Houve satisfação do paciente com o atendimento recebido e o profissional ficou medianamente satisfeito com o atendimento prestado.
CONCLUSÃO: o retardo pré-hospitalar foi superior ao preconizado em mais de um terço dos pacientes. Muitos não receberam terapêutica adequada de reperfusão, indicador que precisa ser melhorado tendo em vista as evidências de seu impacto na morbimortalidade.

Palavras-chave: Infarto do Miocárdio; Serviços Médicos de Emergência; Evolução Clínica.

 

INTRODUÇÃO

As doenças cardiovasculares (DCV) são responsáveis pela maior causa de óbito no Brasil e no mundo e representam o maior custo por internação hospitalar no Sistema Único de Saúde (SUS).1 A Organização Mundial de Saúde em 2008 revelou que 23,6% dos óbitos no mundo ocorrem por DCV, enquanto no Brasil em 2007 elas representaram 29%. Entre as causas de morte e internação por DCV, destacam-se as síndromes coronarianas agudas (SCA) e principalmente o infarto agudo do miocárdio (IAM).2

Quase metade das mortes por IAM ocorre no domicílio, visto que grande parte da população desconhece os seus primeiros sintomas e não procura ajuda médica em tempo hábil.3

Divinópolis está localizada na região centro-oeste de Minas Gerais, sendo município-polo em saúde para a macrorregional oeste, englobando 55 cidades com população estimada em 198.304 habitantes.4 No entanto, o município não possui protocolo para atendimento de pacientes com IAM. Em 2011 foram realizadas 12.240 internações hospitalares pelo SUS em Divinópolis, e as DCVs foram responsáveis por 14% (1.697) dessas internações e, no mesmo ano, 4,2% (74/1750) dos óbitos ocorridos foram decorrentes do IAM. Os óbitos hospitalares corresponderam a 55,0%, enquanto os ocorridos em outros estabelecimentos de saúde (38,0%) e em domicílio, a 12,0%.5 Sabe-se que a mortalidade por IAM está reduzindo, sendo menor que 5% nos países desenvolvidos.6

Para intervenção efetiva no IAM é necessário o reconhecimento precoce do infarto e o pronto início do tratamento. A realidade do município de Divinópolis pode exibir uma procura tardia do serviço de saúde pelo paciente. Portanto, torna-se plausível o desenvolvimento de estudo que investigue o tempo decorrente entre início dos sintomas e a chegada do paciente com diagnóstico de IAM ao serviço especializado, bem como os fatores associados ao retardo pré-hospitalar.

 

MÉTODO

Trata-se de estudo epidemiológico observacional de coorte concorrente conduzido em quatro hospitais e uma unidade de pronto-atendimento (UPA) na cidade de Divinópolis, MG. A cidade possui dois serviços públicos de internação, sendo um hospital conveniado com o SUS, uma UPA e três hospitais privados. O estudo foi conduzido em todos os serviços de emergência do município no período de setembro a novembro de 2011, totalizando 10 semanas de observações. Todos os hospitais dispunham de unidade coronariana ou sala de emergência com monitorização eletrocardiográfica, laboratório de hemodinâmica e estavam capacitados a realizar procedimentos de intervenção coronariana percutânea e cirurgia cardíaca.

Foram elegíveis para este estudo todos os pacientes que deram entrada nos serviços com suspeita de IAM. Foi implantado um sistema de vigilância nas unidades de atendimento de emergência. Fichas de triagem ficaram disponíveis na UPA e no pronto-atendimento dos hospitais. Com base nas informações coletadas nessa ficha de triagem, foram identificados os pacientes elegíveis para o estudo. Fizeram parte da amostra todos os pacientes com IAM; com e sem supradesnivelamento do segmento ST; identificados na ficha de triagem e confirmados posteriormente com informações do médico responsável e do prontuário. Foram excluídos pacientes com angina instável. Estes foram acompanhados desde o momento de admissão no serviço de saúde até a alta hospitalar. Foram coletadas informações por meio de entrevistas com pacientes ou familiares, equipes médicas e informações do prontuário.

Foram usados nessa investigação cinco instrumentos:

ficha de triagem;
ficha de complementação de informações com dados de prontuário;
protocolo de entrevista com paciente e/ou familiar;
escala CARDIOSATIS-Equipe;
escala CARDIOSATIS-Usuário.

Os dados foram coletados por acadêmicos do curso de Medicina previamente treinados e supervisionados por professores da Universidade Federal de São João Del Rei. As entrevistas com os pacientes foram realizadas durante o período de internação hospitalar após estabilidade clínica. Em caso de óbito ou incapacidade, as informações foram coletadas em entrevista com familiar ou por procuração.

Todos os instrumentos de coleta de dados foram testados em pré-teste e estudo-piloto. O protocolo de coleta de dados no prontuário incluía informações sobre os procedimentos realizados, medicamentos administrados, diagnóstico de entrada, setor de admissão e tempo de permanência. A entrevista com paciente incluía informações socioeconômicas, demográficas, hábitos de vida, comorbidades, fatores de risco cardiovascular, informações sobre uso dos serviços de saúde e satisfação com o atendimento recebido.

A satisfação com o atendimento prestado ou recebido foi avaliada por meio das escalas CARDIOSATIS-Usuário e Equipe, instrumentos validados para o Brasil apresentando boas características de validade e confiabilidade. Trata-se de instrumentos que avaliam a satisfação em escala de cinco pontos, em que os valores 4 e 5 indicam maior satisfação, 3 revela que o profissional ou paciente está medianamente satisfeito e 1 e 2 refletem insatisfação com o item avaliado.7 Foi feita avaliação da satisfação da equipe médica com a estrutura de cuidado às DCVs no município pelos profissionais responsáveis pelo caso de IAM identificado no estudo. Nesse caso, a escala CARDIOSATIS-Equipe foi autoaplicada.

Foram realizadas estatísticas descritivas com distribuição de frequência e percentual, com medidas de tendência central e dispersão. Para avaliar a associação entre o início dos sintomas e o primeiro atendimento no serviço foi realizada análise multivariada, utilizando-se a árvore de decisão por meio do algoritmo Classification and Regression Tree (CART). Esse método consiste em sucessivas divisões no conjunto de dados, de forma a torná-lo cada vez mais homogêneo em relação à variável resposta.8,9

Foram construídos dois modelos, um associando o tempo de início dos sintomas e chegada ao serviço (retardo pré-hospitalar) às características socioeconômicas e demográficas e a outro ao tempo e procedimentos realizados, estratificados pelo diagnóstico. Para as análises a variável resposta foi categorizada em tempo < 2 horas e tempo > 2 horas. As variáveis explicativas também foram categorizadas e tratadas de forma dicotômica. O índice Gini de 0,01 foi o principal critério de parada adotado para o CART. O ajuste do modelo final foi avaliado por meio da estatística de risco que compara a diferença entre o valor esperado e o observado pelo modelo, indicando em que medida a árvore corretamente prediz os resultados. Os dados foram digitados no EpiData e analisados no SPSS 19.0.

Esta investigação cumpriu a Resolução 196/96, que regulamenta a pesquisa com seres humanos. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital São João de Deus, sob o parecer número 25/2011.

 

RESULTADOS

Características dos pacientes na admissão

O total de 45 pacientes foi elegível para o estudo, porém o diagnóstico de IAM foi posteriormente descartado em cinco deles. Dos 40 pacientes identificados, três (7,5%) faleceram durante a investigação. As informações da admissão estão apresentadas na Tabela 1.

 

 

Dos 40 pacientes, 32,5% tiveram o primeiro atendimento na UPA municipal, seguido do hospital conveniado com SUS, com 27,5% (Unidade A) e hospital privado com 20% (Unidade B). Quanto à apresentação clínica, os pacientes chegaram conscientes (92,5%) e deambulando (52,5%) e o principal sintoma clínico relatado foi dor torácica com irradiação clássica (62,5%). Considerando o tempo de início dos sintomas e o primeiro atendimento por profissional especializado, 42,5% dos pacientes deram entrada nos serviços com tempo superior a duas horas. O principal meio de transporte foi veículo próprio ou de amigo, residência com distância maior que 50 km do serviço de emergência foi relatada por 30% dos pacientes. O eletrocardiograma e CK total/CKMB foram exames realizados na admissão e o principal local de internação foi a unidade de terapia intensiva ou coronariana (67%).

Informações sociodemográficas, comorbidades e fatores de risco cardiovascular

Dos 37 pacientes sobreviventes, 62,2% deles eram homens, idade média de 59 anos e IMC de 26 kg/m2. A maioria tinha ensino fundamental incompleto (49%), eram casados (75,7%), residia na área urbana (89,2%), tendo em média de 3,9 pessoas por domicílio e renda familiar entre dois e quatro salários mínimos. O principal financiador da assistência foi o SUS (54,1%). A maioria dos pacientes gastou menos de duas horas entre o início dos sintomas e chegada ao primeiro serviço de emergência (62,2%). E ao chegarem, 83,8% deles foram atendidos em menos de 20 minutos de espera. As principais comorbidades relatadas foram hipertensão arterial (70%), diabetes (30%) e dislipidemia (58,5%). História familiar de doença cardíaca isquêmica foi descrita por 32,4% dos pacientes, acidente vascular cerebral por 19% e história prévia de infarto em 13,5%. Sedentarismo foi identificado em 81%, tabagismo atual ou recente em 68%, o uso habitual de álcool em 21,6% e estresse cotidiano em 62%. Ao avaliarem sua saúde até 15 dias antes do infarto, os pacientes declararam saúde razoável ou ruim (37,8%), boa (45,9%) e muito boa (16,2%) (Tabela 2).

 

 

Procedimentos realizados e evolução clínica do paciente com IAM

Informações sobre procedimentos e exames realizados, medicamentos utilizados, dados sobre a evolução clínica do paciente até o desfecho final em cada instituição (alta/transferência/óbito) podem ser vistas na Tabela 3.

 

 

Considerando-se os procedimentos realizados, terapia fibrinolítica, foi realizada para 15 pacientes (37,5%), porém cinco deles necessitaram de resgate (33,3%). Um total de sete pacientes (17,5%) foi inicialmente submetido à angioplastia primária. Dos 15 pacientes que receberam terapia fibrinolítica, 61,5% realizaram com tempo acima de 30 minutos desde a chegada à unidade hospitalar (tempo porta-agulha). Já dentre os que realizaram angioplastia primária, em um paciente o procedimento foi realizado com menos de 90 minutos desde a chegada ao serviço de urgência (tempo porta-balão), os demais pacientes (85,7%) apresentaram tempo superior a 90 minutos. O tempo de permanência na unidade coronariana foi de 1 a 3 dias para 58% dos pacientes e a permanência total no hospital foi menor que 7 dias para 57%. O diagnóstico de IAMCSST foi registrado no prontuário para um total de 24 pacientes (60,0%). No período de realização do estudo, sete pacientes (20,0%) foram transferidos para serviços especializados em outras cidades e 25 pacientes (71,4%) realizaram todos os procedimentos nos serviços de saúde em Divinópolis com registro de alta hospitalar.

Características dos pacientes que evoluíram para óbito hospitalar

Três pacientes com IAM evoluíram para óbito hospitalar, alcançando mortalidade de 7,5%. Dois pacientes deram entrada nos serviços como caso suspeito de IAM e apresentavam tempo inferior a duas horas entre o início dos sintomas e o primeiro atendimento. Apenas um paciente chegou ao serviço como caso confirmado, porém com tempo superior a 24 horas de início dos sintomas. Os três pacientes foram submetidos ao ECG e CK total/CKMB na admissão. Dois desses pacientes receberam terapia fibrinolítica. O tempo porta-agulha de um deles foi de 60 a 120 minutos e do outro, acima de 120 minutos. Por outro lado, um paciente foi submetido à angioplastia de resgate, com tempo porta-balão superior a 120 minutos. Um era portador de IAM sem supra-ST (IAMSST) e dois de IAMCSST. Todos foram admitidos em unidade de terapia intensiva, dois faleceram nas primeiras 24 horas e o outro permaneceu nessa unidade por sete dias.

Todos eles foram medicados com ácido acetilsalicílico, clopidogrel, oxigenoterapia e betabloqueador. Além disso, dois deles receberam estatinas e um recebeu nitrato. Todos foram submetidos a cateterismo e ecocardiograma. Os três pacientes falecidos, quando do início dos sintomas, estavam fora de Divinópolis com distâncias de 154 km, 80 km e 46 km do serviço de urgência.

Satisfação com o cuidado prestado ou recebido

O total de 12 médicos respondeu à escala de satisfação CARDIOSATIS-Equipe. A satisfação dos profissionais é mostrada para os dois domínios e escala global (Figura 1). No primeiro domínio, a satisfação com atendimento prestado, teve escore médio de 3,04 (DP: 0,63); o segundo domínio trata da estrutura de atendimento 3,69 (DP: 1,0). A satisfação média global para a escala CARDIOSATIS-Equipe foi 3,53 (DP: 0,60). As menores avaliações se deram em relação a dois itens: "satisfação com o cuidado prestado" e "estrutura no município para condução das DCV" ambos com escore 3,0.

 


Figura 1 - Análise multivariada através da árvore de decisão (CHAID) associando tempo de início dos sintomas e o primeiro atendimento por serviço especializado com as variáveis socioeconômicas e demográficas (n=37).

 

O resultado da satisfação do paciente com o cuidado recebido no serviço é mostrado na Figura 1. A melhor avaliação foi quanto à possibilidade de utilização futura do serviço, média de 4,9 (DP: 0,30), seguido da satisfação com a capacidade diagnóstica e manejo da doença com 4,6 (DP: 0,31) e da satisfação com atendimento recebido e tempo de espera 4,6 (DP: 0,49). O item que recebeu a mais baixa avaliação pelo paciente foi quanto às "informações recebidas sobre a doença", com média de 3,8 (DP: 1,40), indicando satisfação regular. A satisfação global dos pacientes com o atendimento nas unidades de emergência foi de 4,6 (DP: 0,25), indicando que ele estava satisfeito com o atendimento recebido para as DCVs no município.

Análise multivariada de dados

Na Figura 2 é apresentado o resultado da associação entre o início dos sintomas e a chegada ao serviço de emergência com os fatores socioeconômicos e demográficos. A idade discriminou bem o grupo de pacientes, o grupo com idade < 60 anos e que tinha menos de três pessoas na residência, que chegaram com tempo < 2 horas ao serviço (100%). Para o grupo com idade < 60 anos, mais de três pessoas no domicílio e sexo feminino, o tempo foi < 2 horas (80%) quando comparado ao sexo masculino (50%). O grupo de pacientes maiores de 60 anos e escolaridade > 4 anos também chegou mais precocemente ao serviço (80%). Na outra ramificação da árvore, pacientes com idade > 60 anos, baixa escolaridade e menor número de pessoas na residência chegaram mais tardiamente ao serviço (85,6%) quando comparado àqueles com mais de três pessoas na residência, em que 60,0% chegaram com tempo < 2 horas (Figura 2).

 


Figura 2 - Análise multivariada através da árvore de decisão (CHAID) associando tempo de início dos sintomas e o primeiro atendimento por serviço especializado com as variáveis socioeconômicas e demográficas (n=37).

 

O resultado da análise multivariada para a associação entre tempo com procedimentos e diagnóstico é mostrado na Figura 2. Quanto à terapia empregada, todos os pacientes com diagnóstico de IAM com supra-ST e que realizaram apenas angioplastia primária ou que fizeram angioplastia de resgate tiveram tempo entre o início dos sintomas e o primeiro atendimento inferior a duas horas (100%). Já em relação àqueles que fizeram uso apenas de trombolíticos, houve elevado percentual de pacientes (40,0%) que demoraram a procurar assistência médica (Figura 2).

 

DISCUSSÃO

Esta investigação identificou atraso na busca por atendimento para o tratamento do IAM em 37,5% dos pacientes avaliados. Pacientes que chegaram mais precocemente ao serviço foram aqueles com IAMCSST. Em relação às variáveis sociodemográficas, a idade menor de 60 anos, mais escolaridade e maior número de pessoas na residência foram importantes marcadores para a busca precoce pelo serviço. Pacientes de menor idade e menos pessoas na residência chegaram mais cedo. Para aqueles com a mesma idade e com mais pessoas na residência, ser do sexo feminino favoreceu a busca precoce. Outro ponto relevante foi o alto grau de satisfação do paciente quanto ao atendimento recebido nos serviços de saúde de Divinópolis. (Figuras 3 e 4)

 


Figura 3 - Satisfação dos usuários com a estrutura de atendimento e cuidado às doenças cardiovasculares nas unidades de emergência em Divinópolis, MG (n=37).

 

 


Figura 4 - Satisfação da equipe médica com a estrutura de atendimento e cuidado às doenças cardiovasculares nas unidades de emergência em Divinópolis, MG (n=12).

 

Quanto ao perfil de pacientes com tempo favorável (menos de duas horas), constatou-se que a amostra constituiu-se basicamente de menores de 60 anos, baixa escolaridade, mas residindo com mais de três pessoas no domicílio. Esse dado é compatível com a Diretriz da SBC de 2009, que classifica os pacientes idosos e com baixas condições socioeconômicas como mais vulneráveis aos fatores que influenciam a procura tardia pelo atendimento por IAM.

O padrão de paciente acometido por IAM nesta investigação é de homens (62,2%), idade média de 59 anos, com baixa escolaridade (ensino fundamental incompleto - 48,6%), casado (75,7%), o que condiz com estudo realizado em um Hospital-Escola de São José do Rio Preto.10 Em nossa casuística, 25 pacientes (68%) tinham história prévia de tabagismo, 70% dos pacientes eram hipertensos, 30% relataram ser diabéticos em tratamento e a média do IMC foi de 26 kg/m2. Em pesquisa semelhante realizada na cidade de Uberlândia-MG, 71% eram tabagistas, 69% hipertensos, 29% diabéticos e 71% eram do sexo masculino, revelando uma realidade similar entre a região do Triângulo mineiro e o centro-oeste mineiro.11 Por outro lado, estudo realizado na Grécia indicou que essas comorbidades também estiveram presentes, porém com incidência mais baixa de fatores de risco, como tabagismo (35,3%), hipertensão (52,0%) e diabetes (30,0%).12 Cada um desses fatores de risco representam, isoladamente e principalmente em conjunto, risco potencial para ocorrência de eventos isquêmicos.12-14 O primeiro episódio de IAM foi constatado em 32 (86,5%) dos pacientes, que está próximo do percentual (83,5%) encontrado em estudo descritivo realizado em um hospital público de Salvador. Este estudo revelou também que a maior parte dos pacientes é removida por veículo próprio, assim como em Divinópolis (82,4%), embora esse percentual tenha sido mais significante (97%) no estudo baiano.15

O presente estudo identificou fatores de risco clássico relacionados às DCVs e às principais comorbidades.15 Além disso, o tempo inferior a duas horas para início do tratamento, aplicável à maioria dos pacientes, condiz com o preconizado nos principais tratados de Cardiologia.1,14 Assim, pressupõe-se que esses pacientes poderiam ser submetidos a uma terapia mais eficaz, diminuindo o considerável índice de mortalidade por IAM (7,5%) observado nesse período em Divinópolis. Porém, foram reveladas distorções em relação à última diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) sobre o Tratamento do IAM. Procedimentos, exames e medicamentos tais como AAS, betabloqueadores, clopidogrel e anticoagulantes que possuem impacto bem-estabelecido, de acordo com as diretrizes da SBC, em muitos casos não foram realizados.16 Apenas 17,5% dos pacientes realizaram angioplastia primária, sendo que significativa parcela desses pacientes (85,7%) teve um tempo porta-balão superior a 90 minutos, o que sugere pior prognóstico. Trabalho conduzido em um hospital particular de referência em Cardiologia no Rio de Janeiro obteve resultados mais satisfatórios, como taxa de angioplastia primária superior a 97%, e tempo porta-balão inferior a 90 minutos em 78,3% dos casos.17

Nesta pesquisa, observou-se que 45% dos pacientes não receberam terapêutica adequada de reperfusão (angioplastia ou trombólise), informações coerentes com outros estudos que mostram distanciamento do mundo real com as evidências científicas da efetividade dos fibrinolíticos,6,17 pois 1/3 dos pacientes com indicação para seu uso não o recebeu, achados independentes da localização geográfica.

A mortalidade intra-hospitalar encontrada neste trabalho foi de 7,5%, número superior ao encontrado por estudo recente conduzido com informações do registro brasileiro de SCA para um período de seis anos, que foi de 5,53%18 e de 4,7% a mortalidade encontrada em pacientes admitidos com SCA em hospital nacional especializado.19 Porém, os dados da presente pesquisa foram inferiores aos do estudo conduzido em município do Rio de Janeiro, que registrou mortalidade global de 9,0%.20

Chama a atenção o fato de todos os pacientes que foram a óbito residirem fora de Divinópolis, fato que pode ter contribuído para o atraso no primeiro atendimento especializado ao IAM. A ausência de unidades coronarianas em outros municípios da macrorregião, bem como a ausência de um sistema de transporte especializado como o SAMU, pode ter contribuído para esse desfecho desfavorável. Estudo conduzido na realidade brasileira revela mais mortalidade intra-hospitalar para casos de IAMSSST com retardo na intervenção.21

A satisfação de usuários e médicos com a estrutura de cuidado às DCV atingiu média acentuada, em virtude do tempo ágil nas condutas, embora os médicos tenham um olhar mais crítico em relação à estrutura dos serviços no atendimento ao IAM. Isso pode ter refletido em baixos escores de satisfação quando comparado aos usuários (3,5 versus 4,6).

Uma das limitações desta investigação foi o reduzido número de pacientes avaliados, o que impossibilitou a condução de análises estatísticas mais robustas e dificultou a comparação com outros estudos dentro da temática IAM. O fato de ter contribuído com limitado número de pacientes foi a exclusão do diagnóstico de angina instável, tendo em vista que outros autores demonstraram que esse diagnóstico é responsável por 42% das internações relacionadas às SCA no Brasil.18 Cabe também ressaltar como limitação a não realização da entrevista de seguimento com os familiares ou proxy dos pacientes falecidos. Como se tratava de pacientes fora do município de Divinópolis, o contato posterior foi dificultado, embora a equipe tenha tentado contato mínimo de três vezes. A ausência dessas informações pode ter dificultado a precisão dos dados inicialmente coletados acerca do tempo na ocasião da triagem.

Embora apresente algumas limitações, este estudo traz importantes indicadores sobre o tempo entre o início dos sintomas do IAM e o atendimento em unidade de emergência, bem como as características que favorecem uma busca pelo atendimento em tempo oportuno. Os pacientes incluídos neste trabalho são provenientes de diferentes municípios que integram a macrorregião de saúde, o que contribui para a representabilidade do evento investigado.

Por fim, sabe-se que a questão do retardo da atenção médica não está ligada ao paciente, que nem sempre reconhece ou aceita a gravidade da sua condição, mas também à ampla gama de determinantes sociais do processo saúde e doença, como, por exemplo, as características individuais e socioeconômicas, fatores como a disponibilidade e acesso à rede hospitalar ou ausência de estrutura física e recursos humanos adequados. Considerando todos esses aspectos, diversas ações que favoreçam o cuidado desse paciente são imperativas, objetivando a diminuição do retardo pré-hospitalar e favorecendo condutas adequadas no manejo com diagnóstico de IAM.

 

CONCLUSÃO

O tempo é sem dúvida o maior determinante no prognóstico de pacientes com IAM. Tanto o tempo entre o início dos sintomas e o primeiro atendimento quanto o decorrido no momento da admissão influem diretamente no tipo de terapêutica empregada e, por consequência, na evolução clínica do paciente. Em Divinópolis, no que diz respeito ao atendimento inicial do IAM, observou-se que 45% dos pacientes não receberam terapêutica adequada de reperfusão (angioplastia ou trombólise); indicadores que precisam ser melhorados. É necessário reestruturar a rede de atenção para se padronizar a aplicação dessas intervenções na cidade. Em muitas ocasiões o paciente dá entrada no serviço de saúde em tempo hábil, mas não é submetido à angioplastia primária, mesmo tendo indicações clínicas para isso. Além disso, é imprescindível a criação de um serviço de atendimento móvel de urgência em Divinópolis para que o tempo de atendimento inicial seja otimizado.

 

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