RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 26. (Suppl.3) DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20160033

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Artigos Originais

Fatores de risco prevalentes na mulher portadora de cardiopatia isquêmica coronariana

Prevalent risk factors in women carrier of coronary ischemic heart disease

Leticia Salume1; Maiana Naiara Ferreira Rodrigues1; Maria Eduarda Gonçalves Cobucci1; Vanessa Rocha Lopes1; Leda Marília Fonseca Lucinda2; Tânia Maria Gonçalves Quintao Santana3

1. Acadêmica do Curso de Medicina. Fundaçao José Bonifácio Lafayette de Andrada - FUNJOBE. Faculdade de Medicina de Barbacena - FAME. Barbacena, MG - Brasil
2. Professora. FUNJOBE/FAME. Barbacena - MG, Brasil; Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF. Juiz de Fora, MG - Brasil
3. Professora. FUNJOBE/FAME; Hospital Ibiapaba - CEBA-MS; Hospital Universitário Vilela Barbacena, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Maiana Naiara Ferreira Rodrigues
E-mail: maiananfrodrigues@gmail.com

Instituiçao: Fundaçao José Bonifácio Lafayette de Andrada - FUNJOBE Faculdade de Medicina de Barbacena - FAME Barbacena, MG - Brasil

Resumo

INTRODUÇÃO: a incidência da doença arterial coronariana (DAC) nas mulheres aumentou nas últimas décadas. Os fatores que influenciam estao bem estabelecidos, como: hipertensão arterial sistêmica, tabagismo, dislipidemia, anticoncepcional oral, obesidade, sedentarismo, diabetes e antecedentes familiares. Outros fatores de risco, como menopausa, estresse e alcoolismo, têm importância menos evidente, porém relevante.
OBJETIVO: estabelecer os fatores de risco mais prevalentes para DAC em mulheres entre 35 e 65 anos.
MATERIAIS E MÉTODOS: foram aplicados questionários em unidades de saúde públicas e privada em Barbacena-MG.
RESULTADOS: obtiveram-se 94% sedentárias, 89,3% possuíam história familiar positiva, 82% portadoras de HAS, 78% estressadas, 67,3% menopausadas, 62,6% dislipidêmicas, 62,6% sobrepeso, 59,3% dieta rica em lipídeos, 36% diabéticas, 36% fizeram uso de anticoncepcional oral, 34,6% tabagistas, 21,3% realizaram reposição hormonal e 10% etilistas.
CONCLUSÃO: a partir destes resultados, inferiu-se que, nas mulheres portadoras de DAC da macrorregiao de Barbacena, alguns dos fatores de risco mais prevalentes são modificáveis.

Palavras-chave: Mulheres; Doença das Coronárias; Fatores de Risco; Prevalência.

 

INTRODUÇÃO

As doenças cardiovasculares representam um conjunto de entidades clínicas que afetam o aparelho cardiovascular e os vasos sanguíneos. Entre elas, a mais comum é a doença arterial coronariana (DAC), cuja incidência tem aumentado nas últimas décadas.1,2

É importante considerar a etiologia multifatorial da DAC, pois essa doença depende de diversos fatores como herança genética, estilo de vida e condições ambientais. Os fatores de risco que influenciam em sua gênese estao bem estabelecidos, como: hipertensão arterial sistêmica, tabagismo, dislipidemia, uso de anticoncepcional oral, obesidade, sedentarismo, diabetes mellitus e antecedentes familiares. Outros fatores de risco, como menopausa, estresse e alcoolismo, têm importância menos evidente, porém, relevante.3 Por mais que esteja estabelecida a contribuição individual de cada fator de risco na DAC, existem poucos relatos na literatura que considerem a sua correlação e consequente efeito na mulher já portadora dessa doença.

O presente estudo tem como objetivo estabelecer os principais fatores de risco, para DAC em mulheres entre 35 e 65 anos, visando intensificar os esforços quanto à profilaxia da doenca arterial coronariana na mulher.

 

MÉTODOS

Estudo de corte transversal, realizado em centros referência de atendimento a doenças cardiovasculares localizados no município de Barbacena-MG. Amostra constituída por 150 pacientes do sexo feminino, entre 35 e 65 anos, com diagnóstico clínico e complementar de DAC. A coleta de dados foi realizada por meio de questionários confeccionados, abrangendo aspectos sociodemográficos e fatores de risco associados à DAC, levantados a partir de estudos bibliográficos prévios.4-6 Excluíram-se pacientes portadoras de transtornos cognitivos e aquelas que se recusaram a participar.

As pacientes participantes deste estudo tiveram o diagnóstico de DAC após avaliação médica no período compreendido entre outubro de 2014 e agosto de 2015. A avaliação clínica e complementar ocorreu de acordo com a indicação médica individual de cada paciente, incluindo os seguintes exames propedêuticos: eletrocardiograma, ecocardiograma de estresse, teste ergométrico e a cintilografia miocárdica perfusional com técnica tomográfica. Todas as pacientes, após estratificação funcional do quadro isquêmico, foram submetidas a estudo hemodinâmico das coronárias (cateterismo cardíaco).

A idade das pacientes foi estratificada em décadas (35-45, 46-55, 56-65 anos) para fins comparativos dos fatores de risco presentes em cada grupo. A carga tabágica de pacientes tabagistas e ex-tabagistas foi quantificada em maços utilizados por dia, multiplicado pelo número de anos de tabagismo (maços x anos). Já as pacientes etilistas foram distribuídas em dois grupos, etilistas sociais e alcoólatras, baseado nos critérios para síndrome da dependência do álcool.7

Consideraram-se sedentárias aquelas que não realizam atividade física por pelo menos 30 minutos durante três vezes na semana. O Indice de Massa Corporal (IMC) das pacientes foi calculado a partir do peso e altura relatados pelas entrevistadas, que foram estratificadas em grupos de acordo com a definição da Organização Mundial de Saúde: baixo peso (IMC < 18,5 kg/m2), peso normal (IMC entre 18,5 e 24,9 kg/m2), sobrepeso (IMC entre 25 e 29,9 kg/m2) e obesidade (IMC >30 kg/m2).8

As pacientes definidas como diabéticas foram selecionadas por possuírem diagnóstico prévio de DM e estarem em uso de medicações hipoglicemiantes no momento. Em relação à dislipidemia, questionou-se a respeito do conhecimento de hipercolesterolemia e do uso de medicação hipolipemiante.

A respeito da dieta questionaram-se os hábitos alimentares. Quanto à história familiar, considerou-se o relato da paciente quanto à DAC em parentes de primeiro grau.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, parecer número 079505/2014. Não houve fontes de financiamento externas, sem quaisquer conflitos de interesse. A coleta de dados foi realizada após consentimento da entrevistada a partir da assinatura no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Os dados foram coletados e transcritos para planilha eletrônica, as idades das pacientes foram estratificadas e os fatores de risco avaliados utilizando-se o software estatístico STATA v.9.2. Foram produzidas tabelas de frequência absoluta e relativa e determinadas média e desvio-padrao das variáveis pertinentes.

 

RESULTADOS

A média de idade das 150 mulheres analisadas foi de 54 anos, com desvio-padrao de ±8,12 anos, sendo que 18,67% destas possuíam idade entre 35 e 45 anos, 30,0% entre 46 e 55 anos e 51,33% entre 56 e 65 anos.

Na Tabela 1 estao apresentados os dados de prevalência dos diferentes fatores de risco para DAC e seus respectivos intervalos de confiança.

 

 

101 mulheres (67,33%) já se encontravam menopausadas; 54 (36%) faziam ou fizeram uso de anticoncepcional oral (ACO); 94 (62,64%) eram dislipidêmicas e, destas, 89 consideraram sua dieta rica em lipídeos.

A hipertensão arterial sistêmica foi fator constatado em 123 mulheres (82%), sendo que 121 (80,67%) tratam a doença. Em relação ao IMC dessas mulheres, em duas (1,33%) apurou-se baixo peso; em 54 (36,0%), peso normal; em 59 (39,33%), sobrepeso; e em 35 (23,33%), obesidade. Observou-se prevalência de sobrepeso e obesidade independentemente das faixas etárias, com o percentual de 60,7% das mulheres com idade entre 35 e 45, 64,4% entre 46 e 55 e 62,3% entre 56 e 65 anos.

Constatou-se que 15 mulheres (10%) eram etilistas, 52 (34,66%) tabagistas, com a média de maços x anos de 14,55 anos com desvio-padrao de 17,07 anos. Das 54 mulheres (36%) diabéticas, 50% delas encontravam em tratamento farmacológico.

Foram analisados 14 fatores de risco para DAC, sendo que nenhuma mulher possuía um ou todos. A média de fatores de risco encontrado foi de 7,96, com desvio-padrao de 1,76. As frequências dos fatores de risco estao apresentadas na Tabela 2.

 

 

DISCUSSÃO

Segundo a literatura, a incidência de DAC em mulheres é diretamente proporcional ao aumento da idade, confirmado por dados obtidos, revelando maior prevalência em mulheres acima de 55 anos.9,10

Estudos realizados em uma população de ambos os sexos, no estado do Rio Grande do Sul e em funcionários do Centro de Pesquisa Petrobrás da cidade do Rio de Janeiro, indicaram que os antecedentes familiares para DAC possuem prevalência de 57,3% e de 25,5%, respectivamente. Neste estudo, a prevalência de história familiar positiva foi superior, totalizando o percentual de 89,33%.11,12

Observou-se também no estudo realizado com funcionários do Centro de Pesquisa da Petrobrás percentual de 67,3% de sedentarismo. Nessa pesquisa foi encontrada incidência de 94%. O sedentarismo hoje é um dos fatores de risco mais frequentes para DAC, mesmo em populações mais jovens, o que é confirmado por trabalhos prévios e pelo presente estudo.11,12

No presente estudo, encontrou-se incidência de 62,66% de sobrepeso/obesidade. Percentual superior ao encontrado em pesquisas realizadas com a população de ambos os sexos no estado do Rio Grande do Sul e com a população feminina no Hospital das Clínicas de São Paulo, sendo encontrada incidência de 54,7 e 40,0%, respectivamente.11-14 A elevada incidência de sobrepeso/obesidade obtida pode se correlacionar ao alto índice de sedentarismo apurado nesta pesquisa.

Em relação ao uso de ACO, estudo realizado com estudantes de Nutrição, em que se avaliou o perfil lipídico e a sua relação com fatores de risco cardiovascular, acusou que 52,4% das estudantes eram usuárias.15 No presente estudo, constatou-se que 36% das mulheres fizeram uso de ACO pelo período médio de 11,22 anos. Deve-se considerar a diferença da idade nos dois estudos, cuja divergência reflete uma diferença cultural importante que pode ter sido um fator relevante em relação à prevalência do uso do ACO.

Ainda considerando as estudantes de Nutrição, observou-se que 38,1% delas possuíam hipercolesterolemia. Em contrapartida, nosso estudo contabilizou 62,6% de dislipidemia. A discordância em relação ao nosso resultado mais uma vez pode ser explicada pela idade, visto que nessa faixa etária as mulheres apresentam hábitos de vida mais saudáveis.15

Em relação ao diabetes mellitus, pesquisa realizada em um serviço de emergência de Porto Alegre encontrou 40,1% dos pacientes, ambos os sexos, portadores de DM, valor próximo do registrado em nossa pesquisa.16,17

Obteve-se incidência de 54% de tabagistas, sendo esta maior quando comparada aos resultados dos trabalhos realizados no Centro de Pesquisa da Petrobras (12,4%) e no estado do Rio Grande do Sul (33,9%) com indivíduos de ambos os sexos, não portadores da DAC, porém com risco cardiovascular para tal doença.11,12

Quanto ao estresse, avaliação feita com a população feminina na cidade de São Luís indicou a prevalência de 75% de estresse, valor aproximado ao detectado no presente estudo.18) Essa mesma avaliação indicou a prevalência de 77,3% de hipertensão arterial sistêmica no grupo pesquisado. Esse percentual foi inferior ao apurado em nosso estudo, que foi de 82%,18 fato possivelmente justificado pela correlação de alguns fatores de risco presentes na DAC que também participam na gênese da HAS.19

Não foram encontradas na literatura pesquisas que analisassem a prevalência de menopausa em mulheres portadoras de DAC, assim como a prevalência de etilistas.

 

CONCLUSÃO

A partir destes resultados, pode-se inferir que, nas mulheres portadoras de DAC da macrorregiao de Barbacena, alguns dos fatores de risco mais prevalentes são modificáveis. Não se observou alguma mulher com um fator de risco isolado, da mesma forma que não se constatou paciente portadora de todos os fatores pesquisados. Isso confirma o caráter multifatorial da DAC, mostrando a importância em analisar a prevalência desses fatores de risco, isolados ou combinados.

 

REFERENCIAS

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