RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 26 e1782 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20160082

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Relatos de Casos

Leishmaniose periocular erisipeloide: relato de caso e conduta

Periocular erisipeloid leishmaniasis: case report and conduct

Vanessa Waisberg1; Antônio Carlos Martins Guedes2; Leticia Maria Coelho3; Ana Rosa Pimentel de Figueiredo4

1. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Hospital das Clínicas-HC, Departamento de Oftalmologia. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. UFMG, Faculdade de Medicina, Departamento de Clínica Médica; HC, Departamento de Dermatologia. Belo Horizonte, MG - Brasil
3. UFMG/HC/Departamento de Dermatologia. Belo Horizonte, MG - Brasil
4. UFMG, Faculdade de Medicina, Departamento de Oftalmologia e Otorrinolaringologia; HC, Departamento de Oftalmologia. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Vanessa Waisberg
E-mail: vanessawaisberg@hotmail.com

Recebido em: 04/01/2015
Aprovado em: 26/01/2016

Instituiçao: Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Faculdade de Medicina, Departamento de Oftalmologia e Otorrinolaringologia; UFMG, Hospital das Clínicas, Departamento de Oftalmologia. Belo Horizonte, MG - Brasil.

Resumo

A Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA) é uma antropozoonose endêmica presente em todos estados brasileiros. A lesao típica da LTA é uma úlcera indolor, de bordas elevadas, geralmente localizada em áreas expostas da pele, como face e membros. O acometimento periocular é incomum. O objetivo deste trabalho é descrever um caso de apresentaçao atípica da LTA periocular, a forma erisipeloide, e destacar as características clínicas, diagnósticas e o tratamento destas lesoes.

Palavras-chave: Leishmaniose cutânea; Dermatite periocular; Erisipeloide; Blefaroptose.

 

INTRODUÇAO

A leishmaniose cutânea (LC) é uma doença infecciosa causada por um protozoário do gênero Leishmania e é transmitida pelo mosquito palha.1 A LC é endêmica no Brasil e é encontrada em todas as regioes brasileiras, chegando a atingir níveis epidêmicos em algumas áreas.1 A leishmaniose é encontrada em pelo menos 88 países e é considerada pela Organizaçao Mundial de Saúde (OMS) uma das mais importantes doenças infecciosas, devido a sua alta prevalência e capacidade de produzir deformidades.2 Tipicamente, ela se apresenta como uma úlcera indolor, com bordas elevadas, em partes expostas do corpo. Acometimento periocular é incomum. Neste relato de caso descrevemos uma variante rara de LC na regiao periocular mimetizando erisipela.

 

RELATO DO CASO

Homem, lavrador, 46 anos, procedente de Belo Vale/MG, foi admitido no Hospital Sao Geraldo com uma lesao ulcerada e edemaciada em sua pálpebra direita. A anamnese revelava que a lesao iniciou 4 meses antes como uma pápula eritematosa de 1-2 cm na pálpebra superior direita. Gradualmente, evoluiu para uma extensa lesao facial. O exame revelou uma lesao desfigurante com edema duro e eritematoso, crostas e descamaçao envolvendo primariamente as pálpebras e se estendendo-se para a regiao malar e parte lateral do nariz (Figura 1A). O exame do olho direito foi difícil devido ao edema e infiltraçao palpebral. Nao havia dor à movimentaçao ocular. Nao houve melhora significativa com antibióticos sistêmicos (Figura 1B). A TC de órbita nao evidenciou envolvimento orbitário (Figura 1C). Culturas da biópsia cutânea e gram da secreçao foram negativas para bactéria, fungos e micobactérias. A análise histopatológica da lesao mostrou um infiltrado inflamatório denso, histiócitos vacuolizados e formas amastigotas de Leishmania dentro dos histiócitos (Figura 2A). Após o diagnóstico de leishmaniose tegumentar, o paciente foi tratado com glucantime 20 mg/kg por 30 dias. Após 13 dias de tratamento, já havia grande melhora do quadro (Figura 2B). Três semanas após o final do tratamento havia apenas uma leve hiperemia no local da lesao ulcerada (Figura 2C). A funçao palpebral e o exame oftalmológico foram normais.

 


Figura 1: A) LC erisipeloide, 4 meses após o início dos sintomas; B) Apresentaçao clínica após 14 dias de tratamento com antibióticos sistêmicos; C) TC de órbita revelou infiltrado extenso do tecido subcutâneo sem nenhum envolvimento orbitário.

 

 


Figura 2: A) Amastigotas ou corpos de Leishmanias dentro dos histiócitos (corante HE, magnificaçao original x1000); B) Apresentaçao clínica após 13 dias de tratamento com glucantime; C) Três semanas após o término do tratamento.

 

DISCUSSAO

Apesar de a LC ocorrer geralmente na cabeça, pescoço e membros superiores, a pálpebra é uma das localizaçoes mais raras. Provavelmente, o vetor nao pica a pálpebra devido ao movimento contínuo nesta área.3 A LC envolvendo as pálpebras geralmente se apresenta como uma lesao papular ou ulcerada, e os principais diagnósticos diferenciais sao calázio e tumores palpebrais.4,5 Além da apresentaçao clássica, existem formas clínicas incomuns e atípicas da LC, como por exemplo as formas zosteriforme e palmoplantar da LC, que podem mimetizar outras doenças.6 Formas atípicas da LC estao relacionadas com a resposta imune do hospedeiro, mudanças na barreira cutânea, subtipos específicos do parasita e fatores hormonais.7

No caso relatado, o paciente teve uma apresentaçao clínica rara da LC, a LC erisipeloide, envolvendo a regiao periocular, que também é uma localizaçao incomum. A leishmaniose é diagnosticada pela detecçao dos amastigotas no exame microscópico ou pela cultura in vitro. Recentemente, amplificaçao de PCR dos genes do parasita também tem sido usada no diagnóstico.8 A incidência da LC aumentou nos últimos 20 anos, e a mudança na sua distribuiçao, com aumento dos casos urbanos e em áreas periurbanas, vai elevar o número de relatos de casos perioculares e de LC de apresentaçao clínica atípica.9 Em países onde a LC é encontrada, é importante que os oftalmologistas considerem a leishmaniose como diagnóstico diferencial, especialmente quando confrontados com lesoes atípicas que nao respondem bem ao tratamento.

 

REFERENCIAS

1. Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Vigilância da Leishmaniose Tegumentar Americana. Ministério da Saúde. Brasília: Ministério da Saúde; 2007.

2. World Health Organization. Leishmaniasis: burden of disease. Geneva: World Health Organization; 2007. [citado 2014 Nov 19]. Disponível em: http://www.who.int/leishmaniasis/burden/en

3. Durdu M, Gökçe S, Bagirova M, Yalaz M, Allahverdiyev AM, Uzun S. Periocular involvement in cutaneous leishmaniasis. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2007;21(2):214-8.

4. Oliveira-Neto MP, Martins VJ, Mattos MS, Pirmez C, Brahin LR, Benchimol E. South American cutaneous leishmaniasis of the eyelids: report of five cases in Rio de Janeiro State, Brazil. Ophthalmology. 2000;107(1):169-72.

5. Yaghoobi R, Maraghi S, Bagherani N, Rafiei A. Cutaneous leishmaniasis of the lid: a report of nine cases. Korean J Ophthalmol. 2010;24(1):40-3.

6. Bari AU, Rahman SB. Many faces of cutaneous leishmaniasis. Indian J Dermatol Venereol Leprol. 2008;74(1):23-7.

7. Ceyhan AM, Yildirim M, Basak PY, Akkaya VB, Erturan I. A case of erysipeloid cutaneous leishmaniasis: atypical and unusual clinical variant. Am J Trop Med Hyg. 2008;78(3):406-8.

8. Vega-López F. Diagnosis of cutaneous leishmaniasis. Curr Opin Infect Dis. 2003;16(2):97-101.

9. Oliveira CC, Lacerda HG, Martins DR, Barbosa JD, Monteiro GR, Queiroz JW, et al. Changing epidemiology of American cutaneous leishmaniasis (ACL) in Brazil: a disease of the urban-rural interface. Acta Trop. 2004;90(2):155-62.