RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 27 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20170034

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Artigo de Revisão

Por que precisamos falar sobre bullying e cyberbullying

Why we need to talk about bullying and cyberbullying

Mysia Ferreira1; Valéria Loureiro Rocha2; Cássio da Cunha Ibiapina3

1. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. Associaçao Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil - ABENEPI. Belo Horizonte, MG - Brasil
3. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Faculdade de Medicina, Departamento de Pediatria. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Cássio da Cunha Ibiapina
E-mail: cassioibiapina@terra.com.br

Instituiçao: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil

Resumo

Bullying, palavra intraduzível para o português, trazida, portanto, do inglês para designar uma série de injúrias físicas ou morais intencionais e repetidas, realizadas até entao entre os muros das escolas, tendo como atores a vítima, o agressor e o espectador, causando dor e sofrimento em uma relação desigual de poder. O presente trabalho tem por objetivo rever as principais publicações sobre o tema cyberbullying em pesquisa bibliográfica realizada na base de dados Medline, de 1996 a 2017, e no LILACS, em português, espanhol e inglês, utilizando os termos bullying, cyberbullying, crianças, adolescentes e escola. Verifica-se que 40% dos estudantes estao envolvidos em atos de bullying. Encontrou-se ainda que 80% dos estudantes desaprovam a prática, mas não sabem o que fazer a respeito. Concluiu-se que quase metade das vítimas é silenciosa.

Palavras-chave: Comportamento; Bullying; Cyberbullying.

 

INTRODUÇÃO

O mundo contemporâneo assistiu extasiado à chegada da internet. A vida digital se impôs no nosso cotidiano e, como era de se esperar, no de nossas crianças e adolescentes. Trazemos nos bolsos as redes sociais, grupos e câmeras. Estamos conectados 24 horas por dia, adictos das infinitas possibilidades que essa mídia nos proporciona. Ressignificamos nossas relações, redimensionamos nosso tempo e nosso espaço. A sociedade está irremediavelmente imersa nessa tecnologia, para o bem e para o mal.1

O cyberbullying, versão eletrônica do bullying, surge do encontro entre a tecnologia digital e o já crescente número de casos de bullying, contendo todas as intenções do bullying direto, com o agravante de se encontrar o agressor escondido atrás de uma tela e munido de um teclado. O campo de batalha migra das escolas para grupos e redes sociais. Munido de imagens, palavras ofensivas e intimidadoras, o agressor atormenta a vítima, que não tem trégua. O sinal que anuncia o fim da aula não coincide com o final da injúria.1

O bullying existe desde que o mundo é mundo, não tem fronteiras sociais, culturais ou geográficas. O que chama a atenção é o crescente número de casos, com repercussões cada vez mais sérias.

São os nativos digitais, familiarizados desde cedo com todas as tecnologias, que inauguram o cyberbullying, este sim uma nova prática que cresce com a mesma velocidade com que cresce a mídia digital.

Salienta-se que a prática de bullying não deve ser considerada uma característica normal do adolescente, e sim um indicador de risco para comportamentos violentos, que podem se estender à vida adulta. As vítimas de bulliyng podem apresentar mau rendimento e fobia escolar, alterações do sono, vômitos, cefaleia, dores abdominais, irritabilidade, isolamento social, etc.1

É importante ter clareza e excluir dessa denominação conflitos habituais entre os pares; brigas, implicâncias e provocações eventuais, que devem ser tolerados. Permitir que alunos resolvam entre si tais conflitos é fundamental na construção das habilidades sociais e afetivas. Não cabe também aqui incluir agressões físicas graves e homicídios, que serao tratados fora do ambiente da escola, devido à sua magnitude e implicações.2

Estudos conduzidos por Kowalsky et al. verificaram que vários alunos vítimas de bullying direto acabavam sendo também vítimas de cyberbullying. Existe, portanto, um percentual de vítimas de bullying eletrônico que relata nunca ter sido molestado na escola. Concluiu-se, assim, que a mídia digital aumentou o número de vítimas de bullying.3

 

ASSOCIAÇÃO DO BULLYING COM CYBERBULLYING

Cross et al., em estudo conduzido com 1.504 adolescentes de 16 escolas australianas, investigaram como o cyberbullying interage com o bullying tradicional. Apuraram que adolescentes que sofreram dificuldades emocionais e sociais eram mais suscetíveis a serem vítimas das duas formas de bullying e que essas "polivítimas" apresentavam mais prejuízos emocionais e na vida escolar.4

O silêncio da vítima se repete no cyberbullying, agora associado ao anonimato do agressor, o que lhe confere ousadia e coragem. As ofensas se multiplicam e se expandem por meio de grupos e redes sociais. Imagens publicadas podem também devastar a intimidade da vítima.

 

DESAFIOS DA ABORDAGEM

É um fenômeno sistêmico envolvendo o indivíduo, escola, família e a sociedade como um todo. É mandatória uma contextualização caso a caso, não existindo um manual a ser seguido.

Um pequeno trecho do estudo de Freud: "A psicologia das massas e análise do eu-atualíssimo" também dentro desse tema:5

Na vida psíquica do indivíduo, o outro entra em consideração de maneira bem regular, como modelo, objeto, ajudante e adversário e, por isso, desde o princípio, a psicologia individual também é ao mesmo tempo a psicologia social nesse sentido ampliado (porém inteiramente legítimo).

 

PERFIL A SER OBSERVADO

Tenta-se definir o perfil dos envolvidos, trabalho árduo e sujeito a falhas, uma vez que a infância e a adolescência trazem consigo características próprias e também por serem etapas de constantes mudanças físicas e psíquicas.

A vítima costuma fugir dos padroes habituais e impostos pelo grupo; tímida, pouco sociável, com desempenho escolar acima ou abaixo da média e boa disciplina. Não corresponde também, muitas vezes, às imposições do grupo, sejam elas estéticas, sociais, religiosas, sexuais e raciais. Tem geralmente pouca capacidade de enfrentamento e baixa autoestima.

Por outro lado, o agressor geralmente é popular, insatisfeito com a escola, aluno medíocre e desafiador, busca com a prática do bullying dominar os colegas e incrementar seu "poder" perante o grupo - almeja o lugar de líder.

As agressões físicas, apelidos ofensivos, imposição de tarefas servis e danificação dos objetos alheios são exemplos de bullying direto, desde que ocorram sistematicamente. Por outro lado, a forma indireta se caracteriza por intrigas, fofocas, boatos cruéis e atividades de difamação, exposição de vídeos e imagens, de forma insistente e repetida.6

É importante salientar que os pares são, na maioria das vezes, do mesmo sexo. Os meninos parecem preferir a forma direta e as meninas a indireta.

Estudo conduzido por Crayg et al. pesquisou 202.000 adolescentes (11,13 e 15 anos) em 40 países, comparando as taxas de atos de bullying entre meninos e meninas, relacionando-as também à idade. Os resultados, ainda que sujeitos a interpretações equivocadas, devido à subjetividade inerente ao tema, revelaram percentuais interessantes: 26% dos adolescentes relataram já terem se envolvido em atos de bullying (10,7% como agressores, 12,6% como vítimas e 3,6% ora como agressores e ora como vítimas). As taxas variaram entre os países e se mostraram menores nos países onde existem medidas institucionais de combate ao bullying.7

 

PAPEL DA ESCOLA

O mais desconcertante no bullying é o fato de serem os envolvidos crianças/ adolescentes, sendo que ambos necessitam de ajuda qualificada e imediata. Assim, quando o bullying é denunciado, a escola é convidada a moderar o conflito entre os envolvidos.

O grande papel da escola seria, entretanto, prevenir os casos de bullying e seus agravos. Manter vigilância constante, implantar a psicoeducação, apoiar os envolvidos e suas famílias são medidas que parecem ter impacto.8

Os pais da vítima querem providências, os pais do agressor "não querem acreditar". Os caminhos para resolução dos conflitos são tortuosos, as estratégias utilizadas no mundo dos adultos repetem-se aqui: punições, alijamento, discussões acaloradas e até caminhos judiciais.

Os termos vítima e agressor aparentemente adequados acirram a discórdia e polarizam de forma quase incontornável os pares.

Talvez o grande desafio das escolas seja manter alunos motivados e professores valorizados.

 

PAPEL DOS PAIS

Os pais exercem evidentemente papel crucial nesse quadro, impossível não comprometê-los na prevenção e moderação dos conflitos. É fundamental manter um canal de comunicação aberto com os filhos sobre convivência, respeito e violência, questionar seus próprios posicionamentos e preconceitos em relação às diversas vertentes sexuais, religiosas e sociais.

Um ponto relevante seria debater com as escolas as questoes referentes a limites e regras, evitando-se, assim, posturas antagônicas que podem confundir crianças/ adolescentes.

 

PAPEL DO PEDIATRA

É pouco provável que o pediatra/hebiatra seja procurado por seus pacientes para abordar assuntos referentes a bullying, no entanto ele poderá identificar pacientes de risco, orientar famílias e rastrear alterações de comportamento.9

 

OS ESPECTADORES

Estudo conduzido por Wood et al. entrevistou estudantes do sudoeste dos Estados Unidos, a fim de analisar a interferência do comportamento dos espectadores na frequência e nas consequências dos incidentes de bullying.10 As pesquisas a respeito destacaram o efeito positivo do apoio social; melhora do bem-estar físico e psíquico das vítimas. Houve redução dos casos de depressão e melhora da qualidade de vida.10

Os resultados deste estudo confirmam que o indivíduo, diante de uma plateia omissa ou incitadora, pode redobrar sua "coragem" e encontrar combustível para perpetuar suas práticas violentas.

 

CONTROVÉRSIAS

As escolas têm o direito de censurar ou punir as agressões praticadas fora da instituição?

As medidas punitivas são efetivas no controle do bullying ou seriam apenas paliativos que reforçam ainda mais as hostilidades?

 

REFLEXOES

Surgem nesse cenário reflexoes absolutamente necessárias:

▪ não estarao as crianças replicando violências, preconceitos e desigualdades que as rodeiam?

▪ a sociedade não teria aqui fracassado, incapaz de promover uma infância segura e saudável? Observa- se o crescimento de outros tipos de violência contra a criança.

▪ a escola não teria se transformado em mais um produto a ser comercializado, perdendo seu papel de educadora?

▪ os pais não estariam "cegos" diante de seus filhos entregues a jogos, computadores e demasiados cursos extracurriculares?

▪ o crescente desinteresse dos alunos em relação à escola não teria como um dos sintomas a intolerância em relação aos colegas?

 

ESTRATÉGIAS

O tema ganhou as mídias e até o interesse público com a criação da Lei 13.185/15, que obriga escolas e clubes a adotarem medidas de prevenção e controle no combate ao bullying.11-15

Nessa linha de pensamento, ações como cartilhas, fóruns e palestras tentam um caminho para controle do bullying.

Programas institucionais acreditam serem capazes de promover a cidadania, o respeito e a empatia entre os pares. Além disso, pais, professores e familiares seriam orientados a identificar precocemente vítimas e agressores.

A justiça restaurativa, ainda incipiente como ferramenta para solução de conflitos, parece colher frutos em alguns estados onde foi implantada,11 sendo assim definida por Brancher:

Justiça restaurativa é um processo através do qual todas as partes envolvidas em um ato que causou ofensa reúnem-se para decidir coletivamente como lidar com as circunstâncias decorrentes desse ato e suas implicações para o futuro.

Parece que o sucesso da medida restaurativa reside na escuta equânime das partes, preenchendo uma lacuna existente numa sociedade em que crianças e adolescentes nem sempre têm suas vozes ouvidas e seus direitos garantidos.

 

CONCLUSÕES

É importante mediar os conflitos entre crianças e adolescentes e trazer para os adultos a responsabilidade desse cenário de violência. É impossível dissociar esse fenômeno do contexto social em que vivemos.12-15

Quando professores e pais se alienam de suas autoridades, ficam as crianças à mercê de seus desejos tirânicos de prazer, traduzidos aqui pelo sofrimento e invalidação do "outro".

Vamos renomear nossos filhos; nem agressor nem vítima.

Precisamos falar sobre bullying - precisamos falar sobre nós.

 

REFERENCIAS

1. Pereira BO, Silva MI, Nunes B. Descrever o bullying na escola. rev. Dialogo Educ. 2009;9:455-66.

2. Antunes DC, Zuin AAS Do bullying ao preconceito:os desafios da barbárie à educação. Psicologia e sociedade. 2008;20:33-41.

3. Kowalski RM, Limber SP. Psychological, physical, and academic correlates of cyberbullying and tradicional bullying. J Adolesc Health. 2013;53:13-20.

4. Cross D, Lester L, Branes A . A longitudinal study of the social and emotional predictors and consequences of cyber and traditional bullying victimisation. Int J Public Health. 2015;60:207-17.

5. Freud S. A psicologia das massas e analise do eu. PortoAlegre: L± 2017.

6. Poon K. Understanding risk-taking behavior in Bullies, victims, and bully victims using cognitive-and emotion-focused approaches. Frontiers Psychol. 2016;7:1-15.

7. Craig W, Harel-Fich Y, Fogel-Grinvald H, Dostaler S, Hetland J,Simons-Mortan B, et al . A cross- national profile of bulluing and victimization among adolescents in 40 countries. Int J Public Health. 2009;54:216-224.

8. Malta D, Silva MAI, Malta de Mello FC, Monteiro R, Sardinha LMC, Crespo C, et al Bullyingnas escolas brasileiras:resultados da pesquisa nacional de saúde escolar. ciencia e saúde coletiva. 2010;15:3065-76 .

9. Lopes Neto A. Bullying- comportamento agressivo entre estudantes. J.Pediatr (Rio J). 2005;81:164-72.

10. Wood L,Smith J,Vargas K, Meyers J. School personnel social support and nonsuppot for bystanders of bullying. Exploring student perspectives. J Sch Psychol. 2017:61:1-17

11. Lima CB, Americo Junior E. Educar para paz: práticas restaurativas na resolução de conflitos escolares. Movimento- Rev Educ. 2015;3:198-224.

12. Moura DR, Cruz ACN, Avila Quevedo L. Prevalência e carctererísticas de escolares vítimas de bullying. J.Pediatr (Rio J) 2011;87:19-23.

13. 13-Peguero AA. Bullying victimization and extracurricular activity. J School Violence. 2008:7:71-85.

14. Boynton -Jarrett R, Ryan LM, Berkman LF, Wright RJ. Cumulative violence exposure and self-rated health:Longitudinal study of adlescents in the United tates. Pediatrics. 2008;122:961-70.

15. Whitney I, Smith PK, A survey of the nature and extent of bullying in junior /middle and secondary schools. Educat Res.1993;35:3-25.