RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 28 e-1985 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20180007

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Educaçao Médica

A avaliaçao de estudantes de medicina de uma faculdade de Belo Horizonte, em relaçao ao processo de ensino-aprendizagem da relaçao médico-paciente

The evaluation of students of medicine of a college of Belo Horizonte, in relation to the process of teaching-learning of the medical-patient relationship

Marina Franklin Ribeiro; Letícia Silveira Freitas; Jaqueline Marques Lara Barata

Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais- Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil

Endereço para correspondência

Marina Franklin Ribeiro
E-mail: marinafribeiro@hotmail.com

Recebido em: 02/08/2017
Aprovado em: 21/06/2018

Instituiçao: Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais

Resumo

A relaçao médico-paciente é um processo especial de interaçao humana, que é a base da prática clínica. Questoes provenientes da aprendizagem dessa relaçao constituem a parte mais difícil na formaçao de um médico. Os estudantes possuem ao longo do curso diferentes oportunidades de estabelecer relaçao com o paciente, construindo habilidades para o desenvolvimento de uma comunicaçao efetiva que subsidia uma relaçao médico paciente de qualidade. Nesse trabalho objetivou-se conhecer qual é a percepçao dos estudantes de uma faculdade filantrópica de Belo Horizonte sobre seu preparo no processo de ensino-aprendizagem da relaçao médico-paciente. Trata-se de uma pesquisa exploratória, de caráter qualitativo, financiada pela FAPEMIG. Os entrevistados foram estudantes de medicina, escolhidos aleatoriamente, do quarto, quinto e sexto anos. A análise de dados foi feita com base no discurso de Bardin. Os dados evidenciaram que na visao dos estudantes as disciplinas práticas têm contribuído de forma mais significativa na construçao da relaçao médico paciente. Essa relaçao tem tido como foco uma abordagem clínica orientada por uma visao de saúde ainda biologicista, que considera a anamnese biológica mais relevante. Essa visao dos estudantes, muitas vezes, faz com que priorizem os aspectos técnicos da consulta em detrimento da atençao integral do paciente. A relaçao médico-paciente efetiva é a base fundamental para garantir sucesso na identificaçao de demandas de saúde dos sujeitos. É imprescindível que o estudante aprenda e aperfeiçoe essa habilidade durante sua formaçao. Conhecer a percepçao dos estudantes sobre seu preparo nesse processo coloca-se como estratégia de avaliaçao da formaçao que têm recebido.

Palavras-chave: Relaçao médico-paciente. Estudantes de medicina. Assistência centrada no paciente.

 

INTRODUÇAO

A relaçao médico-paciente é um processo especial da interaçao humana, que é à base da prática clínica em suas dimensoes técnica, humanística, ética e estética. O encontro entre o paciente e o médico desperta uma grande variedade de sentimentos e emoçoes, configurando uma relaçao humana especial. Como qualquer processo de interaçao interpessoal, essa relaçao é mediada pela comunicaçao.1,2

Entre os benefícios de uma comunicaçao efetiva, podemos destacar: maior precisao na identificaçao dos problemas do paciente, com promoçao do raciocínio clínico; maior adesao ao tratamento; melhor entendimento pelos pacientes de seus problemas, das investigaçoes conduzidas e das opçoes de tratamento; menor incidência de queixas de erro médico; e maior satisfaçao para médico e paciente.2,3

Uma relaçao médico-paciente pouco comunicativa pode implicar em danos físicos e morais irreparáveis ao doente, além de puniçoes severas aos médicos recorrentes de processos judiciais. Sendo assim, torna-se fundamental para o estudante de medicina desenvolver habilidades para conseguir criar com seu futuro paciente uma boa relaçao, objetivando o bem estar desse paciente.2,3,4

As questoes provenientes da aprendizagem da relaçao médico-paciente constituem a parte mais difícil na formaçao de um médico. Várias sao as metodologias didáticas usadas no processo ensino-aprendizagem da comunicaçao e da relaçao interpessoal com a pessoa atendida. Atualmente tem se usado treinamento prévio em laboratórios de habilidades antes de os estudantes entrarem em contato com os pacientes reais. Sessoes de simulaçao com atores que dao feedback aos acadêmicos, discussao em sessoes de Problem based interview (PBI) com atores, problematizaçao de cenas de filmes e análise de óperas e/ou peças de teatro podem ser consideradas como possibilidades de aprendizagem da relaçao médico-paciente, mas a prática em ambulatórios e hospitais ainda continua priorizada nas escolas tradicionais.2,5

As diretrizes curriculares nacionais de 2014- DCN do curso de graduaçao em medicina apontam para a necessidade do egresso em sua prática profissional articular conhecimentos, habilidades e atitudes, em três dimensoes: atençao à saúde, gestao e educaçao em saúde. Entre as competências descritas, a comunicaçao aparece em todas as dimensoes, como necessária para a concretizaçao das mesmas, sendo ponto de partida para interaçao na relaçao médico paciente. Como exemplos que fazem parte do conhecimento, competências e habilidades específicas que sao direcionados para a comunicaçao e relaçao médico-paciente, pode-se destacar:

• Realizar com proficiência a anamnese e a consequente construçao da história clínica, bem como dominar a arte e a técnica do exame físico;

• Utilizar adequadamente recursos semiológicos e terapêuticos, validados cientificamente, contemporâneos, hierarquizados para atençao integral à saúde, no primeiro, segundo e terceiro níveis de atençao;

Para desenvolver esse conhecimento, competências e habilidades exigidas é imprescindível o papel ativo do estudante nesse processo de aprendizagem, assim como a escola deve proporcionar estrutura e capacitaçao básica para concretizar essa processo de ensino-aprendizagem.

A Faculdade que cenário desse estudo, ao mesclar tradiçao, modernidade e excelência no ensino para atender os anseios pessoais, da sociedade e as exigências do mercado, tem como foco principal a formaçao de médicos generalistas que devem estar aptos a desenvolver atividades tanto nas áreas fundamentais, quanto nas específicas da medicina, ao final do período acadêmico.6

Na matriz curricular cursada pelos participantes do estudo, as atividades práticas ambulatoriais e hospitalares passaram a constituir mais de 60% da carga horária total, transformando os alunos em elementos ativos do aprendizado. O modelo docente-assistencial adotado pela Faculdade oferece, também, o Internato de Saúde Coletiva, cujo objetivo é que os estudantes da 5ª série desenvolvam atividades voltadas à atençao básica e à promoçao da saúde em municípios do interior do estado, especialmente em áreas rurais, sob a orientaçao de professor em e conjunto com as equipes de saúde da família.6

Os dois primeiros anos do curso sao dedicados ao ensino de disciplinas de conteúdos básicos, mas algumas disciplinas já desenvolvem atividades práticas no Sistema Unico de Saúde SUS de Belo Horizonte (açoes preventivas e de promoçao da saúde). No terceiro ano, o aluno tem iniciaçao ao atendimento clínico e no 4º à formaçao profissional, sendo que as atividades práticas sao desenvolvidas em ambulatórios e unidades básicas de saúde do SUS. No 5º ano os alunos iniciam os internatos (Saúde coletiva, Saúde do Idoso e de Medicina de urgência). O 6º ano é dedicado aos Internatos restantes nas quatro áreas fundamentais (clínica médica, pediatria, tocoginecologia e cirurgia), sendo realizado principalmente na rede hospitalar.6

Assim, fica evidenciado que os estudantes possuem ao longo do curso diferentes oportunidades de estabelecer relaçao com o paciente, construindo habilidades para o desenvolvimento de uma comunicaçao efetiva que subsidia uma relaçao médico paciente de qualidade. Como a instituiçao nao utiliza o ensino Problem based interview (PBI), como processo de ensino aprendizagem, questiona-se: as experiências oportunizadas ao longo da formaçao têm contribuído para a formaçao de uma relaçao médico-paciente efetiva?

Tendo em vista a importância dessa relaçao na prática médica e a possibilidade de seu ensino-aprendizagem, o objetivo dessa pesquisa foi conhecer qual é percepçao dos estudantes de uma faculdade filantrópica de Belo Horizonte sobre seu preparo no processo de ensino-aprendizagem da relaçao médico-paciente.

Essa pesquisa foi exploratória, de caráter qualitativo, financiada pela Fundaçao de Amparo à pesquisa de Minas Gerais- FAPEMIG. Foi postada na Plataforma Brasil para avaliaçao do CEP - Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da faculdade. Após sua aprovaçao foi iniciada a coleta de dados. (CAAE: 53991615.1.0000.5135)

Pressupoe-se que o comportamento humano é melhor compreendido no contexto social onde ocorre. Nessa concepçao, esse estudo teve um sentido geral diferente do aplicado à maioria dos estudos: foi realizado durante a fase de planejamento da pesquisa, como se fosse uma subpesquisa e se destinou a obter informaçao do Universo de Respostas de modo a refletir verdadeiramente as características da realidade.7,8.9

Foram entrevistados estudantes de medicina, escolhidos aleatoriamente, do quarto, quinto e sexto ano. Nessa faculdade, os dois primeiros anos do curso sao dedicados ao ensino básico e no terceiro ano, o aluno tem iniciaçao ao atendimento clínico. Sendo assim, inicialmente, há poucas oportunidades de estabelecer contato direto com o paciente. A partir do 4º ano, os estudantes vivenciam mais a prática clínica, o que os possibilita avaliar a relaçao médico-paciente.

As entrevistas foram entao realizadas com estudantes escolhidos aleatoriamente, foram gravadas e posteriormente transcritas. A saturaçao de dados foi atingida quando 11 estudantes foram entrevistados. As gravaçoes serao mantidas em sigilo por cinco anos e após esse período serao destruídas. Para realizar as entrevistas, as mesmas foram agendadas em local e horário que possibilitaram a participaçao dos entrevistados. O ambiente em que se realizou a entrevista garantiu sigilo adequado para a coleta dos dados.

Antes de responderem aos questionários os estudantes receberam orientaçoes sobre a pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Os estudantes da amostra tiveram total liberdade para nao responderem ao questionário se assim fosse da vontade deles. Em nenhum momento houve remuneraçao dos estudantes da amostra.

Foi utilizado um questionário semiestruturado baseado na EMOP - Escala de orientaçao médico-paciente (PPOS - Patient- Practitioner Orientation Scale) que é uma escala de orientaçao médico- paciente que foi concebida para avaliar a atitude de pacientes, médicos e estudantes de medicina a respeito da relaçao médico-paciente. Essa escala avalia se a relaçao é centrada no médico e na doença (modelo biomédico) ou no paciente (modelo psicossocial). A análise das propriedades psicométricas desta escala confirmou a sua validade e confiabilidade no estudo original, no qual foi criada.10,11,12

 

DESENVOLVIMENTO LIVRE

Na busca pela compressao da percepçao dos estudantes sobre seu preparo no processo de ensino-aprendizagem da relaçao médico-paciente, objetivou-se descrever como se dá essa relaçao e identificar as disciplinas/atividades que contribuem para sua construçao. A análise dos dados permitiu desvelar três categorias:

O mais importante saber durante uma consulta

Muitos médicos nao reconhecem o paciente como capaz de assumir o cuidado com a própria saúde e nao o estimulam a desenvolver autonomia para as práticas de prevençao e promoçao de saúde ou adesao ao tratamento. Além disso, os médicos nao exploram aspectos relacionados a medos e ansiedades durante a consulta, pois eles seriam próprios da cultura do paciente com os quais o médico nao estaria preparado para lidar. Essa deficiência seria decorrente de uma formaçao que valoriza apenas, ou predominantemente, os aspectos biomédicos. Assim, a busca de informaçoes durante a anamnese será orientada por diferentes aspectos que os indivíduos entrevistados consideram mais importantes.13

Durante a formaçao médica, o aluno modifica seu comportamento e sua atitude na conduçao das consultas. Nos primeiros anos da faculdade, o graduando aborda a perspectiva do paciente durante a realizaçao de entrevistas médicas, mas essa forma de conduzir a consulta se altera nos últimos anos da graduaçao. A capacitaçao para a identificaçao de doenças, a análise de exames laboratoriais e a programaçao terapêutica de doenças afasta o aluno do doente e de sua subjetividade. Ele constrói sua atuaçao com base no paradigma biomédico, no qual a doença é colocada no centro da consulta.14

Diante da pergunta "O que você consideraria mais importante saber sobre o paciente durante uma consulta?" muitos alunos consideraram como o foco principal os aspectos técnicos da consulta, priorizando a doença em detrimento de uma abordagem mais integral voltada para as necessidades do indivíduo, como se pode perceber nas afirmaçoes:

"... saber a história pregressa, fazer uma anamnese com todos os pontos mesmo" (Entrevistado 1);

"Quais sao as queixas dele, é... A história daquele problema dele" (Entrevistado 2);

"Tenho que saber o que ele está sentindo é... O passado dele. O que ele já teve, dessas doenças, de outras..." (Entrevistado 3)

"As queixas dele em primeiro lugar, doenças prévias, as medicaçoes que ele faz uso e doenças nas famílias, entre os parentes mais próximos" (Entrevistado 4).

Na maioria das escolas médicas, o principal critério na definiçao do ingresso no curso ainda é o das "disciplinas prioritárias", que pouco variam entre biologia, química e matemática, discriminando toda uma gama de conhecimentos absolutamente necessários a uma profissao que vai lidar essencialmente com vidas humanas. Assim, matérias como português, filosofia, história, geografia humana e econômica e ciências sociais ainda sao consideradas de menor importância na formaçao dos futuros profissionais médicos. Uma vez na faculdade, o currículo médico continua privilegiando a formaçao técnica, o conhecimento biológico, dissociado dos aspectos históricos, sociais, econômicos e culturais, os quais contribuíram para um olhar/abordagem mais ampliado sobre a história de vida do paciente.15

Um ensino que enfoca apenas as condiçoes instrumentais do raciocínio lógico, mas nao mobiliza uma análise de crenças e motivaçoes pessoais por meio do diálogo e do respeito à argumentaçao, tem grande probabilidade de produzir pessoas dotadas de capacidade instrumental lógica, mas com deficiências de sensibilidade e empatia. O diálogo é tanto uma forma de exercício para o plano lógico como um exercício para o plano afetivo-emocional, pois exercita o sujeito a se dispor a encontrar e a crescer com o outro.13

Alguns alunos, porém, se mostram mais preocupados com os aspectos sociais, econômicos e adesao ao tratamento, como exemplificam as afirmaçoes:

"Os aspectos socioeconômicos, de onde ele vem, se ele tem condiçao de adquirir a medicaçao" (Entrevistado 5);

"Os medos do paciente. Em relaçao ao diagnóstico, ao prognóstico, como que vai tratar, se o tratamento é agressivo, se vai ter efeito colateral. A gente tem que entender isso no paciente, porque se você propoe um tratamento e ele nao entende e vierem os efeitos colaterais, ele vai ter medo e vai largar" (Entrevistado 6)

"Quais sao os aspectos sociais dele... Saber o contexto familiar, saber questoes de paradigmas, a questao financeira dele..." (Entrevistado 7)

"Eu acho que você tem que conhecer o perfil do paciente para saber abordar do jeito que ele vai achar melhor" (Entrevistado 8)

Alguns estudos sinalizam limitaçoes na formaçao médica, que precisam avançar em profundidade e amplitude para a abordagem do processo saúde-doença. A compreensao por meio das narrativas dos pacientes pode ser potencializada quando o diálogo facilita a interpretaçao do universo clínico e valoriza a capacidade contextual construída com base na identificaçao dos significados do adoecer e suas repercussoes sociais, econômicas e culturais. Dessa forma, os caminhos oferecem novas abordagens que levam à escolha de estratégias passíveis de parceria consciente para negociar as açoes do cuidado com foco na singularizaçao.16

A mudança de abordagem da semiologia, com enfoque no paciente e nao na doença, é um ponto muito importante a ser enfatizado. Embora preocupados com o cuidado, os estudantes estao pouco predispostos a discutir com o paciente suas prioridades na atençao à própria saúde e seus conhecimentos e crenças sobre o processo saúde-enfermidade. Estas questoes serao um grande desafio para o médico nos próximos anos, e as escolas médicas nao pode ignorá-las.13,15,16

Construçao de uma relaçao médico-paciente efetiva (teoria x prática)

As escolas médicas têm a grande responsabilidade de capacitar seus alunos por meio de um currículo que abranja os conhecimentos técnicos necessários, bem como os saberes humanísticos, obedecendo às orientaçoes das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Medicina. Estas estabelecem que a estrutura do curso deve incluir dimensoes éticas e humanísticas, desenvolvendo nos alunos atitudes e valores orientados para a cidadania.5

Os graduandos de Medicina têm, hoje, a possibilidade de começar a desenvolver sua futura relaçao médico-paciente desde o início do curso. Essa busca cada vez mais precoce em favor da construçao dessa relaçao nao é um acontecimento isolado, mas o resultado de uma conscientizaçao conjunta, de mestres, médicos e estudantes, sobre a importância do desenvolvimento individual de formas de agir e interagir com o paciente. A construçao da relaçao médico-paciente é iniciada advindo de estágios extracurriculares ou nos projetos pedagógicos de determinadas faculdades.5

Neste sentido, durante este estudo as falas dos sujeitos permitiram evidenciar que existe uma valorizaçao das atividades práticas, que segundo os mesmos, promovem o contato com o paciente e os prepara para lidar com situaçoes conflituosas do dia a dia. Consequentemente, na opiniao deles, as atividades práticas possibilitam maior vivência da profissao e assim fazem a construçao deles como médicos. As falas permitem ainda analisar que esta construçao nao é, para os mesmos, processual, nao atribuindo as disciplinas teóricas ou outras atividades o resultado obtido na abordagem do paciente.

Essas percepçoes podem ser confirmadas com os seguintes trechos das respostas:

"Nao adianta você ficar vendo só teoria. A prática que vai te ensinar a lidar com o paciente..." (Entrevistado 1)

"Essa prática melhora nossa relaçao médico-paciente por ter mais experiência, por ter mais segurança, a gente se sente mais confortável para dar um diagnóstico..." (Entrevistado 2)

"Entao, você lidando com o paciente diretamente, você direciona melhor o que você está precisando estudar mais e como é a prática cotidiana de um médico." (Entrevistado 4)

"Acho que a consulta em si, você acompanhar o paciente, ver na prática é fundamental." (Entrevistado 7)

"Eu acho a teoria e a prática. Talvez o estágio, porque eu acho que reúne mais a prática." (Entrevistado 8)

"Porque sao disciplinas que a gente tem um contanto maior com o paciente e ali que você vai saber como lidar com as coisas que nao estavam planejadas..." (Entrevistado 11)

Em um estudo realizado com o objetivo de conhecer como estudantes do último semestre do curso de Medicina de uma universidade federal do Sul do Brasil aprenderam a relaçao médico-paciente, relatou que dezessete estudantes (68%) citaram o aprendizado na prática, em atendimentos realizados no dia-a-dia [14 (56%)], estágios extracurriculares [9 (36%)] e no internato [3 (12%)]. Doze (48%) referiram que atividades teóricas, como aulas [9 (36%)] ou leitura de livros e artigos [6 (24%)] também sao uma boa forma de aprender a relaçao médico-paciente. Os modelos, a prática extracurricular e o internato foram considerados os principais recursos de aprendizado dessa relaçao pelos estudantes, tendo sido julgadas escassas as aulas teóricas e pouco aproveitadas as oportunidades de aprendizagem nas práticas.17

Ainda segundo o autor, os acadêmicos apontam a necessidade de a relaçao médico paciente ser mais abordada durante o curso, por meio de maior ênfase, de aulas ou disciplinas sobre o tema ou da abordagem de situaçoes específicas. A maioria considerou ter pouca orientaçao sobre as habilidades comunicacionais consideradas fundamentais ao bom exercício da medicina, e muitos desconhecem os diversos métodos pelos quais estas podem ser ensinadas.17

O autor sugere que para a mudança desse cenário é necessária à criaçao de espaços para reflexao, mediados por professores ou médicos preparados, em que estudantes possam discutir seu aprendizado, seus relacionamentos e suas angústias. É necessário também um maior preparo dos professores, que sao indispensáveis no ensino das habilidades de comunicaçao, no feedback fornecido aos estudantes e na demonstraçao do ideal a seguir.17

Embora desperte controvérsia, o conceito de competência tem sido apropriado de modo fértil na discussao sobre mudanças na formaçao em saúde. Recolocar a prática profissional no foco, ajuda a pressionar as escolas a repensar seus currículos e processos avaliativos, reorientando o planejamento educacional a partir do perfil de competência desejável para seus egressos.13

Usualmente, abordam-se conhecimentos, habilidades e atitudes como entidades diferentes e separadas, reduzindo o conhecimento apenas à sua dimensao teórica, proposicional. Separam-se teoria e prática, conhecimento sistematizado e pessoal, pensamento intuitivo e analítico. Incluir a dimensao do significado atribuído pelo sujeito implica admitir que o conhecimento nao pode ser caracterizado de forma independente de como foi aprendido e de como é usado, ou seja, o contexto da aquisiçao e o de seu uso sao fundamentais para revelar a natureza do conhecimento.13

Mesmo considerando o papel que o conhecimento científico publicado e sistematizado exerce no desenvolvimento do conhecimento profissional, educadores médicos experientes reconhecem que este também é construído por meio da experiência e que sua natureza depende das formas de aquisiçao e de interpretaçao dessa experiência. O saber se elabora segundo uma ordem pessoal e a partir da experiência de cada um, é gerado e compartilhado culturalmente e está em constante transformaçao.13

Contradiçao no conceito de saúde

A medicina centrada no paciente ou no cuidado é um tema muito amplo e com implicaçoes diferentes quando se trata de saúde pública ou de atençao médica individual. Comporta ainda definiçoes diferentes quando se utiliza a oposiçao entre centrada no médico versus no paciente ou centrada no paciente versus na doença.13

Quando se opoe a atitude centrada no médico à atitude centrada no paciente, o ponto em discussao é o poder do médico versus a autonomia do paciente. Quando a oposiçao é entre doença e doente, a medicina centrada no paciente é mais abrangente, busca entender as necessidades e desejos do paciente e nao se restringe à doença.13

Pode-se dizer que sao dois os componentes principais da medicina centrada no paciente: um deles se refere ao cuidado da pessoa, com a identificaçao de suas ideias e emoçoes a respeito do adoecer e a resposta a elas; e o segundo se relaciona à identificaçao de objetivos comuns entre médicos e pacientes sobre a doença e sua abordagem, com o compartilhamento de decisoes e responsabilidades.

Nessa pesquisa os conceitos de saúde parecem ser dicotômicos para os acadêmicos. Quando questionados se "Os valores e o estilo de vida de um paciente podem interferir na relaçao médico-paciente", apesar de concordarem, o reconhecimento dos valores dos pacientes foi considerado um empecilho na relaçao e nao um componente para construçao da mesma. Observa-se isso, nas afirmaçoes dos estudantes:

"A relaçao depende muito da postura do próprio paciente" (Entrevistado 2)

"O estilo de vida dele, o que ele pensa, o poder socioeconômico dele. Vao diferenciar o jeito que ele vai relacionar com o médico." (Entrevistado 3)

"Se ele tiver crenças muito radicais, quanto a determinadas condutas que você propuser, ele pode se negar a seguir o tratamento que você indicar." (Entrevistado 4)

"... O paciente tem um credo, ele acredita em algo, quando ele precisa fazer uma transfusao de sangue, mas ele nao pode porque tem religiao que nao aceita isso. Isso pode atrapalhar um pouco."(Entrevistado 5)

"Por exemplo, um paciente que tem certa religiao, ela pode atrapalhar talvez, ou ajudar...Você tem que adequar a sua conduta..."(Entrevistado 6)

"Geralmente o paciente tem os valores dele, só que os médicos têm conceitos e a formaçao própria entao às vezes isso pode entrar em choque." (Entrevistado 7)

"Geralmente quem nao é esclarecido tem alguma dificuldade de seguir as instruçoes ou tem alguma carga já assim, nao querendo acatar o que você fala." (Entrevistado 8)

Percebe-se que há um desconforto gerado quando o paciente nao se comporta da maneira como os acadêmicos esperam que ele se comporte, isso é exemplificado com os usos das expressoes "atrapalha", "entrar em choque" e "nao acata". Os acadêmicos parecem perceber e respeitar as diferenças culturais, porém parecem acreditar que a relaçao médico-paciente nesses casos nao é efetiva, devido exclusivamente ao paciente e suas crenças e comportamentos. Criando-se assim uma contradiçao no conceito da, já que essa deve ser construída por ambas as partes.

Essa percepçao é confirmada quando questionados sobre as habilidades necessárias para uma relaçao médico-paciente efetiva sendo a paciência, apontada pelos acadêmicos, como uma habilidade fundamental. Isso mostra que alguns atendimentos podem gerar desconfortos aos acadêmicos e eles precisam ser pacientes para concluí-lo.

"Saber lidar com o paciente, é ser compressivo, é ter paciência" (Entrevistado 10); " Empatia... (pausa) Paciência é..." (Entrevistado 4)

"Paciência. Compaixao. Empatia..." (Entrevistado 6)

"Em segundo lugar, você ter paciência; Habilidades como empatia, respeito, vontade, paciência." (Entrevistado 9)

O modelo biomédico dominante é um modelo curativo, e seus pressupostos, atitudes e valores tendem a definir a cultura dos centros acadêmicos. Embora a cura seja um objetivo apropriado para a medicina, ele é incompleto, pois nao considera a promoçao da saúde, prevençao de enfermidades e lesoes, restauraçao de capacidade funcional, prevençao de morte prematura, alívio de sofrimento e o cuidado com aqueles que nao podem ser curados. Por isso, para alcançar mudança, as escolas precisam incorporar em seus currículos conhecimentos de ciências humanas e sociais.13,18,19

 

CONCLUSAO

Ao longo da pesquisa, percebeu-se que os estudantes se julgam preparados para estabelecer uma relaçao médico-paciente efetiva num modelo biologicista que considera a anamnese biológica mais relevante. Este preparo advém das disciplinas práticas e muitas vezes os aspectos técnicos da consulta sao priorizados em detrimento da atençao integral do paciente.

Há uma ansiedade por parte dos estudantes de resolver a situaçao do paciente, diagnosticando e medicando, por isso, apesar de reconhecerem a necessidade de ouvir e abordar aspectos psicológicos há uma desvalorizaçao desses frente aos aspectos biológicos.

Há uma tendência de supervalorizaçao das atividades práticas e os estudantes nao consideram a construçao da relaçao médico-paciente processual. Dessa forma, nao atribuem às disciplinas teóricas seu desemprenho durante a abordagem da relaçao médico-paciente.

A análise do discurso dos estudantes evidencia ainda uma hierarquia na relaçao médico-paciente, na qual o paciente deve ajudar o médico a construir essa relaçao, sendo mais objetivo, fornecendo as informaçoes solicitadas e assim, contribuindo para o sucesso da consulta e, consequentemente, do tratamento.

A construçao do profissional exige, sem dúvidas, um conhecimento teórico. Nesse contexto, as escolas parecem formar um médico mais preparado, mas, em contrapartida, exposto a um desgaste maior, devido a dificuldade de se relacionar e estabelecer um modelo de relaçao com o paciente na qual ele julga ideal.

É preciso humanizar os estudantes. A mudança, entretanto, nao deve ocorrer somente por parte deles, mas também naqueles que os educam. Nao basta ensinar ao aluno a importância da humanizaçao na relaçao médico-paciente se os professores, espelhos dos alunos, nao utilizam essa teoria na prática.

Os estudantes atuais têm uma oportunidade de começar mais cedo o contato com as atividades práticas. Em contrapartida, por falta de preparaçao para esse contato precoce muitos acadêmicos nao conseguem aproveitar a essência do trabalho proposto. Ainda que as disciplinas práticas possam oportunizar a relaçao do aluno com os pacientes, as reflexoes, discussoes e autocríticas sao essenciais para que a nao se cristalize uma postura distante e desinteressada desses futuros médicos.

 

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