RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 28 e-1979 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20180013

Voltar ao Sumário

Educação Médica

Mutirão de saúde como ação extensiva e integrativa com a atenção primária

Health task force as extensive and integrative action with primary attention

Tiago Daniel Barbosa Santos; Daniela Porto Pereira; Diego Marques Ferreira Santos; Bruno Bastos Godoi; Ramon Wellison da Silva Leite

Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Faculdade de Medicina - Diamantina - Minas Gerais - Brasil

Endereço para correspondência

Bruno Bastos Godoi
E-mail: bastosgodoi@gmail.com

Recebido em: 31/01/2018
Aprovado em: 12/04/2018

Instituição: Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Faculdade de Medicina - Diamantina - Minas Gerais - Brasil

Resumo

Este trabalho buscou descrever uma das ações extensiva e interdisciplinar da LASEM da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, os Mutirões de Saúde. A liga acadêmica, firmada no tripé ensino, pesquisa e extensão, pretende aproximar o estudante da prática da atenção à saúde, com foco na vivência, para auxiliar o entendimento de como os fatores socioeconômicos e culturais influenciam no processo saúde-doença. Além disso, tem por objetivo descrever sua proposta e dinâmica, incentivar sua realização como uma atividade de Atenção Primária à Saúde, visto a sua importância para a formação médica. Os mutirões de saúde foram mobilizações coletivas, planejadas pela liga e pelo gestor de saúde local, com intuito de promover uma aproximação com a comunidade, permitir a aplicação do conhecimento construído nas reuniões da liga e ofertar serviços de saúde à população local. A inserção precoce do aluno de medicina na prática médica permite uma aproximação entre a instituição de ensino e a comunidade, de forma que é construído um ambiente de crescimento mútuo, tanto para a educação do aluno, quanto para a saúde da população. Isso permite que o estudante se desenvolva como agente transformador do meio. A experiência com os mutirões de saúde mostrou que são atividades eficazes para o aperfeiçoamento do ensino, para o compartilhamento de saberes entre profissionais, estudantes e a comunidade, bem como para o fortalecimento da liga acadêmica de semiologia médica dentro da instituição universitária de ensino.

Palavras-chave: Atenção primária à Saúde. Ciências da saúde. Educação médica. Ensino.

 

INTRODUÇÃO

A reforma sanitária brasileira, que culminou na criação do Sistema Único de Saúde (SUS) a partir das discussões da 8ª Conferência de Saúde, em 1986, e incorporado na Constituição Federal de 1988, trouxe uma nova concepção sobre saúde. Evidencia-se uma necessidade de transformação das abordagens e intervenções práticas com intuito de visualizar-se o indivíduo como um ser integral, a fim de reduzir as desigualdades na assistência à saúde de qualidade. Dentre as medidas estão às ações de prevenção, promoção, recuperação e reabilitação à saúde, individual e coletiva, que compõem a Atenção Primária à Saúde (APS).1 2

As novas Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de Medicina (DCNs) exprimem a necessidade de formação de um profissional médico que, além da prestação do cuidado, tenha competência gestora e de educação em saúde. Que seja capaz de promover a interdisciplinaridade dos conteúdos das ciências básicas e clínicas com os problemas prioritários de saúde da população, corroborando para a formação de profissionais envolvidos com as práticas do SUS, críticos, líderes e preparados para o trabalho em equipe.3 4 Um profissional com formação generalista, com foco na atenção básica e resolutivo para a maior parte dos problemas de saúde local.3 5

A nova grade curricular tem como base um ensino centrado no estudante, vinculado a cenários reais de prática, baseado em problemas da realidade e com uma formação humanista. Busca-se a articulação ensino-pesquisa-extensão para a construção dos novos saberes e práticas, uma nova formação médica.5 Isso vai contra ao modelo hospitalocêntrico antes predominante, de conhecimento compartimentalizado, fragmentado, e de interesses puramente mercantilistas. Contribui para moldar indivíduos capazes de lidar com as diferenças culturais e sociais da sociedade brasileira.2

Reflexão sobre o tema causa nos alunos anseios pelo "novo profissional" e a procura a novas metodologias de aprendizado, que vão além do currículo básico, é constante. As Ligas Acadêmicas de Medicina constituem esse espaço transformador, de indissociabilidade do ensino, pesquisa e extensão, que surgiram da necessidade de colocar em prática os conteúdos aprendidos em aula, de intervir socialmente e medicamente sobre as adversidades relacionadas à saúde, bem como da avidez pelo contato com a comunidade.6

No ano de 1920 a primeira liga acadêmica brasileira foi fundada por estudantes na Faculdade de Medicina da USP, objetivando ter grande impacto social por meio do combate à sífilis. A partir daí, várias ligas foram criadas nesta e em outras faculdades com papel importante na formação médica, principalmente após a chegada do século XXI.6,7 Elas aproximam o estudante da prática da atenção à saúde, favorecem a diversificação de cenários, aprender a fazer, aprender a aprender, o trabalho em equipe e a interdisciplinaridade das ações.8,9 Transformam-se assim em importantes meios complementares da formação do ensino superior, superando deficiências no currículo, principalmente na área da saúde.

A Liga Acadêmica de Semiologia Médica (LASEM) da UFVJM, baseada nesses conceitos, tem como meta desenvolver um trabalho integrado e interdisciplinar para aumentar os níveis de qualidade da atenção à saúde e do ensino dos alunos. Tem como foco a vivência prática dos estudantes por meio de mutirões de saúde, uma ação de cunho extensionista para auxiliar no entendimento de como os fatores socioeconômicos e culturais influenciam no processo saúde-doença. Objetiva com os mutirões impacto na população local, contribuindo para melhoria dos indicadores de saúde, bem como treinamento da semiologia médica.

 

OBJETIVOS

Apresentar os "Mutirões de Saúde", uma das principais ações desenvolvidas pela LASEM, descrever sua proposta e dinâmica, incentivar sua realização como uma atividade de APS, enfatizar o impacto dessas ações nas comunidades atendidas, bem como relatar a importância delas na formação do profissional médico.

 

METODOLOGIA

Foram realizados dois mutirões no distrito de Monte Belo da cidade de Carbonita - MG, nos dias 19 de junho e 03 de julho de 2016, ambos supervisionados pelo professor orientador da LASEM. As atividades realizadas foram planejadas pela Liga junto ao gestor local de saúde, com intuito de promover uma aproximação com a comunidade, permitir a aplicação do conhecimento construído nas reuniões e promover a saúde local. Os membros da liga realizaram atividades como aferição de pressão arterial, medição de glicemia capilar, peso, altura, índice de massa corporal, técnicas de palpação, percussão e ausculta toracoabdominal, colpocitologia oncótica e exame clínico das mamas, bem como orientações quanto à adoção de novos hábitos de vida saudáveis. Além disso, acompanharam a dinâmica das consultas médicas e de pequenas cirurgias realizadas na unidade de saúde local.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A inserção precoce do aluno de medicina no campo de prática permite uma aproximação com a realidade social e a articulação da instituição de ensino com a comunidade ao promover cenários reais da prática médica, distante dos laboratórios de ensino. Isto desenvolve nos estudantes o pensamento crítico-reflexivo, o desenvolvimento de habilidades e o senso de responsabilidade para com o outro.4,10 Ações de caráter extensionista, que envolvem o processo de vivências, possibilitam uma forma de aprendizagem vinculada à realidade epidemiológica das comunidades, contribuindo para a autonomia dos alunos em suas práticas e facilitando as atividades nos estágios clínicos nos últimos anos da graduação.11,12

A realização dos mutirões de saúde constitui-se um importante meio dessa aproximação da universidade com a comunidade, pois os integrantes da LASEM têm contato direto e precoce com os pacientes atendidos. Eles permitem intensa troca de conhecimentos entre os estudantes, com a equipe de saúde e com as pessoas que procuram o serviço. Fortalecem relações pessoais com o paciente, de entendimento do ser humano e o desenvolvimento da empatia ao colocar-se de frente com a realidade de saúde daquele indivíduo (Figura 1).

 


Figura 1. Fortalecendo relações com a pessoa (Fonte: Acervo próprio).

 

SILVA et al12 destaca que cuidar é uma ação que suscita sensibilidade, respeito e capacidade perceptiva das necessidades alheias. Envolve o diálogo e escuta reflexiva para verdadeira compreensão do outro. Destaca também que diálogos multiprofissionais são fundamentais na formação mais humanizada em saúde, por confrontarem teoria versus prática levando a reflexão sobre valores, costumes e crenças da pessoa que necessita do serviço assistencial. O aluno tende a se ver como profissional e torna-se autoconfiante (Figura 2).

 


Figura 2. Sentimento de trabalho em equipe (Fonte: Acervo próprio).

 

Os alunos da LASEM durante as atividades exercitaram habilidades de comunicação e escuta reflexiva das diversas queixas e angústias de cada pessoa, contribuindo para uma atenção à saúde mais integral, sob a ótica do ser biopsicossocial e espiritual. Como a equipe multiprofissional estava aberta as dúvidas dos estudantes e disposta a aprender com eles, foi possível a realização de questionamentos a respeito das práticas desenvolvidas, para o crescimento mútuo dos atores.

REIS et al13 suscitam que isso torna-se essencial para a criação do sentimento de trabalho em equipe nos alunos, ao entender que o cuidado não deve basear-se na simples troca de informações entre os profissionais, mas sim ultrapassar sua área de formação para incorporar a contribuição de outras disciplinas, ou seja, um trabalho interdisciplinar. Tendo como base a relação de interdependência dos conhecimentos, um trabalho coletivo e compartilhado que deve ser concretizado na prática cotidiana. Há, assim, otimização das ações em saúde, tornando a interdisciplinaridade fundamental para reorganização da atenção à saúde no SUS.

 

CONCLUSÃO

Baseado nas novas diretrizes curriculares nacionais dos cursos de medicina, a inserção precoce do aluno de medicina na prática médica permite uma aproximação entre a instituição de ensino e a comunidade de forma que é construído um ambiente de crescimento mútuo, tanto para a educação do aluno, quanto para a saúde da população. Isso permite ainda que o estudante se desenvolva como agente de transformação do meio, atuando, sobretudo, com base nos princípios do SUS. Sendo assim, os mutirões de saúde são cenários reais e eficazes para o aperfeiçoamento do ensino, compartilhamento de saberes entre profissionais, estudantes e a comunidade e sobretudo impacto positivo na saúde das pessoas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Aguiar ZN. SUS: Sistema Único de Saúde - antecedentes, percurso, perspectivas e desafios. 1ª ed. São Paulo: Matinari, 2011.

2. Previatti D, Lobo E, Pereira J. Em busca da interdisciplinaridade: o trabalho multiprofissional na gestão pública em saúde para construção do Sistema Único de Saúde. Coleção Gestão de Saúde Pública. 2013; 1: 178-89.

3. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em Medicina. Parecer CES/CNE 116/2014, publicado no DOU 06/06/2014.

4. Fonsêca GS, Junqueira SR, Zilbovicius C, Araujo ME. Educação pelo trabalho: reorientando o trabalho dos profissionais de saúde. Interface Comunicação Saúde educação. 2014; 18(50): 571-83.

5. UNIVERSIDADE FEDERAL DOS VALES DO JEQUITINHONHA E MUCURI. Projeto pedagógico do curso de graduação em medicina - Campus JK. Diamantina (MG); 2017.

6. Filho PTH. Ligas acadêmicas: motivações e críticas a propósito de um repensar necessário. Revista Brasileira de Educação Médica. 2011; 35(4): 535-43.

7. Filho PTH, Villas-Bôas PJF, Corrêa FG, Muñoz GOC, Zaba M, Venditti VC, et al. Normalização da abertura de ligas acadêmicas: a experiência da Faculdade de Medicina de Botucatu. Revista Brasileira de Educação Médica. 2010; 34(1): 160-7.

8. Silva AS, Flores O. Ligas acadêmicas no processo de formação dos estudantes. Revista Brasileira de Educação Médica. 2015; 39(3): 410-425.

9. Bastos MLS, Trajman A, Teixeira EG, Selig L, Belo MTCT. O papel das ligas acadêmicas na formação profissional. J. Brasileiro de Pneumologia. 2012; 38(6): 803-5.

10. Santos RNLC, Ribeiro KSQS, Anjos UU, Farias DN, Lucena EMF. Integralidade e interdisciplinaridade na formação de estudantes de medicina. Revista Brasileira de Educação Médica. 2015; 39(3): 378-87.

11. Martins AC, Schlosser AR, Arruda RA, Klein WW, Andrade BWB, Labat ALB, et al. Ensino médico e extensão em áreas ribeirinhas da Amazônia. Revista Brasileira de Educação Médica. 2013; 37(4): 566-72.

12. Silva AFL, Ribeiro CDM, Júnior AGS. Pensando extensão universitária como campo de formação em saúde: uma experiência na Universidade Federal Fluminense, Brasil. Interface Comunicação Saúde Educação. 2013; 17(45): 371-84.

13. Reis FLT, Garuba CP, Pereira JM, Quintão MCB, Cândido SA, Júnior WUS, et al. A interdisciplinaridade no grupo tutorial primeiro de maio - PET-Saúde. Disponível em: <http://www.convibra.com.br/artigo.asp?ev=24&>. Acesso em: 11 de novembro de 2017.