RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 28 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20180080

Voltar ao Sumário

Editorial

Editorial

M. Isabel T. D. Correia

Professora de Cirurgia Universidade Federal de Minas Gerais

 

"Escrever o editorial do próximo número da Revista Médica de Minas Gerais, como marco desta nova fase" - este foi o pedido que recebi do digníssimo editor chefe Prof. Dr. Agnaldo Soares Lima e, solicitação de amigos é quase que uma ordem, a despeito da imensa responsabilidade que, em geral, vem junto.

No caso específico, tremenda tarefa a ser alcançada, em especial, frente ao que a revista representa para o mundo científico e educacional da nossa Minas Gerais, no contexto ainda maior de um Brasil continental e tão dispare. Ademais, toda a magnânima história pregressa dos colegas que garantiram a existência e a qualidade da revista, em especial ressaltando-se a atuação do anterior editor-chefe, Prof. Ênio Pietra Pedroso. Querido e inolvidável mestre de várias gerações de médicos, inclusive, desta pessoa, tornam o labor mais árduo. Contudo, no contexto contemporâneo, em que faz-se mister a mudança de estratégias, posturas e paradigmas, logo "pensei com meus botões - e porque não?".

A revista inicia nova fase de existência. Agora, está totalmente inserida em um dos principais pilares da atual gestão da Associação Médica de Minas Gerais - difusão de saberes. Neste sentido, educar transcende os muros da universidade e alcança a prática clínica diversificada e interdisciplinar em que, independentemente de localização geográfica ou especialidade, compartilha experiências mineiras mas não só, nas mais diversas áreas da saúde e da doença.

O desafio é grande, por diversas razões, dos quais se destacam o escopo e a diversidade de temas que são publicados pela RMMG. Isso demanda amplo corpo editorial, o que pelo caráter voluntário tem sido fator limitante para vários potenciais colaboradores, que na luta diuturna, envolvendo a necessidade de resultados econômicos e garantia de deveres familiares, negam a doação de seu tempo, de maneira bastante compreensível, para qualquer atividade extra. Além disso, a ciência vive momento crítico, principalmente com a afluência de muitos interesses financeiros por trás da grande quantidade de publicações atual e, concomitante, lançamento constante de novas revistas.

São publicados no Pubmed cerca de 1,000 trabalhos/dia, em revistas dos mais variados estilos e fatores de impacto.1 Aliás, neste quesito - fator de impacto - frequentemente somos confrontados com a pergunta "qual é o fator de impacto da revista?". Cuja resposta, em geral, traduz equivocada constatação: "se é alto, a revista é boa e o artigo de qualidade". Triste ilusão!

O fator de impacto é "medida" que veio do inglês "metrics". Essa medida foi desenvolvida pela Thompson e Reuters2,3 como instrumento quantitativo para avaliar, comparar e classificar revistas científicas tendo como base o número de artigos citado por outras revistas, em determinado período (dois anos), dividido pelo número de artigos publicado por essa revista. Assim, por exemplo, o fator de impacto da revista A, no ano de 2018, considera o número de vezes que houve citações de artigos publicados na mesma, nos anos de 2017 e 2016 (p. ex. 1200), dividido pelo número de artigos publicados (p. ex. 200), no mesmo período. Logo, isso implicaria, por exemplo, no fator de impacto "6". O objetivo inicial da medida fator impacto foi auxiliar bibliotecas e bibliotecários a escolher revistas para o público pelo qual eram responsáveis. Contudo, no momento atual, houve deturpação e transcendência desse objetivo primário, havendo grande risco de manipulação de dados que não são amplamente difundidos, o que tem causado questionamento por parte de pesquisadores e instituições de pesquisa.4 Além disso, há uma série de normas que devem ser respeitadas para que as revistas passem pelo processo de indexação e possam ter atribuído o fator de impacto.

A RMMG, até o momento, não contempla esses quesitos, mas sem dúvida a indexação é almejada. Contudo, não há a preocupação de alcançar este ou aquele fator de impacto, já que ao contrário da crença, isso não garante a qualidade dos artigos publicados.3 Explicarei melhor - o fator de impacto é uma média e, nem sempre a média traduz a melhor realidade dos dados obtidos. Neste sentido, tomemos novamente a revista A como exemplo: essa publicou em 2016 e 2017 duzentos artigos, dos quais cinco foram muitíssimos citados - respectivamente, 290, 320, 200, 500 e 100, totalizando 1410 citações. Os demais 195 artigos contribuíram com as restantes 590 citações, que se fossem igualmente divididos (mas não são) representariam a média de 3,02 citações por artigo. Assim vejamos, o grande fator de impacto 6, foi marcado por somente cinco artigos que podem ter sido realmente de boa qualidade, seja por abordaram temas muito marcantes ou inéditos, ou somente trabalhos de revisão, que em geral, são muito citados por outros autores. Ademais, a qualidade dos artigos científicos tem sido bastante questionada.5 De sorte que a qualidade da revista A foi impactada por cinco artigos, relegando aos demais 95 nenhum ou questionável ou ainda grande valor científico, não adequadamente valorizado. Além de tudo já citado, há vários outros problemas relacionados com o fator de impacto que não são o foco deste editorial.

Assim continuando.....É, sem dúvida, meta da atual diretoria da AMMG e dos novos editores que a RMMG represente a prática e a experiência de profissionais da saúde do estado de Minas Gerais e do país, orientados sempre pelos princípios da boa ciência e da ética. Esses são os pilares que nortearão a revisão pelos pares independentemente do tipo de trabalho: revisão ou original seja randomizado ou observacional ou, ainda relato de caso inédito. É fundamental que a interpretação dos números e das informações possa contribuir para a melhoria do cuidado aos demais indivíduos, sempre sobre os preceitos éticos e de qualidade. De sorte que é com esse espírito que levaremos adiante esta árdua e desafiante tarefa!

 

REFERÊNCIAS

1. Straus SE, Tetroe J, Graham I. Defining knowledge translation. CMAJ. 2009;181(3-4):165-8.

2. Wilms G. The impact factor. Neuroradiology. 2013;55(7):803-6.

3. Gasparyan AY, Nurmashev B, Yessirkepov M, Udovik EE, Baryshnikov AA, Kitas GD. The Journal Impact Factor: Moving Toward an Alternative and Combined Scientometric Approach. J Korean Med Sci. 2017;32(2):173-9.

4. Announcement: Nature journals support the San Francisco Declaration on Research Assessment. Nature. 2017;544(7651):394.

5. Ioannidis JP. Why most published research findings are false. PLoS Med. 2005;2(8):e124.