RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 28 e-1925 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20180015

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Artigo Original

Estudo comparativo do estilo de vida entre universitários de cursos da área da saúde e de outras áreas

Comparative study of life style among university students of courses of the health area and other areas

Gisele Do Carmo Leite Machado Diniz1; Suellen Alves Fernandes Vicente2; Ariana Alves de Lima3

1. Mestre em Ciências da Saúde. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais- Betim, MGBrasil. (Fisioterapeuta/ Professora adjunta)
2. Especialista em Fisioterapia Respiratória. Academia Alternativa e Clínica Lev- Belo Horizonte, MG-Brasil. (Fisioterapeuta/ Fisioterapeuta)
3. Especialista em Fisioterapia Dermato funcional e Tricologia. Clínica Tricoderma- Contagem, MG-Brasil. (Fisioterapeuta/ Fisioterapeuta)

Endereço para correspondência

Gisele do Carmo Leite Machado Diniz
Email: giselemdiniz@yahoo. com.br

Recebido em: 06/01/2016
Aprovado em: 08/02/2018

Instituiçao: PUC Minas em Betim Coordenaçao do Curso de Fisioterapia da PUC-Minas em Betim Rua do Rosário, 1.081 - Angola CEP: 32630-000 - Betim (MG), Brasil

Resumo

INTRODUÇAO: Estilos de vida inadequados têm sido causa de morte em todo o mundo. Objetivos: comparar o estilo de vida de universitários da área da saúde com outras áreas e, compará-los por cursos e períodos de graduaçao.
MÉTODOS: o questionário "Estilo de Vida Fantástico" (QEVF) foi aplicado em universitários do 1º e do 7º períodos dos cursos de fisioterapia, enfermagem, administraçao e sistemas de informaçao. A comparaçao entre as áreas foi feita pelo teste T-Student e, entre os cursos e períodos pelo ANOVA ou Kruskal-Wallis, sendo nível de significância p<0,05.
RESULTADOS: em relaçao à pontuaçao total no QEVF a maioria (n=84) dos 195 estudantes avaliados apresentou estilo de vida "muito bom". Nao foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre os alunos da saúde e os de outras áreas (p=0,819), bem como entre os cursos (p=0,266) e períodos (p=0,115). Além disso, nao foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre os escores totais dos alunos do 1ºperíodo (p=0,314) e entre os alunos do 7ºperíodo (p=0,863). Entretanto, na análise por domínios inter períodos e dentro da mesma área, observou-se que os escores do 7º período no grupo área da saúde foram significativamente menores nos domínios "cigarro e drogas" (p=0,024), "álcool"(p=0,025) e "comportamento" (p=0,011) quando comparados com o 1º período da mesma área.
CONCLUSAO: o estilo de vida geral nao foi influenciado pela área, curso ou período de graduaçao. Entretanto, o consumo de cigarro, álcool e drogas e o tipo de comportamento se apresentou pior nos alunos veteranos da área da saúde.

Palavras-chave: estilo de vida, adulto jovem, estudantes, estudantes de ciências da saúde, questionários.

 

INTRODUÇAO

O estilo de vida está relacionado com diversos aspectos que refletem os valores, as atitudes e as oportunidades na vida das pessoas. Quando inadequado, tem sido causa de morte em todo o mundo, pois está associado com maior risco de desenvolvimento de doença cardíaca isquêmica, acidente vascular encefálico, diabetes tipo II, depressao e diversos tipos de câncer.1

Os hábitos e estilos de vida que se adquirem na infância e na adolescência podem ser perdidos ou consolidados na juventude, bem como é comum a adoçao de novos hábitos nesta fase.2 Este fato acontece em decorrência de diversas situaçoes com as quais os jovens têm que se defrontar e pode impactar diretamente em suas condiçoes futuras de saúde.3

A separaçao do âmbito familiar e o início dos estudos universitários pode desencadear situaçoes de estresse que geralmente resultam em amadurecimento da personalidade. Entretanto, se tais situaçoes nao forem enfrentadas adequadamente podem resultar, por outro lado, na adoçao de estilos de vida ruins tais como consumo de drogas lícitas e ilícitas, sedentarismo, dietas inadequadas, dentre outros.4,5 Os universitários com maior probabilidade de se engajar em comportamentos de risco para a saúde sao aqueles que relatam saúde mental pior do que os demais, particularmente no que se refere ao estresse.6

Dentre os universitários brasileiros, o álcool tem sido a droga lícita mais frequentemente utilizada. Adicionalmente, muitos relatam ter tido contato com pelo menos uma droga ilícita em sua vida, sendo a maconha a mais consumida.7 ?Um dado preocupante é que uma alta proporçao destes universitários está envolvido com o policonsumo de drogas, o que desencadeia danos à saúde física e mental dos mesmos.8 Além disso, hábitos ruins podem contradizer a açao dos futuros profissionais, principalmente aqueles da área da saúde dos quais se espera engajamento na promoçao de hábitos de vida saudáveis.9-11

Assim, os objetivos do presente estudo foram comparar o estilo de vida dos universitários da área da saúde com aqueles de outras áreas, bem como comparar os estilos de vida dos alunos ingressantes com o dos alunos veteranos.

 

MATERIAL E MÉTODO

Trata-se de um estudo descritivo, comparativo, de corte transversal. Universitários de ambos os sexos com idade mínima de 18 anos e que estudavam em cursos noturnos foram selecionados aleatoriamente através da lista de alunos matriculados por período/curso. Foram incluídos os universitários matriculados regularmente no primeiro ou no sétimo período de quatro cursos divididos por áreas: saúde - composto por fisioterapia e enfermagem - e outras áreas - composto por administraçao e sistemas de informaçao. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais (CAAE 02757812.6.0000.5137) e todos os participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE). No caso de três alunos selecionados que se recusaram a responder ao questionário, uma nova seleçao aleaória foi realizada visando manter o número amostral previsto.

Para avaliar o estilo de vida dos universitários em questao, foi utilizado o Questionário Estilo de Vida Fantástico (QEVF) que se destaca entre os demais instrumentos que avaliam o estilo de vida devido à sua capacidade de explorar componentes físicos, psicológicos e sociais do indivíduo.12 O QEVF é um instrumento auto administrável que possui 25 questoes divididas em nove domínios e que contemplam fatores pessoais e ambientais que influenciam diretamente a vida do indivíduo. A soma de todos os pontos permite chegar a um escore total que classifica os sujeitos em cinco categorias de zero a cem pontos. Sendo assim, os indivíduos sao classificados de acordo com seus respectivos estilos de vida em: "excelente", "muito bom", "bom" "regular" e "necessita melhorar" ou seja, quanto menor for o escore, maior será a necessidade de mudança.

Inicialmente foi realizada uma explicaçao prévia sobre o QEVF aos indivíduos selecionados. Após a assinatura do TCLE, os alunos responderam a um questionário breve de caracterizaçao demográfica e ao QEVF. Ambos foram aplicados nas dependências da PUC Minas Betim, entre maio e junho de 2013. Os questionários foram entregues aos universitários no primeiro horário de aula e recolhidos no último horário do mesmo dia.

O cálculo amostral considerou uma confiabilidade de 95% e proporçao de satisfaçao conservadora (50%), com margem de erro amostral de 5% e perdas de 10% baseadas no número de alunos matriculados no segundo semestre de 2013 em cada curso/ período avaliado. As comparaçoes entre as áreas foram feitas a partir do teste de T-Student independente. A distribuiçao normal foi avaliada pelo test de Shapiro Wilk. Testes paramétricos e nao paramétricos foram utilizados conforme a distribuiçao de normalidade dos dados. Utilizou-se a análise de variância ANOVA de um fator ou o teste de Kruskal-Wallis para comparaçoes entre os cursos e os períodos, com análises post hoc pelos testes de Bonferroni ou de Mann-Whitney. O nível de significância foi de p<0,05 e os dados expressos como média ± desvio padrao ou mediana (intervalo interquartil).

 

RESULTADOS

A amostra foi constituída por 195 estudantes do período noturno com idade média de 23,92 ± 2,26 anos, sendo 52,6% do sexo feminino e 47,4%, masculino. Dos estudantes selecionados, 70 foram do grupo área de saúde (26 do curso de enfermagem e 44 de fisioterapia) e 125 do grupo outras áreas (72 alunos do curso de sistemas de informaçao e 53 de administraçao).

Para fins de comparaçao, a amostra de cada curso foi subdividida em: primeiro e sétimo período. Assim, do curso de administraçao: 33 estudantes eram do primeiro e 20 do sétimo período; do curso de enfermagem: 13 do primeiro e 13 do sétimo período; do curso de fisioterapia: 30 do primeiro e 14 do sétimo período; e do curso de sistemas de informaçao: 41 do primeiro e 31 do sétimo período (tabela 1).

 

 

Em relaçao à pontuaçao total no QEVF apenas oito indivíduos foram classificados na categoria excelente. A maioria (n= 84) dos estudantes avaliados se encaixaram na categoria "muito bom", seguido pela categoria "bom" (n=82), Na categoria 'regular" se encaixaram 19 indivíduos e na categoria "necessita melhorar", apenas dois estudantes. Nao foram observadas diferenças estatisticamente significativas nos escores totais entre o grupo área de saúde e o grupo outras áreas (p=0,819), bem como nao houve diferença quando a comparaçao foi realizada por curso (p=0,266) e por período (p=0,115). Além disso, na comparaçao intercursos, nao foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre os escores totais dos alunos matriculados no primeiro período (p=0,314), bem como entre os alunos do sétimo período (p=0,863).

Entretanto, considerando a pontuaçao por domínios, a tabela 2 demonstra que na análise intercursos, o escore do curso de enfermagem no domínio comportamento apresentou-se significativamente menor em relaçao à fisioterapia (p=0,033) e em relaçao ao curso sistemas de informaçao (p=0,024). Ainda no domínio do comportamento, o escore do curso de administraçao apresentou-se significativamente menor em relaçao ao curso sistemas de informaçao (p=0,049).

 

 

Na comparaçao entre os 1º períodos das áreas avaliadas, a tabela 3 demonstra que houve diferença apenas no domínio "cigarro e drogas" no qual o grupo área de saúde apresentou escore significativamente menor do que o grupo outras áreas (p=0,007). Nenhuma diferença entre os 7º períodos foi observada. Na análise inter períodos dentro da mesma área, observou-se que os escores do 7º período no grupo área de saúde foram significativamente menores nos domínios "cigarro e drogas" (p=0,024), "álcool" (p=0,025) e "comportamento" (p=0,011) quando comparados com o 1º período da mesma área. No grupo "outras áreas", foi observado que o 7º período apresentou escore significativamente menor (p=0,011) que o 1º período apenas no domínio comportamento.

 

 

A tabela 4 apresenta a comparaçao por períodos e por cursos. Foi observado que tanto o curso de administraçao, quanto o curso de sistemas de informaçao apresentaram escores significativamente menores (p=0,037 e p=0,011, respectivamente) em relaçao ao curso de fisioterapia nas turmas do 1º período no domínio cigarro e drogas.

 

 

DISCUSSAO

A maioria dos universitários avaliados foi classificada como tendo estilo de vida "muito bom". A pontuaçao geral obtida através do questionário "estilo de vida fantástico" nao demonstrou que os alunos da área de saúde possuíam estilo de vida melhor do que os estudantes das outras áreas, bem como nao demonstrou melhor estilo de vida dos veteranos em relaçao ao calouros.

Entretanto, a análise por domínios demonstrou que veteranos da área de saúde apresentaram hábitos de vida piores nos domínios álcool, cigarro/drogas e comportamento do que os alunos ingressantes. Resultados semelhantes foram encontrados por outros estudos que avaliaram a associaçao entre o período da graduaçao e os fatores de risco cardiovascular.13, 14 Entretanto, tais estudos nao estratificaram os alunos por área de conhecimento, bem como utilizaram instrumentos para avaliaçao do estilo de vida diferentes daquele utilizado no presente estudo. Um estudo transversal realizado com 485 universitários ingressantes demonstrou que o tabagismo e o consumo de álcool apresentaram prevalências elevadas e que mais de 90% do alunado havia adquirido tais hábitos antes do ingresso na universidade.15 Entretanto, diferentemente do presente estudo, nao houve estratificaçao da populaçao estudada por áreas de conhecimento, bem como nao se comparou os dados dos ingressantes com aqueles dos alunos veteranos.

O primeiro levantamento nacional sobre os padroes de consumo de álcool na populaçao brasileira demonstrou que, o chamado beber moderado nao é a regra entre a populaçao brasileira adulta.16 Entre aqueles que consomem bebidas alcoólicas, o perfil de usuário mais frequente foi homens jovens e solteiros, sendo que cerca de 25% dos mesmos consumiam quantidades potencialmente prejudiciais à saúde. Um estudo 17 avaliou o consumo de álcool em 474 universitários em um campus universitário da área de ciências biológicas e da saúde e encontrou uma prevalência de 71,5% para o uso ou consumo regular de bebidas alcoólicas entre os estudantes, independentemente da quantidade. Ao avaliar o binge drinking, que indica o uso excessivo episódico do álcool, os autores encontraram que, apenas o sexo masculino e a falta de vínculo religioso foram variáveis estatisticamente associadas à prática do consumo de risco de bebidas alcoólicas.

Por outro lado, um estudo nacional com 12.544 estudantes universitários demonstrou que cerca de um terço dos estudantes universitários avaliados relataram o uso simultâneo do alcool com outras drogas ilícitas, e que este comportamento nos 30 dias que antecederam a coleta dos dados foi similar entre os gêneros.6 Entretanto, as intervençoes para reduzir o consumo de álcool por parte dos estudantes universitários, embora eficazes, geralmente produzem apenas pequenos efeitos sobre a mudança de comportamento.18 Entender a interaçao única entre pessoa e ambiente é fundamental para projetar os esforços de prevençao e intervençao futuros.19

Em relaçao ao tabaco, trata-se da segunda droga lícita mais utilizada pela populaçao brasileira em geral, perdendo apenas para o álcool.20 Considerando-se a populaçao universitária, um estudo realizado com 400 universitários americanos demonstrou que metade dos estudantes fumantes eram da área da saúde.21 Por outro lado, em um estudo nacional no qual foram avaliados 450 alunos estratificados por área foi observado que a maioria dos universitários nao era tabagista, que o consumo de álcool ocorria em mais da metade da populaçao estudada e que os resultados foram semelhantes entre as áreas avaliadas.22 Dados epidemiológicos recentes demonstram que, apesar de ainda alto, o índice de jovens brasileiros fumantes reduziu significativamente nos últimos anos, possivelmente pelas açoes visando à promoçao e a intervençao quanto ao uso do tabaco.23

Finalmente, nos veteranos da área da saúde também foram observados piores escores no domínio comportamento. Tal achado pode estar relacionado ao prórpio uso do álcool, do abaco e à sobrecarga de atividades acadêmicas no final do curso, o que geralmente piora a qualidade do sono destes indivíduos e aumenta o nível de estresse. Impulsividade e sensaçao de urgência têm sido associados com maior envolvimento com álcool entre os jovens adultos, bem como a capacidade de planejar antecipadamente e antecipar as conseqüências de seus comportamentos é um fator protetor contra beber exageradamente entre estudantes que tem uma qualidade de sono adequada.24 Um estudo observacional com 440 universitários demonstrou que a qualidade do sono em vez da quantidade de sono pode ser um grande problema de saúde para os adultos jovens. Pode gerar distúrbios de comportamento e devem ser prevenidos através de programas de intervençao voltados para a depressao, para o manejo do estresse e para padroes de sono saudáveis.25

O presente estudo demonstrou também que, entre os cursos, nao houve diferença em relaçao à pontuaçao geral no QEVF. Todavia, no domínio comportamento foram observadas algumas diferenças. O curso de enfermagem apresentou hábitos de comportamento piores do que o curso de fisioterapia e de sistemas de informaçao, bem como os alunos do curso de administraçao em relaçao ao curso de sistemas de informaçao. Estudantes de graduaçao em enfermagem experimentam estresse e ansiedade significativos, o que pode inibir a aprendizagem e aumentar os atritos interpessoais.26,27 Entretanto, nao foram encontrados dados semelhantes em relaçao aos estudantes do curso de administraçao. O comportamento apressado e hostil geralmente é resultado da falta de organizaçao das tarefas diárias, do acúmulo de atividades que essas situaçoes geram e de qualidade de sono inadequado.28 O acúmulo de exigências que a vida universitária acarreta associada às demandas pessoais e contextuais podem ser enfrentadas de diferentes formas por cada indivíduo. Em alguns, causa uma sobrecarga que pode resultar em falhas de enfrentamento, induçao a comportamentos inadequados, ou ao desenvolvimento de doenças e problemas emocionais.29

 

CONCLUSAO

O estilo de vida geral nao foi influenciado pela área, pelo curso e pelo período de graduaçao dos universitários avaliados. Entretanto, quando o estilo de vida foi desmembrado por domínios, o estilo de vida relacionado ao comportamento e ao uso de cigarro, drogas e álcool, se apresentou pior nos alunos veteranos no grupo área da saúde.

Tal achado necessita de ampla reflexao, uma vez que o estilo de vida adotado pelos universitários da área da saúde é particularmente relevante pois, ao finalizarem seus estudos acadêmicos, tais indivíduos serao aqueles que deverao aconselhar os seus clientes a adotarem hábitos de vida saudáveis. Desta forma, apesar da grande maioria da populaçao estudada ter sido classificada como possuidora de um estilo de vida "muito bom", é importante que atividades de promoçao da saúde sobre essa temática sejam desenvolvidas. Tais açoes devem ser fundamentadas em dados reais e direcionadas principalmente àqueles para os quais os resultados encontrados indicam a necessidade de mudança no estilo de vida.

 

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