RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 28 e-1928 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20180070

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Artigo Original

Risco Osteomuscular Relacionado ao Trabalho Doméstico

Musculoskeletal Risck Related to Housework

Patricia Domingos1; Bernardino Geraldo Alves Souto2

1. Fisioterapeuta. Mestre em Gestao da Clínica pela Universidade Federal de Sao Carlos - UFSCar - Sao Carlos - SP - Brasil. (Fisioterapeuta domiciliar e Fisioterapeuta no Centro Estético Corporalli Sao Carlos Ltda Me - Sao Carlos - SP - Brasil)
2. Médico. Mestre em Medicina Tropical e Doutor em Medicina/ Ciência da Saúde pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG - Belo Horizonte - MG - Brasil (Médico e Docente no Departamento de Medicina da Universidade Federalde Sao Carlos - UFSCar - Sao Carlos - SP - Brasil)

Endereço para correspondência

Patricia Domingos
Email: patricia.domingos.fisio@gmail.com

Recebido em: 24/08/2016
Aprovado em: 10/04/2018

Instituiçao: Universidade Federal de Sao Carlos

Resumo

As Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho têm sido discutidas há anos no Brasil, mas, ainda sao causas de problemas de saúde ao longo da vida e do cotidiano de muitos trabalhadores. De acordo com a literatura, os profissionais do lar nao têm acesso a medidas de segurança adequadas dentro do seu ambiente de trabalho e faltam fiscalizaçao e controle oficial sobre essa condiçao. Além disso, as doenças ocupacionais relacionadas ao trabalho doméstico continuam negligenciadas. Com o objetivo de identificar fatores de risco para o desenvolvimento dessas doenças, observaram-se atividades cotidianas de uma trabalhadora doméstica durante um dia completo de sua jornada de trabalho. Os riscos mais comuns constituíram-se por posturas inadequadas, repetitividade de movimentos com flexao da coluna, tempo prolongado em posiçao ortostática, má organizaçao das atividades e do ambiente de trabalho e falta de orientaçao adequada à trabalhadora sobre tais problemas. Concluiu-se pela necessidade da criaçao e da aplicaçao rotineira de protocolos e diretrizes padronizados para minimizar a ocorrência de doenças osteomusculares relacionas ao trabalho doméstico e o risco de acidentes, bem como estabelecer práticas assistenciais e políticas sociais que oportunizem qualificar a condiçao física, mental e trabalhista de quem vive e se ocupa como empregada do lar.

Palavras-chave: Doença osteomuscular relacionada ao trabalho, Trabalho doméstico, Saúde e segurança no trabalho doméstico.

 

INTRODUÇAO

Doença osteomuscular relacionada ao trabalho (DORT) diz respeito a um grupo de afecçoes neuromiotendíneas decorrentes de lesoes ou de disfunçoes induzidas por atividades laborais. Segundo o Ministério da Saúde, as DORTs se manifestam por uma dor crônica acompanhada ou nao por alteraçoes objetivas que podem afetar músculos, tendoes e nervos periféricos, principalmente em regioes como pescoço, cintura escapular, membros inferiores e coluna.1 Além de dor, podem produzir parestesias ou sensaçao de peso ou fadiga.2

Por sua natureza e sintomatologia, as DORT podem também, desencadear um estado de estresse capaz de induzir tensoes musculares que pioram ainda mais as dores ou a dificuldade funcional.3

Esse grupo específico de problemas passou a ser reconhecido no Brasil há cerca de 30 anos, especialmente a partir de respectivos achados clínicos em bancários que trabalhavam como digitadores. Posteriormente, passou a ser descrito também em operadores de caixa de supermercado, trabalhadores em linhas de montagem industrial, embaladores, entre outros. Atualmente está entre as mais frequentes causas de doenças relacionadas ao trabalho notificadas ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).4

Um problema que surge nesse ambiente é o fato de que significativa parcela de profissionais de saúde nao está suficientemente atenta às DORTs no âmbito do cuidado individual e nao se informam adequadamente sobre o ambiente e as condiçoes de trabalho da pessoa que atendem. Isso favorece a ocorrência de subdiagnóstico, subnotificaçao, tratamento pouco eficaz e negligência preventiva.5,6

Como se trata de uma afecçao crônica frequentemente manifestada por sintomas subjetivos sem identificaçao de correspondente lesao orgânica, muitos dos trabalhadores acometidos por DORT perambulam sem sucesso pelos serviços de saúde em busca de melhora para seus sintomas e retornam às mesmas condiçoes laborais geradoras do seu problema. Assim, experimentam piora clínica progressiva, perdas socioeconômicas por reduçao da capacidade de trabalho e conflitos de relacionamento, tornando-se estigmatizados. Nessa condiçao, perdem autoestima, tornam-se inseguros e sentem-se frustrados e incapazes. Ou seja, passam a sofrer emocionalmente também.7,8

Ainda sobre as DORTs e suas repercussoes, existem vários estudos relacionados a diversos ramos ocupacionais específicos; porém, muito pouco em relaçao ao trabalho doméstico. Além disso, é provável que a subnotificaçao epidemiológica sobre a saúde de trabalhadores do lar seja significativamente maior do que o que acontece em relaçao a outras categorias, uma vez que grande parte de quem trabalha no ramo doméstico atua na informalidade.9

Por outro lado, o trabalho doméstico ainda é uma atividade predominantemente exercida por mulheres. Seja como profissional que desse ramo aufere rendimentos; seja como aquela que, ainda que trabalhe em outro ramo, assume a maior parte ou quase todas as tarefas de cuidado da sua própria casa.10

Por atuarem, em grande parte na informalidade, como já dito, nao têm seguridade social nem proteçao à saúde no ambiente de trabalho.11

No entanto, sao profissionais sob alto risco ocupacional para o desenvolvimento de problemas de saúde, especialmente agravos do sistema musculoesquelético. O trabalho doméstico envolve grande esforço físico e utiliza diversos equipamentos que implicam em posturas e manejos que podem ter várias consequências sobre o sistema osteomuscular.12

Além disso, é maior a frequência de transtornos do humor, dificuldade de concentraçao e manifestaçoes psicossomáticas em trabalhadores domésticos do que em outras categorias ocupacionais. Da mesma forma, acidente nao fatal no ambiente de trabalho é 7,3% mais frequente entre trabalhadores do lar.12 Os mais citados sao os acidentes por quedas, as torçoes de membros inferiores, os cortes na pele e as queimaduras.11

Nesses trabalhadores, também sao mais comuns problemas relacionados à sobrecarga de trabalho, à falta de horário fixo para o encerramento da jornada diária e à ausência de tempo para descansar ou se alimentar adequadamente. Certamente que essa situaçao tem fundamentaçao histórica na origem do trabalho doméstico como atividade escrava, de modo que a ocupaçao de profissional do lar parece manter, ainda, alguma identidade original que repercute no tratamento que é dado aos respectivos trabalhadores do ramo.6

A propósito, a principal ferramenta de trabalho de quem atua no ramo da limpeza doméstica é o próprio corpo que, por assim ser, desgasta-se pelo uso como qualquer outra ferramenta.13 Portanto, é comum trabalhadores do lar queixarem-se de dores lombares ou nas pernas e de inchaço nos membros inferiores.11

Somando-se ao que já foi exposto o fato de que 22% dos usuários do Sistema Unico de Saúde (SUS) sao empregadas domésticas, torna-se relevante a preocupaçao com a ocorrência de DORT nessa categoria de trabalhadores.9

Tendo em vista, pois, a importância biomédica e social das DORTs em trabalhadores do lar e a vigente negligência em relaçao a esse problema, optou-se por observar a atividade laboral de uma empregada doméstica durante uma jornada diária completa de trabalho, com o fim de descrever fatores de risco para o desenvolvimento de DORT nesse tipo de ocupaçao e propor disparadores para uma reflexao sobre o assunto.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Por meio de um estudo de caso aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa com Seres Humanos e consentido livremente pelos sujeitos (a patroa dona da casa e a empregada), observou-se, filmou-se e fotografou-se uma trabalhadora generalista do lar em seu ambiente e em sua condiçao natural de trabalho durante a jornada laboral completa de um dia. Essa trabalhadora era legalmente registrada como empregada doméstica.

Em seguida foi aplicado o Diagrama de Corlett e Manenica com o objetivo de levantar as queixas de desconforto físico manifestadas pela empregada. Esse diagrama é composto por um desenho do corpo humano visto por trás, dividido em segmentos numerados que indicam o pescoço, a regiao cervical, dorso superior, dorso médio, dorso inferior, bacia, ombros, braços, cotovelos, antebraços, maos, coxas e pernas.10

As áreas dolorosas sao marcadas no Diagrama de acordo com o nome e número correspondente. Para cada regiao corporal destacada no desenho existe uma graduaçao que varia de 1 e 5 que indica, respectivamente, ausência de dor ou desconforto até dor ou desconforto intoleráveis no segmento considerado. A própria pessoa que sente o desconforto é quem assinala a regiao dolorosa no desenho e a classifica de acordo com a intensidade com que percebe o sintoma.10

Os dados foram organizados para análise na mesma sequência cronológica em que foram coletados; isto é, na mesma sequência em que fluiu a jornada laboral observada, a qual contemplou atividades de organizaçao geral da casa, limpeza do chao, limpeza da cozinha e serviços de lavanderia. O Diagrama de Corlett e Manenica, preenchido pela própria trabalhadora observada, foi o último dado incorporado na análise.

A descriçao dos dados foi feita sob olhar crítico fundamentado nos referenciais da Fisioterapia Clínica e Preventiva apresentados por Couto e Iida,6,10 a partir do qual interpretou-se cada item identificado como risco para o desenvolvimento de DORT à luz da literatura nas áreas da Ergonomia, da Biomecânica, da Saúde do Trabalhador e da Fisioterapia Preventiva.

 

RESULTADOS

A organizaçao geral da casa consistiu em guardar brinquedos, roupas e sapatos; recolher o lixo; arrumar as camas; arrumar e limpar guarda-roupas e espelhos (figura 1). Várias dessas tarefas foram executadas simultaneamente. Todas foram realizadas em pé, sem pausas, com o uso repetitivo da coluna, dos joelhos e dos tornozelos em flexao ou torçao.

 


Figura 1. Organizaçao Geral da Casa.

 

Para limpar o chao foi preciso varrer, esfregar e secar pisos. Essa atividade exigiu que a trabalhadora se movimentasse continuamente com a coluna em torçao ante-fletida devido aos cabos curtos dos rodos e vassouras (figura 2) e carregasse baldes pesados mediante excessivo esforço físico e postural manifestado por desequilíbrio da marcha, sobrecarga em alavanca sobre os membros superiores e sobre a coluna, bem como limitaçao ventilatória por contraçao acentuada da musculatura torácica com o fim de sustentar peso nos braços. Além disso, os baldes tinham alças instáveis que exigiam grande esforço flexor dos dedos e do punho para segurá-las enquanto transportava a água e a trabalhadora usava um chinelo de dedos que nao garantia segurança ou estabilidade para a marcha, aumentando a necessidade de esforço sobre os tornozelos e os pés.

 


Figura 2. Limpeza do Chao.

 

Para colocar as roupas na máquina de lavar, a trabalhadora se abaixava e se levantava por diversas vezes subsequencialmente por meio de movimentos repetitivos de ante-flexao e torçao da coluna com algum peso nos braços e dedos das maos fletidos contrarresistência ao retornar à posiçao de pé (figura 3), o que poderia ser minimizado colocando-se o balde em posiçao acima do chao (sobre um banco, por exemplo).

 


Figura 3. Serviços de Lavanderia.

 

Para colocar as roupas na máquina de lavar, a trabalhadora se abaixava e se levantava por diversas vezes subsequencialmente por meio de movimentos repetitivos de ante-flexao e torçao da coluna com algum peso nos braços e dedos das maos fletidos contrarresistência ao retornar à posiçao de pé (FIGURA 3), o que poderia ser minimizado colocando-se o balde em posiçao acima do chao (sobre um banco, por exemplo).

Quanto ao trabalho de passar roupas, algumas vezes foi feito usando-se uma cama como se fosse mesa de passar. Como a cama era baixa, a trabalhadora permaneceu com a coluna sustentada em flexao por cerca de meia hora enquanto fazia esse serviço. O uso correto de uma mesa de passar, certamente minimizaria essa sobrecarga.

A limpeza da cozinha demandou atividades de lavar, secar e guardar louças. Observou-se que os utensílios mais utilizados na cozinha, como talheres, pratos e copos eram guardados em locais mais baixos dos armários, exigindo repetidos movimentos de flexo-extensao da coluna (figura 4).

 


Figura 4. Limpeza da Cozinha.

 

DISCUSSAO

Os achados descritos permitiram destacar os seguintes fatores de risco para DORT no trabalho doméstico: movimentaçao muscular dinâmica contínua nos membros sob sobrecarga; movimentos repetitivos ou contínuos, alguns sob sobrecarga, em ante-flexao e torçao da coluna; manuseio incorreto de cargas com exigência de esforço ou postura viciosa da coluna, joelhos e tornozelos; posturas e ferramentas impróprias com risco de acidentes e com sobrecarga miotendínea difusa; ausência de percepçao consciente da trabalhadora sobre a importância de se minimizarem situaçoes de risco ocupacional.

A respeito de cada um desses fatores, a movimentaçao muscular dinâmica faz com que os músculos se contraiam e se relaxem diversas vezes, agindo como uma bomba sanguínea, onde a contraçao expulsa o sangue com resíduos metabólicos e o relaxamento permite a reposiçao de sangue renovado com nutrientes e oxigênio. Entretanto, à medida que a musculatura se contrai repetidas vezes subsequentes por muito tempo, seu consumo metabólico acumulado ultrapassa a reposiçao de modo que a capacidade funcional do músculo diminui por exaustao metabólica, a qual pode se manifestar por meio de sintomas de fraqueza, fadiga, dor ou desconforto muscular subjetivo10.

A trabalhadora observada, enquanto organizava a casa, movimentou-se por várias horas contínuas e sem intervalos de repouso, mobilizando diversos grupos mioarticulares simultaneamente ou alternadamente, em atividades que exigiam a alternância de posturas, porém o tempo todo em pé. Nesse caso, ainda que em uma atividade dinâmica, a postura em pé determina uma sobrecarga estática sobre os músculos que pode contribuir para a ocorrência de dores nos membros inferiores. De fato, essa foi uma queixa apresentada pela pessoa observada, conforme descrito pelo Diagrama de Corlett e Manenica exposto na figura 5.

 


Figura 5. Diagrama de Corlett e Manenica Preenchido pela Trabalhadora Doméstica do Estudo.

 

Além disso, a postura em pé dificulta o retorno venoso e, consequentemente, eleva a pressao hidrostática sanguínea nas veias dos membros inferiores, gerando acúmulo de líquidos com inchaços e dores nessa regiao.14

Quanto aos movimentos repetitivos ou contínuos, alguns sob sobrecarga, em ante-flexao e torçao da coluna, estes podem estar relacionados à queixa da trabalhadora de dores lombares conforme descrito por ela por intermédio do Diagrama de Corlett e Manenica.

A explicaçao para isso pode vir do fato de que a coluna vertebral humana é um sistema osteoarticular segmentado e complexo que tem funçoes de sustentaçao, equilíbrio, postura e movimento. É formada por 33 vértebras separadas entre si pelos discos intervertebrais. Vinte e quatro sao móveis de modo a possibilitar movimentos de rotaçao, inclinaçao lateral, flexao e extensao.15. Contudo, sujeita-se à degeneraçao anatômico-funcional induzida ou agravada por sobrecarga dinâmica ou postural, contraturas musculares e traumas.16

Tais sobrecargas costumam desencadear dores crônicas em regiao cervical, dorsal ou lombar de origem mecânica devido ao uso excessivo ou em sobrecarga de suas estruturas. Esse agravo é conhecido como Distúrbio Relacionado a Traumas Cumulativos ou Síndrome do Estresse Repetitivo.17,8

A constante flexao ou torçao da coluna sob sobrecarga, exigida pelo trabalho doméstico, tem o efeito de mudar o centro de gravidade corporal durante a atividade laboral que, sustentado por tempo prolongado, leva a um desgaste suprafisiológico dos discos intervertebrais. Ao mesmo tempo, esse vício postural-cinético sobrecarrega funcionalmente estruturas miotendíneas paravertebrais de modo que a musculatura eretora da coluna passa a sustentar o peso do tronco e os ligamentos posteriores ficam distendidos, acarretando quadros álgicos na regiao dorso-lombar.18

A esse respeito, em 1997 Cimino já comentava sobre atividades laborais exigentes de posturas ou movimentos antiergonômicos como causa ou como fator de piora de afecçoes da coluna.18

No caso observado, além da excessiva frequência com que a trabalhadora flexionava e estendia a coluna durante suas atividades laborais, em alguns momentos esses movimentos foram associados ao levantamento de peso fazendo com que a coluna fosse usada como alavanca, após o que ela referia cansaço e desconforto lombares.

A carga levantada a uma distância do corpo exige uma força muscular maior do que a que seria necessária para erguê-la verticalmente, aumentando significativamente a pressao sobre o disco intervertebral, gerando maior tensao sobre a coluna e maior esforço distensivo sobre a musculatura paravertebral.19 O levantamento de cargas deve ser realizado sempre com a coluna na posiçao vertical, usando a musculatura das pernas que sao mais resistentes. A coluna é capaz de sustentar forças de direçao axial ou vertical, mas é extremamente frágil a forças que atuam perpendicularmente ao seu eixo longitudinal.20

Esse aspecto fisiológico pode ser explicado pelo fato do disco intervertebral ser constituído por anel externo espesso, formado por cartilagem fibrosa, denominado anel fibroso, e núcleo pulposo constituído por material gelatinoso central. As fibras colágenas no anel formam ângulos de aproximadamente 30º umas com as outras e sao fundamentais na mecânica do disco. A depender da carga aplicada aos anéis, poderá haver desorganizaçao dessa sua microestrutura colágena. Os núcleos de discos jovens e saudáveis sao constituídos por aproximadamente 90% de água e o restante por colágenos, proteoglicanos e íons osmoticamente ativos. Os altos conteúdos hídricos dos núcleos os protegem contra compressoes.

Mecanicamente, os anéis atuam como molas que unem os corpos vertebrais aos núcleos. Durante a flexao e a extensao da coluna, os corpos vertebrais comprimem um lado do anel intervertebral e distendem simultaneamente o lado oposto.21 Em níveis fisiológicos, esse movimento colabora para o adequado suprimento sanguíneo do disco e determina a troca hídrica transtissular necessária à sua adaptaçao a pressoes sobre a coluna. Essa adaptaçao é o que faz com que o disco intervertebral atue como amortecedor das cargas aplicadas axialmente sobre a coluna.

Assim, quando um disco é comprimido, ele se adapta perdendo água e absorvendo sódio e potássio até que sua concentraçao eletrolítica interna seja suficiente para evitar qualquer perda adicional de água. Quando esse equilíbrio osmótico é alcançado, a pressao interna do disco torna-se igual à pressao externa, o que corresponde ao limite adaptativo do disco. Uma sobrecarga contínua por um período de várias horas resulta em reduçao na perfusao sanguínea do disco e uma perda adicional do líquido intradiscal para além de sua capacidade adaptativa, podendo levar a degeneraçoes ou deslocamentos discais que, em última instância, podem provocar uma protrusao do disco com compressao neurológica e respectivas repercussoes clínicas e funcionais.21,22

Voltando à queixa de desconforto lombar apresentada pela trabalhadora observada, tem-se que esse desconforto postural por si só já é um indicador de uso antiergonômico das estruturas motoras dessa regiao do corpo. Associado a movimentos repetitivos e distensores que empregam força excessiva, favorece a ultrapassagem da capacidade anátomo-funcional tissular, podendo provocar lesoes nas estruturas musculoesqueléticas e osteoarticulares envolvidas no funcionamento da coluna.23

Nesse caso, a flexao do tronco associada ao levantamento de peso praticados em funçao da atividade laboral pode ser uma causa importante de constrangimentos lombares e lesoes sintomáticas e funcionalmente limitantes na coluna vertebral e em suas conexoes. A propósito, essa é das causas mais comuns de afastamentos recorrentes do trabalho.23

Nao só o manuseio incorreto de cargas pode prejudicar as estruturas da coluna, como também a utilizaçao de ferramentas inadequadas, visto que elas podem ocasionar a manutençao de posturas antiergonômicas conforme foi o caso observado.

Para a manutençao da postura e de esforços em flexao anterior da coluna, os músculos e ligamentos dorso-lombares precisam manter-se em contraçao contínua, provocando aumento de pressao sobre os discos intervertebrais e tensao sobre os ligamentos paravertebrais, com consequente desencadeamento de dores no pescoço e nas costas.24

Ergonomicamente é ideal que os cabos das vassouras e dos rodos estejam na altura da linha dos ombros de quem irá utilizá-los para que as maos possam segurá-los estando numa altura acima da linha dos cotovelos. Essa postura permite manter a coluna ereta, evitando sobrecarga às suas estruturas.25

Já com relaçao à tarefa de passar roupas, a mesma exige uma postura estática dos membros inferiores e da coluna, com movimentaçao de aduçao-abduçao repetitiva dos ombros e flexo-extensao dos dedos das maos. Para proteger a coluna contra uma postura em flexao estática e consequente sobrecarga miotendínea paravertebral, é importante que a altura da bancada de passar seja ajustada de acordo com a altura da trabalhadora, devendo situar-se 18 centímetros abaixo do cotovelo flexionado a 90º.26 Ao passar as roupas sobre uma cama muito baixa, a trabalhadora observada expôs-se ao desenvolvimento de novos importantes agravos sobre sua coluna, além daqueles já vistos em outras atividades que ela desempenhou.

A respeito de tudo isso, encontra-se na literatura que as principais causas de doenças relacionadas ao trabalho estao associadas à inadequaçao da atividade laboral ao corpo humano que envolvem, principalmente, questoes ligadas ao ritmo das atividades, a movimentos repetitivos, à sobrecarga muscular, à ausência de pausas e ao uso de mobiliários e ferramentas inadequados.26,27 Tudo isso esteve presente no trabalho da empregada doméstica observada por este estudo.

Nesse caso, pausas intermitentes e alternância sistemática entre as atividades sao importantes para alívio de sobrecargas contínuas sobre grupos musculares específicos, ao mesmo tempo que também trazem benefício à atividade mental de gestao da própria atividade.28,29

A esse respeito, é sabido que as pausas no trabalho permitem alívio para a musculatura mais reivindicada pela atividade laboral e descanso mental por proporcionarem momentos de menor concentraçao; portanto, sao indispensáveis para evitar a sofrimento musculoesquelético e fadiga mental.28,29

Por outro lado, tao significativo quanto lidar com a postura e os movimentos, é a adequaçao das vestimentas e das ferramentas de trabalho à tarefa executada e à estrutura funcional do corpo do trabalhador, no sentido de evitarem-se acidentes e DORTs.

Nesse sentido, a Organizaçao Mundial de Saúde (OMS) alerta sobre a importância de se prevenirem desordens musculoesqueléticas por meio de uma adequada gestao do ambiente de trabalho, do ajuste correto dos equipamentos e do seu uso, e da organizaçao dos instrumentos e do método de trabalho. Inclui nesse alerta o diagnóstico e a abordagem precisa dos problemas ambientais, laborais e clínicos relacionado às DORTs como uma estratégia em benefício do trabalhador e do próprio resultado do trabalho.30

Outro aspecto notado, nao ergonômico, mas com repercussao sobre essa esfera, foi a falta de planejamento e organizaçao do trabalho desenvolvido pela empregada doméstica deste estudo. As tarefas eram realizadas sem nenhum critério organizacional, sem nenhuma ordem e o tempo todo mediante improvisaçoes. Isso favoreceu a que ela realizasse movimentos quantitativa e qualitativamente além do necessário e sem momentos de pausas ou alternâncias posturais compensatórias. Também fora do âmbito ergonômico, mas, relacionado à saúde ocupacional, verificaram-se várias situaçoes de risco para acidentes envolvendo queimaduras, quedas ou distensoes.

Nessa direçao, é importante que os profissionais de saúde atentem-se para a necessidade de detectar e cuidar de situaçoes de origem ocupacional desencadeadoras de agravos à saúde das pessoas.32 Entre esses profissionais, por meio de açoes assistenciais diretas ou de atividades de matriciamento o fisioterapeuta consegue ajudar utilizando técnicas corretivas e de orientaçao postural durante atividades laborais, bem como provendo treinamento sobre manuseio de cargas e oportunidades de educaçao permanente sobre prevençao e tratamento de DORT.30

No caso da trabalhadora observada, foi bem notada a necessidade de oferta de informaçao e orientaçao sobre sua condiçao laboral insalubre e sobre possibilidades alternativas a essa condiçao ligadas ao uso do próprio corpo como ferramenta, sobre gestao adequada do processo e do ambiente de trabalho, e sobre adequaçao e uso correto de equipamentos.

 

CONSIDERAÇOES FINAIS.

Este estudo teve como foco de abordagem as DORTs em trabalhadores do lar, mas, possibilitou ampliar um pouco na direçao dos acidentes ocupacionais e refletir sobre questoes de ordem sociais ligadas à profissao de empregada doméstica. Ultrapassou o objetivo e a possibilidade oferecida pela metodologia, abordando também acidentes biológicos a que trabalhadores do lar estao potencialmente expostos.

Com relaçao às DORTs, destacaram-se como fatores de risco no trabalho doméstico observado a repetitividade dos movimentos de ante-flexao e torçao da coluna e o trabalho dinâmico prolongado em ortostatismo dos membros inferiores. Esses fatores puderam ser relacionados a respectivos sintomas de dor e desconforto manifestados pela trabalhadora.

Em seguida, chamou à atençao o levantamento de peso de modo antiergonômico, o uso inadequado de ferramentas e equipamentos que também eram inadequados para a tarefa em que foram utilizados implicando em posturas e sobrecargas mioartrotendíneas suprafisiológicas, ausência de planejamento das atividades e desorganizaçao do ambiente agregando risco de acidentes, nao uso de equipamentos de proteçao ou vestimentas adequadas e falta de percepçao da trabalhadora sobre todos esses problemas impedindo que a mesma aplicasse medidas protetoras à sua própria saúde, bem-estar e produtividade.

Além dessas questoes objetivas e apesar da limitaçao deste estudo em oportunizar generalizaçoes devido à natureza epistemológica do método empregado, foi possível refletir sobre o trabalho doméstico como uma atividade desprovida de qualquer suporte técnico ou científico para sua execuçao, como se dependesse apenas de um conjunto de açoes instintivas destinadas a um resultado em que o processo para alcançá-lo nao precisa ser considerado.

Visto desta forma, o corpo do trabalhador doméstico passa a ser utilizado como qualquer outra ferramenta nao humana e, portanto, exposto ao mesmo tipo e processo de desgaste; como um equipamento que nao precisa de manutençao e que se consome com o tempo pelo uso.

Contudo, sao trabalhadores humanos que por assim serem negligenciados, sofrem física e mentalmente sem que isso seja reconhecido, mesmo onerando o Sistema de Saúde e o Sistema Previdenciário com seus problemas evitáveis por medidas relativamente simples propostas pela ergonomia, pela fisioterapia, pela medicina do trabalho e por diversas outras áreas do conhecimento aplicado.

Sao transtornos do humor e as DORTs, manifestados por ansiedade, tristeza, frustraçao, bem como por dores cotidianas, lesoes, disfunçoes e incapacidades mioarticulares derivados da alienaçao mental, da falta de informaçao quanto a aplicaçao de movimentos, de posturas corporais adequadas e do uso correto de ferramentas e outros equipamentos, fatores esses que se encontram ausentes nas atividades laborais de uma trabalhadora doméstica.

Nesse ambiente, é preciso o estabelecimento de medidas político-sociais e açoes técnicas que oportunizem cuidar adequadamente do trabalho e do trabalhador doméstico, entre as quais é possível propor programas de fiscalizaçao e de educaçao permanente de donas de casa (patroas) e suas empregadas do lar a respeito da ocorrência de DORT e outros agravos ocupacionais e a criaçao e padronizaçao de protocolos e diretrizes para a gestao e a execuçao de atividades laborais domésticas com foco na saúde do trabalhador.

Em termos de cuidado individual é importante que trabalhadores domésticos desempenhem suas atividades sob orientaçao adequada quanto aos movimentos, à postura, ao uso de ferramentas, vestimentas e equipamentos, bem como quanto à segurança no ambiente de trabalho. É necessário que alternem entre as diversas atividades de modo a evitar o uso contínuo e vicioso de um único grupo muscular específico e que tenham intervalos regulares para descanso periódico ao longo da jornada de trabalho. Essas medidas devem objetivar todo o conjunto corporal e mental do trabalhador. Contudo, em se tratando de DORT, é importante enfatizar a necessidade e a importância de se preservar a coluna e os membros inferiores por serem estes os setores mais intensamente sobrecarregados pela atividade laboral doméstica.

Quanto aos profissionais de saúde, é importante que se mantenham atentos aos problemas ocupacionais tao frequentes em trabalhadores domésticos por meio de um cuidado ampliado e integral centrado na pessoa provido por equipe multidisciplinar, da qual devem participar, também, a dona de casa e sua empregada do lar.

 

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