RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 28 e-1933 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20180074

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Artigo de Revisao

Vírus zika - Epidemiologia e diagnóstico laboratorial

Zika virus - Epidemiology and laboratory diagnosis

Antônia Letícia Pesenti e Silva; Silvia Maria Spalding

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Farmácia - Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil

Endereço para correspondência

Antônia Letícia Pesenti e Silva
E-mail: silvia.spalding@ufrgs.br; antoniapesente@gmail.com

Recebido em: 10/09/2017
Aprovado em: 06/06/2018

Instituiçao: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Farmácia - Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil.

Resumo

O vírus Zika (ZIKV) pode ser considerado um patógeno emergente disseminado para a Oceania e a América causando surtos sazonais. No Brasil a infecçao começou a ser registrada em 2015 no Nordeste do país, embora a doença seja autolimitada e manifeste sintomas brandos, ocorreram relatos de complicaçoes neurológicas associadas ao ZIKV em recém-nascidos e em adultos. Essa revisao descreve as características epidemiológicas da infecçao pelo ZIKV no Brasil e no Rio Grande do Sul, e efetua análise dos métodos utilizados no diagnóstico laboratorial da infecçao. As fontes de pesquisa foram artigos científicos em português e em inglês que referiam casos de infecçao por ZIKV, no período de 2007 a 2017, citados nos repositórios digitais PubMed, PubMed Central (PMC) e SciELO, foram utilizados os descritores: Zika, diagnóstico, sorologia e epidemiologia. Apesar do decréscimo nos casos notificados no ano de 2017, o ZIKV continua em circulaçao. O diagnóstico laboratorial utiliza técnicas em métodos moleculares e sorológicas. A reaçao da transcriptase reversa (RT-PCR) é a metodologia com maior especificidade comparada à de enzimaimunoensaio e à de neutralizaçao por reduçao de placas.

Palavras-chave: Zika virus, arbovirus, epidemiologia, reaçao em cadeia da polimerase, sorologia.

 

INTRODUÇAO

O Zika vírus (ZIKV) é um arbovírus emergente que pertence à família Flaviviridae, gênero Flavivirus e tem importância clínica no mundo por reunir patógenos humanos como o vírus da dengue (DENV sorotipos 1 a 4), o vírus da febre amarela (YFV), o vírus do oeste do Nilo (WNV) e o vírus da encefalite japonesa (JEV).1 2 O ZIKV é transmitido por fêmeas de mosquitos Aedes (Stegomyia) spp.,3 4 e recentes evidências sugerem que também possa ser transmitido por Culex quinquefasciatus.5 A infecçao também pode ser transmitida pela forma congênita,6 pelo ato sexual,7 e possivelmente por transfusao sanguínea.8

Estima-se que 80% das infecçoes de ZIKV sao assintomáticas,9 os sintomas mais comuns sao febre, cefaléia, mal-estar, erupçao maculopapular, mialgia e artralgia,10 sendo por vezes confundido com os sintomas de DENV. Apesar de manifestar sintomas leves também ocorrem graves complicaçoes neurológicas como microcefalia em recém-nascidos11 e síndrome de Guillain-Barré em adultos.12 13

O ZIKV inicialmente foi identificado na Africa e da Asia e se difundiu para a Oceania e América causando surtos sazonais. O primeiro surto fora da Africa e Asia ocorreu em 2007 na ilha de Yap (Oceania). DUFFY et al.14 estimaram que três quartos da populaçao da ilha foram infectadas pelo vírus. Antes desse surto, somente 16 casos de doença humana por ZIKV haviam sido documentados no mundo.15 Em 2008, dois cientistas norte-americanos relataram terem sido picados por mosquitos Aedes spp. no Senegal. Quando retornaram aos USA, ambos manifestaram sintomas associados a doença de ZIKV. A esposa de um deles também manifestou os sintomas da doença dias depois dele ter retornado para casa. O casal relatou ter tido relaçoes sexuais naquele período o que sugere que houve infecçao de ZIKV via transmissao sexual.7

Posteriormente, no início de 2014, na Ilha de Páscoa (Chile) houve o primeiro surto de ZIKV.16 No Brasil, até 2015 nao havia relato da infecçao,15 e em fevereiro de 2016 o diretor-geral da World Health Organization (WHO) declarou que os casos relacionados com desordens neurológicas identificados no país constituem emergência de saúde pública de interesse internacional.17

Essa revisao teve como objetivo caracterizar a situaçao epidemiológica de ZIKV no Brasil e no Rio Grande do Sul e descrever os métodos utilizados para o diagnóstico laboratorial da infecçao.

 

MÉTODOS

Foi realizada revisao sistematizada sobre a infecçao por ZIKV, com enfoque na epidemiologia e no diagnóstico laboratorial, de janeiro de 2007 à dezembro de 2017. Foram selecionados artigos nos idiomas português e inglês dos repositórios digitais PubMed, PubMed Central (PMC) e SciELO e utilizados os seguintes descritores: Zika, diagnóstico, sorologia e epidemiologia. As referências bibliográficas citadas nos artigos também foram consultadas para rastrear demais artigos a respeito do tema revisado. As informaçoes foram complementadas com dados específicos sobre a situaçao epidemiológica da doença de ZIKV no Brasil e no Rio Grande do Sul citados em boletins epidemiológicos da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS) e do Centro Estadual de Vigilância em Saúde da Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul (CEVS/SES-RS) nos anos de 2015 à 2017.

 

EPIDEMIOLOGIA NO BRASIL E NO RIO GRANDE SUL

Casos autóctones de ZIKV foram confirmados em 18 estados do Brasil, em 2015, e 2.782 casos suspeitos de microcefalia associados e notificados em 618 municípios e no Rio Grande do Sul nao ocorreu nenhum caso.18 19

No próximo ano foram registrados 215.319 casos suspeitos de infecçao por ZIKV no país, (incidência de 105,3 casos/100 mil habitantes), distribuídos em 2.306 municípios, tendo sido confirmados 130.701 casos (60,7%). A maior incidência ocorreu na regiao centro-oeste com 222 casos/100 mil habitantes. Destacaram-se os Estados do Mato Grosso (671 casos/100 mil habitantes), do Rio de Janeiro (414,2 casos/100 mil habitantes) e da Bahia (340,5 casos/100 mil habitantes) e confirmados oito óbitos por ZIKV.20 No Rio Grande do Sul, em 2016, foram confirmados 85 casos de infecçao por ZIKV, 44 (10%) autóctones em Frederico Westphalen, Santa Maria, Ivoti, Rondinha, Novo Hamburgo, Canoas, Porto Alegre, Ijuí, Santo Angelo e Caxias do Sul. Desses casos, quatro ocorreram em gestantes, duas infectadas no primeiro trimestre. Das quatro gestaçoes, uma delas foi interrompida e as outras chegaram à termo sem que os recém-nascidos apresentarem alteraçoes no sistema nervoso central.21

No país, em 2016, foram confirmados 2.289 casos de microcefalia e/ou alteraçoes do sistema nervoso central sugestivo de infecçao congênita. No Rio Grande do Sul foram confirmados 18 casos de infecçao congênita, sendo dois casos por ZIKV.21

Nos primeiros oito meses de 2017 foram registrados 15.518 casos prováveis de infecçao pelo ZIKV no Brasil, destes 6.587 (42,4%) foram confirmados. Em relaçao às gestantes foram registrados 2.130 casos prováveis, sendo 708 confirmados. Nenhum óbito por ZIKV foi confirmado laboratorialmente.22 No Rio Grande do Sul nao foi encontrada circulaçao autóctone de ZIKV e os dois casos reportados ocorridos foram importados.23

 

DIAGNOSTICO LABORATORIAL

A confirmaçao do diagnóstico por ZIKV é baseada na detecçao do RNAm do vírus pelaT-PCR em fluídos biológicos24, como soro, urina, sêmen, e pela detecçao indireta de anticorpos IgM e IgG anti-ZIKV no soro. O diagnóstico de ZIKV em amostras de urina pode ser bastante útil, por ter um longo período de detecçao e apresentar maior carga viral comparada ao soro. Além disso, a urina possui a vantagem de ser um material de fácil obtençao.25 26

A RT-PCR convencional e a quantitativo sao técnicas rápidas, com alta sensibilidade e especificidade, porém a detecçao do ZIKV é limitada ao estreito período no início da infecçao. A RT-PCR quantitativa apresenta maior custo comparada à convencional, porém possui muitas vantagens como a baixa taxa de contaminaçao, diminuiçao de resultados falso-positivos, alta sensibilidade e especificidade, fácil padronizaçao e possibilidade de quantificaçao do ácido nucléico viral. Pela elevada especificidade, esse método pode ser utilizado para diagnóstico diferencial de arboviroses em regioes com ocorrência simultânea de ZIKV, DENV e Chikungunya (CHIKV).27 28

Como a duraçao da fase de viremia do ZIKV é curta, os métodos sorológicos cumprem um importante papel no diagnóstico na fase nao-viral, o mais utilizado é o ELISA de captura de IgM. A limitaçao desta metodologia é a reatividade cruzada com outras arboviroses como DENV.28 Isso pode ser desencadeado por infecçoes com outras arboviroses e vacinas,29 e além disso alguns ensaios utilizam somente proteínas estruturais virais (ex: a proteína E do envelope), que sao responsáveis por gerar reatividade cruzada de anticorpos. Uma forma de reduzir a reatividade cruzada na sorologia de IgM, e assim aumentar a especificidade da técnica é incluir proteínas virais nao-estruturais (NS) no ensaio como NS1, NS3 e NS5.30 31

Um grande número de tecnologias vem sendo desenvolvidas para o diagnóstico sorológico de ZIKV baseados nas proteínas E e NS1, podendo se citar ELISA IgM proteína E da InBios (aprovado pelo FDA), ELISA proteína NS1 da EuroImmun (aprovado para uso clínico na Europa), e ELISA IgM proteína NS1 da NovaTec (atualmente com o uso restrito a pesquisa). Recentemente um método multiplex Luminex foi desenvolvido usando proteínas E, NS1 e NS5 e mostrou uma significativa melhoria na especificidade da técnica.31

Nas amostras reagentes para IgM é recomendado efetuar o teste de neutralizaçao por reduçao de placas (PRNT), considerado teste padrao dentro da sorologia de arboviroses. Entretanto, o método PRNT é trabalhoso, de baixo rendimento, com o resultado sendo liberado em mais de uma semana. Sendo assim, é importante o desenvolvimento de um teste PRNT rápido e com maior rendimento, considerando que nao é recomendado para diagnóstico em pacientes com histórico de infecçao com arboviroses e vacinas devido a reatividade cruzada. 32

No Brasil os principais kits laboratoriais de ZIKV registrados e autorizados pela ANVISA33 34 35 sao: o IF mosaico arbovírus® da Euroimmun IgM (registro 81148560014) e IgG (81148560015), Bio Gene PCR® da Quibasa (registro 10269360300), kit molecular ZDC® da Fiocruz (registro 80142170032), testes rápidos IgG/IgM combo® (registro 811285200001) e NS1® (registro 811285200003) da Bahiafarma. Os dois ensaios de sorologia da Euroimmun detectam a presença de anti-ZIKV IgM e IgG pelo método de imunofluorescência indireta, os da Quibasa e da ZDC, o ácido nucléico de ZIKV pela técnica da RT-PCR quantitativa, sendo que o da ZDC também detecta as arboviroses DENV e CHIKV. O teste rápido da Bahiafarma é baseado em imunocromatografia utilizando o soro do paciente. No Rio Grande do Sul, o Laboratório Central do Estado realiza o diagnóstico de Zika através da RT-PCR quantitativa. O período virêmico nao está totalmente estabelecido, a detecçao direta do vírus ocorre até quatro a sete dias após o início dos sintomas, sendo ideal que o material biológico seja examinado até o quarto dia. Os ácidos nucleicos do vírus foram detectados em humanos entre um e onze dias após início dos sintomas e o vírus foi isolado em primata nao-humano até nove dias após inoculaçao experimental.19

 

CONSIDERAÇOES FINAIS

A infecçao por ZIKV é nova no Brasil e em outros países da América. Os sintomas da doença sao inespecíficos podendo ser facilmente confundidos com os de DENV e de CHIKV. Embora quando manifestados os sintomas sejam leves, a vigilância de saúde e o corpo clínico precisam estar atentos para possíveis complicaçoes neurológicas nos pacientes, como a síndrome de Guillain-Barré já relatada no Brasil e na Polinésia Francesa, e também malformaçoes no sistema nervoso central de fetos.

As técnicas moleculares por serem mais específicas do que a sorologia, cumprem um papel importante em regioes onde há coinfecçao com outras arboviroses como a DENV e a CHIKV. A desvantagem da RT-PCR em amostras de soro é a baixa estabilidade do ácido nucléico viral, em comparaçao com amostras de urina cuja estabilidade é maior. Os testes para detecçao do antígeno NS1 do ZIKV (Elisa, imunocromatográfico) sao específicos para essa arbovirose. Portanto, sugere-se que, frente a resultados negativos/nao reagentes em pacientes com suspeita de ZIKV, deve ser considerada, a critério da vigilância epidemiológica, a investigaçao para outros flavivírus cujas infecçoes possam cursar com quadro semelhante ao do ZIKV.

A NS1 é uma proteína conservada do ZIKV, e a detecçao desse antígeno em ensaios de sorologia torna a técnica mais específica e sensível, contribuindo assim para a confiabilidade do resultado sem interferentes de reatividade cruzada. Uma forma de aumentar a especificidade, e diminuir falsos negativos dos ensaios sorológicos é incluir proteínas nao-estruturais (NS), produzidas pelo vírus na fase aguda da doença de ZIKV, como a NS1. Alguns kits sorológicos do mercado já incluem a NS1, inclusive kits disponíveis no Brasil.

 

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