RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 28 e-1935 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20180076

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Artigos de Revisão

Avaliação do Efeito Carcinogênico do Papilomavírus Humano em Cavidade Oral e Orofaringe: Uma Revisão Sistemática

Evaluation The Effect Carcinogenic of Human Papillomavirus In Oral Cavity And Oropharynx: A Sistematic Review

Everton Freitas de Morais1; João Maria de Lima Tinôco2; Gustavo Evaristo de Almeida3; Joyce Uanessa das Neves4; José Endrigo Tinôco Araújo5

1. Cirurgião-Dentista. Graduado em Odontologia. Mestrando em Patologia Oral da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, RN - Brasil. (Graduado em Odontologia)
2. Cirurgião-Dentista. Graduando em Odontologia. Graduando em Odontologia da Universidade Potiguar-UNP. Natal, RN - Brasil. (Cirurgião-Dentista)
3. Cirurgião-Dentista. Graduada em Odontologia. Especialista em Ortodontia pela Universidade Potiguar-UNP. Natal, RN - Brasil. (Cirurgião-Dentista) (Cirurgião-Dentista
4. Cirurgião-Dentista. Graduando em Odontologia. Graduando em Odontologia da Universidade Potiguar-UNP. Natal, RN - Brasil. (Cirurgião-Dentista) (Cirurgiã-Dentista)
5. Cirurgião-Dentista. Mestre em Odontologia. Professor Titular da Universidade Potiguar-UNP. Natal, RN - Brasil. (Professor Titular da Universidade Potiguar)

Endereço para correspondência

Everton Freitas de Morais
E-mail: evertonfreitas2@hotmail.com

Recebido em: 29/07/2016
Aprovado em: 20/01/2017

Instituição: Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, RNBrasil.

Resumo

O carcinoma epidermoide corresponde a 90% das lesões malignas da cavidade oral e orofaringe. Entre os fatores de risco para o câncer de boca pode-se destacar o tabagismo e o etilismo. Além disso, vírus oncogênicos estão sendo relacionados ao desenvolvimento do câncer oral e de orofaringe. Entre estes vírus, destaca-se o papilomavírus humano. Avaliar o efeito carcinogênico do papilomavírus humano em cavidade oral e orofaringe. Uma busca sistemática de artigos científicas publicados entre janeiro de 2000 a maio de 2016 foi executada nas bases de dados PubMed/Medline, Scopus e Science Direct através dos descritores: Câncer Oral e de Orofaringe, Carcinoma Epidermoide, papiloma vírus Humano. Após análise completa das publicações, seis artigos preencheram todos os critérios de inclusão. Em nossa revisão sistemática, o subtipo 16 foi o mais frequentemente localizado em cavidade oral nos pacientes com carcinoma epidermoide em todos os estudos, sendo de acordo com a literatura científico um subtipo de alto risco para o desenvolvimento neoplásico. O papilomavírus humano pode apresentar-se como um fator etiológico para o desenvolvimento do câncer de orofaringe, assim como para um subgrupo de carcinoma epidermoide, essencialmente em casos de infecção pelo subtipo de risco papilomavírus humano 16.

Palavras-chave: Carcinogênese; Carcinoma de Células Escamosas; Papillomaviridae; Orofaringe; Boca.

 

INTRODUÇÃO

O carcinoma epidermoide corresponde a 90% das lesões malignas da cavidade oral e orofaringe.1-3 Entre os fatores de risco para o câncer de boca pode-se destacar o tabagismo e o etilismo. Além disso, vírus oncogênicos estão sendo relacionados ao desenvolvimento do câncer oral e de orofaringe.4-6 Entre estes vírus, destaca-se o papilomavírus humano (HPV).4

Diversos estudos têm demonstrado que a infecção pelo HPV é capaz de intensificar ou alterar a ação carcinogênica do álcool e do tabaco passando a ser considerado um fator de risco para o câncer de cabeça e pescoço.4-7

Esse vírus tem um amplo tropismo por epitélio de mucosa, podendo ser adquirido por transmissão sexual. Pode também ser transmitido, ainda precocemente, durante o nascimento, do trato genital da mãe para a cavidade bucal da criança.6,7

Levando em consideração a importância de uma maior compreensão dos aspectos clínico-patológicos do carcinoma epidermoide, assim como o aprofundamento do embasamento científico correlacionado aos fatores etiológicos e comportamento biológico de tal neoplasia maligna, o objetivo do presente estudo foi realizar uma revisão sistemática de literatura para avaliar o efeito carcinogênico do HPV em carcinoma epidermoide oral e de orofaringe.

Metodologia

Uma busca sistemática de artigos científicos publicados entre janeiro de 2000 a maio de 2016 foi executada nas bases de dados PubMed/Medline, Scopus e Science Direct. Através dos descritores: Câncer Oral e de Orofaringe, carcinoma Epidermoide, Papilomavírus Humano e HPV, assim como seus sinônimos e correspondentes na língua inglesa, em combinações variadas. Foi utilizado nas bases de dados possíveis os operadores booleanos AND, OR, NOT.

 

CRITÉRIOS DE INCLUSÃO

Incluíram-se estudos de coortes prospectivos ou retrospectivos que tiveram como objetivo avaliar a correlação entre o papilomavírus Humano e o carcinoma epidermoide oral e de Orofaringe, publicados em língua inglesa ou portuguesa no período a partir de janeiro de 2000. Utilizou-se ainda, como critério de inclusão, artigos que atingissem pelo menos uma pontuação correspondente a 60% nos itens estabelecidos pela escala Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE).8

Critérios de Exclusão

Entre os critérios de exclusão encontram-se: Trabalhos de revisão, caso clínico, estudo realizado em população fora dos padrões estabelecidos na revisão sistemática, estudos fora dos padrões relacionado ao corte de ano e linguagens pré-estabelecidas.

Análise

Inicialmente, foi realizado uma triagem a partir da análise dos títulos e resumos. Posteriormente, todos os estudos julgados pertinentes ao tema em estudo foram obtidos na íntegra e analisados por completo por três avaliadores de forma individual, enfim, os artigos analisados e selecionados pelos avaliadores após reunião de consenso foram incluídos na sistematização dos dados.

 

RESULTADOS

Entre os estudos selecionados primariamente, 24 demonstraram potencial para participar da revisão sistemática a partir da leitura inicial de títulos e resumos. Entretanto, após análise completa dos estudos, apenas seis preencheram todos os critérios de inclusão.9-14 Entre os estudos selecionados, três foram realizados em países em desenvolvimento9,10,12 e três em países desenvolvidos11,13,14. As metodologias empregadas nos estudos selecionados estão disponíveis na tabela 1.

 

 

Em relação ao perfil dos estudos, as amostras variaram entre 2012 e 167013 participantes, sendo o tamanho da amostra total de 2.205 pacientes9-14. Os estudos selecionados foram publicados entre os anos de 2003 e 2015. Destes, cinco apresentaram análise retrospectiva, apenas o estudo de Elango et al.10 era um estudo caso-controle. Todos os trabalhos selecionados tinham como objetivo principal avaliar a correlação entre a presença do HPV e o Carcinoma Epidermoide Oral e/ou de Orofaringe.

A presença de infecções por HPV variou entre 3,913 a 50%10, sendo o subtipo clínico HPV 16 o de maior acometimento (Tabela 2 e 3)9-14. De acordo com Elango et al.10, o HPV 16 é um dos subtipos de risco para desenvolvimento de carcinoma oral e de orofaringe devido ao seu potencial na desregulação do gene p53.

 

 

 

 

O estadiamento clínico do tumor em pacientes HPV+ foi variável de acordo com os estudos selecionados. No estudo de Lindel et al.14 85% dos casos apresentaram-se em estágio clínico precoce no momento do diagnóstico. Já na análise de Polz et al.11, 60% dos pacientes apresentaram-se em estágios avançados da doença. Dentre os estudos que avaliaram o estadiamento clínico, não houve diferença significativa entre os grupos HPV positivos e negativos. Apenas os estudos de Mosele et al.12 e Herrero et al.13 não avaliaram o estadiamento clínico do tumor.

Em relação a gradação histopatológica, todos os estudos realizaram análise através do modelo de gradação proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS).9-14 Foi apontado que pacientes HPV+ apresentaram análise histopatológica com melhor diferenciação comparado aos pacientes HPV- em diversos estudos.9-12 Apenas na análise de Lindel et al.14 os pacientes HPV+ foram mais frequentemente diagnosticados em estágio avançado pela gradação histopatológica. No estudo de Herrero et al.13 todos os pacientes encontravam-se em estágio moderadamente diferenciado.

Apenas o estudo de Singh et al.9 avaliou as modalidades terapêuticas, sendo a cirurgia isolada o tratamento mais utilizado em pacientes com infecção por HPV (39.1%), seguido pela quimioterapia (30.4%), cirurgia associada a radioterapia (13%), e cirurgia associada a radioterapia e quimioterapia ou radioterapia e quimioterapia em conjunto, ambas as modalidades terapêuticas com 8.7%.

Os estudos de Singh et al.9 e Elango et al.10 realizaram análise de sobrevida. De acordo com Singh et al.9 em 5 anos a sobrevida de pacientes com carcinoma epidermoide Oral portador de HPV foi de 69.6%, inferior ao pacientes HPV negativo (74.4%), entretanto, a diferença não foi estatisticamente significativa. No estudo de Elango et al.10, 80% dos pacientes apresentaram sobrevida em 2 anos de diagnóstico do carcinoma epidermoide.

 

DISCUSSÃO

Em nossa revisão sistemática, o subtipo 16 foi o mais frequentemente localizado em cavidade oral nos pacientes com carcinoma epidermoide em todos os estudos, sendo de acordo com a literatura científico um subtipo de alto risco para o desenvolvimento neoplásico.9,10 Entretanto, houve uma grande variação de acometimento total, sendo 30.4% no estudo de Singh et al. (2015) e 100% dos pacientes no estudo de Mosele et al.12 Diferenças regionais, socioeconômicas e culturais podem influenciar no grau de acometimento de tais infecções na população de estudo. A presença de HPV em cavidade oral nos estudos selecionados pode ser visualizada na tabela 3.

Nos estudos analisados houve um maior acometimento por carcinoma epidermoide em pacientes do sexo masculino. Pode-se enfatizar aqui os fatores de risco, como o álcool e o fumo, que são mais consumidos pelo homem. No estudo de Polz et al.11, houve correlação entre a prevalência do DNA do HPV, tempo de tabagismo (em anos) e etilismo11.

A orofaringe tem sido mais usualmente relacionada à presença do vírus que as outras localizações bucais e áreas vizinhas, com freqüências entre 18 e 45%15,16. No estudo de Polz et al. (2010), uma maior porcentagem de casos de HPV em orofaringe foram evidenciada (46.7%), comparado a pacientes com câncer oral (37.8%), o HPV como fator etiológico para carcinoma epidermoide de orofaringe já está bem estabelecida na literatura. 11,16,17

Os parâmetros de prognóstico, estadiamento clínico, grau de gradação histopatológica e taxa de sobrevida não obtiveram relação estatisticamente significativa correlacionada à presença de HPV em pacientes com carcinoma epidermoide.9-14

Entretanto, estudos apontam um melhor prognóstico de pacientes com carcinoma epidermoide portadores de HPV. Já se pode identificar na literatura, investigações sugerindo que as lesões HPV positivas poderiam responder bem a tratamentos adjuvantes, refletindo um melhor prognóstico de sobrevida para o paciente.17,18

Estudos desenvolvidos até a atualidade não nos permitem definir, com precisão, o papel do HPV na carcinogênese bucal; no entanto, na cérvice uterina, o mesmo já se encontra bem estabelecido.6 O estudo de Polz et al.11 apontou relação entre o HPV e carcinoma de orofaringe, mas não houve relação significante com o câncer de boca. Singh et al.9 mencionam a necessidade de mais estudos na área e estes autores também questionam a dificuldade de meios específicos que possam correlacionar a presença do HPV de alto risco ao câncer de boca, assim como não considera o HPV 16 como um fator etiológico para o carcinoma oral e de orofaringe.

Elango et al.10 em seu estudo de carcinoma epidermoide em língua, apontam que pode haver correlação entre o HPV e a carcinogênese oral. Neste estudo 50% dos pacientes apresentavam-se como portadores de HPV, sendo que em tal grupo houve um melhor prognóstico dos pacientes. Herrero et al.13 mencionam que com o desenvolvimento da vacina anti-HPV, espera-se a diminuição dos casos de câncer em colo de útero, assim como casos de carcinoma oral e de orofaringe.

 

CONCLUSÃO

O HPV pode apresentar-se como um fator etiológico para o desenvolvimento do câncer de orofaringe, assim como para um subgrupo de carcinoma oral, essencialmente em casos de infecção pelo subtipo de risco HPV 16. A presente revisão não aponta diferenças significantes entre as características clinico-patológicas e os fatores prognósticos de pacientes HPV+ e HPV- acometidos por câncer oral e orofaringe.

 

REFERÊNCIAS

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