RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 28 e-1950 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20180040

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Educação Médica

Modelo sintético e de baixo custo para treinamento de hernioplastia inguinal aberta

Synthetic and low cost model for open inguinal hernioplasty training

Carlos Magno Queiroz da Cunha1; Diego Freitas Félix1; Giovanni Troiani Neto1; José Walter Feitosa Gomes2; Francisco Julimar Correia de Menezes3

1. Universidade de Fortaleza (Curso de Medicina da Universidade de Fortaleza). FOrtaleza, CE - Brasil
2. Hospital e Maternidade José Martiniano de Alencar (Cirurgião do AparelhoDigestivo). Fortaleza, CE - Brasil
3. Universidade de Fortaleza (Docente do Curso de Medicina da Universidade de Fortaleza). Fortaleza, CE - Brasil

Endereço para correspondência

Carlos Magno Queiroz da Cunha
E-mail: carlosmagnoqc@gmail.com

Recebido em: 02/07/2017
Aprovado em: 21/12/2017

Instituição: Curso de Medicina da Universidade de Fortaleza. Fortaleza, CE - Brasil.

Resumo

As hérnias inguinais representam 69% dos casos de hérnias abdominais e sua reparação, a hernioplastia, é o procedimento mais realizado em Cirurgia Geral. Tendo em vista esse fato e que simuladores de baixo custo vêm ganhando cada vez mais espaço na graduação Médica devido aos aspectos éticos envolvendo o treinamento com pacientes reais e animais, nosso estudo objetivou a confecção de modelo sintético inédito, reprodutíveis e de baixo custo para o treinamento na técnica de hernioplastia inguinal aberta. Desse modo, com materiais de fácil acesso e preço reduzido, conseguimos construir com R$ 44,12 reais (US$ 14,27) o simulador proposto, podendo ser utilizado em cursos e aulas teórico-práticas com o intuito de demonstrar o procedimento de hernioplastia inguinal.

Palavras-chave: Educação Médica. Hérnia Inguinal. Herniorrafia. Materiais de Ensino.

 

INTRODUÇÃO

As hérnias abdominais são protrusões congênitas ou adquiridas, devido a um defeito na parede músculo esquelética e são descritas desde 1500 antes de Cristo. Dessas, as hérnias inguinais representam 69% dos casos, sendo sua reparação o procedimento mais realizado em cirurgia geral, custando, em 2015, custos globais de R$ 72.747.870,94 (aproximadamente 23.469.326 dólares) para o sistema de saúde brasileiro.1-3

Apesar de existirem inúmeras técnicas, a hernioplastia isenta de tensão, descrita em 1986 por Lichtenstein é o tratamento mais utilizada na abordagem das hérnias inguinais devido a seu elevado custo beneficio, boa eficácia, aplicabilidade e facilidade no seu ensino e aprimoramento técnico, podendo ser realizada inclusive em regime ambulatorial.3-9

Diante da importância de tal procedimento, o treinamento prático com modelos sintéticos de baixo custo se apresenta como uma alternativa eficaz e viável no seu desenvolvimento técnico, não sendo limitada por questões financeiras envolvendo obtenção de recursos, ou por dificuldades éticas envolvendo a prática em animais.10-14 Nesse contexto, é importante frisar que já existe um modelo orgânico para realização de hernioplastia com a técnica de Lichtenstein realizado em ratos, contudo, limitações como o pequeno tamanho do animal em questão e diferenças anatômicas se comparado ao ser humano podem ser observadas.22

Portanto, nosso estudo objetivou confeccionar modelo sintético, inédito, reprodutível e de baixo custo para o treinamento na técnica de hernioplastia inguinal em ambiente protegido e de maneira fidedigna com a realidade do procedimento, já que o uso de modelos possibilitam a demonstração da anatomia e da técnica cirúrgica em questão, sendo assim de potencial uso no processo de aprendizado de acadêmicos e residentes.16-18

 

CONFECÇÃO DO MODELO

O modelo sintético aqui descrito (Figura 1, 2 e 3) foi montado com o intuito de facilitar a compreensão dos acadêmicos de Medicina sobre o procedimento de hernioplastia por técnica de Lichtenstein e da anatomia envolvida. Elaborado em um manequim masculino de plástico, o simulador pode simular a região inguinal esquerda ou direita. Assim esta peça é serrada de modo a introduzir uma caixa retangular de material com dimensões variáveis dependendo do manequim utilizado.

 


Figura 1. Vista Externa do Modelo de Hérnia Inguinal.

 

 


Figura 2. Vista Interna do Modelo de Hérnia Inguinal.

 

 


Figura 3. Vista durante o procedimento do Modelo de Hérnia Inguinal.

 

Dentro da caixa, procurou-se simular as estruturas da parede abdominal, a partir de materiais simples, especificados na Quadro 1.

 

 

É importante ressaltar que com este simulador pode-se ser simulador tanto hérnias diretas como indiretas dependendo da localização que o saco herniário estivesse: dentro do funículo espermático (indireta), saindo da fáscia transversal (direta) ou ambos (mista). Dentro do balão, pedaços de esponja representavam gordura pré-peritoneal e davam forma ao saco herniário. Fundamental para a técnica de Lichtenstein, a tela utilizada nesse modelo foi feita de tecido tule (R$ 0,25/unidade), material de baixo custo e facilmente encontrado em lojas de tecido.

Deste modo, este protótipo foi montado com R$ 44,12 (US$ 14,27), podendo simular todas as fases desse procedimento. É válido ressaltar que as folhas de papel EVA, esponjas, balão de látex 9'' e o saco plástico transparentes (4 x 23 cm) são estruturas descartáveis, porém podem ser preparadas previamente para confecção e reposição do modelo, para que assim torne-se de fácil reprodutibilidade e tenha grande parte de sua base reaproveitável, com um custo de renovação de R$ 0,50 por aluno.

 

CONCLUSÃO

Desse modo, foi possível elaborar e desenvolver um modelo sintético, inédito e de baixo custo para a reprodução de hernioplastia por técnica de Lichtenstein, com materiais que podem ser encontrados facilmente em lojas comerciais, propiciando assim uma maior universalização do ensino.

 

REFERÊNCIAS

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