RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 28 e-1951 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20180041

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Educaçao Médica

A oportunidade de discussao sobre a formaçao de médicos no Brasil. Os Ministérios envolvidos, o Sistema de Saúde, as Organizaçoes e Associaçoes Médicas, as Escolas de Medicina, a Sociedade em geral, estao envolvidos na definiçao de como quer ter atençao médica, e como situar a formaçao médica para que suas necessidades para a obtençao de bem-estar sejam atendidas?

The opportunity to discuss the training of physicians in Brazil. The Ministries involved, the Health System, the Medical Organizations and Associations, the Medical Schools, the Society in general, are involved in defining how they want to have medical attention, and how to situate medical training so that their needs for obtaining well-being are met?

Enio Roberto Pietra Pedroso1; José de Oliveira Campos2

1. professor Titular, Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais., Belo Horizonte, MG - Brasil
2. professor Titular-Aposentado da Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Enio Roberto Pietra Pedroso
E-mail: eniopietra@gmail.com

Recebido em: 23/12/2017
Aprovado em: 22/01/2018

Instituiçao: Departamento de Clínica Médica, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG - Brasil

Resumo

Várias das questoes que sempre desafiaram os educadores médicos tornaram-se de extrema agudeza na atualidade interagindo, potencializando seus efeitos de forma a tornar a formaçao médica complexa quando o automatismo, automaçao, tecnocracia, tecnicismo suplantam o humanismo e o humanitarismo nas relaçoes humanas. O desafio continua sendo como tornar o sistema de saúde realmente nacional, equânime, democrático, referenciado, único?; como organizar o sistema de saúde de forma a que a comunidade a quem é destinado e quem o financia seja capaz de o controlar, gerenciar e determinar como evoluir? Como inserir as Escolas Médicas nesse propósito, especialmente diante da abertura em grande escala de Escolas, especialmente, privadas? Como distribuir médicos pelo Brasil de forma equânime? Como garantir a formaçao adequada de médicos para a real necessidade de atençao médica no Brasil e garantir a carreira de forma a fixar o médico de forma digna em todo o Brasil? Essas particularidades próprias do Brasil sao simultâneas ao que ocorre no resto do mundo o que inclui países desenvolvidos, mas especialmente naqueles em que o respeito às pessoas, à família, às instituiçoes ainda espera por cidadania acurada, independente, reflexiva e construtora de seu destino, diante da necessidade de que seja garantida às pessoas o bem estar que todos procuram e merecem.

Palavras-chave: Educaçao médica. Educaçao em saúde. Escolas de medicina. Formaçao médica. Sistema de saúde.

 

O Brasil apresenta vários sistemas de saúde seja público sustentado econômica-financeiramente compulsoriamente por sua populaçao, portanto nao gratuito, o Sistema Unico de Saúde, celebrado na VIII Conferência Nacional de Saúde e confirmado pela Constituiçao Brasileira de 1988; e de sistemas paralelos com vários matizes de privatizaçao, ditos complementares, financiados por pagamento direto de forma cooperativista, de seguro, ou direto (liberal), na dependência de como ocorre o atendimento à saúde. Cerca de três quartos dos brasileiros dependem do Sistema Unico de Saúde para receberem assistência médica, certamente um dos maiores sistemas de prestaçao à saúde do mundo, gerido predominantemente pelo Estado, com pouca cogestao popular, apesar de em seus pressupostos estar sempre a presença vigilante da sociedade organizada.

O Sistema Unico de Saúde representou muitas conquistas populares em reaçao à garantia de boa assistência à saúde como um todo e médica em particular, retirando o triste emblema passado da indigência, e incluindo todos de forma igualitária perante à busca do bem-estar que todos almejam e merecem. É elogiável o programa de imunizaçoes, o combate à desnutriçao e às endemias seculares, com resultados extraordinários, com controle de várias entidades nosológicas há pouco consideradas de desafio impossível de serem ultrapassado. Contudo, as observaçoes do cotidiano revelam que muito há para se fazer diante de tantas e frequentes mazelas que acompanham pacientes, médicos e todos os profissionais da saúde em conseguirem as condiçoes adequadas na área da assistência pública. A falta de dinheiro, de médicos e a má gestao dos recursos sao explicaçoes mais apresentadas.

É óbvia que a soluçao dos problemas de saúde nao dependem unicamente da assistência médica, basta a observaçao de que só 50% da populaçao tem acesso a água tratada e ao saneamento dos dejetos e a soluçao deste grave problema certamente fará muito mais pela saúde de todos do que todo o aparato médico instalado e que é apresentado como a salvaçao, sendo inclusive de muito menos custo, e relaçao custo-benefício excepcional, com prevençao efetiva de todas as entidades nosológicas veiculadas por meio hídrico (a maioria) e diminuiçao significativa da mortalidade infantil e reduçao da necessidade de atençao médica.

É nítida a necessidade de repensar o Sistema Unico de Saúde, com base no que está nos pressupostos da sua organizaçao, para que em seu planejamento seja voltado sincero e unicamente para o bem estar e saúde do povo brasileiro, que pela ignorância imposta pela falta de educaçao, nao consegue influenciar decisivamente o seu gerenciamento e tomar para si o seu destino.

O planejamento executado por equipes multidisciplinares competentes poderá ser capaz de permitir a abertura de novas portas ou aprimoradas as já existentes para o cuidado primário, democraticamente espalhadas de acordo com a demografia e a nosologia prevalente, indicada por sistema de Vigilância Epidemiológica, capaz de identificar os problemas comunitários, subsidiar a discussao de como resolvê-los, determinar prioridades para sua abordagem, e encaminhar os processos de forma igualitária para sua soluçao. A organizaçao do sistema de saúde pressupoe a descentralizaçao da referência para o Cuidado Secundário e Terciário, além das estratégias de Açoes quaternárias de Saúde, para que todos possam ter acesso igualitário aos bens sociais determinados de forma equânime em pontos estratégicos, à distância e acessibilidade ao Cuidado Primário e da residência de todos, com transferências sem burocracia e sem favor, prontamente realizados, dentro da necessidade real para obtençao do bem-estar.

O ensino médico se apoia integralmente nesse sistema racionalmente organizado, com as várias unidades de prestaçao de serviços médicos e afins como papel importantíssimo como habitat natural de todo o processo de formaçao dos profissionais da saúde e do médico, capaz de revelar o que é necessário para que a atuaçao médica se faça com base na realidade e compromissada com o desejo social. A organizaçao dos currículos de ensino surge naturalmente a partir dessa organizaçao e dos problemas a serem enfrentados, e evoluem com o seu progresso, portanto, nao sao engessadas, mas em verdadeiro processo de desenvolvimento, evoluem com a evoluçao social da resoluçao dos problemas. Como exemplo dessa dinamicidade constitui-se a transformaçao de um problema de extrema gravidade como a desnutriçao, que abrangia cerca de 66 milhoes de brasileiros, há três décadas, que em funçao de políticas públicas bem concatenadas e abrangentes, envolvendo vários níveis de responsabilidade da sociedade civil, passou a ter menor significado epidemiológico-clínico, mas tendo na supernutriçao ou nos desvios da nutriçao como sobrepeso, diabetes mellitus, aterosclerose, dislipidemia, questoes de mesma gravidade que a desnutriçao, e que se torna problema nosológico de grande impacto sobre a populaçao brasileira. Assim a organizaçao do currículo é definida pelo aprendizado dos alunos com base na sua competência na aquisiçao do conhecimento, habilidades psicomotoras e atitudes, conquistadas a partir da relaçao com o paciente, sua família, comunidade, pelo exemplo docente e da equipe multiprofissional, o que faz do treinamento em todos os níveis da atençao à saúde prepara-los para assumir o seu serviço, em que a carreira profissional é garantida a partir de sua admissao na Escola Médica e sua tarefa remunerada dignamente, em toda sua vida, reconhecida pelo bem social em que se insere.

A formaçao de especialistas é naturalmente determinada e controlada pela necessidade social e determinada também pelo direcionamento do desejo pessoal, mas controlada pela remuneraçao, em que a especializaçao e a superespecializaçao nao se sobrepoem à funçao extraordinária de participaçao na atividade básica de saúde e fundamental para que o desejo de bem-estar por todos seja obtido. A residência médica é o passo essencial para a formaçao especializada a ser atingida após a experiência no Cuidado Básico, em que o treinamento em serviço e sua habilitaçao pela competência constitui-se em seu ponto central.

Várias sao as questoes que perpassam diante deste contexto: Como tornar o sistema de saúde realmente nacional, equânime, democrático, referenciado, único? Como organizar o sistema de saúde de forma a que a comunidade a quem é destinado e quem o financia seja capaz de o controlar, gerenciar e determinar como evoluir? Como inserir as Escolas Médicas nesse propósito, especialmente diante da abertura em grande escala de Escolas, especialmente, privadas? Como distribuir médicos pelo Brasil de forma equânime? Como garantir a formaçao adequada de médicos para a real necessidade de atençao médica no Brasil e garantir a carreira de forma a fixar o médico de forma digna em todo o Brasil? Essas questoes constituem desafio ao processo de desenvolvimento do sistema de saúde no Brasil que apresenta particularidades próprias diante do mundo e que pode ser apto em responder a muitas questoes que afligem países subdesenvolvidos com também aos desenvolvidos diante da necessidade de que seja garantida às pessoas o bem estar que todos procuram e merecem.

 

CONCLUSAO

As particularidades próprias do Brasil no campo da educaçao, qualquer que seja, mas em especial médica, sao simultâneas ao que ocorre no resto do mundo, independente da situaçao socioeconômica, o que inclui países desenvolvidos, mas especialmente naqueles em que o respeito às pessoas, à família, às instituiçoes ainda espera por cidadania acurada, independente, reflexiva e construtora de seu destino, diante da necessidade de que seja garantida às pessoas o bem estar que todos procuram e merecem. As escolas médicas e seu corpo docente-servidor técnico administrativo possuem esse compromisso com a sociedade que as sustentam.