RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 28 e-1952 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20180042

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Educaçao Médica

O curso de medicina como fonte de ansiedade

The medical course as a source of anxiety

Celmo Celeno Porto

Universidade Federal de Goiás, Faculdade de Medicina, Programa de Pós-Graduaçao em Ciências da Saúde. Goiânia, GO - Brasil

Endereço para correspondência

Celmo Celeno Porto
E-mail: celeno@cardiol.br

Recebido em: 01/10/2017
Aprovado em: 20/11/2017

Instituiçao: Universidade Federal de Goiás - UFG, Goiânia, GO - Brasil

Resumo

O curso de medicina pode ser fonte de ansiedade? Várias sao as situaçoes a que o estudante de medicina é exposto, e que sao de elevada tensao, como: a singularidade de cada paciente; a verdade relativa e provisória em medicina, o que obriga a convivência com dúvidas e incertezas; a imensidao de conhecimentos necessários em reduzido tempo de formaçao; a inexistência e ineficácia de tratamento específico para várias doenças, o que exige que atue de forma a aliviar o sofrimento, e pouca influência sobre a evoluçao da história natural da enfermidade. Cada estudante, entretanto, reage a essas tensoes de acordo com sua maturidade emocional, e muitas delas sao inevitáveis e se dissipam naturalmente, sem maior consequência, à medida que avança no curso. É importante que o estudante seja provocado a desenvolver juízo crítico e discernimento, para que nao se limite à objetividade da medicina, nem aceite passivamente esquemas, normas, diretrizes, e que esse desafio o projete para sua inserçao decisiva em defesa do bem-estar do paciente.

Palavras-chave: Relacionamento médico-paciente. Anamnese. Consulta médica.

 

Este é um tema delicado, mas é necessário abordá-lo: o curso de medicina pode ser fonte de ansiedade? Ao que eu saiba, quem primeiro levantou a questao do curso de medicina como gerador de tensoes e ansiedades foi o educador George Miller, autor do famoso livro Pedagogia Médica, cuja 1a ediçao em português foi publicada em 1967 e teve grande influência na formaçao de professores de medicina daquela época.

Miller1 salientava que, em princípio, cada estudante reagia a essas tensoes de acordo com sua maturidade emocional. Mas, diversos fatores participavam da maneira de reagir.

É importante que se saiba, desde logo, que muitas dessas tensoes sao inevitáveis e boa parte delas se dissipam naturalmente sem maiores consequências à medida que avança no curso.

É comum os estudantes verificarem que, para numerosas doenças, nao existe tratamento eficaz, e o médico nada mais faz que aliviar os sintomas e acompanhar a evoluçao da enfermidade, pouco ou nada alterando sua história natural.

Essa constataçao pode causar profunda decepçao àqueles que, em suas fantasias de adolescentes, alimentadas por personagens de televisao, cinema e obras literárias, idealizam o médico como um profissional quase onipotente, capaz de influir decisivamente sobre a saúde e a doença, a vida e a morte. Sentem-se frustrados, como alguém que foi ludibriado na escolha de uma carreira. No mundo midiático o médico como herói é apenas o fruto da imaginaçao de roteiristas e diretores. É necessário maturidade para abandonar esta visao fantasiosa e reagir de maneira saudável a esse sentimento de frustraçao, adaptando-se à dura realidade da profissao médica. Isso, em nada, obscurece a beleza da medicina como profissao.

Alguns estudantes ameaçam até abandonar o curso e alguns de fato o fazem. Poucos sao os que retomam um curso abandonado por decepçao ou frustraçao, nos primeiros contatos com cadáveres e doentes.

Outra fonte de ansiedade é constatar o valor relativo de todas as afirmativas em medicina. É necessário compreender que nada existe de absoluto: os mesmos sintomas podem decorrer de doenças diferentes, induzindo a erros; a mesma doença pode produzir sintomas diversos, provocando confusao e equívocos. Cada paciente é um universo particular com apenas alguma semelhança com outro. Cada paciente responde de maneira particular ao mesmo tratamento. Por tudo isso, nao há como negar que as verdades em medicina sao relativas e provisórias. E isso nos obriga a conviver com dúvidas e incertezas.

Ao verificar divergências entre professores sobre condutas, seja na investigaçaodiagnóstica, seja na proposta terapêutica, o estudante pode se sentir desorientado, sem saber em quem acreditar. Oestudante imaturo pode reagir com hostilidade, desejando no íntimo estar matriculado em outra escola, onde os professores lhe dessem uma orientaçao segura! Isso, por certo, provoca ansiedade em quem está buscando aprender como diagnosticar as doenças e como tratar os doentes. Tal comportamento é normal em uma pessoa ainda emocionalmente dependente, que se sente insegura e necessita de apoio.

Esta situaçao, entretanto, longe de ser prejudicial, é benéfica, pois, desde o início do processo de tornar-se médico, é importante que os estudantes sejam alertados para as incertezas da medicina, para que desenvolvam juízo crítico e discernimento, para que nao fiquem, mais tarde, aprisionados em esquemas, normas, diretrizes, que passam a aceitar passivamente. Aliás, "olho clínico" é a capacidade de encontrar o melhor caminho para uma boa prática médica, apesar das incertezas e limitaçoes.

Outra fonte de ansiedade é a tomada de consciência da extensao de conhecimentos que se necessita adquirir no reduzido tempo de que se dispoem. Os professores podem contribuir para agravar a situaçao, pois sao especialistas em determinado setor e alguns querem que os alunos sejam "semiespecialistas", porque eles próprios nao têm uma visao do que é essencial no aprendizado da medicina. Aliás, esses sao os que merecem a definiçao jocosa de especialista, assim enunciada: "especialista é aquele que sabe cada vez mais de cada vez menos até que um dia saiba quase tudo de quase nada". Uma das consequências dessa visao estreita de muitos docentes é o estímulo à especializaçao precoce. Fazem isso na melhor das intençoes porque acreditam que esta é a única maneira de exercer a profissao médica.

Nao deixa de ser outra fonte de ansiedade o convívio com professores pesquisadores que estao mais interessados na observaçao dos fatos do que no cuidar dos doentes. Como nao se pode dissociar o ensino da pesquisa e onde nao há pesquisa o ensino tende a deteriorar-se, a participaçao dos estudantes da medicina é salutar e deve ser estimulada. A meu ver, é perfeitamente conciliável uma boa prática médica com investigaçao clínica.

Com o passar do tempo e, se houver boa orientaçao, a ansiedade nao lhe causará grande sofrimento, talvez umas noites de insônia, que devem ser aproveitadas lendo alguns versos de Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Cora Coralina, Pablo Neruda, Walt Whiteman ou de Adélia Prado... Ou vendo um bom filme... Ou namorando!

 

BIBLIOGRAFIA

1. Miller GE. Ensino e aprendizagem nas Escolas Médicas. Cia. Ed. Nacional, 1967.