RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 28 e-1970 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20180060

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Relato de Caso

Queilite actínica: relato de caso

Actinic cheilitis: case report

Evalanne Pessoa Tenorio1; Jéssica Augusta Paula dos Santos2; Sonia Maria Soares Ferreira3; Fernanda Braga Peixoto4; Camila Maria Beder Ribeiro5

1. Acadêmica do Curso de Odontologia no Centro Universitário Cesmac. Maceió, AL- Brasil
2. Acadêmica do Curso de Odontologia no Centro Universitário Cesmac. Maceió, AL- Brasil
3. Cirurgiã-Dentista. Doutora em Ciências. Professora titular do Centro Universitário Cesmac. Maceió, AL- Brasil
4. Cirurgiã-Dentista. Mestra em Ensino na Saúde. Professora titular do Centro Universitário Cesmac. Maceió, AL- Brasil
5. Cirurgiã-Dentista. Doutora em Estomatopatologia. Professora titular do Centro Universitário Cesmac. Maceió, AL- Brasil

Endereço para correspondência

Camila Maria Beder Ribeiro Girish Panjwani
E-mail: camilabeder@hotmail.com

Recebido em: 20/05/2016
Aprovado em: 19/07/2018

Instituição: Centro Universitário Cesmac Mestrado Profissional Pesquisa em Saúde, Maceió, AL- Brasil.

Resumo

A Queilite Actínica (QA) é uma condição clínica que acomete o vermelhão do lábio inferior intimamente relacionada com com exposição excessiva à luz solar. Geralmente acomete o sexo masculino acima de 45 anos. O caso apresenta um paciente gênero masculino, leucoderma, 59 anos, com lesão de atrofia da borda do vermelhão do lábio inferior, superfícies lisas, manchas eritroleucoplásicas, limites nítidos e formato irregular. O diagnóstico clínico foi de Queilite Actínica. A biópsia incisional foi conduzida e apresentou microscopicamente um epitélio estratificado pavimentoso hiperqueratinizado com áreas de acantose, a lâmina própria era fibrosa, exibia infiltrado inflamatório crônico e uma faixa basofílica amorfa e acelular consistente com elastose solar proeminente e um quadro de Displasia Moderada. O tratamento proposto foi a vermelhectomia, mas houve recusa do paciente em realizar esse procedimento. Diante das alterações, percebe-se a importância do cirurgião- dentista na precisão do diagnóstico precoce e tratamento, impedindo a transformação maligna da lesão.

Palavras-chave: Queilite. Queimadura solar. Lábio. Atrofia. Diagnóstico.

 

INTRODUÇÃO

Queilite Actínica (QA) é uma condição clínica inflamatória (10 a 20%) que afeta o vermelhão do lábio inferior quando há exposição excessiva e crônica aos raios solares. Outros fatores como álcool e tabagismo podem elevar a chance de malignização.1,2 Pode-se dizer que trata-se de um processo neoplásico "in situ", visto que depende do grau de displasia epitelial encontrada, o qual tem graus que variam do leve, moderado, intenso e in situ a depender da extensão do acometimento dos estratos epiteliais. 3,4

No Brasil, a QA destaca-se por se tratar de um país tropical e ter parte da sua economia baseada em trabalhadores rurais que ficam expostos de maneira prolongada ao sol, podendo causar danos irreparáveis sem a proteção adequada. Estima-se que 95% dos casos de câncer de lábio originam-se da QA.3

Essa lesão afeta principalmente indivíduos leucodermas, gênero masculino e com a faixa etária acima dos 40 anos. Clinicamente, a QA pode apresentar-se de forma aguda (menos comum) e de forma crônica.4,5

A forma aguda que está relacionada a episódios de intensa exposição ao sol é caracterizada pelo surgimento de edema e vermelhidão, podendo evoluir para vesículas, bolhas, crostas e ulcerações; regredindo após a remoção do agente etiológico.1,6

A forma crônica desenvolve-se como uma elevação do lábio inferior até a comissura, provocada por exposição solar contínua. É possível observar lesões geralmente assintomáticas com atrofia da borda do vermelhão do lábio inferior, apagamento da margem entre a zona do vermelhão e a região cutânea do lábio, alterações de cor com áreas eritroleucoplásicas, perda da plasticidade e erosão em alguns casos.1,6

O exame histopatológico apresenta epitélio escamoso hiperplásico ou atrófico, atipia celular, aumento da atividade mitótica, graus variados de displasia epitelial, infiltrado de células inflamatórias crônicas. O tecido conjuntivo mostra degeneração basofílica de colágeno denominada elastose solar.3,4,5

O diagnóstico da QA é baseado nos achados clínicos, histopatológicos e no histórico de exposição solar. O diagnóstico diferencial pode ser carcinoma epidermóide, herpes recorrente, líquen plano, ressecamento labial, leucoplasia, eritroplasia, lúpus eritematoso, queimaduras, queratoacantomas, queilite irritativa, idiopática ou granulomatosa.1

A literatura desceve uma taxa de tansfromação maligna de 6% a 10% dos casos relatados de QA em função do tempo. Geralmente desenvolve-se um carcinoma de células escamosas bem diferenciado. Essa taxa de transformação maligna ocorre após os 60 anos de idade, e este carcinoma tipicamente aumenta de tamanho lentamente e metastatiza somente em um estágio tardio. 4

As características histopatológicas da QA são importantes para o diagnóstico, o prognóstico e o tratamento da lesão. Estes fatores podem espelhar-se no tempo do primeiro diagnóstico destas lesões, na idade do paciente, na frequência e a intensidade de exposição aos raios solares, e a associação com fatores de risco, como o tabaco e o álcool.7

Várias formas de tratamento da queilite actínica são listadas: aplicação de 5-fluouracil, peeling com ácido tricloroacético a 50%, eletrocirurgia, terapia fotodinâmica, laser de CO2, vermelhectomia, criocirurgia e dermoabrasão.8

Em virtude da relevância do potencial maligno dessa lesão, é importante expor suas principais características e compara-las com a literatura para a detecção precoce e o diagnóstico mais acurado da QA e assim, trazer impacto positivo no prognóstico destas lesões.

 

RELATO DE CASO

Paciente gênero masculino, 59 anos, leucoderma, compareceu a uma Clínica Escola de Odontologia do Centro Universitário Cesmac queixando-se de uma "ferida no lábio". O paciente relatou que era trabalhador rural desde criança e que havia sangramento constante em seus lábios e um quadro de sensibilidade acentuada, não sabendo informar com precisão o surgimento dessas manifestações.

No exame clínico intraoral foi observado apagamento da margem entre a zona do vermelhão e a região cutânea do lábio inferior, com superfícies lisas e manchas eritroleucoplásicas, limites nítidos, formato irregular e não infiltrativa (Figura 1). A hipótese diagnóstica clínica foi Queilite Actínica e a conduta exercida foi a realização de uma biópsia incisional com remoção de fragmentos de duas regiões do lábio inferior e remoção de pontos após 7 dias. Na análise histopatológica das duas peças do lábio inferior observou-se fragmentos de mucosa revestidos por epitélio estratificado pavimentoso hiperqueratinizado com áreas de acantose (Figura 2). A lâmina própria era fibrosa e exibia infiltrado inflamatório crônico e uma faixa basofílica amorfa e acelular consistente com elastose solar proeminente (Figura 3). O corte histológico apresentou atipias celulares, pleomorfismo e hipercromatismo. Após a correlação clínica e histopatológica foi elaborado o diagnóstico de QA com diagnóstico de Displasia Moderada.

 


Figura 1. No exame clínico intraoral foi observado apagamento da margem entre a zona do vermelhão e a região cutânea do lábio inferior, com superfícies lisas e manchas eritroleucoplásicas, limites nítidos, formato irregular e não infiltrativa.

 

 


Figura 2. Na análise histopatológica das duas peças do lábio inferior observou-se fragmentos de mucosa revestidos por epitélio estratificado pavimentoso hiperqueratinizado com áreas

 

 


Figura 3. A lâmina própria era fibrosa e exibia infiltrado inflamatório crônico e uma faixa basofílica amorfa e acelular consistente com elastose solar proeminente

 

O tratamento proposto foi uso de chapéu para evitar o aparecimento de lesões na pele do rosto e couro cabeludo, filtro solar labial com fator de proteção 30 aplicado de duas em duas horas durante o dia, acompanhamento clínico periódico e realização da vermelhectomia, havendo uma recusa do paciente em realizar esse procedimento.

 

DISCUSSÃO

O caso relatado exibe características clínicas e histopatológicas semelhantes com outros casos de queilite actínica crônica encontrados na literatura, com apagamento da margem entre a zona do vermelhão e a região cutânea do lábio inferior, com superfícies lisas e manchas eritroleucoplásicas.3,6

A queilite actínica é uma lesão com potencial de transformação maligna, mais frequente em homens de pele clara, acima de 40 anos e com exposição frequente ao sol. Neste caso, o paciente é leucoderma, possui 59 anos, gênero masculino e relatou que já foi trabalhador rural.4,7

O diagnóstico da lesão deve estar baseado na anamnese, exame físico e exame histopatológico. Na anamnese é colhida as informações sobre o caso com o paciente, como os sintomas da doença, tempo de surgimento da lesão, fatores de risco. O exame físico é importante para descrever as alterações teciduais da lesão e assim, formular uma hipótese de diagnóstico clínico. Ainda existe o diagnóstico diferencial, que pode ser carcinoma epidermóide, herpes recorrente, líquen plano, ressecamento labial, leucoplasia, eritroplasia, lúpus eritematoso, queimaduras, queratoacantomas, queilite irritativa, idiopática ou granulomatosa.1 Neste caso, devido as alterações observadas clinicamente, queixa e histórico do paciente, o diagnóstico clínico foi de QA.

A obtenção da biópsia incisional e do exame histopatológico são utilizados para o diagnóstico final do caso. Deve ser feita uma avaliação do resultado da biópsia, porque este pode apresentar variados níveis de atipia celular, o que indica o potencial de transformação maligna da lesão. O exame histopatológico do paciente apresentou elastose solar proeminente, característica marcante da queilite actínica. Também apresentou um nível de displasia moderada com atipias celulares, pleomorfismo e hipercromatismo que corrobora com os dados observados na literatura.4,5,6

A alternativa de tratamento que proporciona facilidade em sua execução e resultados estéticos satisfatórios para queilite actínica é a vermelhectomia, pois além de ser um procedimento curativo é também preventivo.8 Esse procedimento tem como objetivo remover total ou parcialmente o vermelhão do lábio do paciente, para após isso, suturar a mucosa labial à pele.2,9 Foi proposto ao paciente para seguir o tratamento com a vermelhectomia, porém o mesmo se negou a realizá-la.

Um relato exposto dessa maneira visa orientar os profissionais para um melhor entendimento de saúde sobre os aspectos clínicos da queilite actínica e então, contribuir na formulação de medidas educativas e preventivas, bem como garantir uma terapêutica mais adequada.

 

CONCLUSÃO

A Queilite Actínica é uma lesão maligna "in situ" que afeta o lábio inferior e apresenta características clínicas e histopatológicas peculiares para o seu diagnóstico, pois pelas conições anatômicas dos lábios pode se tornar maligna mais rapidamente do que as lesões de pele, portanto é importante que seja realizada uma boa anamnese para o cirurgião-dentista, ter precisão do diagnóstico precoce e tratamento, impedindo a transformação maligna da lesão.

 

REFERÊNCIAS

1. Martins MD, Marques LO, Martins MAT, Bussadori SK, Fernandes KPS. Queilite actínica: relato de caso clínico. Conscientiae Saúde. 2007; 6 (1): 105-110.

2. Santos EJD, Lopes MFF, Silva LMM, Ribeiro BF, Lima KN, Queiroz LMG. Lesões orais com potencial de malignização: análise clínica e morfológica de 205 casos. J Bras Patol Med Lab. 2009 jun; 45 (3): 233-8.

3. Miranda AMO, Ferrari TM, Calandro TLL. Queilite actínica: aspectos clínicos e prevalência encontrados em uma população rural do interior do Brasil. Rev Saúde e Pesquisa. 2011 jan-abr; 4 (1): 67-72.

4. Neville BW, Damm D, Alenn CM, Bouquot JE. Patologia Oral e Maxilofacial. 2 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan S.A; 2016. Queilose Actínica (Queilite Actínica); p.406-8.

5. Regezi JA, Sciubba JJ, Jordan RCK. Patologia Oral correlações clinicopatológicas. 5 ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2008. Lesões Cancerizáveis ou Potencialmente Malignas- Queilite Actínica; p. 83-4.

6. Araújo CP, Barros AC, Lima AAS, Azevedo RA, Ramalho L, Santos JN . Estudo histológico e histoquímico da elastose solar em lesões de queilite actínica. R Ci méd biol. 2007 mai-ago; 6 (2):152-9.

7. Arnaud RR, Soares MSM, Paiva MAF, Figueiredo CRLV, Santos MGC, Lira CC . Queilite actínica: avaliação histopatológica de 44 casos. Rev Odontol UNESP. 2014; 43 (6): 384-9.

8. Rosseo EWT, Tebcherani AJ, Sittart JA, Pires MC. Queilite actínica: avaliação comparativa estética e funcional entre as vermelhectomias clássica e em W-plastia. Guarulhos: An Brasil Dermatol. 2011 jan-fev; 86 (1).

9. Cintra JS, Torres SCM, Silva MBF, Manhães Júnior LRC, Silva Filho JP, Junqueira JLC. Queilite Actínica: Estudo epidemiológico entre trabalhadores rurais do município de Piracaia-SP. Rev Reg Aracatuba Assoc Paul Cir Dent. 2013; 67 (2): 118-121.