RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 29 e-2011 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20190007

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Artigo Original

Conhecimento de pais e cuidadores sobre os "Dez passos para uma alimentação saudável" em creches de Juiz de Fora, Minas Gerais

Título Inglês Knowledge of parents and caregivers about the "Ten steps to a healthy diet for children under two years of age" in day care centers in Juiz de Fora, Minas Gerais

Patrícia Boechat Gomes1; Víctor de Oliveira Costa2; Flávio Vieira Marques Filho2; Paula Rabelo Halfeld Mendonça2; Rafael Ferreira e Bringel2; Demóstenes Moreira2; Ademar Vasconcellos do Carmo3; Maria Augusta Gollner Duarte4; Ricelly Lignani de Miranda5

1. Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora, Pediatria. Juiz de Fora, MG - Brasil
2. Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora, Medicina. Juiz de Fora, MG - Brasil
3. Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus, Ginecologia e Obstetrícia. Juiz de Fora, MG - Brasil
4. Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Pediatria. Ribeirão Preto, SP - Brasil
5. Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora, Pediatria. Juiz de Fora, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Víctor de Oliveira Costa
E-mail: victordeoliveiracosta82@ gmail.com

Recebido em: 26/08/2018
Aprovado em: 10/01/2019

Instituição: Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora, Medicina. Juiz de Fora, MG - Brasil.

Resumo

INTRODUÇÃO: a alimentação nos primeiros anos de vida acarreta grandes repercussões à saúde. Assim, o Ministério da Saúde elaborou os "Dez Passos para uma Alimentação Saudável (DPAS): Guia Alimentar para Crianças Menores de Dois Anos". É oportuno, portanto, investigar conhecimento de pais e cuidadores sobre tal manual.
OBJETIVO: identificar o conhecimento acerca dos DPAS por parte de pais e cuidadores de crianças de 1 a 5 anos matriculadas em escola de educação particular e pública no município de Juiz de Fora - Minas Gerais e determinar dificuldades encontradas na adoção das medidas, relacionando-as às variáveis socioeconômicas.
MÉTODO: pesquisa transversal na qual foi aplicado instrumento de pesquisa sobre os DPAS em uma escola pública e uma particular em de dezembro de 2016. Foram entrevistados 100 participantes divididos em grupos: o primeiro composto por 50 mães com filhos em creche pública e outro por 50 mães com filhos em creche particular.
RESULTADOS: Somente 23%, conhecem o manual. O passo 6 obteve o maior percentual de acertos (94%). Contudo, isso pode na verdade determinar um desconhecimento sobre correta alimentação variada. O passo 8 teve o menor cumprimento (81%), mostrando que os alimentos prejudiciais nos primeiros anos de vida são ingeridos frequentemente. Ademais, o percentual de acertos dos pais com filhos na creche particular era maior (63,8%) comparado ao percentual da creche pública (48%).
CONCLUSÕES: correta divulgação dos DPAS é necessária, porque informações sobre as repercussões de alimentação adequada nos primeiros anos de vida contribuem para prevenção e promoção da saúde infantil.

Palavras-chave: Nutrição da Criança; Guias Alimentares; Pais. Pediatria.

 

INTRODUÇÃO E LITERATURA

Os primeiros anos de vida de uma criança são caracterizados por intenso crescimento e desenvolvimento, sendo o padrão alimentar, especialmente neste período, gerador de repercussões ao longo de toda a vida do indivíduo. Dessa forma, é de suma importância a introdução precoce de hábitos alimentares saudáveis para que a criança alcance seu potencial biológico.1,2

Até os seis meses de idade, recomenda-se o aleitamento materno exclusivo, já que nesta época o leite apresenta total capacidade de nutrir a criança e protegê-la contra afecções diversas.3 Posteriormente a esse período, faz-se necessária a introdução de alimentos complementares buscando elevação do aporte energético e de nutrientes essenciais para o lactente.4

A introdução da alimentação complementar é um momento crítico, esculpido pela influência de fatores biológicos, sociais, culturais e econômicos.5,6 Sugere-se que, embora a alimentação humana possa referir-se à necessidade básica para a sobrevivência, ela não se limita a um fenômeno natural, na medida em que as práticas alimentares encontram-se vinculadas tanto à disponibilidade de alimentos quanto à escolha dos mesmos, na dependência de valores culturais e das bases educacionais.7,8 Tal importância reflete a necessidade de aconselhamento nutricional como estratégia educativa para pais e responsáveis.9

O Ministério da Saúde (MS), fundamentado nos anais da reunião da Organização Mundial da Saúde/Fundo das Nações Unidas para a Infância sobre alimentação complementar, elaborou, em 2002, recomendações para uma dieta adequada: Guia alimentar para crianças menores de dois anos (Tabela 1). Tais recomendações foram publicadas em um manual que objetiva subsidiar profissionais da atenção básica para capacitação e orientação de mães quanto à alimentação de seus filhos, visando, ainda, fortalecimento da Estratégia Nacional para Promoção de Alimentação Saudável (Enpacs).10

 

 

No entanto, diversos estudos têm demonstrado que a introdução de práticas alimentares saudáveis na infância é limitada, não só pelas condições socioeconômicas e culturais da população, mas também pela ausência de estratégias educativas que orientem profissionais da saúde, pais e cuidadores quanto à adoção de tais práticas no cuidado à criança.11

Nesse contexto, o presente estudo objetiva identificar o conhecimento dos “10 passos” por parte de pais e cuidadores de crianças de 1 a 5 anos matriculadas em escola de educação infantil particular e creche pública no município de Juiz de Fora - Minas Gerais, bem como determinar quais as principais dificuldades encontradas na adoção das medidas propostas pelos mesmos, relacionando-as às variáveis socioeconômicas de cada grupo.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo descritivo transversal, desenvolvido por meio da utilização do instrumento de pesquisa sobre o conhecimento dos “Dez passos para uma alimentação saudável para menores de dois anos” do Ministério da Saúde do Brasil, realizado em duas escolas, uma pública e outra particular, durante o mês de dezembro de 2016. Na pesquisa foram incluídas mães que possuíam filhos em creches públicas ou particulares em um município de Minas Gerais na faixa etária 1-5 anos. O estudo foi realizado após a submissão e aprovação do CEP, conforme resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde e aprovado com o parecer 1.300.486 em 28/10/15.

A coleta de dados em questão foi realizada a partir da entrevista de 100 mães, sendo 50 de escola pública e 50 de escola particular, escolhidas de forma randomizada. Foi utilizado um instrumento de pesquisa, com a finalidade de avaliar o nível socioeconômico dos participantes, sendo graduado a partir da posse de itens de conforto, proveniência da água, condição da rua do domicílio do morador, isto é, se é asfaltada ou não, além do grau de instrução da pessoa que contribui com maior parte da renda da família.

Posteriormente, foi utilizado outro instrumento de pesquisa composto por perguntas fechadas que abordava o conhecimento e aplicação dos Dez passos para uma alimentação saudável para menores de dois anos do Ministério da Saúde do Brasil. Desse modo, as respostas escolhidas foram avaliadas e classificadas em “cumpriu’ e “não cumpriu”, o que foi utilizado para a construção de um quadro comparativo com as diferenças de discernimento para cada passo entre os entrevistados da rede pública e particular.

Os dados dos instrumentos de pesquisa foram transcritos e tabulados separadamente por meio do programa Windows Excel e, depois, unificados. A planilha foi transferida para o programa SPSS versão 21.0, no qual foi realizada a análise estatística.

Foram calculados os valores de médias e desvio padrão para as variáveis numéricas. Para verificar a existência de diferenças estatisticamente significativas entre os grupos estudados em relação às variáveis contínuas, aplicou-se o teste t-Student para amostras independentes. As variáveis qualitativas foram apresentadas em frequência absoluta e utilizou-se o teste Qui-quadrado para comparação dos dados categóricos. O nível de significância estatística foi estabelecido para valores de p<0,05.

 

RESULTADOS

No total, foram selecionados, aleatoriamente, 100 participantes elegíveis para o estudo, sendo que estes se dividem em 50 mães com filhos em creche pública e 50 mães com filhos em creche particular. Segundo a Tabela 2, a faixa etária média da amostra de mães foi de 32 anos, 21% de todas são solteiras, 9% divorciadas, enquanto 70% encontra-se casada ou em uma união estável. Do total de mães entrevistadas, apenas 19% possuía ensino superior completo, 16% tinha renda familiar até 1 salário mínimo, 31% entre 1 e 3 salários mínimos e 20% com mais de 15 salários mínimos. A maior parte, 20%, afirmava não trabalhar fora de casa e 60% possuíam apenas 1 filho.

 

 

A descrição socioeconômica dos grupos, separados por creche pública versus creche privada, está contemplada na Tabela 2. Nota-se que o estado civil que predomina nas mães de creches públicas é a união estável, enquanto no outro grupo o casamento é o mais frequente. Nível de escolaridade, renda familiar mensal e trabalho materno fora de casa são significativamente maiores em creches particulares do que em públicas.

A média de idade de crianças na creche pública é ligeiramente menor do que na creche particular, com predomínio do sexo feminino na primeira, enquanto na outra esse padrão se inverte. Em ambos os grupos, a criança passa a maior parte do seu tempo na creche ou escola.

A divisão quanto à classe econômica entre os dois grupos é notável. As crianças de creche particular encontram-se nas classes B2, B1 e A e as crianças de creche pública, em contrapartida, concentram-se nas classes E, D, C1 e C2.

A análise das frequências de cumprimento e não cumprimento em relação aos 10 passos da alimentação saudável em cada grupo é apresentada na Tabela 3. Verificou-se que o percentual de cumprimento é significativamente maior no grupo de creche particular. O passo 8 obteve a maior taxa de não cumprimento em ambos os grupos. Em relação aos acertos, também houve conformidade entre os dois grupos, sendo o passo 6 o mais acertado.

 

 

DISCUSSÃO

O presente estudo evidenciou que o conhecimento dos pais acerca dos dez passos para uma alimentação saudável do Ministério da Saúde é precário, uma vez que somente 23% dos entrevistados, tanto de escolas públicas quanto particulares, estão cientes dos passos. No entanto, mesmo aqueles que disseram conhecer a cartilha do MS, em sua grande maioria, apresentavam apenas uma noção superficial. Segundo Alves et al.12 e o SISVAN,13 a qualidade e o tipo de alimentação que são oferecidas aos lactentes recebem influência direta do contexto social, cultural, familiar e econômico no qual a mãe está inserida. Em adendo, hoje há uma outra fonte de informação largamente difundida e usada pelas mães; a própria internet, que muitas vezes disponibiliza informações de caráter duvidoso. Um estudo, no qual foram analisados 50 sites, entre blogs e sites especializados em nutrição infantil, mostrou que apenas 10% dessas páginas apresentavam corretamente todos os passos do guia alimentar.14

Quando questionadas sobre o que achavam da qualidade da alimentação que era fornecida aos seus filhos, 95% de todas as mães entrevistadas afirmaram que eles tiveram uma alimentação saudável. A proporção entre escolas públicas e particulares, quanto a essa percepção, foi praticamente de 1 para 1; 50% para escolas particulares e 45% para escolas públicas. Esse resultado demonstra o quanto ainda carecem informações para a população em geral sobre o que de fato representa uma alimentação saudável, principalmente nos primeiros anos de vida.

Não surpreendentemente, o passo 8, que aborda a necessidade de evitar açúcar, café, enlatados, frituras, refrigerantes, balas, salgadinhos, guloseimas, nos primeiros anos de vida, foi aquele em que menos cumpriu-se por acerto: 81% (Tabela 4). Em um trabalho publicado pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) em 2014, observou-se que desde muito cedo as crianças começam a receber alimentos inadequados como doces industrializados, biscoitos recheados, macarrão instantâneo, pratos congelados semiprontos, refrigerantes e sucos artificiais.13 Esse tipo de alimentação pode contribuir para a formação de hábitos pouco saudáveis que permanecerão até a vida adulta, já que os cinco primeiros anos de vida são cruciais para a construção de preferências e aversões alimentares.15

 

 

O passo 1, que afirma a importância de dar somente leite materno até os 6 meses, sem oferecer água, chás ou qualquer outro alimento, por sua vez, teve a segunda maior porcentagem de erros, totalizando 68% (Tabela 4), praticamente empatado com o passo 10. Isso é explicado por que culturalmente mães acreditam que líquidos, como sucos e outros leites, são complementares ao leite materno, e oferecem mais energia e nutrientes aos bebês.16 E, dentre os alimentos oferecidos erroneamente antes dos 6 meses, destacam-se com mais relevância o chá e a água, seguidos de frutas e leite não humano. A prevalência de oferta de chá no primeiro mês de vida do bebê foi ainda maior em relação à de oferta de água, possivelmente explicada pela utilização dele como medicamento para melhora de cólicas.17,18

Por outro lado, o passo 6, que denota a necessidade de oferecer à criança diferentes alimentos ao longo do dia, uma alimentação variada é uma alimentação colorida, foi aquele com maior percentual de acertos, com índice de cumprimento dos passos por acerto de 94% (Tabela 4). No entanto, de acordo com o estudo do SISVAN realizado entre crianças de 6 a 23 meses, a maioria não recebia mais o leite materno, tinha um consumo insuficiente de frutas, legumes/verduras, carnes e feijão, tendo recebido açúcar, mel ou melado e papa salgada antes dos seis meses de idade, contrapondo o que as mães relataram durante a entrevista, quando a maior parte disse que cumpriu o passo 6 e forneciam aos seus filhos uma dieta baseada em frutas e verduras “rica” e variada. As práticas alimentares inadequadas mais frequentes foram o consumo de suco ou refresco industrializado, refrigerante, mingau com leite ou leite com espessante.13

Isso, por sua vez, corrobora o elevado percentual de não cumprimento por acerto do passo 8, como observado no estudo realizado no estado de Pernambuco em que foi evidenciado que, independentemente da área geográfica, o leite, o açúcar, a gordura e o arroz foram os alimentos mais consumidos em crianças abaixo de 5 anos, sendo o leite de vaca e o açúcar amplamente presentes na alimentação de transição de crianças menores de 6 meses.15

O passo 2, que afirma que a partir dos 6 meses deve-se introduzir de forma lenta e gradual outros alimentos, mantendo o leite materno até os 2 anos de idade ou mais, por sua vez, apresentou 53% de erros (Tabela 4), o que evidencia um decréscimo no percentual comparado ao passo 1, já que as mães são inclinadas a acrescentar alimentos do âmbito familiar para a criança, apesar de muitas vezes, erroneamente, incrementarem alimentos, principalmente frutas, antes dos 6 meses. Ademais, observa-se como erro frequente a escolha de alimentos semissólidos ou de consistência pastosa, sugerindo a ingestão de alimentos com baixo aporte calórico e nutricional.

Essa característica pode ser observada no passo 5, que evidencia que a alimentação complementar deve ser espessa desde o início e oferecida de colher; deve-se começar com consistência pastosa (papas/purês) e, gradativamente, aumentar a consistência até se chegar à alimentação da família, no qual houve 56% de erro (Tabela 4), já que os pais continuam uma alimentação de caráter pastoso em detrimento do incremento de alimentos sólidos, como carnes que possuem proteínas de alto valo biológico essenciais para o desenvolvimento infantil.19,20

No que tange ao passo 3, segundo o qual após 6 meses deve-se dar alimentos complementares (cereais, tubérculos, carnes, leguminosas, frutas, legumes) três vezes ao dia se a criança receber leite materno, e cinco vezes ao dia se estiver desmamada, nota-se que apresentou baixo índice de erro comparado aos demais, porém isso não garante que as mães estejam atribuindo à dieta de seus filhos alimentos como legumes, leguminosas e de origem animal, como é preconizado no passo 3. Logo, a reduzida qualidade alimentar, como a escolha preferencial de carboidratos simples e leite não materno, são alguns dos principais aspectos da prática alimentar inadequada.20

O passo 7, que vislumbra a necessidade de estimular o consumo diário de frutas, verduras e legumes nas refeições, obteve 66% de acerto (Tabela 4), o que indica conduta favorável na integração de frutas, leguminosas e verduras na dieta da criança, com aumento progressivo da participação desses alimentos na dieta, isto é, a participação em percentual desses tipos de alimentos é maior em crianças de 12-24 meses do que em crianças 6-12 meses, como verificado em crianças residentes na cidade de Salvador, Bahia.21 Já o passo 4, que informa que a alimentação complementar deve ser oferecida sem rigidez de horários, respeitando-se sempre a vontade da criança, evidenciou 61% de acertos (Tabela 4), demonstrando que a prática alimentar acompanha o costume familiar, sendo incrementada alimentação complementar de acordo com a vontade da criança.

No contexto do passo 9, que denota o dever de cuidar da higiene no preparo e manuseio dos alimentos, garantir o seu armazenamento e conservação adequados, verifica-se 88% de acerto (Tabela 4), o que anteriormente não era realidade brasileira. Porém, com a melhoria do saneamento básico e o desenvolvimento de intervenções educativas a higiene alimentar demonstrou melhora evidente.22 A falha na realização adequada do passo 10, que afirma a necessidade de estimular a criança doente e convalescente a se alimentar, oferecendo sua alimentação habitual e seus alimentos preferidos e respeitando a sua aceitação, obteve 70% de erro (Tabela 4), o que é uma situação comum entre os cuidadores. A crença de que a oferta alimentar deve diminuir quando a criança está doente é recorrente, principalmente no que tange a sintomas comuns como diarreia.23

No que se refere ao comparativo entre o conhecimento dos pais nas creches públicas e nas creches particulares, percebemos que aqueles cujos os filhos frequentavam as últimas apresentavam maior grau de conhecimento acerca dos 10 passos, demonstrado pelo percentual de acertos dos mesmos (63,8% contra 48%).

A maior discrepância, em termos de percentual, ocorreu em relação ao passo 7, o qual registrou 82% de acerto nas creches particulares e apenas 50% nas creches públicas. Discrepância significativa foi observada, também, nas comparações do passo 8, que registrou 30% de acerto nas entrevistas realizadas em creches particulares, em detrimento a apenas 8% no ambiente das creches públicas.

Por outro lado, os passos 4, 6 e 10 foram, comparativamente, os que obtivem resultados mais próximos. No entanto, como já percebido, nenhum percentual de acerto da creche pública conseguiu ser mais elevado que o da creche particular. No passo 4, a taxa de acerto foi de 62 contra 60%. No passo 6 a taxa foi equivalente, representando 94%. Por fim, o passo 10 registrou 32 contra 28% (Tabela 3).

Os resultados em questão corroboram a hipótese de que as condições de vida, tanto das crianças quanto de suas famílias, encontram-se intrinsicamente relacionadas ao conhecimento acerca de padrões e estratégias alimentares. Exemplo claro dessa discrepância pode ser demonstrado por recente estudo realizado em Salvador, que indicou que crianças com condições socioeconômicas muito reduzidas, tinham 2,5 vezes mais chances de serem introduzidas à alimentação complementar de maneira precoce.6

A situação em questão agrava-se quando se leva em conta que o oferecimento de alimentação complementar em hora inoportuna está relacionado a maior ocorrência de anemia, doenças infecciosas e comprometimento do crescimento físico da criança.24 O maior benefício da correta alimentação, em tese, seria para as crianças de classes menos favorecidas, tendo em vista que as mesmas podem apresentar, por exemplo, restrições quanto ao acesso de locais promotores de saúde.25,26 Apesar disso, é imprescindível que os pediatras informem e discutam alimentação saudável para todas as crianças, independentemente no nível socioeconômico-cultural da família, já que mesmo em escolas particulares, como observado na Tabela 3, o discernimento acerca dos 10 passos é precário.

 

CONCLUSÃO

Portanto, nota-se que o nível socioeconômico interfere na condução do padrão alimentar da criança, sendo que populações de classes menos favorecidas tendem a ter maior percentual de erros. Desse modo, a correta divulgação do conteúdo dos Dez passos para uma alimentação saudável é necessária para todas as classes sociais. Informações sobre importância e repercussões de alimentação adequada nos dois anos de vida podem contribuir para prevenção e promoção da saúde infantil. O estudo em questão possui como fator limitante o local, isto é, se baseou em apenas uma região, sendo necessária a realização de estudos semelhantes em mais escolas, com o intuito de conquistar dados mais assertivos sobre a realidade brasileira.

 

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