RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 29 e-2014 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20190010

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Artigo de Revisao

Estratégias fisioterapêuticas na deficiência respiratória decorrente da esclerose lateral amiotrófica: revisão da literatura

Physical therapy strategies in respiratory impairment from amiotrophic lateral sclerosis: a literature review

Zaqueline Fernandes Guerra; Anderson Procópio Viana; Allan Bruno Lellis de Carvalho; Amanda Martins Esteves; Maura Roberta de Paula Silva

Universidade Salgado de Oliveira, Fisioterapia. Juiz de Fora, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Zaqueline Fernandes Guerra
E-mail: zaquelineg@gmail.com

Recebido em: 23/03/2018
Aprovado em: 13/11/2018

Instituição: Universidade Salgado de Oliveira, Fisioterapia. Juiz de Fora, MG - Brasil.

Resumo

INTRODUÇÃO: Esclerose lateral amiotrófica (ELA) é uma doença degenerativa e progressiva do sistema nervoso central (SNC), que compromete os neurônios motores superiores e inferiores. As principais deficiências decorrentes desta patologia são motoras e respiratórios, que progressivamente geram incapacidade com graves limitações de tarefas, como às relacionadas à mobilidade e comunicação, o que geralmente resulta em restrições de participação. A grave deficiência de força dos músculos respiratórios, reduzem progressivamente a capacidade vital (CV) e o volume corrente (VC), o que torna o indivíduo dependente da ventilação mecânica, com redução da expectativa de vida. O reconhecimento das particularidades da doença e a escolha de estratégias adequadas de intervenção da fisioterapia respiratória nesta condição clínica, possibilita uma melhor qualidade de vida dentro das várias limitações impostas pela doença.
OBJETIVO: Realizar uma revisão da literatura a cerca das estratégias usadas pela fisioterapia na deficiência respiratórias decorrente da ELA.
MÉTODOS: Foi realizada uma busca nas bases de dados MEDLINE e LILACS, considerando a associação dos descritores fisioterapia, reabilitação, terapia respiratória e esclerose lateral amiotrófica.
RESULTADOS: Considerando os critérios de inclusão do estudo, foram encontrados 452 artigos, dos quais 16 foram analisados por atenderem aos critérios de inclusão.
CONCLUSÃO: A principal estratégia de intervenção da fisioterapia na deficiência respiratória decorrente da ELA encontrada nesta revisão foi o uso da VMNI, o que representou achados de melhora na qualidade de vida e função pulmonar na amostra estudada.

Palavras-chave: Fisioterapia; Acidose Respiratória; Esclerose Lateral Amiotrófica.

 

INTRODUÇÃO

Esclerose lateral amiotrófica (ELA), também conhecida como doença de Lou Gehring, é uma doença degenerativa e progressiva do sistema nervoso central (SNC), que compromete os neurônios motores superiores (NMS) e inferiores (NMI).1,2 A terminologia da doença vem sendo questionada, uma vez que sua fisiopatologia difere consideravelmente de outras condições clínicas também denominadas de esclerose, como é o caso da Esclerose Múltipla, sugerindo-se o uso da denominação doença do neurônio motor. A incidência mundial da ELA é de 1,5 a 2 casos/100.000 e a prevalência de 6-8 casos/100.000. No Brasil, a prevalência estimada varia de 0,9 a 1,5 casos/100.000 e a de 0,2 a 0,32 casos/100.000 habitantes por ano.3-5

Os principais tipos de ELA são a forma esporádica e a familiar. A primeira tem progressão rápida e não se relaciona a envolvimento genético; a segunda apresenta evolução lenta e pode ter início na fase juvenil ou no adulto jovem.6 A evolução típica da doença possibilita a distinção de seis estágios nos quais o indivíduo apresenta progressivamente deficiências que resultam em incapacidades com grau elevado de dependência funcional, variando da independência funcional e mobilidade preservada (estágio I) à restrição ao leito com necessidade de assistência máxima e suporte ventilatório invasivo (estágio VI).7

Embora as deficiências motoras sejam a principal manifestação da ELA, estas resultam em outras deficiências como respiratórias e aquelas relacionadas à deglutição. Progressivamente, a paralisia dos músculos esqueléticos leva à limitações de tarefas relacionadas principalmente à mobilidade, comunicação e aos cuidados pessoais.6 A deficiência respiratória que surge da progressiva paralisia dos músculos respiratórios e reduz a capacidade vital (CV) e o volume corrente (VC) ocasiona, em consequência, insuficiência respiratória crônica.6,8

Tal condição clínica exige a abordagem de uma equipe interdisciplinar, da qual o fisioterapeuta participa, estabelecendo estratégias que possibilitem a manutenção da funcionalidade apesar das limitações graves impostas pela doença.6,9,10 As particularidades desta doença neuromuscular e a possibilidade de um tempo de evolução diferente em cada indivíduo acometido sinalizam a necessidade de um acompanhamento rigoroso da evolução da mesma, possibilitando a escolha de condutas que possam significar efetivamente uma melhora na qualidade de vida destas pessoas. Condutas equivocadas e que não considerem a fisiopatologia da doença podem representar um maior sofrimento ao indivíduo ou mesmo uma redução na expectativa de vida.11

Considerando as particularidades da condição clínica em questão, além da preocupação com o manejo das deficiências motoras, o fisioterapeuta precisa acompanhar a deterioração da função pulmonar, o que geralmente é feito pela análise dos volumes e capacidade pulmonares obtidos através da expirometria ou da força muscular inspiratória obtida a partir do manuvacuômetro.5,6,10,11

Segundo a American Academy of Neurology (AAN),6 a função respiratória nestes indivíduos precisa ser preservada o máximo possível de forma a se evitar o uso precoce da ventilação mecânica invasiva (VMI), com consequente necessidade de traqueostomia. Neste sentido, sugere-se a adoção de exercícios respiratórios associados à assistência ventilatória mecânica não invasiva (VMNI) com a finalidade de melhorar a qualidade de vida, reduzir as complicações respiratórias e aumentar a sobrevida.12

Conhecer as estratégias fisioterapêuticas utilizadas para a deficiência respiratória dos indivíduos com doença neuromuscular possibilita aumentar o embasamento científico das condutas a serem adotadas neste caso, de forma a contribuir para uma maior efetividade terapêutica face às graves limitações do quadro. Desta forma, o objetivo deste estudo foi realizar uma revisão sobre as estratégias usadas pela fisioterapia na deficiência respiratória decorrente da ELA.

 

REVISÃO DA LITERATURA

O presente estudo caracteriza-se como revisão da literatura, abrangendo publicações indexadas nas bases de dados MEDLINE e LILACS, realizada no período de fevereiro a outubro de 2017. O processo de busca destas publicações foi norteado pelo uso de descritores estabelecidos a priori com base na literatura relativa ao tema usados isoladamente ou em associação, a saber: fisioterapia, reabilitação, terapia respiratória, esclerose lateral amiotrófica.

Foram incluídos na presente revisão ensaios clínicos, estudos observacionais e relatos de caso, com acesso aberto no idioma português, inglês ou espanhol e publicados nos últimos dez anos a partir da data da pesquisa. Foram excluídos artigos publicados em anos anteriores a 2007 e revisões de literatura.

Considerando os critérios de inclusão e exclusão do estudo, foram obtidos 452 artigos, dos quais apenas 16 seguiram para a análise descritiva, como é possível acompanhar no fluxograma do estudo (Figura 1).

 


Figura 1. Fluxograma do estudo.

 

A análise qualitativa dos estudos selecionados possibilitou a organização dos dados de forma comparativa, evidenciados na tabela dos resultados (Tabela 1).

 

 

DISCUSSÃO

Considerando o objetivo deste estudo de realizar uma revisão da literatura sobre as estratégias usadas pela fisioterapia no manejo da deficiência respiratória observada nos indivíduos com ELA, observarmos que na maioria dos estudos analisados priorizou-se a manutenção da força muscular respiratória remanescente, sendo identificada como principal conduta a adoção da VMNI. Poucos estudos abordaram a oferta de carga à musculatura respiratória.

Embora o treino específico da musculatura respiratória com a utilização de equipamentos como o threshold não tenha sido utilizado com frequência pelos estudos selecionados nesta revisão, uma recente metanálise sobre o tema sugere que o treino da musculatura respiratória deve ser considerado como conduta complementar no tratamento dos indivíduos com ELA, o que possibilita, segundo os autores, uma melhora da função ventilatória e da força dos músculos respiratórios.13

Seguindo diretrizes internacionais,10 a VMNI deve ser a conduta principal no manejo da deficiência respiratória nesta condição clínica, uma vez que, adotada precocemente, evitará a necessidade do uso da traqueostomia e da VMI, o que resultaria numa expressiva piora na qualidade de vida dessa população e diminuição da expectativa de vida.

Foi possível observar na amostra analisada nesta revisão que o uso da VMNI possibilitou melhora na função respiratória dos voluntários, evidenciada pelo aumento na SaO2, melhora na qualidade de vida e do estado geral de saúde. Também foi possível observar modificações nos volumes e capacidades pulmonares.

Ficou evidente, após a análise, que a utilização da VMI não foi a estratégia mais utilizada e seus efeitos foram semelhantes na função respiratória quando comparados à utilização da VMNI. Ainda a respeito da VMNI, mesmo nas condições clínicas mais graves decorrentes da fadiga da musculatura respiratória com distúrbio acidobásico foi possível a correção da acidose respiratória, com consequente redução da insuficiência respiratória.14,15

A progressiva desnervação do músculo diafragma e intercostais acaba sobrecarregando os músculos sinergistas da ventilação pulmonar, com aumento do gasto energético e consequente desconforto respiratório. Como um dos efeitos observados da VMNI, destaca-se que nos estudos de Georges et al.16 e Gautier et al.9 foi possível observar uma redução do uso de tais músculos e redução do gasto energético anteriormente observado.

Embora a ELA represente uma doença progressiva e fatal, a sobrevida dos indivíduos acometidos parece sofrer influência direta das condutas de tratamento escolhidas, uma vez que foi observada nesta revisão um aumento do tempo de sobrevida quando a VNI foi utilizada. A explicação para tal achado foi justificada pelos autores pela melhora da função respiratória.17,18

O indivíduo acometido pela ELA demanda cuidados de uma equipe interdisciplinar, da qual o fisioterapeuta exerce papel fundamental. É o fisioterapeuta o responsável por acompanhar a deterioração ventilatória que decorre da desnervação de todos os músculos esqueléticos, incluindo os músculos respiratórios. Desta forma, ele pode intervir no momento apropriado e por vezes antecedendo a fadiga e a falência respiratória, com a utilização de recursos como a VMNI, o que permite a preservação da musculatura remanescente e, em consequência, estabilidade da função pulmonar.9-11,19

Proporcionar para esses indivíduos uma sobrevida com qualidade e menos sofrimento deve ser o objetivo principal de todos os profissionais que lidam com os cuidados dos mesmos. Para tanto, é preciso considerar condutas e tratamentos baseados nas evidências científicas disponíveis.

 

CONCLUSÃO

Conclui-se que, entre as estratégias usadas para o manejo da deficiência respiratória decorrente da ELA, a VNI parece ser a mais utilizada, possibilitando melhorias na ventilação pulmonar e na qualidade de vida dos indivíduos acometidos por esta doença.

 

REFERÊNCIAS

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