RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 29 e-2016 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20190012

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Artigo Original

Colonização por staphylococcus aureus resistente à meticilina em pacientes de unidades de terapia intensiva

Colonization by methicillin-resistant staphylococcus aureus in patients of intensive care units

Patricia Guedes Garcia1; Isabela Aparecida Ribeiro da Silva2; Leonardo Romaniello Gama de Oliveira3

1. Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora - SUPREMA, Departamento de Microbiologia. Juiz de Fora, MG - Brasil
2. Laboratório Côrtes Villela, Análises Clínicas. Juiz de Fora, MG - Brasil
3. Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora - SUPREMA, Curso de Medicina. Juiz de Fora, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Leonardo Romaniello Gama-de-Oliveira
E-mail: leonardogama8@gmail. com

Recebido em: 02/07/2018
Aprovado em: 04/02/2019

Instituição: Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora - SUPREMA, Curso de Medicina. Juiz de Fora, MG - Brasil.

Resumo

INTRODUÇÃO: As Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS) são um grande problema de saúde pública no Brasil e no mundo. Nos hospitais, principalmente nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), a relevância das bactérias multirresistentes, tais como Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), é crescente, devido à elevação dos riscos à saúde dos pacientes.
OBJETIVOS: Identificar a prevalência de MRSA em culturas de vigilância epidemiológica através de swab nasal de pacientes internados nas UTIs de um hospital de Minas Gerais.
MÉTODOS: Trata-se de um estudo transversal descritivo retrospectivo, em que os dados foram coletados a partir de livros de registros do laboratório de microbiologia institucional, no período de janeiro a julho de 2014. A análise retrospectiva dos dados foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa institucional de acordo com a Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.
RESULTADOS: Foram analisadas 461 amostras de swab nasal, sendo que 388 (84%) eram provenientes da UTI adulto e 73 (16%) da UTI neonatal e pediátrica. Encontraram-se 45 (9,7%) amostras de cepas de MRSA nas UTIs adulto, neonatal e pediátrica, sendo que, destas, 40 (88,9%) isoladas na UTI adulto e 5 (11,1%) na UTI neonatal e pediátrica.
CONCLUSÕES: A prevalência de pacientes colonizados por MRSA neste trabalho foi de 9,7%. Evidenciou-se a importância do laboratório de microbiologia, a necessidade das culturas de vigilância epidemiológica e descolonização para antecipação ou investigação de surtos de infecção.

Palavras-chave: Staphylococcus aureus Resistente à Meticilina; Infecção Hospitalar; Unidades de Terapia Intensiva.

 

INTRODUÇÃO

As Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS) são um grande problema de saúde pública no Brasil e no mundo. As IRAS podem manifestar-se durante a internação ou após a alta, desde que relacionadas à permanência do paciente na instituição ou a procedimentos hospitalares, sendo responsáveis por aumento das taxas de morbimortalidade, além de prolongar o período de internação, elevando os custos.1-4

No ambiente hospitalar, principalmente nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), a relevância das bactérias multirresistentes aos antimicrobianos é crescente, devido à elevação dos riscos à saúde dos pacientes. Diversos fatores favorecem o fenômeno da multirresistência bacteriana, dentre eles a gravidade da enfermidade, realização de procedimentos invasivos, internações prolongadas, baixa adesão à higienização das mãos, utilização de antibióticos de amplo espectro e por tempo prolongado.1,5-7

Staphylococcus aureus é uma bactéria gram-positiva que coloniza a pele e mucosas dos humanos, sendo também um dos principais agentes causadores de infecção primária da corrente sanguínea, do trato respiratório inferior e de sítio cirúrgico, destacando-se, ainda, como a segunda principal causa de bacteremia, pneumonia e infecções cardiovasculares.8-11

O surgimento de cepas Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA) ocorreu logo após a introdução da meticilina na prática clínica, por volta do início dos anos 1960. Apesar de tradicionalmente MRSA ser um patógeno nosocomial, o aparecimento de casos na comunidade levou à classificação de cepas entre MRSA da comunidade (CA-MRSA) e MRSA do hospital (HA-MRSA).12,13

A colonização nasal por MRSA é considerada um fator de risco nos hospitais, principalmente nos pacientes internados em UTIs, nas quais esse microrganismo é endêmico. O rigor nos cuidados com pacientes internados tem se tornado mais presente, já que o principal veículo de transmissão ocorre através das mãos dos profissionais de saúde.5,13,14

Estudos demostraram que as culturas de vigilância epidemiológica foram essenciais para auxiliar os clínicos e serviços de controle de infecções hospitalar (SCIH) em seus esforços de prevenção da disseminação de microrganismos multirresistentes. A coleta de swab nasal axiliar e/ou inguinal é uma das ações que podem ser incluídas para detectar a colonização por MRSA nos pacientes quando estes são admitidos no hospital e, também, durante o período de internação.15,16

Frente à importância do controle das IRAS, o presente estudo tem por objetivo identificar a prevalência de MRSA em culturas de vigilância epidemiológica através de swab nasal de pacientes internados nas UTIs de um hospital de Minas Gerais, no período de janeiro a julho de 2014.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal descritivo retrospectivo, em que os dados foram coletados a partir de livros de registros do laboratório de microbiologia institucional, no período de janeiro a julho de 2014. A pesquisa foi realizada em um Hospital de Ensino, 100% SUS. A análise retrospectiva dos dados foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa institucional de acordo com a Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.

Foram incluídos os resultados dos laudos de cultura de vigilância epidemiológica de swabs nasais de pacientes internados nas UTIs adulto, neonatal e pediátrica. Seguindo o protocolo institucional, em que a coleta na UTI adulto foi realizada semanalmente e na UTI neonatal e pediátrica quinzenalmente. Os pacientes colonizados por MRSA eram submetidos ao processo de descolonização por meio de banhos com clorexidina 4% e aplicação de pomada de mupirocina (nasal, axiliar e inguinal). Sete dias após esse processo, um novo swab foi coletado para verificar a eficácia da descolonização.8,17 Foram excluídos os resultados de culturas de vigilância epidemiológica de pacientes que estavam internados em enfermarias, sendo considerados apenas os pacientes das UTIs.

As análises descritivas dos dados foram apresentadas por frequência absoluta e relativa. Foi utilizado o software estatístico GraphPad (versão 5.01, GraphPad, La Jolla CA) para o tratamento dos dados.

 

RESULTADOS

Foram analisadas 461 amostras de swab nasal, sendo que 388 (84%) eram provenientes da UTI adulto e 73 (16%) da UTI neonatal e pediátrica. Foram encontradas 45 (9,7%) amostras de cepas de MRSA nas UTIs adulto, neonatal e pediátrica, sendo que, destas, 40 (88,9%) isoladas na UTI adulto e 5 (11,1%) na UTI neonatal e pediátrica, conforme apresentado na Figura 1.

 


Figura 1. Distribuição do número de amostras de swab nasal analisados comparado com o total de amostras positivas para MRSA nas UTIs adulto, neonatal e pediátrica. Os autores.

 

A distribuição das cepas de MRSA isoladas durante os meses analisados estão representadas na Figura 2.

 


Figura 2. Distribuição da porcentagem de amostras positivas para MRSA entre os meses de janeiro a julho de 2014. Os autores.

 

DISCUSSÃO

Staphylococcus aureus pode estar presente na microbiota natural do ser humano, principalmente aderido à narina anterior, apontada então como uma importante via de disseminação desse microrganismo por profissionais de saúde no ambiente hospitalar. A avaliação e investigação de pacientes colonizados por MRSA é uma estratégia útil e efetiva para prevenção das IRAS.17-19

O aumento mundial da prevalência de MRSA, principalmente em hospitais terciários e/ou de ensino, tem provocado infecções graves, enfatizando a importância do levantamento epidemiológico para detectar o desenvolvimento de resistência. Os pacientes infectados por MRSA têm risco maior de mortalidade e de internação prolongada em comparação com os que pacientes não colonizados por MRSA.17,19,20

A prevalência de pacientes colonizados por MRSA no presente trabalho foi de 9,7%. Alguns estudos com pacientes hospitalizados e/ou profissionais de saúde encontraram valores próximos a esse trabalho, variando de 6,6% a 8,3%.13,18,21

O rastreio e o isolamento de pacientes colonizados por MRSA são de grande importância nas UTIs, pois estes setores são considerados reservatórios e fontes de disseminação das bactérias multirresistentes. A precaução de contato é uma medida instituída e representa o uso de um capote ou avental de isolamento com mangas compridas, assim como luvas, que devem ser colocadas antes da entrada na unidade e removidas antes de sair. O Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) é um órgão de assessoria à autoridade máxima da instituição e de execução das ações de controle de infecção hospitalar e tem a responsabilidade de controlar as IRAS.13,22,23

A descolonização dos pacientes com MRSA pode ser realizada pela administração tópica mupirocina e banhos com clorexidina a 4%. Alguns estudos têm demonstrado outras terapias de descolonização, mas um estudo randomizado duplo-cego demonstrou que em unidades de longa permanência a mupirocina pode promover eficaz erradicação e redução das taxas de IRAS.1-3,8,24

A colonização por MRSA nos pacientes da UTI neonatal e pediátrica é um fator de risco para o desenvolvimento de infecções, pois esse patógeno é um dos principais causadores de IRAS nessas unidades. A clorexidina pode ser útil para descolonização de MRSA, todavia, há risco de seu uso em neonatos prematuros devido à absorção sistêmica de clorexidina e alto potencial de toxicidade.25,26

A taxa de colonização no período avaliado foi crescente fato que pode ser justificado pelo desenvolvimento de resistência a mupirocina. O estudo de Moura et al.18 observou significativa resistência em Staphylococcus aureus isolados em dois hospitais no Brasil, portanto, para que a estratégia de descolonização dos portadores seja efetiva, o uso desse anti-microbiano deve ser devidamente avaliado.

Outro fator que pode ter contribuído na disseminação de MRSA nas UTIs é a presença de superfícies e materiais contaminados. Com isso, investigar e rever o processo de limpeza e/ou desinfecção do ambiente é uma alternativa a ser adotada. Alguns estudos têm demonstrando a colonização de MRSA em profissionais de saúde, classificando-os como vetores que colaboram para a ocorrência de surtos de infecções, o que reforça a importância da adequada higiene das mãos.9,13,16,18

O aumento de MRSA nas UTIs também pode estar relacionado à sobrecarga de trabalho dos profissionais de saúde e o aumento no número de pacientes, resultando, dessa forma, na incapacidade de adaptação dos serviços ao número variável de admissão de pacientes e profissionais disponíveis, diminuindo a higienização das mãos por parte destes profissionais.10,16,18

Desta forma, para a redução efetiva das taxas de IRAS, é fundamental que todos os profissionais de saúde trabalhem em conjunto para determinar a melhor estratégia para a gestão de colonização e infecção por MRSA, sendo a principal medida, a adesão à higienização das mãos.

 

CONCLUSÃO

A prevalência de pacientes colonizados por MRSA no presente trabalho foi de 9,7%, o que reitera que pacientes internados colonizados por MRSA são importantes reservatórios e fontes de propagação desse microrganismo. Evidencia-se, desta forma, a importância do serviço do laboratório de microbiologia, a necessidade das culturas de vigilância epidemiológica e da descolonização para a antecipação ou investigação de surtos de infecção.

 

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