RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 29 e-2022 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20190016

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História da Medicina

Paracelso e o Paragranum: ensaio de uma nova medicina?

Paracelsus and the Paragranum: essay of a new Medicine?

Eder Schmidt

Universidade Federal de Juiz de Fora, Psiquiatria, Departamento de Clínica Médica, Faculdade de Medicina. Juiz de Fora, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Eder Schmidt
E-mail: schmidteder.ufjf@gmail.com

Recebido em: 23/12/2017
Aprovado em: 04/04/2019

Instituição: Nome, Sigla estado - País.

Resumo

O artigo avalia o lugar do médico e alquimista suíço Theophrastus Bombastus von Hohenheim (1493-1541), o Paracelso, na história das ciências médicas, e o status de revolucionário que lhe é habitualmente concedido. Seu livro Paragranum, publicado em 1530, traz a mais bem organizada apresentação de suas propostas para a formação e prática médicas, bem como de sua oposição ao estilo de pensamento médico então predominante. O essencial da contribuição de Paracelso ao desenvolvimento das ciências médicas reside na ênfase que colocou sobre a abordagem experimental da clínica, em detrimento dos aspectos especulativos e dogmáticos que predominavam na medicina fundada nas fontes clássicas. Dados de sua biografia e traços de seu caráter excêntrico e beligerante são apresentados com o propósito de melhor contextualizar a obra em questão.

Palavras-chave: História da Medicina; Alquimia; Instituições Acadêmicas; Livros.

 

INTRODUÇÃO

Como aponta Alexandre Koyré,1 os séculos XVI e XVII constituíram um período em que o espírito humano foi objeto de profundas transformações, as quais determinaram grandes alterações nos padrões de pensamento, abrindo espaço para o surgimento da ciência e da filosofia modernas. No entanto, ele nos lembra de que as revoluções consomem tempo e têm uma história complexa, em que as concepções vigentes num período não desaparecem simplesmente de uma hora para a outra.

Ao longo desse tempo necessário, a Revolução Científica foi plantada e se desenvolveu por obra de diversos personagens, cujo traço comum foi o inconformismo frente aos dogmas e tradições vigentes, fossem esses religiosos ou científicos. Ainda assim, eles estiveram inevitavelmente submetidos a uma mesma maneira global de pensar e interpretar os fatos, a um mesmo conjunto de pressupostos científicos conduzindo os questionamentos empreendidos num dado momento - em suma, ao que Ludwik Fleck conceituaria como um “estilo de pensamento”.2 Porém, Fleck também observa que se, num primeiro momento, e por sua tendência a persistir, o estilo de pensamento deixa sua marca em toda a atividade de pesquisa de uma época, noutro ele começa a ser afetado por crescentes contradições, até o ponto em que se decompõe e é substituído por um novo.

Nessa era de contraditores e de hereges de todos os cânones, na Basileia, Philipus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, que viria a se autonomear Paracelso, aproveitava a fogueira do dia de São João de 1527 para queimar livros de Galeno e Avicena, exortando seus alunos a que fizessem o mesmo.3 As reiteradas menções a esse episódio, contudo, poucas vezes vão além de seu aspecto excêntrico, sem compreendê-lo como uma encenação, ainda que farsesca, de um corte no pensamento médico.

Não há dúvida quanto à recorrência do excêntrico na trajetória de Paracelso, mas deve-se considerar que, em vários personagens históricos, a excentricidade veio acompanhada de uma genuína originalidade. Quanto à Paracelso, em que medida essa associação se verifica? Em que medida seu personagem ultrapassa a imagem do alquimista louco e indecifrável e permite vislumbrar o propositor de uma nova clínica, de um novo modelo para a prática médica?

Seus vários escritos foram quase todos publicados após sua morte, a partir dos rascunhos que ele muitas vezes deixaria para trás em suas frequentes mudanças de cidade.4 Dentre eles, Das Buch Paragranun,5 de 1530, é onde ele propõe, na forma mais clara, os fundamentos de uma nova prática médica. Seja por seu caráter rebelde e iconoclasta, seja pela associação de seu nome à inovação, o fato é que o interesse pela figura de Paracelso, por sua história e por suas teorias, permanece surpreendentemente vivo, quase cinco séculos após sua morte, tornando-o mesmo mais popular que outras figuras muito menos controversas.6 Esse lugar de destaque na história das ciências médicas se deve, em grande medida, ao fato de Paracelso ter contribuído decisivamente para estabelecer os fundamentos da medicina empírica moderna, merecendo, por isso, o status de revolucionário.

O objetivo do presente artigo é discutir a pertinência desse status, abordando a oposição de Paracelso ao estilo de pensamento médico fundado dogmaticamente nas fontes clássicas, oposição essa representada no gesto da queima de livros. Certamente, a mais bem organizada apresentação de suas propostas para a formação e prática médicas é encontrada no Paragranum. Ali, em seu estilo característico, ele desqualifica os clínicos de seu tempo, assim como os fundamentos da medicina que ensinavam e praticavam. Para se entender melhor o Paragranum, fez-se, antes, necessária a recapitulação de alguns dados da biografia de seu autor, permitindo a contextualização da obra e dimensionando sua relevância. Ao final, o artigo discute a presença de um “paracelsianismo” na clínica que foi póstuma a Paracelso.

 

“NENHUM MESTRE NASCE EM CASA”

Para quem desejar sustentar a associação entre excentricidade e criatividade, a biografia de Paracelso é, sem dúvida, um magnífico argumento. Ele nasceu em 1493, nas redondezas de Zurich. Seu pai, médico, teria ensinado ao único filho, ainda jovem, rudimentos de alquimia, cirurgia e medicina, encaminhando-o depois para um mosteiro, onde sua educação prosseguiu. Tendo lido muito cedo os livros do ocultista Isaac, o Holandês, apaixonou-se pela alquimia e, aos 16 anos, ingressou na Universidade da Basileia, sendo acolhido, a seguir, pelo abade Johannes Trithemius, de Würzburg, uma das maiores autoridades de seu tempo em magia, alquimia e astrologia, cultivando com ele seu talento para o ocultismo.7

Em Paracelse: 1493-1541, Koyré indaga: “quem era esse vagabundo genial?”.8 Um sábio moderno, um médico erudito em luta contra a medicina clássica? Ou um charlatão ignorante, supersticioso, cabalista, herdeiro tardio do misticismo da Idade Média, obcecado pela transmutação de metais? Afinal, sua biografia é repleta de dúvidas quanto a fatos e fontes. Ele nascera em Einsiedeln, ou em Croire, a 100 quilômetros da primeira?9 Teria ele sido emasculado aos três anos, vítima do sabre de um soldado bêbado, ou vítima da mordida de um porco?3 Ou a história de sua emasculação não seria mais do que uma estratégia de difamação orquestrada por seus incontáveis inimigos?7 Sua trajetória acadêmica teria incluído vários centros de ensino, em diversas regiões da Europa, com passagens pelo Oriente Médio, onde viria a adquirir muitos dos elementos de sua medicina. Ele teria se formado em medicina em Ferrara, em 1515,10 embora se afirme também que ele jamais concluiu qualquer curso médico.11 De fato, a única asserção de que ele possuía um diploma é seu próprio testemunho durante um processo por inadimplência que moveu contra um paciente da Basileia.12 Por outro lado, o pseudônimo Paracelsus significaria além de Celso, autor romano que, embora leigo, redigiu no século I A.D. uma ampla enciclopédia médica.6 Mesmo quanto à sua precoce e misteriosa morte, aos 48 anos, há evidências de que ela tenha resultado de um ataque traiçoeiro perpetrado por agressores contratados por médicos de Salzburg, onde viveu seus últimos anos, irritados com suas provocações.7 Há também a versão de que ele morrera em decorrência de ferimentos recebidos numa briga de taberna,10 além da hipótese de sua morte ter sido consequência dos longos anos de exposição aos vapores tóxicos produzidos por seus experimentos em laboratório.13

Qualquer que tenha sido a natureza de sua educação formal, o fato é que durante longo tempo ele deixou de lado as escolas médicas, empreendendo longas viagens colecionando um conhecimento anedótico sobre as doenças e seus tratamentos. Em sua opinião, “as universidades não ensinam todas as coisas; é necessário ao médico buscar as criadas, os boêmios, as tribos errantes, os soldados e pessoas fora da lei, para aprender com todos”.13 Paracelso circulou, assim, por diversas cidades e aldeias, tratando enfermos, processando e vendendo remédios, elaborando horóscopos, mas, acima de tudo, recolhendo junto aos mais baixos estratos do povo as informações sobre os procedimentos que comporiam parte importante de sua medicina.13

Esse arsenal absolutamente popular teria sido várias vezes eficaz onde a medicina erudita falhara, despertando tanto admiração quanto inveja. Justificando sua natureza errante, na quarta de suas Sieben Defensiones, ele argumenta que “nenhum mestre nasce em casa (...) As doenças vagam pelo mundo e não permanecem em um só lugar. Conhecerá bem as doenças quem também vagar. Se um homem deseja compreendê-las, ele deve vagar também”.14 E acrescenta: “Um médico deve ser também um alquimista. Ele precisa, então, ver a mãe natureza lá onde ela faz surgir seus minerais; e como a montanha não vem a ele, ele deve ir à montanha”.14

 

BASILEIA: ARROGÂNCIA E HUMILHAÇÃO

O célebre episódio da queima dos livros foi apenas uma das ocorrências na tumultuada convivência de Paracelso com os médicos da Basileia. Chamado à cidade para intervir sobre um ferimento intratável na perna do importante editor Johannes Frobenius, a cura espetacular alcançada transformou-o em uma celebridade local.15 Por seu prestígio, foi nomeado Médico da Cidade, o que, além de um excelente salário, outorgava-lhe o direito de lecionar na Faculdade de Medicina e de fiscalizar as fórmulas desenvolvidas pelos farmacêuticos.11 Era de se esperar que tais prerrogativas atraíssem fortes sentimentos de rivalidade.

Nessa delicada situação, talvez fosse mais prudente e político adotar uma atitude de reverência à instituição universitária, contemporizar as agressões da parte de colegas e procurar inserir progressivamente suas ideias sobre a formação médica no meio acadêmico e profissional. Nada disso, contudo, foi feito. A natureza beligerante e inflexível de Theophrastus só contribuiu para o acirramento dos ânimos. Reverenciado por uma parte dos estudantes, estimado por setores da sociedade e protegido por Frobenius, ele provocava seus colegas tradicionalistas. A mais ruidosa dessas provocações foi a lendária queima pública dos livros clássicos, fundamentos do ensino médico vigente.15 No Prefácio ao Paragranum, ele explicita sua intenção de fazer com que o conteúdo desastroso daqueles livros se perdesse como a fumaça no ar.5

Com a morte de seu amigo e protetor, ele perdeu a garantia de sua posição social em Basileia, abrindo caminho para o escárnio, as difamações e as calúnias anônimas contra ele. Além de ser comparado pejorativamente ao “herege” Martinho Lutero,5 um grupo de alunos, incitados por seus professores, fez circular um poema — “O fantasma de Galeno contra Theophrastus, isto é, Cacophrastus” — em que Galeno, da sepultura, desautorizava o médico “Cacophrastus”.16

O ponto culminante do litígio com a Basileia foi o insulto a um juiz local após uma sentença desfavorável naquela ação judicial em que reivindicava honorários.15 Tendo feito circular pela cidade um panfleto colocando em dúvida a integridade do magistrado, foi expedida contra ele uma ordem de prisão, pelo que teve que fugir da cidade à noite, rumando para a região de Nuremberg e deixando seus pertences e rascunhos com o secretário Johannes Oporinus.11

Não era propriamente uma redenção o que esperava por Theophrastus em Nuremberg. Após o episódio na Basileia, outro grande revés lhe aguardava. O ponto de partida para mais essa querela foi o primeiro volume de seu livro sobre a sífilis, com uma crítica contundente ao tratamento corrente para a doença — a fumigação de um preparado de Guaiacum Officinale, madeira importada com exclusividade das índias pela poderosa casa comercial de Johann Fugger.17 Além de desqualificar clinicamente o valor do fármaco, Paracelso ironizou esse monopólio, afirmando que os únicos beneficiários do tratamento eram os cofres da família Fugger.12

Como resultado, as autoridades de Nuremberg convocaram, a pedido dos importadores, o diretor da Escola de Medicina de Leipzig, Heinrich Stroner, para avaliar as críticas de Paracelso. Stroner, no entanto, tinha investimentos próprios nas cargas que eram trazidas das índias pelos navios dos Fugger e, muito provavelmente, seu parecer foi influenciado por esse viés: ele ratificou o tratamento em voga e levou a municipalidade de Nuremberg a proibir a publicação dos demais volumes da obra de Paracelso.18

A redação do Paragranum se iniciaria pouco depois de Paracelso deixar Basileia. A obra, publicada em 1530, apresenta e desenvolve sua visão sobre os quatro fundamentos da Medicina: a filosofia, a astronomia, a alquimia e a virtude. Paralelamente, ela condenava a formação médica calcada na mera transmissão dos dogmas da Antiguidade. Foi por essa medicina que ele tentou mudar o currículo da Faculdade da Basileia, acabando por ser vencido pelos galenistas.

 

AS DIVERSAS “MEDICINAS” E SUAS FONTES

A descoberta de antigos manuscritos sobreviventes nas bibliotecas de mosteiros é uma característica marcante da passagem do período medieval para o renascentista. Com eles surgia, a partir do século XVI, um crescente interesse pela ciência e pela medicina da Antiguidade.4 Os textos de Hipócrates e Avicena se tornaram referências para a medicina então vigente, mas o grande fundamento da medicina renascentista seria a obra de Claudio Galeno (130-210), de Pérgamo.

Paralelamente, no entanto, a redescoberta do Corpus Hermeticum foi também determinante dos caminhos seguidos pelas ciências médicas na Renascença. O Corpus Hermeticum era um conjunto de escritos abrangendo alquimia, filosofia, teologia e astrologia, atribuídos a Hermes Trismegistus, personagem das mitologias grega e egípcia.19 Tendo sido redigidos nos primeiros séculos da era cristã, eles foram divulgados na cultura moderna a partir das traduções de Marcílio Ficino a partir de 1463, despertando o interesse pela magia e pela a relação do homem com o macrocosmo.

A Espagiria, ou “medicina hermética”, era a aplicação das leis da alquimia à clínica, buscando-se, em laboratório, isolar a matéria essencial da matéria grosseira de um corpo qualquer, para transmiti-la com suas virtudes ao indivíduo cuja saúde estivesse abalada. Haveria uma relação entre as três dimensões do macrocosmo — o mundo material, o mundo astral e Deus - e as três dimensões do homem ou microcosmo - o corpo, a alma e o espírito -, cujas forças constitutivas, por sua vez, seriam o enxofre, o mercúrio e o sal.20 Todas as doenças expressariam um desequilíbrio na ação desses elementos, revertido com a utilização das tinturas, quintessências e elixires obtidos no trabalho laboratorial.

A medicina galênica, por outro lado, prescindindo da experimentação, partia da tradição grega, pressupondo a existência de quatro elementos — o fogo, o ar, a terra e a água — referidos aos quatro humores — o sangue, a bile amarela, a atrabile e a fleuma — sendo necessário que cada um desses quatro elementos se associasse a duas entre quatro qualidades opostas — o frio, o quente, o seco e o úmido. A sanidade, ou eucrasia, corresponderia ao equilíbrio entre esses diversos fatores, enquanto a doença, ou discrasia, seria um produto do desequilíbrio entre eles, exacerbando alguma dessas qualidades. Nesse sentido, a terapêutica consistiria em reforçar a qualidade contrária, restabelecendo o equilíbrio.21 Desconsiderando a constituição dos elementos curativos, a farmacologia galênica se distinguia radicalmente da terapêutica espargírica, laboratorial, elaborada a partir da essência de seus elementos. Na prática, assumindo dogmaticamente as teorias dos autores clássicos, a medicina do início do século XVI era exercida e ensinada desde uma perspectiva tradicionalista.

Nesse cenário, Paracelso, partindo do hermetismo, buscava fugir do estilo de pensamento então hegemônico, entendendo o homem como um microcosmo: uma representação perfeita do macrocosmo em que habitava, e cujo corpo era dotado de órgãos que podiam ser postos em conexão com os astros. Essa correspondência se estenderia, igualmente, à terapêutica, sendo necessário que o remédio prescrito estivesse em conjunção com os astros. Caso contrário, ele apenas “permaneceria no estômago, sairia pelo intestino em seguida, e ficaria sem efeito”.5

O estereótipo da alquimia como uma ciência cuja meta era a gananciosa transformação de metais comuns em ouro era, segundo Paracelso, equivocado. A transmutação seria apenas uma forma de intervenção sobre a matéria a fim de elevá-la ao valor máximo na natureza — o Ouro, o metal mais perfeito. Também para o homem, o que a alquimia procurava experimentalmente era algo além da mera cura de suas doenças, pretendendo conduzi-lo à perfeição.

Um desdobramento dessa teoria era a possibilidade da ressurreição das coisas e dos seres vivos, incluindo os seres humanos. Na abordagem da ressurreição das coisas naturais, livro sexto da obra De Natura Rerum, Paracelso afirmava: “Tudo quanto a Natureza destrói, o homem não pode restaurar. No entanto, o que o homem destrói, ele pode restaurar e, uma vez restaurado, destruir novamente”.20

A continuidade da vida e a preservação dos corpos se devia a uma força vital a que Paracelsus dava o nome de “archeus”.18 Localizado no estômago, caberia a esse “alquimista interno” separar, em meio àquilo que ali chegava, os alimentos dos venenos. Para ele, a diferença entre o remédio e o veneno estaria na dose: “Todas as coisas são veneno e nada é desprovido de veneno. Somente a dose faz com que uma coisa não seja veneno!”14

 

O PARAGRANUM

Após os episódios vividos na Basileia e em Nuremberg, Paracelso seguiu para St. Gall, onde permaneceu durante dois anos, sob a proteção do prefeito Joachim Vadianus,6 redigindo o Paragranum e o Opus Paramirum, repetindo por mais duas vezes o prefixo “para”: Paragranum, Parágrafo, duas obras intituladas Paramirum, uma delas com um capítulo Parenthesis, além, é claro, do pseudônimo que ele adotou. Ainda que não haja um consenso entre os estudiosos do pensamento paracelsiano, entende-se que aquele prefixo expressaria a intenção de Theophrastus de ir além de.22

“Ir além”, nesse momento, significaria sustentar teoricamente a posição crítica que adotara em Basileia perante os médicos e os acadêmicos representantes da medicina tradicional, com a proposta de se impor ao modelo de formação e prática médicas que ele considerava falso e corrupto. No prefácio ao Paragranum ele afirmava: “Eles me acusam por eu escrever coisas diferentes das que são encontradas em seus escritos. Isso não acontece por ignorância minha, mas pela deles”.5 E, logo adiante, ele declarava explicitamente a proposta da obra: “Estabelecerei, portanto, a base a partir da qual a minha escrita prossegue, colocando-a em quatro pilares: a filosofia, a astronomia, a alquimia, e a virtude”.5 E mais uma vez atacava os galenistas: “Eles são os inimigos da filosofia, da astronomia, da alquimia e das virtudes”.5

No Paragranum, ele transforma esses quatro pilares (que, em essência, já circulavam por outros textos), em uma doutrina. Repleto, desde o prefácio, de ressentidas críticas, não só contra seus detratores em Basileia, mas também contra as autoridades de Nuremberg e os seguidores de Stroner, a obra desfia um rosário de denúncias éticas contra os tradicionalistas: “Esse método de aprendizagem é doutoral ou assassino? (...) Deus fez a medicina para que ela desse, e não tirasse, a vida”.5

Para ele, a filosofia seria a mãe da medicina.5 O médico — ou philosophus — deve ser conhecedor dos céus e da terra, cada uma dessas dimensões dando origem a um aspecto de seu trabalho. Ele deve entender que o céu e a terra constroem o Microcosmo e saber identificar as condições de ambos a partir daquele. Sendo assim, o philosophus não percebe nada no céu e na terra diferente daquilo que ele percebe no ser humano, e vice-versa.

A importância de se entender o homem trazendo em si o Universo, e a afirmação desse entendimento como atributo essencial para o verdadeiro médico, são centrais no capítulo Astronomia. Ela seria a ciência que busca elucidar com a relação entre o micro e o macrocosmo, entre a Esfera Superior, ou o “grande mundo”, e a Esfera Inferior, o “pequeno mundo”. O mal que aflige o homem provém de influências astrais invisíveis atuando sobre o corpo. Para o sucesso de um tratamento, seria necessário identificá-las.

A alquimia seria a mais elevada e grandiosa arte médica, e, caso o médico não tivesse grande experiência nesse campo, toda a sua prática seria em vão.5 Mais do que a mera elaboração de medicamentos, o exercício da medicina englobaria todos processos da vida, em uma alquimia aplicada. Só ela possibilitaria a compreensão da química da vida e dos processos vitais, permitindo um tratamento. Kahn observa que, abominando seu uso na proposta de fabricação do ouro, a alquimia era, segundo Paracelso, uma técnica para a purificação das substâncias, especialmente minerais, extraindo delas sua essência mais sutil e possuidora de uma capacidade curativa, a que ele denominava arcanum.23 Esse princípio ativo, o arcanum, traria a propriedade curativa intrínseca existente nos corpos e em cada substância, assim como nas pedras e nos metais. Nele repousaria o princípio da cura; identificá-lo e isolá-lo representaria a conquista maior para um médico. Repetindo o que afirmara ao discutir a astronomia, ele advertia que uma medicação deveria trazer a concordância entre a virtude nela contida, o arcanum, e os astros. Caso contrário, ela permaneceria inativa no estômago até ser expulsa com as fezes.

Após descrever os três primeiros pilares da medicina, Paracelso aponta para aquilo a que está condicionado o desempenho desse ofício: a virtude. Sem ela, o médico não difere dos lobos que tomam para si as ovelhas, retirando dos pacientes tudo o que eles possuem.5 O médico deve ser puro e casto; sua bondade deve afastá-lo da concupiscência, do orgulho, da astúcia e de outros sentimentos semelhantes. Ele deve proceder em conformidade com a ordem estabelecida pela natureza, e não pelo homem, já que o médico não está sujeito ao ser humano, mas somente a Deus, pelo caminho da natureza. A lealdade do médico não se resumiria à atenção que dedica ao paciente: ela teria início no empenho em aprender o que é necessário para sua prática. A virtude, um fundamento trazido do berço, estaria distante dos velhos médicos “cultivados na deformidade, cobertos de musgo e enredados na podridão”.5

 

OS SÉCULOS SEGUINTES

Segundo Didier Kahn23, entre a metade e o final do século XVI teria ocorrido uma importante e entusiasmada releitura dos escritos de Paracelso. O interesse pelo autor, que pouco após sua morte passaria a ser admirado como mestre da alquimia, desdobrou-se em um interesse pela própria alquimia — ainda que vários de seus seguidores, convenientemente, desconsiderassem a rejeição do “mestre” à transmutação de metais em ouro. Além disso, teria havido outro ponto de grande interesse na obra de Paracelso: a palingênese, técnica de ressurreição a partir das próprias cinzas, a restauração de seres vivos e inanimados, resgatada por Joseph du Chesne (1546-1609) em texto baseado no De natura rerum, de grande influência sobre os cientistas franceses do século XVII,24 reabrindo na França a querela Galeno — Paracelso.

Em Paracelsus and his Influence, Jules Andrieu25 apontava: “Louco, charlatão, impostor — junto aos historiadores, nenhum adjetivo é ruim o suficiente para ele; e ainda assim eles são forçados a admitir que este aventureiro impudente desencadeou uma revolução necessária”.25 Mas, antes de qualificar a revolução instaurada por Paracelso, é necessário indagar se ele, efetivamente, desencadeou alguma revolução. Uma “revolução científica”, no sentido proposto por Kuhn,26 certamente não. Afinal, para Kuhn, a implantação de um novo paradigma pressupõe a rejeição radical do anterior, tornando praticamente impossível a assimilação dos antigos conceitos aos conceitos adquiridos. Esse não foi o caso, com Paracelso. A aceitação do paracelsianismo não se deu à custa da rejeição do galenismo. Um exemplo da convivência das doutrinas galênica e paracelsiana pode ser encontrada na abordagem dos “Princípios reguladores da Medicina”, na Encyclopaedia organizada por Johann Alsted, publicada em 1630.27 Ali é proposta uma cuidadosa consideração das diferenças e convergências entre a medicina galênica e a hermética, para que se pudesse discriminar entre as situações em que se deveriam utilizar princípios galênicos ou princípios herméticos.

Porém, à parte as teorias de Kuhn, seria válido tomar como revoluções eventos que determinaram mudanças conceituais profundas, com a aceitação de novos postulados e novas formas de conhecimento, fazendo surgir teorias que abarcavam esses e outros elementos. Isso o paracelsianismo provocou, e o Paragranum é uma marca desse corte. Henry Patcher11 entende que uma revolução paracelsiana deva ser considerada parte do movimento renascentista, comparando Paracelso a Copérnico, por ter lançado um novo olhar sobre a relação entre o micro e o macrocosmo.

Mas, e quanto a um verdadeiro “paracelsianismo”? Teria havido algo que merecesse tal nome? Segundo Pumfrey,28 essa suposta tendência doutrinária teria sido, em grande medida, uma construção de historiadores que, destacando um emaranhado de conhecimentos remotamente baseados nas inovações de Paracelso, tentavam construir um sistema inteligível e coerente. Para Kahn,23 por outro lado, o paracelsianismo teria sido, de fato, uma vasta corrente de ideias apoiadas no pensamento de Paracelso, ainda que possa ser difícil conceituá-lo com clareza. Ele considera que essa corrente, ao fim da Renascença, repousava sobre suas ideias a respeito da filosofia da natureza, da medicina, da alquimia, da magia e da astrologia.

Hugh Crone18 lista alguns pontos característicos de um paracelsianismo: a rejeição às autoridades médicas da Antiguidade, a ênfase na química, a noção da existência de agentes específicos atuando sobre cada órgão, a capacidade do corpo para curar a si mesmo e o dever médico de respeitá-la, o macrocosmo refletido no microcosmo, entre outros.18

Por outro lado, para Harry Coulter,29 haveria uma dificuldade de se encontrar um princípio organizador para a obra paracelsiana pelo fato de ele ter sido, a um só tempo, filósofo, místico, alquimista, astrólogo, além de um homem profundamente religioso. Coulter entende que a abordagem mais correta do pensamento paracelsiano seria a partir da experiência de Paracelso como médico, por entender que todas as suas outras faces surgem a partir de uma meta inicial, basicamente, a cura de enfermos. Para Coulter, portanto, sua clínica seria o denominador comum entre as diversas facetas do seu pensamento. Quanto às incoerências em seu corpo teórico, elas decorreriam do fato de que suas teorias emergiam diretamente de sua prática, fazendo com que diferentes experiências conduzissem a diferentes teorias, que nem sempre remetiam a uma lógica unificada. Deve-se acrescentar que, em sua maior parte, o texto de Paracelso é de difícil compreensão, articulando conceitos datados e derivados do hermetismo, de pouca clareza para o leitor contemporâneo, o que inspira interpretações presentistas.

Para Jean Baptista van Helmont (1579-1644), que encampou muitos de seus conceitos, Paracelso foi um precursor da verdadeira medicina, enviado por Deus, e quase um século e meio depois de sua morte elementos de sua iatroquímica ainda poderiam ser encontrados em Thomas Willis (1621-1675), professor de Filosofia Natural em Oxford. Desconsiderando a fisiologia humoral de Galeno, Willis entendia que os movimentos do corpo e da alma seriam regidos pelas reações químicas entre as partículas constituintes do próprio corpo, Espírito, Enxofre, Sal, Água e Terra.

Paracelso, sua química e sua história foram temas para personagens de peso no ensino médico dos séculos seguintes. William Cullen (1710-1790), catedrático de Química em Edimburgo na segunda metade do século XVIII, citava Paracelso como protagonista de uma considerável revolução na química e na medicina, atribuindo a ele a descoberta e a o uso clínico de vários medicamentos.17 Essa importância foi ratificada por Louis Bourget,9 catedrático em Terapêutica na Universidade de Lausanne. Para ele, Paracelso defendia o rigor no estudo dos medicamentos, atribuindo a cada um deles virtudes especiais, identificando um grande número de propriedades ainda não exploradas no uso cotidiano.

 

CONCLUSÃO

De maneira geral, as contribuições de Paracelso que chegaram à medicina atual não são muitas. Koyré8 menciona os medicamentos metálicos e o ópio. Quanto à descoberta do éter como anestésico, Pagel12 coloca em dúvida sua autoria, enquanto Crone18 questiona se Paracelso o teria empregado dessa maneira, já que relata com clareza seu uso apenas na epilepsia. O que é nele inquestionável é a consolidação de uma medicina laboratorial e de uma clínica baseada na observação, constituindo as duas dimensões de seu empirismo.

Independentemente de ter havido, ou não, contribuições duradouras à clínica, ou de ter existido, ou não, um movimento bem caracterizado a que se possa chamar paracelsianismo, as ideias de Paracelso impuseram um ruidoso questionamento à formação e à prática médicas. Talvez não se possa mesmo reencontrar muito de seus conceitos em autores posteriores, mas, como enfatiza Patcher,11 Paracelso construiu uma teoria que pressupunha um funcionamento da natureza regido por leis, e que retirava o ser humano no centro do universo. Para além das turbulências de sua vida, ele desencadeou um processo de ampliação e reformulação do conhecimento, que levou a mudanças equivalentes a uma revolução científica.

De seu estilo agressivo surgiam repetidas desqualificações dos médicos e da medicina clássica, como em seu Volumen medicinae paramirum: “Não imagine que nós não conheçamos seus livros só porque não os seguimos. Não o fazemos, porque não nos agrada o estilo de sua escrita e suas atitudes, e porque vocês são equivocados e inexperientes, como demonstraremos mais detalhadamente”.30 Pode-se dizer que o tempo demonstrou que, nessa querela, todos estavam parcialmente equivocados. No entanto, tanto os clássicos quanto Paracelso permanecem vivos, cada um com seu quinhão de acréscimos, de curas e de reconhecimento.

Paracelso esteve imerso numa atmosfera revolucionária, em um período marcado por profundas transformações que, de alguma maneira, foram antecipadas e preparadas pelo próprio movimento — ou desenvolvimento — da ciência. Em seu tempo, vários nomes se empenharam em levar à frente as inovações que emergiam nas diversas áreas. Algum outro poderia ter assumido o difícil encargo de sintetizar intuições dispersas, arcando com o custo de romper com o modelo vigente. Poderia, sim, algum outro tê-lo feito, mas quem assumiu o encargo foi o excêntrico Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, o Paracelso, um suposto detentor do poder de transformar os metais em ouro, pretensamente instruído por Deus sobre como prolongar a vida, mas que morreu pobre e difamado com apenas 48 anos.

 

REFERÊNCIAS

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