RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 29 e2030 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20190021

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Artigo Original

Um paradoxo: O conhecimento e a exposiçao aos fatores de risco para acidentes de trânsito entre universitários

A paradox: Undergraduate's knowledge and exposure to risk factors for traffic accidents

Michelle Mendes Reis 1; Ana Clara Costa Cancellieri1; Camille Alves Amaral1; Flávia Viegas Nascimento Gutierrez1; Letícia Guimaraes Carvalho de Souza Lima2; Analina Furtado Valadao3

1 Acadêmica do curso de Medicina do Instituto Metropolitano de Ensino Superior/IMES - Univaço, Ipatinga, MG - Brasil
2. Médica graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Médica pediatra da Fundaçao Sao Francisco Xavier. Pós-graduaçao Lato Sensu Auditoria em Saúde. Mestre pela USP (Universidade de Sao Paulo)/IPEN. Professora e coordenadora de curso do Instituto Metropolitano de Ensino Superior/IMES – Univaço, Ipatinga, MG - Brasil
3. Farmacêutica. Doutora em Bioquímica e Imunologia (UFMG). Docente do curso de Medicina do Instituto Metropolitano de Ensino Superior/IMES – Univaço, Ipatinga, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Analina Furtado Valadao
analina.valadao@univaco.edu.br

Recebido em: 21/02/2019.
Aprovado em: 08/07/2019.

Instituiçao: Instituto Metropolitano de Ensino Superior, Medicina - Ipatinga - Minas Gerais – Brasil.

Resumo

INTRODUÇAO: No Brasil, os acidentes de trânsito estao entre as causas mais frequentes de morte de adolescentes e adultos jovens de 15 a 29 anos. Dentre os principais fatores de risco, estao as atitudes dos motoristas, como exceder a velocidade, dirigir cansado e/ou com sono ou sob a influência do álcool e drogas, utilizar celular e fazer ultrapassagens em locais proibidos.
OBJETIVO: Avaliar o conhecimento de estudantes universitários sobre a segurança no trânsito e a exposiçao deles a fatores de risco para acidentes de trânsito.
MÉTODOS: Estudo transversal, quantitativo e exploratório, realizado no período de outubro de 2016 a março de 2017, com a participaçao de universitários de 18 a 29 anos de idade, de instituiçoes do município de Ipatinga, Minas Gerais. Para a coleta de dados, foi utilizado um questionário semiestruturado.
RESULTADOS: Dos 747 participantes da pesquisa, 51,1% eram do sexo feminino. Os fatores de risco para acidentes de trânsito mais citados foram dirigir sob influência do álcool (81,1%), desrespeitar as leis de trânsito (59,4%) e ultrapassar a velocidade permitida (59,0%). Os mais frequentes fatores de risco em que universitários incorreram como condutores de veículos foram: ultrapassar a velocidade permitida (70,6%), dirigir com sono/cansado (43,8%), utilizar celular (39,1%), ultrapassar em locais proibidos (30,2%) e dirigir sob a influência de álcool (20,6%). Observou-se que universitários masculinos ficaram mais expostos aos fatores de risco (p < 0,05).
CONCLUSAO: Apesar de esses estudantes reconhecerem os principais fatores de risco para os acidentes de trânsito, esse conhecimento nao os levou a adotarem comportamentos mais seguros.

Palavras-chave: Acidentes de Trânsito; Fatores de Risco; Estudantes.

 

INTRODUÇAO

A extensao e a gravidade dos acidentes de trânsito ficam evidentes nos dados apresentados pela Organizaçao Mundial da Saúde (OMS), que estima, no planeta, a ocorrência anual de 1,2 milhoes de mortes e de 50 milhoes de pessoas que sofrem lesoes em decorrência desses acidentes.1 Aproximadamente 50,0% dos óbitos acontecem com motociclistas (23,0%), pedestres (22,0%) e ciclistas (4,0%),2 grupo de usuários fragilizados que, junto aos demais usuários das vias públicas, carecem de mais segurança.3

No mundo, entre adolescentes e adultos jovens de 15 a 29 anos de idade, os acidentes de trânsito constituem a principal causa de óbito,2 sendo, aproximadamente, 73,0% das vítimas do sexo masculino.4

Os dados do Ministério da Saúde a respeito das mortes por acidentes de trânsito mostram que, no Brasil, em 2015, ocorreram 39.543 óbitos, e, destes, 8,0% foram de adolescentes de 15 a 19 anos, percentual que aumentou rapidamente entre os adultos jovens de 20 a 29 anos, faixa etária que concentrou o percentual mais alto (23,9%) das mortes no trânsito.5 Esses números mostram a relevância com que as questoes relativas à segurança no trânsito devem ser abordadas, em especial, entre os jovens.

Entre os principais fatores de risco relacionados ao comportamento das pessoas, estao a velocidade excessiva ou inadequada; ingestao de bebida alcoólica e substâncias que têm açao no sistema nervoso central; motociclistas que deixam de usar capacetes; distraçao nas vias públicas, especialmente, em decorrência do uso de celular.4 Quanto às leis de trânsito, há a necessidade de criaçao de mecanismos que possibilitem o cumprimento delas.4

Nesse contexto, Colicchio & Passos6 destacam a importância de se conhecer a frequência com que os jovens adotam atitudes de risco no trânsito, uma vez que esse grupo etário é o mais suscetível para os acidentes. Ademais, na visao atual, a maioria dos acidentes de trânsito é considerada previsível e prevenível;7 sendo assim, buscar medidas que visam à prevençao desse tipo de acidente devem ser consideradas sempre como prioritárias por parte das autoridades.

Nesse contexto o objetivo da atual pesquisa é analisar o conhecimento dos universitários a respeito dos fatores de risco para a ocorrência de acidentes de trânsito, bem como o comportamento deles no trânsito.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo de caráter transversal, quantitativo e exploratório, realizado no período de outubro de 2016 a março de 2017, com a participaçao de universitários de três estabelecimentos de ensino superior, localizados no município de Ipatinga, Minas Gerais, que aceitaram participar do estudo.

De acordo com o número de discentes matriculados nas instituiçoes participantes, considerou-se a populaçao de 5289 universitários. Foi realizado, entao, o cálculo amostral com o uso do programa Open Epi 3.03, levando-se em consideraçao os seguintes parâmetros: prevalência de comportamento de risco no trânsito estimada de 50,0%, 99,0% de confiança e nível de significância de 5,0%, sendo o número obtido de 359 universitários. A fim de suprir eventuais perdas, realizou-se acréscimo de 20% ao resultado obtido, totalizando, dessa forma, uma amostra necessária de 432 pessoas. Entretanto, ao fim da coleta de dados, foram contabilizados 747 questionários preenchidos, todos contemplando os critérios de inclusao previamente estabelecidos para o estudo.

Todos os universitários da faixa etária de 18 a 29 anos desses estabelecimentos foram convidados a participar da pesquisa. Participaram aqueles que assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foram excluídos os universitários que nao responderam a, no mínimo, 80% do questionário.

Para a coleta de dados, foi utilizado um questionário contendo perguntas referentes aos dados sociodemográficos e questoes visando averiguar os aspectos relacionados ao conhecimento dos universitários sobre fatores de risco para acidentes de trânsito, bem como suas atitudes no trânsito. Antes de ser aplicado aos participantes da pesquisa, o questionário foi testado em uma turma de 30 universitários, e, a partir disso, foram feitas adequaçoes necessárias antes do início da coleta de dados.

No tratamento dos dados obtidos, utilizou-se o programa EPI INFO versao 7.2.0.1. Os resultados obtidos foram analisados com índice de confiança de 95,0%, sendo considerados significativos resultados com p-valor menor do que 0,05. Posteriormente, realizaram-se análises descritivas por meio de tabelas e gráfico. Para se estabelecer uma comparaçao entre os fatores de risco para acidentes de trânsito com as variáveis faixa etária, sexo e estado civil, foi utilizado o teste Qui-quadrado de Mantel-Haenszel.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais, em 29 de agosto de 2016, sob o parecer de número 1.701.071, 58481516.6.0000.5095.

Como possível limitaçao do estudo, destaca-se o uso de questionário como instrumento de coletas de dados, uma vez que muitos universitários podem ter omitido atitudes de risco no trânsito ou superestimado a adoçao de comportamentos de segurança.

 

RESULTADOS

Participaram da pesquisa 747 estudantes de nível superior da faixa etária de 18 a 29 anos. Houve predomínio de participantes do sexo feminino (51,1%). Na Tabela 1, apresentam-se os dados sociodemográficos dos participantes da pesquisa.

 

 

Entre os universitários, 74,8% responderam que possuem Carteira Nacional de Habilitaçao (CNH) e 40,5% habilitaram-se há menos de 3 anos. Dos universitários, 58,9% sao proprietários de veículos, sendo que 58,6% possuem carro. Na Tabela 2, sao apresentados os dados detalhados.

 

 

No questionário, solicitou-se aos universitários que citassem os principais fatores de risco para a ocorrência de acidentes de trânsito: 81,1% consideraram dirigir sob efeito de bebida alcoólica; 59,4%, desrespeito às leis de trânsito; e 59,0%, excesso de velocidade (Tabela 3).

 

 

Quando perguntados sobre os fatores de risco para acidentes de trânsito em que já tinham incorrido, 561 (75,1%) universitários afirmaram já ter pegado carona com condutor que havia ingerido bebida alcoólica, e 405 (54,2%) já dirigiram antes de possuir a CNH. A participaçao em racha foi assinalada por 80 (10,7%) universitários, e 51 (6,8%) nao utilizaram cinto de segurança.

Quanto ao uso de capacete, o equipamento de proteçao foi utilizado por 559 (98,8%) motociclistas e por 115 (22,2%) ciclistas.

Entre os universitários que conduzem veículos (n=569), contabilizaram-se os fatores de risco que eles já incorreram no trânsito. Esses dados estao descritos no Gráfico 1, com destaque para ultrapassagem da velocidade máxima permitida, atitude que foi cometida por 70,6% dos universitários.

 

 

Quanto ao uso de celular, 222 universitários afirmaram fazer uso do aparelho quando conduzem veículos, sendo que 202 (79,8%) o fizeram enquanto dirigiam automóvel. Na Tabela 4, sao mostrados os diversos usos do celular durante a atividade de conduçao de veículo.

 

 

A comparaçao entre os fatores de risco para acidentes de trânsito com as variáveis faixa etária, sexo e estado civil mostrou resultado significativo apenas em relaçao ao sexo dos universitários e os principais sao apresentados na Tabela 5. Foi observado que os homens se expoem mais aos seguintes fatores de risco: ultrapassar a velocidade máxima permitida (p=0,000), dirigir sem habilitaçao (p=0,000), ultrapassar em locais proibidos (p=0,000), dirigir sob efeito de bebida alcoólica (p=0,035) e participaçao em racha (p=0,000); nos demais fatores nao houve diferença estatística.

 

 

DISCUSSAO

No que tange ao presente estudo, 48,9% dos participantes sao do sexo masculino. Suas respostas mostraram que eles se expoem mais que as mulheres às situaçoes de risco no trânsito, como ultrapassar a velocidade permitida, dirigir sem estar habilitado, ultrapassar em locais proibidos e participar de rachas (p<0,05). No mundo, jovens do sexo masculino e com menos de 25 anos correspondem a 73,0% das mortes sucedidas no trânsito.4

Quanto ao tempo de habilitaçao, 40,5% dos universitários têm permissao para dirigir ou foram habilitados há até dois anos. Portanto, trata-se de pessoas que conseguiram a habilitaçao em data próxima à realizaçao da pesquisa. A proporçao relativa de mortes de condutores jovens em relaçao aos mais experientes é considerada alta, sinalizando que há necessidade de mais esforços preventivos direcionados a esses usuários das vias públicas. Motoristas habilitados há pouco tempo têm risco aumentado para a ocorrência de acidentes.8

Os universitários reconheceram as atitudes do motorista como a principal causa de acidentes de trânsito. Citaram também as más condiçoes de conservaçao das vias públicas e veículos sem manutençao adequada como fatores de risco na ocorrência de acidentes. A segurança no trânsito está ligada às vias públicas em boas condiçoes, velocidade apropriada, veículos seguros e atitudes corretas dos usuários do sistema viário - todos esses com vista a priorizar a prevençao de acidentes, poupando vidas e diminuindo lesoes.4

Em pesquisa realizada na Austrália, jovens de 18 a 24 anos responderam que os principais fatores de risco em que incorrem no trânsito sao exceder a velocidade permitida, usar telefone celular enquanto conduzem veículos, viajar em veículo com "pessoas sob a influência de álcool ou drogas".9 Esses fatores também foram citados no presente estudo com percentuais variados.

Dirigir sob efeito de bebida alcoólica foi citado pelos universitários como o principal fator de risco para a ocorrência de acidentes de trânsito. No entanto, 20,6% dos participantes da pesquisa que conduzem veículos informaram que já dirigiram sob influência de álcool. Pesquisa realizada com universitários da faixa etária de 18 a 25 anos de idade, em Pouso Alegre, MG, constatou que 39,2% havia conduzido veículos sob efeito do álcool.10

Quanto aos universitários do sexo masculino, uma porcentagem maior conduz veículos sob a influência do álcool, quando comparados às mulheres (p=0,035). Brubacher et al.,11 ao analisarem a alcoolemia em vítimas de acidente de trânsito, constataram que o uso do álcool predominou em condutores do sexo masculino.

Hadland et al.,12 ao analisarem mortes de pessoas de até 20 anos em decorrência de acidentes de trânsito, observaram que 28,0% dos óbitos estavam ligados ao uso de álcool. Das mortes, 65,5% eram de jovens de 18 a 20 anos e 72,7% eram do sexo masculino. Já Boniface et al.,13 em estudo com pacientes vítimas de acidentes de trânsito, observaram que 21,7% dos pacientes haviam ingerido álcool antes do acidente.

A ingestao de álcool compromete a segurança no trânsito, aumentando o risco nao somente para os condutores de veículos, mas também para outros usuários das vias públicas. Por isso, medidas que sejam capazes de reduzir o álcool no trânsito podem ser promissoras.2

Dirigir sob efeito de drogas ilícitas foi mencionado como fator de risco para acidente de trânsito por 16,6% dos universitários, contudo, 5,8% daqueles que conduzem veículos cometem essa infraçao de trânsito.

No estudo de Paixao et al.,14 realizado a partir da análise de acidentes de trânsito em Belo Horizonte, no período de 2008 a 2010, entre as vítimas que foram a óbito, constatou-se, em exame toxicológico, a presença de álcool, maconha e/ou cocaína/crack em 18,6% delas, e em 79,0% dos exames identificou-se exclusivamente a presença de álcool.

Quanto ao uso de medicamentos controlados, 4,0% dos universitários que conduzem veículos informaram fazer uso desses fármacos. Os mais usados foram antidepressivos. Conduzir veículos sob a influência de drogas psicoativas associa-se a uma frequência mais elevada de acidentes nas vias públicas. Esses fármacos comprometem o funcionamento cerebral, interferindo na habilidade dos motoristas, predispondo a acidentes com suas graves consequências, lesoes e mortes.15 O risco de traumas relacionados ao condutor que usou fármacos psicoativos varia de acordo com a substância usada. As anfetaminas aumentam por volta de cinco vezes o risco de acidente com vítima fatal.4

O terceiro fator de risco mais relevante para a ocorrência de acidente de trânsito citado pelos universitários foi o excesso de velocidade, mencionado por 59,0% dos entrevistados. Embora reconheçam o perigo de exceder a velocidade, 70,6% dos participantes da pesquisa que sao condutores de veículos ultrapassam a velocidade máxima permitida enquanto dirigem. Na presente pesquisa, universitários do sexo masculino foram os que mais ultrapassaram a velocidade máxima permitida (p=0,000). O excesso de velocidade na conduçao de veículos é observado predominantemente entre jovens e do sexo masculino.1 Em um grupo de 333 pessoas da faixa etária de 15 a 24 anos, vítimas de acidentes de trânsito ocorridos nos Emirados Arabes, observou-se que 42,0% desenvolviam velocidade acima da permitida.16

Exceder a velocidade e/ou conduzir veículos em velocidade inapropriada para determinado contexto viário está entre os principais determinantes para a ocorrência de acidentes e suas consequências mais graves, como óbitos e traumas.7

Quando questionados acerca dos fatores de risco em que incorrem enquanto conduzem veículos, 30,2% dos universitários afirmaram fazer ultrapassagem em locais proibidos, sendo que o percentual mais elevado foi observado entre os homens, perfazendo um total de 39,4% (p=0,000). A análise dos acidentes de trânsito ocorridos em Mato Grosso, na rodovia BR-163, mostrou que 7,8% foram atribuídos a ultrapassagens indevidas.17

Neste estudo, 45,7% dos universitários consideraram a desatençao como fator de risco para acidentes de trânsito, sendo oportuno salientar ainda que, dos universitários que sao motoristas, 43,8% informaram que já dirigiram com sono/cansado. Motoristas que têm sono de má qualidade apresentam maior risco de se envolver em acidentes de trânsito. Além disso, aqueles que dormiram 6 horas ou menos por noite, nos últimos 90 dias, também se encontram em maior risco em relaçao aos que dormem por um período mais prolongado (p<0,05).18

A falta de atençao de condutores de veículos abrange uma série de açoes nas quais o condutor muda o foco de sua atençao, que deveria estar na direçao veicular, para atividades distintas como o uso do telefone celular, inclusive para redigir mensagens de texto. Entretanto, existem outras situaçoes que também comprometem a atençao do condutor, como alimentar-se, sintonizar o rádio, ajustar a climatizaçao e conversar com ocupantes do veículo.19

No presente estudo, 45,4% dos universitários mencionaram a utilizaçao do celular como um considerável determinante de acidentes de trânsito, mas 39,1% dos que conduzem veículos utilizam o celular enquanto dirigem. Problema crescente nas vias públicas, o uso de telefone celular pelo condutor aumenta por volta de quatro vezes o risco de ocorrerem acidentes de trânsito. Isso se deve ao comprometimento das habilidades do condutor, ao tornar mais lentas as respostas necessárias nas vias públicas, como frear e tomar atitude nos sinais de trânsito. Outros riscos sao relacionados à dificuldade de o condutor manter o veículo na pista indicada e conservar o distanciamento adequado de outros veículos. O uso de aparelhos que nao precisam ser segurados nas maos nao aumenta a segurança em relaçao àqueles em que é necessário segurá-los.4

Entre os universitários, 6,8% deles afirmaram nao fazer uso do cinto de segurança. Malta et al.20 verificaram que 81,5% das pessoas com ensino médio completo e superior incompleto sempre usam cinto de segurança quando estao no banco dianteiro, mas esse percentual cai para 47,7% quando essas mesmas pessoas usam o banco traseiro. Na pesquisa de Grivna et al.,16 12,0% dos motoristas usavam cinto de segurança; esse percentual diminuiu para 4,0% entre os passageiros do banco dianteiro e nenhum dos ocupantes do banco traseiro usava o equipamento de segurança.

Dentre os universitários que nao usam o cinto de segurança, o percentual mostrou-se mais alto entre alunos do sexo masculino, totalizando 9,2%, quando comparado a 4,7% do sexo feminino (p=0,018).

A proteçao oferecida pelo cinto de segurança propicia a diminuiçao do risco de morte dos ocupantes do banco dianteiro do veículo por volta de 40,0% a 50,0% e para os ocupantes dos assentos traseiros mostra diminuiçao do risco de lesoes causadoras de vítimas fatais em torno de 25,0%.4

Entre os universitários que conduzem motocicletas, 98,8% deles afirmaram que usam capacete. Pesquisa realizada por Mascarenhas et al.21 em serviços de urgência e emergência que prestam atendimento médico a motociclistas vítimas de acidentes de trânsito indicou que 79,1% dos motociclistas envolvidos nos acidentes usavam capacete. Os motociclistas que deixam de usar capacete sao mais frequentemente pessoas do sexo masculino, mais jovens (de até 24 anos), que nao possuem o equipamento de segurança, pessoas com escolaridade mais baixa, sao passageiros e usam motocicleta menos potente.22 O uso desse equipamento de segurança é imprescindível, pois evita em torno de 37,0% o risco de ocorrência de mortes de motociclistas e em, aproximadamente, 69,0% o risco de traumatismo craniano. Ademais, é importante ressaltar que o uso de capacete nao compromete a visao e a audiçao.23

 

CONCLUSAO

Os dados mostram que os estudantes universitários têm conhecimento acerca dos principais fatores de risco para acidentes de trânsito. Porém, essa consciência nao se refletiu em menor exposiçao a esses fatores como, por exemplo, ultrapassar a velocidade permitida, dirigir com sono/cansado, usar celular enquanto dirige, realizar ultrapassagens proibidas, entre outros.

Dessa forma, torna-se necessário estruturar intervençoes direcionadas à conscientizaçao e sensibilizaçao na busca de mudanças de atitudes para a conduçao segura, como, por exemplo, aumentar o valor das multas por infraçoes no trânsito e os pontos perdidos na CNH quando um indivíduo incorrer em atitudes de risco, além de tornar mais rígida a fiscalizaçao policial em estradas e rodovias. Ademais, é imprescindível que a educaçao no trânsito seja de maneira contínua, por meio da realizaçao de cursos de atualizaçao para os motoristas e que, também, possa fazer parte dos currículos escolares. Nesse sentido, é preciso que governo e sociedade se unam a fim de que as mudanças propostas possam levar a resultados significativos a longo prazo.

 

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