RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 29 e2032 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20190023

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Artigo Original

Avaliaçao da qualidade de prontuários médicos de uma Unidade Básica de Saúde: Desafio para caracterizaçao do perfil epidemiológico dos usuários atendidos

Evaluation of the quality of medical records in a Basic Health Unit: The challenge to characterize the epidemiological profile of the users served

Gabriela Souza Fernandes1; Joao Lucas Lana Pereira1; Neuman Augusto Clemente Bedetti1; Marina Corrêa Lima1; Lucas Ribeiro de Andrade Nascimento1; Luis Henrique Gomes Neves2; Dayany Leonel Boone1; Rafael Henrique Neves Gomes1; Waneska Alexandra Alves1

1. Universidade Federal de Juiz de Fora, Campus Governador Valadares, Departamento de Medicina - Governador Valadares - Minas Gerais – Brasil
2. Universidade Federal de Juiz de Fora, Campus Governador Valadares, Departamento de Fisioterapia - Governador Valadares - Minas Gerais – Brasil

Endereço para correspondência

Gabriela Souza Fernandes
gsfernandes233@gmail.com

Recebido em: 28/12/2017.
Aprovado em: 08/07/2019.

Instituiçao: Universidade Federal de Juiz de Fora, Campus Governador Valadares, Departamento de Medicina - Governador Valadares - Minas Gerais - Brasil.

Resumo

INTRODUÇAO: O prontuário médico é um importante instrumento de informaçao sobre o histórico clínico do paciente, facilitando a assistência e administraçao do serviço. O registro inadequado das informaçoes prejudica a adoçao de condutas clínicas, o levantamento de dados epidemiológicos e o planejamento de políticas de saúde.
OBJETIVO: Estudar o perfil dos atendimentos e a qualidade de preenchimento dos prontuários dos usuários atendidos no Centro de Saúde de Governador Valadares, Minas Gerais, no período de 1 de janeiro a 30 de abril de 2015.
MÉTODOS: Foi realizado um estudo descritivo e observacional a partir de dados retrospectivos coletados de prontuários médicos. As variáveis analisadas nos prontuários foram: número do prontuário, sexo, idade, bairro, queixa principal e diagnóstico provável.
RESULTADOS: Dos 2.000 prontuários analisados, 52,1% eram pacientes do sexo feminino, sendo que 46,2% eram pessoas com idade entre 20 e 49 anos. Em relaçao à queixa, 9,1% relataram cefaleia; 7,9% dor abdominal; 7,3% dores em membros; 7,3% febre; 3,4% nao relatavam queixa e 1,4% eram prontuários ilegíveis. Em relaçao ao diagnóstico, em 53,7% dos prontuários este se encontrava ausente, ilegível ou apresentava sintomatologia como diagnóstico. Dos diagnósticos preenchidos corretamente, a maioria eram doenças do aparelho respiratório.
CONCLUSOES: A ilegibilidade e preenchimento errôneo demonstram o preenchimento inadequado e, portanto, uma possível incapacidade de estabelecimento de vínculo efetivo. A partir das fragilidades identificadas percebe-se a necessidade de estratégias de educaçao permanente para melhoraria da qualidade de preenchimento dos prontuários médicos.

Palavras-chave: Registros Médicos; Atençao Primária à Saúde; Avaliaçao de Serviços de Saúde; Qualidade da Assistência à Saúde.

 

INTRODUÇAO

O prontuário médico, documentaçao constituída de formulários padronizados destinados ao registro do indivíduo no contexto dos serviços de saúde, tem como objetivo facilitar a assistência ao paciente; promover meios de comunicaçao entre os profissionais de saúde; assegurar a continuidade do atendimento; e prestar suporte para a área administrativa do serviço, nos aspectos financeiros e legais.1,2 Sua importância é demonstrada no artigo 69º do Código de Ética Médica e no artigo 1º da Resoluçao 1.638 do Conselho Federal de Medicina (CFM), em que "o médico assume o dever de elaborá-lo para cada paciente", no intuito de valorizar as individualidades e prestar uma atençao baseada na subjetividade.2-4 Percebe-se, entretanto, uma baixa qualidade no preenchimento dos prontuários médicos, com elevada frequência de diagnósticos ilegíveis, incoerentes, incorretos e ausentes.5

A incoerência dos relatos clínicos, que se constrói a partir da nao disposiçao dos fatos em ordem cronológica, da nao fixaçao dos médicos em unidades de atençao primária, que resulta na constante renovaçao de profissionais, bem como da ilegibilidade dos dados, facilitam a descontinuidade do cuidado.6 Além disso, o preenchimento inadequado, ilegível ou a omissao de informaçoes nos prontuários médicos ferem os direitos dos usuários – mais especificamente, o de ter suas "histórias clínicas preservadas e documentadas".1

Por outro lado, o registro adequado das informaçoes sociodemográficas pelos profissionais da atençao primária, associado à realizaçao de pesquisas científicas acerca do perfil clínico-epidemiológico de determinada comunidade, permite o correto estudo da realidade local, a adequaçao dos protocolos e programas, bem como a correta "alocaçao dos recursos materiais e humanos" investidos pelos serviços de saúde, aumentando o grau de eficiência do atendimento.7,8

O município de Governador Valadares, Minas Gerais, localizado no Vale do Rio Doce, possuía, no ano de 2017, uma populaçao estimada de 280.901 habitantes distribuída em uma área de 2.342.325 km2, sendo o nono município mais populoso do estado.9,10 O Hospital Municipal de Governador Valadares (HMGV) é público e atende a maior parte da populaçao do município e cidades vizinhas em atividades hospitalares e ambulatoriais de baixa, média e alta complexidade.

Tendo em vista o alto fluxo de atendimento do hospital, com até 300 pessoas por dia, foi inaugurado, no dia 15 de fevereiro de 2015, o Centro de Saúde Dr. Ruy Pimenta Filho, com a finalidade de dar suporte ao atendimento médico municipal. Com uma média de 200 pacientes atendidos por dia, o Centro de Saúde também foi referência em casos de raiva, malária e dengue. Por diminuir o problema da lotaçao no HMGV, o Centro se estruturou como uma iniciativa de ordenar o acesso à rede pública de saúde do município através da modificaçao da oferta de serviços, alterando, significativamente, o atendimento aos usuários e o trabalho das equipes.11

A qualidade dos prontuários de um centro de saúde do porte do Ruy Pimenta pode demonstrar as limitaçoes e as potencialidades inerentes ao serviço, como reflexo de sobrecargas ou do método de arquivamento (na unidade referida é feito uso do prontuário de papel); em uma esfera conjectural, ainda, pode sugerir informaçoes acerca da própria qualidade do atendimento prestado, já que a documentaçao inadequada, além de dificultar a continuidade do cuidado em um contexto hospitalar, ainda pode estar relacionada a uma maior quantidade de eventos adversos, conforme demonstrado por Pavao et al.4

Dada a importância do prontuário para a adoçao de condutas clínicas, assim como para fonte de pesquisas de dados para levantamentos epidemiológicos e planejamentos de políticas de saúde, e, sabendo a importância da epidemiologia e das políticas públicas para a efetividade do sistema nacional de saúde, é importante compreender as falhas de preenchimento, insuficiência ou prestaçao errônea de informaçoes, para intervir e conscientizar os profissionais da saúde, especialmente os médicos, sobre a importância do preenchimento adequado dos prontuários.

Poucos estudos atuais se detêm à análise da qualidade desses dados, sobretudo na atençao terciária. Assim, o objetivo da pesquisa foi estudar o perfil dos atendimentos e a qualidade do preenchimento dos prontuários dos usuários atendidos no Centro de Saúde Dr. Ruy Pimenta Filho no período de 1 de janeiro a 30 de abril de 2015.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo descritivo e observacional em que os dados, retrospectivos, foram coletados de prontuários médicos dos pacientes atendidos no Centro de Saúde Dr. Ruy Pimenta Filho no período de 1 de janeiro a 30 de abril de 2015. As variáveis analisadas nos prontuários foram: número do prontuário, sexo, idade, bairro, queixa principal e diagnóstico provável.

Os prontuários analisados, à base de papel, de preenchimento manual, continham dados de identificaçao do paciente, preenchidos pela recepçao do serviço de saúde, e campos abertos para queixa principal, história clínica, diagnóstico provável e conduta, preenchidos pelo médico assistente.

Para o cálculo do tamanho amostral, considerou-se a queixa principal "edema", que possui uma estimativa de prevalência de 3% sobre a amostra a ser analisada. Utilizou-se o Software Livre R que, sob uma margem de erro de 1%, calculou um número mínimo de 1.059 prontuários para serem analisados. Tendo em vista possíveis perdas, foram utilizados 2.000 prontuários.

Foram inclusos os prontuários médicos preenchidos no período de 1 de janeiro a 30 de abril de 2015. Uma amostra probabilística aleatória simples foi selecionada pelo programa de informática SPSS versao 21.0, por meio da opçao Random Samples of Cases, a partir do sorteio de dez dias úteis para cada mês analisado. Para cada dia selecionado, contabilizaram-se 50 prontuários, nao sendo excluídos os prontuários com variáveis ausentes ou ilegíveis.

As variáveis de estudo foram coletadas e preenchidas em tabelas previamente padronizadas no software Microsoft® Excel 2010. Os resultados obtidos foram analisados utilizando estatística descritiva e apresentados por meio de tabelas de frequências.

O projeto foi previamente aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora, sob o Parecer Consubstanciado Nº 1.402.237, de 3 de fevereiro de 2016.

 

RESULTADOS

Dos 2.000 prontuários analisados, as variáveis sexo e idade destacaram-se por estarem 100,0% preenchidas, sendo 52,0% pessoas do sexo feminino. A maioria dos pacientes (46,2%) tinham idade entre 20 e 49 anos, seguidos dos menores de 19 anos (34,4%) e dos maiores de 50 (19,3%) (Tabela 1).

 

 

Governador Valadares possui 83 bairros, sendo que os bairros Santa Rita, Altinópolis, Turmalina, Centro, Santa Helena, Zona Rural e Lourdes representaram juntos 32,7% dos atendimentos do centro de saúde (Tabela 1). Os demais apresentaram no mínimo uma ocorrência de atendimento.

As 2.639 queixas principais (30% dos prontuários registraram mais de uma queixa) foram organizadas segundo Porto & Porto.12 Dos pacientes, 241 (9,1%) relataram cefaleia, 210 (7,9%) dor abdominal – incluindo dor na parede abdominal (181; 6,8%), dor estomacal (23; 0,9%) e dor no colo, reto ou ânus (6; 0,2%); 194 (7,3%) dores em membros; 192 (7,3%) febre;174 (6,4%) tosse; 166 (6,3%) lombalgia; 145 (5,5%) dor na parede torácica (que nao angina); 126 (4,8%) vômitos; 97 (3,7%) dores de garganta; 90 (3,4%) mialgia; e 80 (3,0%) diarreia (Tabela 2). A queixa principal edema foi encontrada em 54 registros (2,1%). Sessenta e nove prontuários nao relatavam queixa principal (3,4%) e 1,4% estavam ilegíveis (Tabela 2).

 

 

A variável "diagnóstico" foi organizada segundo a Classificaçao Internacional das doenças (CID10) e nao necessariamente representou um diagnóstico de certeza, mas por vezes uma hipótese. Em 1.075 (53,7%) prontuários analisados, o diagnóstico se encontrava ausente, ilegível ou apresentava sintomatologia como diagnóstico; e em 209 (10,4%) e 103 (5,1%) foram realizados curativos e aplicada medicaçao, respectivamente. Para os demais, os principais diagnósticos foram referentes a doenças do aparelho respiratório (152; 7,6%), a doenças infecciosas e parasitárias (72; 3,6%) e a doenças do aparelho digestivo (60; 3%); a doenças do aparelho circulatório (53; 2,65%); a doenças do aparelho geniturinário (46; 2,3%) (Tabela 3).

 

 

Dentre as doenças do aparelho respiratório, 119 (78,3%) foram referentes a infecçoes agudas das vias aéreas superiores. Dentre as doenças infecciosas e parasitárias, 19 (26,4%) foram referentes a doenças infecciosas intestinais; 13 (18,0%) a outras doenças por vírus que nao pelo vírus da imunodeficiência humana, hepatite, arbovírus, entre outros; e 9 (12,5%) febres por arbovírus ou febres hemorrágicas virais, que, no caso, foram todas relacionadas à dengue.

Dentre as doenças do aparelho digestivo, 27 (45,0%) foram referentes a doenças do esôfago, estômago e ou duodeno; 16 (26,7%) a enterites e colites nao infecciosas; e 05 (8,3%) a transtornos da vesícula biliar, vias biliares ou pâncreas. Dentre as doenças do aparelho circulatório, 39 (73,6%) foram referentes a doenças hipertensivas. Dentre as doenças do aparelho geniturinário, 23 (50,0%) foram referentes a outras doenças do aparelho urinário que nao relacionadas a doenças glomerulares, insuficiência ou calculose renal, sendo que, na maioria delas (9; 39,1%), o transtorno nao foi especificado (Tabela 4).

 

 

DISCUSSAO

A distribuiçao dos atendimentos dos pacientes no Centro de Saúde por sexo foi semelhante ao apontado pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), que demonstra que a populaçao estimada de Governador Valadares em 2015 esteve constituída majoritariamente de pessoas do sexo feminino (52,0%), valor que se encontra em concordância com a média nacional (50,6%).9 Resultado semelhante foi também encontrado no estudo de Felchilcher et al.,13 conduzido em uma unidade básica de saúde de Santa Catarina, em que 69,6% dos atendidos eram mulheres. Segundo Pinheiro et al.,14 as mulheres brasileiras procuram mais os serviços de saúde do que os homens. Segundo Fernandes et al.,15 as mulheres percebem mais facilmente os riscos à saúde, visto que possuem mais acesso à informaçao em saúde do que os homens, o que corrobora com a ideia de Alves et al.,16 que afirmam que a saúde do homem nao é o foco de atuaçao das equipes de saúde.

Em relaçao à faixa etária, os resultados demonstram que a busca pelo serviço foi predominantemente realizada por adultos jovens. Segundo Oliveira et al.,17 que analisaram fichas de boletins de atendimento de uma clientela adulta em uma unidade de emergência de um hospital de ensino no Estado de Sao Paulo, 75,5% das fichas corresponderam aos indivíduos com idades entre 14 e 54 anos. Em estudo realizado em um hospital de emergência de Salvador, Bahia, 28,5% dos atendidos apresentavam idade entre 15 e 34 anos e 30,4% entre 35 e 64 anos.18

Os bairros Santa Rita, Altinópolis, Turmalina, Centro e Santa Helena apresentaram maior frequência de aparecimento nos prontuários médicos analisados, sendo que todos estao entre os 10 mais populosos de Governador Valadares e, com exceçao do Centro, os demais sao considerados bairros de baixa condiçao socioeconômica.10 Segundo Jacobs & Matos,18 o maior uso do serviço de emergência está associado à menor distância do bairro de moradia ao serviço, o que nao foi verificado durante análise dos dados coletados, pois nao houve correlaçao direta entre a proximidade dos bairros e a maior procura ao serviço, com exceçao do bairro Centro, segundo mais populoso do município e onde está localizada a unidade de saúde. A alta frequência de atendimentos de bairros populosos poderia ser explicada por uma possível deficiência da atençao em tais locais, levando a um deslocamento da populaçao para suprir o déficit na unidade de estudo.

Quanto às principais queixas (cefaleia, dor abdominal, dor em membros, febre, tosse e lombalgia), a literatura revela que resultados semelhantes foram encontrados por Oliveira et al.,17 no qual, das 186 queixas identificadas, as nove mais frequentes foram cefaleia (9,2%), lombalgia (6,6%), dor abdominal (5,1%), dor torácica (4,7%), dor em membros inferiores (3,6%), dor de garganta (3,2%), tosse (3,0%), epigastralgia (3,0%) e dispneia (2,9%).

Comparando o nao preenchimento da queixa principal, os valores encontrados sao também semelhantes, sendo de 3,4% no presente estudo e 4,0% no estudo apresentado. Estudo realizado por Madeira et al.19 em um pronto-atendimento de um hospital municipal do leste de Minas Gerais, nas fichas classificadas como verde pelo protocolo de Manchester, que corresponderam a 74,9% do total de fichas analisadas, as nove afecçoes mais identificadas foram indisposiçao do adulto (48,0%), cefaleia (12,4%), dor abdominal (6,7%), problema nos membros (6,0%), dor torácica (2,7%), dor lombar (2,7%), dor de garganta (2,1%), erupçoes cutâneas (2%) e problemas urinários (1,5%). Comparando os estudos, das nove queixas mais frequentes, seis sao coincidentes. Em estudo realizado por Friedlander et al.,20 48,2% dos prontuários analisados nao apresentavam informaçoes sobre as queixas ou motivos que levaram ao atendimento. Dores (6,0%), febre (4,5%) e tosse (2,3%) foram as principais queixas identificadas.

Em estudo conduzido por Pimentel et al.,21 a hipertensao arterial sistêmica foi o principal motivo nos atendimentos de uma unidade de saúde da família. Friedlander et al.20 encontraram viroses e a hipertensao como os diagnósticos que acometeram o maior número de clientes. Segundo Jacobs & Matos,18 os três grupos de doenças mais frequentes de atendimento na unidade de emergência codificada pelo CID-10 foram sintomas, sinais e achados anormais de exames clínicos e laboratório nao classificados em outra parte (28,5%); doenças do aparelho respiratório (16,4%); e lesoes, envenenamento e algumas outras consequências de causas externas (11%). Já segundo Oliveira et al.,17 as principais hipóteses diagnósticas identificadas nos boletins de atendimentos foram lombalgia (4,0%), infecçao do trato urinário (3,0%), infecçao das vias aéreas superiores (2,7%), cefaleia (2,5%), gastroenterite aguda (2,5%), sinusite (2,1%), amigdalite (2%), dispepsia (1,5%), pneumonia (1,5%), trauma (1,4%), crise hipertensiva (1,4%) e asma (1,0%).

No Centro Ruy Pimenta, 53,7% dos prontuários apresentaram diagnóstico preenchido de modo incorreto, ilegíveis, ausentes ou com sintomatologia como diagnóstico. Esses resultados foram mais altos que Alves et al.,16 em um estudo conduzido Vila Velha, Espírito Santo, e Oliveira et al.,17 nos quais cerca de 20% dos prontuários nao apresentavam hipótese diagnóstica. Segundo Kubiak & Porto,22 as hipóteses diagnósticas, depois de obtidas, devem ser confirmadas ou afastadas após a realizaçao de exames complementares, enquanto diagnóstico é o reconhecimento de uma enfermidade. Assim, o uso de sintomatologia como diagnóstico sugere falha do preenchimento e entendimento lógico do prontuário, podendo levar a um relato e um cuidado ineficiente.

A ausência e ilegibilidade das hipóteses diagnósticas, bem como a adoçao de sintomatologias e procedimento (curativos e medicaçao) como diagnóstico evidencia o comprometimento da qualidade de preenchimento dos prontuários, uma vez que apenas 30,7% foram preenchidos corretamente no campo diagnóstico. Segundo Sampaio & Silva,1 a escassez e a pouca legibilidade dos dados contidos nos prontuários médicos podem representar uma relaçao médico-paciente insuficiente ao omitir informaçoes, desrespeitar os direitos do usuário, negando a liberdade de ter sua história clínica preservada e documentada, resultando em condiçoes inadequadas de atendimento.

Donabedian23 considera que a qualidade dos registros seja influenciada pela qualidade da assistência prestada, uma vez que os registros médicos sao essenciais para informar sobre o trabalho. Segundo Vasconcellos et al.,24 a alta taxa de incompletude dos dados encontrada em seu estudo "apontam para uma prática clínica e do cuidado prestado precários". Dessa forma, os resultados obtidos nesse estudo reforçam a influência negativa do nao preenchimento adequado dos prontuários no atendimento médico e na construçao de uma relaçao médico-paciente efetiva.

Para Silva & Tavares-Neto,25 modelos de prontuários com maiores possibilidades de preenchimento correto têm implicaçoes direta na qualidade da assistência. Os autores estudaram os prontuários de 77 hospitais de ensino do Brasil e encontraram carências de forma e conteúdo, com falta de elementos considerados essenciais para a história clínica. Em 24% dos prontuários, nao havia espaço para registro do motivo da consulta; em 15% para a história da doença atual; e em 44% para o registro de queixas dos diversos sistemas. Os prontuários analisados no presente estudo nao apresentavam espaço para registro da história da doença atual e das queixas de diversos sistemas. Tal fato ajuda corrobora com a baixa qualidade dos registros na unidade. Segundo Panitz,26 o Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP) pode auxiliar a melhora dessa questao, melhorando a qualidade de preenchimento através de maior padronizaçao e exigência de dados obrigatórios.

A instalaçao do Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP) é uma alternativa para minimizar as fragilidades e limitaçoes no preenchimento dos prontuários, na medida em que permite o armazenamento de dados dos pacientes em um sistema único, compartilhado de forma virtual entre todos os estabelecimentos de saúde do município. Além disso, esse instrumento culmina em uma menor perda de dados por ilegibilidade ou preenchimento incompleto, auxiliando na tomada de decisoes pelos profissionais que o utilizam, e permite a comparaçao dos preenchimentos entre os estabelecimentos, auxiliando na melhoria do sistema.26,27

Ruschi et al.28 explicam que o PEP é um importante mecanismo para incentivar a qualidade do cuidado e registro clínico. Segundo Silva et al.,29 para se evoluir na qualidade dos dados obtidos, é necessário que os gestores reconheçam a importância da alimentaçao dos dados no sistema do PEP e deem condiçoes e estímulo aos profissionais de saúde atuantes, incluindo treinamentos e atualizaçoes constantes. Segundo Hillestad et al.,30 a ampla implantaçao dos PEP tem potencial para uma economia anual de 81 bilhoes.

Dessa forma, a implantaçao dos PEP é uma perspectiva importante para diversos municípios brasileiros, inclusive Governador Valadares, pois, além de facilitar o acesso às informaçoes do usuário, permite a reduçao dos custos a longo prazo; melhora da assistência médica, a partir da reduçao das falhas de preenchimento e qualidade dos dados; integraçao dos diversos estabelecimentos de saúde do município; e percepçoes reais do perfil clínico-demográfico da populaçao usuária dos sistemas, com a possibilidade de redirecionamento dos recursos por parte dos gestores de saúde.

O presente estudo possui como limitaçoes o número de prontuários nao preenchidos, preenchidos incorretamente ou ilegivelmente, o que tornou a análise do perfil clínico-demográfico comprometida; a dificuldade de comparaçao do centro de saúde analisado com os estudos da literatura, tendo em vista que se trata de uma iniciativa municipal, de características únicas; as diferenças metodológicas entre os diferentes estudos, o que dificulta a realizaçao de comparaçoes. Espera-se que o presente estudo possa servir como referência para a implantaçao de açoes visando melhorias na qualidade de assistência de saúde do município, principalmente no âmbito dos registros médicos.

 

CONCLUSAO

O prontuário médico é uma importante ferramenta para avaliar a qualidade da assistência e a relaçao entre profissionais de saúde e pacientes, apresentando um caráter de documento norteador de açoes, de defesa ética e profissional. No trabalho em questao, a maioria dos prontuários médicos nao apresentava diagnóstico, ou o apresentavam de maneira errônea ou ilegível, e a queixa principal também nao foi relatada ou estava ilegível, o que demonstra o preenchimento inadequado e, portanto, uma possível incapacidade de estabelecimento de vínculo efetivo.

Além disso, nao houve correlaçao direta entre a proximidade dos bairros e a maior procura ao serviço de saúde, uma vez que os bairros Santa Rita, Altinópolis, Turmalina e Santa Helena se encontram distantes do centro de saúde e ainda assim foram frequentes na análise, trazendo a possibilidade de que a procura pelo serviço nao se relaciona necessariamente com a facilidade do acesso.

Cinco dos bairros que apresentaram maior frequência estao entre os dez mais populosos da cidade, o que levanta questionamentos quanto à capacidade de atendimento da demanda destes bairros pelas unidades de atençao primária. As principais queixas identificadas poderiam ter sua resolubilidade atendida em centro de menor complexidade, tal como Estratégias de Saúde da Família. O serviço prestado pelo Centro de Saúde Dr. Ruy Pimenta Filho tem a finalidade de dar suporte ao atendimento médico do HMGV, porém, como identificado, o centro acaba atuando como porta de entrada do sistema.

A partir das fragilidades encontradas, percebe-se a necessidade de implantar estratégias para melhoria da qualidade de preenchimento das informaçoes prestadas durante os atendimentos clínicos no Centro de Saúde, tendo em vista a importância do prontuário para a adoçao de condutas clínicas, fonte de pesquisas e planejamentos de políticas de saúde. A instalaçao do PEP é uma proposta de intervençao capaz de diminuir os gastos públicos, melhorar a qualidade dos atendimentos médicos e fornecer percepçoes reais do perfil clínico e demográfico da populaçao usuária.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores sao gratos aos ligantes da Liga Acadêmica de Saúde Coletiva – LASC (2014/2015) da Universidade Federal de Juiz de Fora, Campus Governador Valadares, que contribuíram com a coleta de dados deste estudo e aos diretores, gestores e trabalhadores do Centro de Saúde Dr. Ruy Pimenta que possibilitaram, com carinho, nosso ingresso e trabalho na unidade.

 

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