RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 30. Esp DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20200011

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Relato de Caso

Piedra Branca no Couro Cabeludo em Criança: Relato de Caso

White Piedra in Child Scalp Hair: Case Report

Alessandra Vieira Diniz; Ivanete Lopes Silva; Vanessa Knauf Lopes; Tatiana Ferreira França; Rafaella Rêllo Pinto Coelho Carvalho; Virginia Vinha Zanuncio

Universidade Federal de Viçosa (UFV), Departamento de Medicina e Enfermagem - Viçosa - Minas Gerais - Brasil

Endereço para correspondência

Alessandra Vieira Diniz
E-mail: alessandra.diniz@ufv.br

Recebido em: 26/10/2018
Aprovado em: 13/10/2019

Instituição: Universidade Federal de Viçosa (UFV), Departamento de Medicina e Enfermagem - Viçosa - Minas Gerais - Brasil

Resumo

Piedra branca é uma infecção fúngica rara, assintomática do pelo, causada por fungos do gênero Trichosporon. Caracteriza-se por nódulos com coloração que varia do branco ao castanho-claro, aderidos à haste do pelo. Trata-se de caso de piedra branca de localização atípica, em paciente feminina, de 7 anos, apresentando nódulos esbranquiçados nos fios do couro cabeludo. Realizado cultura para fungos que se mostrou positiva para Trichosporon spp. O tratamento foi feito com antifúngicos tópicos e corte dos cabelos.

Palavras-chave: Piedra branca; Micoses; Trichosporon

 

INTRODUÇÃO

Piedra é uma infecção fúngica superficial e assintomática da haste do pelo. É classificada em dois tipos: piedra negra, causada pelo Piedraia hortae, a qual acomete quase exclusivamente os pelos da cabeça; e piedra branca, causada por diferentes espécies patógenas do gênero Trichosporon, dentre eles, T. cutaneum (ou T. beigelii), T. ovoides e T. inki. Acomete principalmente os pelos da barba, axilas e região pubiana e, com menor frequência, os pelos do couro cabeludo.1-3

A piedra branca tem distribuição universal, sendo mais comum em regiões tropicais e subtropicais.5 No Brasil, casos têm sido descritos nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Paraíba e Pará.6 Afeta indivíduos de ambos os sexos e pode comprometer qualquer faixa etária2, embora a maioria dos casos de piedra branca no couro cabeludo têm sido descritos em crianças do sexo feminino entre 2 e 6 anos de idade.4

Essa micose apresenta-se como nódulos moles, irregulares, com coloração que varia do branco ao castanho-claro, firmemente aderidos às hastes dos pelos. A pele adjacente pode estar afetada com lesões eritêmato-escamosas, mal delimitadas, úmidas e pruriginosas.2 A infecção geralmente tem curso indolente, embora pacientes imunossuprimidos possam apresentar quadros graves com acometimento sistêmico.4

O modo de infecção não está completamente esclarecido: alguns autores sugerem que hábitos pobres de higiene, transmissão sexual (nos casos de piedra branca genital), além de calor e umidade são fatores predisponentes,6 mas nem sempre tal associação é possível.3

Trata-se de um caso de piedra branca de localização rara, no couro cabeludo, e seu relato tem como objetivo construir conhecimento sobre o tema, diferenciando-a de outras doenças mais prevalentes como a pediculose. O entendimento da apresentação clínica e epidemiologia da piedra branca propicia um correto diagnóstico e tratamento adequado.

 

DESCRIÇÃO DO CASO

Paciente feminina, sete anos, branca, sem comorbidades, apresentando nódulos esbranquiçados e aderidos aos pelos do couro cabeludo há 2 meses. Nega sintomas associados ou a existência de casos semelhantes na família. Paciente apresenta cabelos enrolados e usava cremes condicionadores diariamente, além de ter o hábito de prender os cabelos úmidos.

Ao exame físico, observou-se a presença de nódulos esbranquiçados, com cerca de 1 a 2 mm, aderidos ao pelo, distribuídos irregularmente pelos fios (Figura 1). A pele adjacente não foi afetada, ausência de outras lesões cutâneas.

Diante da hipótese diagnóstica de piedra branca foi realizado exame micológico direto dos pelos afetados, onde observou-se nódulo amarelado envolvendo a haste dos fios e solicitada a cultura para fungos que se mostrou positiva para Trichosporon spp. A paciente foi orientada a cortar os cabelos e fez uso de antifúngico tópico (fenticonazol solução) e ácido salicílico em creme. Porém a mãe optou por cortar apenas os fios que julgava estar acometidos, devido ao grande impacto psicossocial que causaria à paciente. Após 8 meses de acompanhamento houve recidiva do quadro.

 

DISCUSSÃO

A dificuldade diagnóstica dos casos de piedra branca se deve ao desconhecimento da ecologia, da epidemiologia e principalmente do modo de transmissão da micose.1 Na prática clínica, são comuns os casos de piedra branca previamente tratados como pediculose do couro cabeludo sem resultados satisfatórios, levando os pacientes às consultas dermatológicas.2 Em situações como a do caso apresentado (criança do sexo feminino em idade escolar) é importante a diferenciação entre as duas afecções. Apesar de ambas poderem apresentar nódulos de mesmo tamanho e cor, na piedra branca estes rodeiam completamente o pelo e são de tamanhos muito variáveis enquanto as lêndeas da pediculose se aderem ao pelo por um extremo, são ovais, homogêneas em sua forma e mais facilmente removíveis à tração.5 Além da diferenciação diagnóstica com pediculose, tricomicose nodular e outras afecções da haste do cabelo, como cilindros capilares devem ser excluídos.2 A diferenciação com piedra preta se dá pela presença de nódulo mais duro, escuro e aderente ao fio de cabelo do que o encontrado na piedra branca.1 Exames micológicos definem o diagnóstico e a etiologia.

A maioria dos casos reportados de piedra branca são em pacientes do sexo feminino, o que pode estar relacionado com o uso de cabelo comprido (independente da idade) e a aplicação de determinados produtos cosméticos, como foi o caso da paciente apresentada neste caso. Estes produtos mantêm a umidade do cabelo, considerada como um dos principais fatores predisponentes a esta micose.2 Devido a escassa literatura sobre o assunto e diagnóstico incorreto a prevalência desta micose pode ser subestimada.1

O tratamento clássico e mais efetivo para piedra branca é cortar o pelo da área acometida, sendo os antifúngicos tópicos comumente indicados devido a frequente recorrência do quadro.2 Quando o acometimento se dá em pelos que não sejam os do couro cabeludo, tal tratamento se torna viável e aceito por parte do paciente. No entanto, a necessidade do corte dos cabelos, pode gerar grande impacto psicossocial e a não aderência ao tratamento, principalmente no sexo feminino e foi isso que aconteceu no caso relatado.

 

CONCLUSÃO

A escassa literatura sobre piedra branca associada ao desconhecimento de sua ecologia, apresentação clínica e modo de transmissão leva, muitas vezes, ao atraso no diagnóstico dessa micose e consequentemente no seu tratamento. É importante diferenciá-la de outras patologias com manifestações semelhantes e mais frequentes em nosso meio como a pediculose.

 

REFERÊNCIAS

1. Cardona CAM, Ramirez AOJ, Hortua CV, Figueroa CT. Piedra negra y piedra blanca: aspectos diferenciales. Infectio. 2013;17(2):106-10. Disponível em: http://www.revistainfectio.org/index.php/infectio/article/view/614 Acesso em: 27 Abr. 2018.

2. Diniz LM, Souza Filho JB. Estudo de 15 casos de piedra branca observados

3. na Grande Vitória (Espírito Santo - Brasil) durante cinco anos. An Bras Dermatol. 2005;80(1):49-52. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0365-05962005000100007&lng=en&nrm=iso Acesso em: 27 Abr. 2018.

4. Pontes ZBVS, Ramos AL, Lima EO, Guerra MFL, Oliveira NMC, Santos JP. Clinical and Mycological Study of Scalp White Piedra in the State of Paraíba, Brazil. Mem Inst Oswaldo Cruz. 2002; 97(5):747-50. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12219146 Acesso em: 27 Abr. 2018.

5. Roselino AM, Seixas AB, Thomazini JA, Maffei CML. An outbreak of scalp white piedra in a Brazilian children day care. Rev Ins Med trop S Paulo. 2008;50(5): 307-9. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18949351 Acesso em: 27 Abr. 2018.

6. Marques AS, Richini-Pereira VB, Camargo RMP. White piedra and pediculosis capitis in the same patient. An Bras Dermatol. 2012; 87(5):786-7. Disponível em: https://www.ncbi.nlm. nih.gov/pubmed/23044579 Acesso em: 27 Abr. 2018.

7. Magalhães AR, Mondino SSB, Silva M, Nishikawa MM. Morphological and biochemical characterization of the aetiological agents of white piedra. Mem Inst Oswaldo Cruz. 2008;103(8):786-90. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19148418 Acesso em: 27 Abr. 2018.