RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 30 e-3001 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20200013

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Artigo Original

Avaliação da qualidade de vida de pacientes com Doença Falciforme

Evaluation of the quality of life of patients with Sickle Cell Disease

Sílvia Letícia de Oliveira Toledo1; Gustavo Cambraia Trindade1; Cynthia Teixeira Pimenta1; Aline de Freitas Lopes2; Patricia Nessralla Alpoim3; Danyelle Romana Alves Rios1; Melina de Barros Pinheiro1

1. Universidade Federal de São João Del Rei - UFSJ, Campus Centro Oeste Dona Lindu. Faculdade de Medicina - Divinopolis - Minas Gerais - Brasil
2. Fundação Centro de Hematologia e Hemoterapia do Estado de Minas Gerais, HEMOMINAS, Hemonúcleo Regional de Divinópolis - Divinopolis - Minas Gerais - Brasil
3. Universidade Federal de Minas, Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas, Faculdade de Farmácia - Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil

Endereço para correspondência

Melina de Barros Pinheiro
E-mail: melinabpinheiro@gmail.com

Recebido em: 03/12/2017
Aprovado em: 22/08/2019

Instituição: Universidade Federal de São João Del Rei - UFSJ, Campus Centro Oeste Dona Lindu. Faculdade de Medicina - Divinopolis - Minas Gerais - Brasil

Resumo

INTRODUÇÃO: A doença falciforme (DF) compreende um grupo de anemias hemolíticas hereditárias cuja principal característica é a presença do gene da hemoglobina S (Hb S) que pode combinar-se com outras anormalidades sanguíneas hereditárias. O quadro clínico varia desde quase assintomático até formas graves. A Hidroxiuréia (HU) é a terapia de maior sucesso. É uma doença crônica, cuja prevalência e morbidade são altas no Brasil, dessa forma a qualidade de vida (QV) surge como um importante desafio para os pacientes, familiares e profissionais de saúde.
OBJETIVOS: Avaliar a QV de pacientes portadores de DF, suas características sociodemográficas e clínicas.
MÉTODOS: Os dados foram coletados através do questionário de QV abreviado (WHOQOL-Bref), questionário sociodemográfico e prontuário clínico.
RESULTADOS: foram entrevistados 39 pacientes, entre 18 e 54 anos, tratados na Fundação Hemominas em Divinópolis - MG. A maioria dos pacientes eram homens (56%), homozigotos para a Hb S (80%), solteiros (67%), segundo grau completo (31%) e não usuários de HU (61%). Dentre os pacientes avaliados 53,8% considerou ter boa QV (escore médio 74,2 ±20,3). O escore relacionado à QV geral foi de 71,5. Os domínios físico e meio ambiente obtiveram os menores escores médio (61,5 e 59,0, respectivamente). Não foram encontradas diferenças significativas entre os que utilizavam ou não HU.
CONCLUSÕES: Os pacientes com DF apresentaram boa QV, sendo mais comprometida pelos aspectos relacionados ao domínio meio ambiente, (como recursos financeiros) e físico (como dor e desconforto) que se correlacionam com as características clínicas e sociais relacionadas a DF.

Palavras-chave: Qualidade de Vida; Hemoglobina Falciforme; Anemia; Inquéritos e Questionários.

 

INTRODUÇÃO

A Doença Falciforme (DF) é o transtorno genético mais frequente no mundo. Compreende um grupo de anemias hemolíticas hereditárias cuja principal característica é a herança do gene que produz a hemoglobina (Hb) S, a qual se polimeriza quando desoxigenada e resulta na falcização das hemácias. A homozigose para o gene da Hb S estabelece a anemia falciforme (AF). Este gene pode combinar-se com diferentes anormalidades das hemoglobinas, como Hb C, D, E, Lepore, OArab e β-talassemias, gerando estados heterozigóticos patológicos. Em conjunto, todas essas formas sintomáticas do gene da Hb S, seja em homozigose ou em heterozigose, se classificam como DF.1 Seu fenótipo clínico é muito diversificado, apesar do número finito de mutações.2A variabilidade de fenótipos envolve desde a morte precoce na infância e condições clínicas extremamente graves, até casos com raras complicações e expectativa de vida próxima a de pessoas sem a doença. Inúmeros fatores modulam a gravidade da DF, entre os moduladores genéticos destacam-se a coexistência com as talassemias e os níveis de Hb fetal (Hb F) 3 entre os ambientais estão os hábitos de vida, cultura e as condições socioeconômicas. Sendo assim, a DF se revela como o somatório de fatores genéticos e ambientais, os quais contribuem para a sua diversidade clínica.

A DF é um grave problema de saúde pública, com grande impacto na morbimortalidade. No Brasil, nascem cerca de 3.000 crianças por ano com DF e no estado de Minas Gerais (MG), a incidência é de 1:1.400 nascimentos.4 Segundo Januario,5 a incidência da AF na Diretoria Regional de Saúde do município de Divinópolis - MG é de 34 a 43 em 100.000 nascidos vivos. As manifestações clínicas variam tanto ao decorrer da vida do mesmo indivíduo como entre diferentes pacientes.2 Estes apresentam períodos de relativo bem-estar correspondentes à fase estável da doença que é interrompida periodicamente por manifestações agudas, as chamadas crises de falcização, advindas da oclusão vascular que pode afetar praticamente todos os órgãos e, em menor grau, da anemia hemolítica.6 Há quadros clínicos quase assintomáticos, até aqueles com complicações crônicas potencialmente fatais que acometem, principalmente, os adultos.1

Confirmado o diagnóstico, há medidas gerais que visam amenizar as sequelas da enfermidade, reduzir as crises de falcização e a suscetibilidade a infecções. Dentre elas estão a hidratação, profilaxia para infecções, nutrição adequada e cuidados relativos a condições climáticas. Todavia, a única opção curativa para a DF é o transplante de células-tronco. A Hidroxiureia (HU) é a terapia farmacológica de maior sucesso,7 pois aumenta a produção de Hb F, diminui a polimerização da Hb S e as crises de falcização, melhorando assim a qualidade de vida (QV) dos usuários. Fatores genéticos, ambientais, psicológicos e socioeconômicos podem influenciar o perfil clínico pacientes. Sem dúvida, a manutenção da boa QV é um desafio para os pacientes com DF. Diante disso, a QV se destaca como uma meta a ser alcançada por pacientes, familiares e profissionais de saúde.8

Nessa perspectiva, a QV consiste nas percepções do indivíduo a partir da sua posição na vida, no contexto do sistema de valores e cultura nos quais ele vive e em relação aos seus padrões, objetivos, expectativas e preocupações.9 Dada a complexidade do conceito de QV, vários instrumentos têm sido desenvolvidos para mensurá-la. Dentre os questionários genéricos amplamente utilizados, está o World Health Organization Quality of Life (WHOQOL), no qual se destaca o questionário de avaliação de QV abreviado (WHOQOL-Bref), a versão resumida do WHOQOL. Apesar da DF ter sido amplamente estudada em termos de frequência na população e variações clínicas,8 pesquisas que abordam aspectos relacionados à QV dos pacientes são relativamente escassas na literatura.10 Desse modo, como essa anomalia é um grave problema de saúde pública no país e a QV é uma relevante medida de resultado para a saúde, uma investigação sobre a QV dos pacientes com DF é de extrema importância. Sendo assim, o presente estudo objetiva avaliar a QV de pacientes do Hemonúcleo Regional de Divinópolis - MG, com DF, por meio do questionário WHOQOL-Bref.

 

MÉTODO

Trata-se de um estudo epidemiológico observacional realizado a partir de informações colhidas por meio de questionário e verificação de prontuário de pacientes com DF em acompanhamento na Fundação Hemominas - Hemonúcleo Regional de Divinópolis (HNCDiv), na cidade de Divinópolis - MG nos 12 meses anteriores à participação no estudo, com idade igual ou superior a 18 anos. Conforme dados fornecidos pelo HNCDiv, em agosto de 2014 haviam cerca de 60 pacientes com DF com idade igual ou superior a 18 anos cadastrados. Destes, apenas 40 pacientes possuíam registros de consultas nos 12 meses anteriores ao estudo, sendo classificados como elegíveis para o mesmo. A coleta dos dados ocorreu no período de agosto de 2014 a junho de 2015, nos quais foram entrevistados, sequencialmente, 39 pacientes com DF que compareceram ao HNCDiv para consulta regular, sendo que um paciente não aceitou participar do estudo.

Os dados foram coletados por meio do questionário validado de avaliação de QV abreviado da Organização Mundial da Saúde (WHOQOL-Bref) autoaplicado. Esse questionário é uma versão abreviada do WHOQOL-100, instrumento que avalia a QV dentro de uma perspectiva genuinamente internacional. Assim, diferente do WHOQOL-100 em que cada uma das 24 facetas é avaliada a partir de quatro questões, no WHOQOL-Bref cada faceta é avaliada por apenas uma questão. Os dados que deram origem à versão abreviada foram extraídos do teste de campo de 20 centros em 18 países diferentes. O WHOQOL-Bref consta de 26 questões, duas gerais e as demais representando cada uma das 24 facetas que compõem o instrumento original.11As duas primeiras questões do WHOQOL-Bref dizem respeito à percepção individual com relação à QV (Questão 1 - Q1) e à percepção individual com relação à saúde (Questão 2 - Q2). As demais 24 questões compõem quatro domínios: físico, psicológico, social e ambiental. Todas as questões são apresentadas em forma de escala de cinco pontos: quanto mais próximo de 1, pior a QV, e quanto mais próximo de 5, melhor a QV. Para pontuar o WHOQOL-Bref, separam-se as questões por domínio e calcula-se a média de todos os participantes. O escore de cada domínio é então convertido para uma escala 0-100.

Os participantes da pesquisa também responderam a um questionário sociodemográfico com objetivo de se obter informações referentes ao sexo, idade, nível educacional e estado civil.

Por fim, também foram coletadas dos prontuários dos pacientes algumas informações clínicas e laboratoriais referentes ao último ano de acompanhamento do paciente com o objetivo de avaliar se havia relação ou não entre a QV e tais parâmetros. Foram coletados os seguintes dados: fenótipo da DF, tratamento medicamentoso, episódios de crise dolorosa, dosagem de Hb e Hb F, sendo os valores destes dois últimos referentes à média das três dosagens mais recentes no momento da coleta dos dados.

Para armazenamento e análise dos dados empregou-se o programa SPSS 20.0, no qual também foi utilizado para aplicar a sintaxe WHOQOL-Bref, na avaliação dos escores do instrumento de QV e posteriores correlações a partir dos coeficientes de Pearson e Spearman. A mensuração da QV é proporcional ao escore, quanto maior o valor do escore, melhor a QV. O coeficiente alfa de Cronbach foi calculado com objetivo de avaliar a consistência interna do WHOQOL-Bref para avaliação da QV na DF. Para comparação de médias entre dois grupos foi realizado o teste de t de Student. O nível de significância para todas as análises foi de 5% (p<0,05).

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Campus Centro-Oeste Dona Lindu (parecer número 1.032.856) e pelo Comitê da Fundação Hemominas - HNCDiv (parecer número 685.332).

 

RESULTADOS

Perfil sociodemográfico:

De um universo de 60 pacientes com DF acompanhados no HNCDiv, 39 aceitaram participar do presente estudo, sendo a maioria do sexo masculino (56%), solteiro (67%), idade entre 26 a 35 anos (39%) e com segundo grau completo (31%), conforme apresentado na Tabela 1.

 

 

Perfil clínico:

Dentre as características clínicas e laboratoriais, foram analisados o fenótipo da hemoglobinopatia; a utilização do medicamento HU e a ocorrência de crise dolorosa. Mais da metade dos indivíduos era homozigoto para a presença de Hb S (SS) e cerca de 40% deles utilizavam o medicamento. Quando questionados sobre as crises dolorosas, 46% relataram ter sofrido pelo menos uma crise no último ano. O parâmetro hematológico avaliado foi o nível médio de Hb e Hb F (Tabela 2).

 

 

Qualidade de vida:

A QV geral (QVG) refere-se às médias entre as duas primeiras perguntas do WHOQOL-Bref; em Q1 avalia-se a QV de modo geral e em Q2 avalia-se a satisfação com a própria saúde. Com relação à Q1, 21 pacientes (53,8%) responderam ser boa e 9 (23,0%), muito boa. Ou seja, 76,8% dos pacientes com DF consideram ter uma boa QV. O escore médio referente a essa pergunta foi de 74,2 ±20,3. Com relação à Q2, a satisfação com a própria saúde, 20 (51,3%) dos pacientes demonstraram-se satisfeitos e 5 (12,8%) muito satisfeitos. Ou seja, 64,1% dos pacientes com DF possuíam um bom nível de satisfação com a saúde. O escore médio referente a essa pergunta foi de 68,6 ±18,8 (Tabela 3). Um dado não apresentado nesta tabela foi a correlação positiva entre a avaliação dos indivíduos em relação à sua QV e a satisfação com seu estado de saúde (r= 0,378; p=0,018), resultado esperado uma vez que a relação entre saúde e QV é reconhecida há vários anos.

Com relação à QVG, a média do escore para os pacientes estudados foi de 71,5 (Tabela 3).

 

 

As demais 24 questões do WHOQOL-Bref representam cada uma das 24 facetas que compõe o instrumento original, sendo agrupadas nos domínios físico, psicológico, social e ambiental. De acordo com a Tabela 4, os domínios físico e meio ambiente apresentaram os menores escores médios, sendo o do último o pior (59,0), ao contrário do domínio relações sociais, no qual além de ter obtido o mais alto escore médio (75,9), este foi maior do que o da QVG (71,5). Quando cada questão foi analisada ??isoladamente, foram observados os mais baixos escores para Q3 (dor e desconforto, escore: 51,3), Q12 (recursos financeiros, escore: 44,9) e Q14 (oportunidade de recreação/lazer, escore: 49,4) indicando o impacto negativo destes fatores na QV dos pacientes com DF.

 

 

Exceto a faceta Q16 (sono e repouso), todas as outras apresentaram correlação forte e estatisticamente significativa com o escore médio dos seus respectivos domínios, sendo que as facetas que apresentaram correlação mais forte, ou seja, que mais interferiram na QV foram a Q18 (capacidade de trabalho) (r=0,840; p<0,001), seguida da Q6 (espiritualidade) (r=0,808; p<0,001), Q22 (apoio social) (r=0,772; p<0,001) e por fim Q9 (ambiente físico, poluição, ruído, trânsito e clima) (r= 0,980; p<0,001).

A consistência interna do WHOQOL-Bref determinada por meio do coeficiente alfa de Cronbach foi satisfatória ao considerar todos os itens avaliados no questionário (0,925), bem como separadamente por domínio físico (0,800), psicológico (0,790), relações sociais (0,601), meio ambiente (0,884) e QVG (0,647) (Tabela 5).

 

 

Foi realizada uma análise de correlação entre os dados sociodemográficos, os domínios do WHOQOL-Bref e a QVG. Houve correlação positiva estatisticamente significativa entre os domínios físico e psicológico com o grau de escolaridade (?=0,516 e ?=0,335, respectivamente), domínio meio ambiente com o estado civil (?=0,324) e QVG com o grau de escolaridade (? = 0,341). Todavia, foi identificada uma tendência de correlação positiva do domínio meio ambiente com o grau de escolaridade; e a QVG com a idade (Tabela 6).

 

 

Com o propósito de verificar se havia relação entre a utilização de HU e a QV dos pacientes com DF estudados, estes foram divididos em dois grupos, que utilizavam ou não o medicamento. Foi comparada a média dos escores dos domínios do WHOQOL-Bref e a QVG entre os grupos, entretanto não foi identificada diferença estatisticamente significativa, como descrito na Tabela 7.

 

 

Ainda neste estudo, foi realizada uma análise de correlação entre os dados clínicos e laboratoriais dos pacientes e os domínios do WHOQOL-Bref, assim como a QVG, entretanto, não foi encontrada correlação estatisticamente significativa.

 

DISCUSSÃO

A DF é o transtorno sanguíneo hereditário mais frequente. Os pacientes podem apresentar uma série de complicações agudas e crônicas. Os aspectos psicossociais e ambientais podem afetar a adaptação física, psicológica, acadêmica e profissional desses indivíduos durante toda a vida, repercutindo diretamente sobre a QV.12,13

O presente estudo revelou que a maior parte dos pacientes com DF foi do sexo masculino, com idade média de 30 anos e segundo grau completo, semelhante ao encontrado por Badawy et al.,14 entretanto, estes pesquisadores investigaram as barreiras para a adesão à HU e sua relação com a QV especificamente em adolescentes e adultos jovens com DF. Como afirmam Furtado et al.,15 a herança genética ligada ao sexo não está presente no quadro clínico da DF, por conseguinte a frequência do diagnóstico desta anomalia pode variar independentemente do gênero. Já em relação ao fato de a maioria dos pacientes estudados possuir apenas o segundo grau completo, é preciso destacar que as diversas complicações clínicas da doença, sobretudo as recorrentes crises dolorosas, podem favorecer o absentismo escolar e desta forma, provocar prejuízos desmedidos para a educação, que culminam com o baixo nível de escolaridade.12,16

Quanto à análise dos dados clínicos e laboratoriais, 80% dos pacientes possuíam o estado homozigoto para a presença da Hb S (SS), correspondente à forma mais grave, classificada como AF 13 e mais da metade relatou ter pelo menos uma crise dolorosa no último ano, dados também constatados no trabalho de Pereira et al.16 A dor é a manifestação clínica que mais afeta a QV dessa população, sendo o principal motivo de internação hospitalar, apesar da sua intensidade variar e de depender das características individuais.17,18 Em relação aos parâmetros hematológicos avaliados, a elevação do nível de Hb F geralmente é observada no curso clínico da doença, mas também está associada à utilização de HU, que por mecanismos ainda não completamente esclarecidos é capaz de aumentar a síntese dessa Hb reduzindo assim a falcização das hemácias.

É importante destacar que a maioria dos pacientes com DF estudados apresentou uma boa QVG e percepção individual da QV, além disso, estava satisfeita com a própria saúde. Ao contrário do presente estudo, em Alagoas, Brasil, Vilela e colaboradores19 verificaram um comprometimento na QV dos indivíduos com DF. Uma possível explicação seria o fato de que eles utilizaram o SF-36 para a avaliação da QV relacionada à saúde, questionário diferente do WHOQOL-Bref. Apesar da relação entre saúde e QV ser reconhecida há muitos anos, a percepção dos pacientes estudados em relação à sua QV foi mais positiva do que àquela sobre sua saúde, tendo em vista que o escore médio de Q1 foi ligeiramente superior ao de Q2, situação igualmente verificada por Roberti et al.20

O domínio meio ambiente, no qual compreende fatores como convívio no lar, oportunidades de lazer, cuidados com a saúde e recursos financeiros, foi o que mais comprometeu a QV dos pacientes com DF, sendo o último o que mais impactou, semelhante ao verificado em estudos prévios.13,20 A QV de um indivíduo, seja ele portador ou não de uma doença crônica, está estreitamente associada à sua condição financeira. Salienta-se que a população estudada foi proveniente de um serviço público de saúde, com isso boa parte possui baixo poder aquisitivo, paralelamente a doença por si só também representa uma maior pressão sobre o orçamento familiar.8,19 Já o domínio relações sociais apresentou o mais alto escore, evidenciando a influencia positiva do apoio familiar e dos cuidadores na QV, constituindo importantes aliados dos profissionais de saúde no tratamento destes pacientes.21 Pereira e colaboradores,16 em um trabalho realizado no Hemominas de Belo Horizonte, Brasil, também constataram que este domínio foi o que mais contribuiu para a QV dos pacientes com hemoglobina SS e SC.

Com efeito, também foi observada uma correlação positiva entre as condições físicas, psicológicas e da QVG com o grau de escolaridade dos pacientes estudados. Certamente, a menor capacidade laborativa, a maior susceptibilidade à fadiga e dor, a dependência do acompanhamento médico por longo prazo, juntamente com a baixa autoestima e preocupação com a morte são agravantes que prejudicam a QVG e vão refletir, principalmente, no desempenho escolar.4,16,20 Segundo Felix et al.,13 existem vários problemas resultantes da doença crônica, como dificuldade no rendimento acadêmico, ansiedade, medo, sentimentos negativos, depressão e agressividade, que podem se intensificar frente às repetidas crises de dor e internações.

Vale ressaltar que são escassos os estudos que utilizaram o WHOQOL-Bref para avaliar a QV de pacientes com DF, por conseguinte, algumas discussões aqui apresentadas abordam outras patologias. Ao se avaliar os escores médios para cada domínio do WHOQOL-Bref , foi constatado menor escore para a faceta Q3 (dor e desconforto) e maior escore para as facetas Q23 (ambiente do lar), Q20 (relações pessoais) e Q6 (espiritualidade), semelhante ao encontrado por Nunes et al.22 ao investigarem a QV de pacientes com hemofilia, doença sanguínea que também influencia a QV da população afetada. Em relação à faceta Q6 (espiritualidade), segundo Oliveira e Queluz,23 este fator também se correlacionou positivamente com a QV de pacientes oncológicos, contribuindo para uma sensação de significado e sentido da vida, regulação das emoções negativas, sentimentos de esperança, maior bem-estar e aceitação da doença.

Ainda no presente estudo, na análise da possível relação entre o uso de HU e a QV, não foi identificada diferença significativa. Neste contexto, Badawy et al.24 perceberam que a adesão à HU, ou seja, seu uso regular conforme a prescrição médica, se associou positivamente com a QV, uma vez que esta possui relação multifatorial com a percepção sobre a doença e os benefícios do medicamento. Tendo em vista a complexidade da DF, além dos potenciais riscos e reações adversas relacionadas ao uso do fármaco, há uma normatização para a dispensação do mesmo. O Ministério da Saúde do Brasil estabeleceu a Portaria nº 55, de 29 de janeiro de 2010,25 no qual estão preconizados diversos pré-requisitos para a sua utilização. A HU é capaz de melhorar a QV dos pacientes com DF no sentido de que, ao reduzir a frequência das crises de falcização, consequentemente também diminui a ocorrência de internações e transfusões sanguíneas.26,27 De acordo com McGann e Ware,28 em 1998 a Food and Drug Administration aprovou a utilização de HU para o tratamento da DF grave. Mediante o exposto, pode-se deduzir que os pacientes estudados que se enquadravam nos critérios clínicos para o uso de HU possivelmente apresentavam um estado mais grave da doença, que pode ter sido minimizado ao ponto de se assemelhar à QV daqueles que não necessitavam utilizar o fármaco.

Por fim, as limitações encontradas no presente estudo referem-se à seleção não randomizada dos pacientes, podendo constituir uma amostra específica e não representativa da população; o reduzido tamanho amostral e a heterogeneidade dos mesmos, o que impossibilitou análises de subgrupos; a consulta a prontuários clínicos, no qual dados podem ser perdidos, além do fato do WHOQOL-Bref ser um instrumento de medida de QV genérico, que não considera aspectos particulares da vida do paciente com DF. No estudo americano de Adams-Graves et al.,29 estes propuseram o uso de instrumentos específicos que avaliem a QV de indivíduos com DF, porém, por originarem de uma cultura distinta, devem ser validados para aplicação no Brasil. Diante disso, futuras investigações são necessárias a fim de se estudar uma amostra maior e superar estas limitações, auxiliando assim no direcionamento de estratégias e políticas de saúde cada vez mais efetivas para os pacientes com DF.

 

CONCLUSÕES

Os pacientes com DF apresentaram boa QV, sendo mais comprometida pelos aspectos relacionados ao domínio meio ambiente (como recursos financeiros) e físico (como dor e desconforto) que se correlacionam com as características clínicas e sociais relacionadas a DF. Ademais, a utilização de HU se mostrou benéfica tendo em vista que foi capaz de igualar a QV entre os indivíduos.

O WHOQOL-Bref apresentou correlação altamente significativa e boa consistência interna entre os domínios, provando ser um instrumento muito confiável na avaliação da QV desses pacientes. Avaliação esta que se mostrou de extrema importância devido à confirmação de que a DF gera consequências biopsicossociais, o que remete à necessidade de incorporar seus pacientes no ambiente social, proporcionando incentivo ao estudo e à elaboração de políticas públicas mais adequadas às suas reais necessidades. Este estudo pode contribuir para possíveis áreas de pesquisa dentro do tema, ajudando a promover um maior número de estudos nacionais e internacionais, além de elevar o nível de assistência provida pela Fundação Hemominas e, portanto, para a promoção da saúde.

 

AGRADECIMENTO

Este trabalho foi apoiado pelo Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Científico (CNPq) (Processo: 442189/2014-1). Os autores gostariam de agradecer a UFSJ, o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica PIBIC e a Fundação Hemominas - HNCDiv.

Os autores não têm qualquer conflito de interesses a declarar.

 

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