RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 23. 4 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20130066

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Editorial

Vulnerabilidade e HIV

Vulnerability and HIV

Mark Drew Crosland Guimaraes

 

No Brasil, a epidemia do vírus da imunodeficiência adquirida (HIV) é predominantemente de transmissão sexual e é concentrada em populações-chave sob alto risco de exposição ao HIV (com estimativa de prevalência superior a 5%), incluindo usuários de drogas injetáveis, profissionais do sexo e principalmente homens que fazem sexo com homens (HSH). A população de HSH apresenta elevado risco de exposição ao HIV, influenciado por características do comportamento sexual e variáveis de contexto como uso de substâncias, estigma e discriminação. Também considerada como população que apresenta mais vulnerabilidade ao HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, pacientes com transtornos mentais têm recebido pouca atenção em relação à prevenção dessas condições. Entre os fatores que potencialmente explicam a acentuada vulnerabilidade dessas populações ao HIV estao baixo conhecimento e percepção de risco, estigma, discriminação, violência sofrida, práticas sexuais desprotegidas, além da alta prevalência de uso de drogas lícitas ou ilícitas. Ressalta-se, ainda, que são altas as proporções da não realização de teste anti-HIV e de não adesão à terapia antirretroviral entre pessoas vivendo com HIV/Aids, caracterizando dificuldade de acesso à obtenção e continuidade do cuidado à saúde dessas pessoas. O início tardio do tratamento impacta na mortalidade, na incidência de infecções oportunistas, na circulação de cepas resistentes do vírus HIV e, principalmente, na transmissão do HIV para parceiros(as).

Há necessidade de urgente resposta dos governos federal, estaduais e municipais, no sentido de empreender esforços mais concentrados para avaliar a extensão da epidemia entre populações-chave, além de ampliar a oferta de serviços adequados para remover as barreiras de acesso à testagem e ao tratamento. Torna-se também fundamental desenvolver programas mais efetivos para estimular comportamentos preventivos do HIV nessas populações e garantir melhor integralidade das ações entre os serviços especializados.

Corroborando o cenário aqui delineado, neste número três artigos apresentam resultados do estudo multicêntrico nacional entre HSH realizado em 10 cidades brasileiras, com enfoque na cidade de Belo Horizonte, e dois mostram resultados do Projeto PESSOAS, realizado em uma amostra representativa nacional de usuários de 26 serviços públicos de saúde mental, cujo principal objetivo foi determinar a prevalência da infecção pelo HIV, sífilis e hepatite C. Os resultados observados neste conjunto de artigos revelam grave desafio a ser enfrentado no âmbito da saúde pública para o monitoramento e avaliação da epidemia do HIV, com vistas à implementação de políticas que sejam sensíveis ao problema e efetivas na oferta de ações adequadas às necessidades dessas populações mais vulneráveis.

Nessa perspectiva, a divulgação do conhecimento produzido por estes dois estudos busca promover o debate necessário sobre os aspectos individuais, institucionais e sociais relacionados à vulnerabilidade em suas diversas expressões e intensidades no contexto da epidemia do HIV.

 

Mark Drew Crosland Guimaraes.
Médico. Doutor em Epidemiologia pela Johns Hopkins University. Professor Associado do Departamento de Medicina e Preventiva e Social, Faculdade de Medicina da UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil.