RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 23. 4 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20130070

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Artigo Original

Percepções sobre o HIV/AIDS e desigualdades em saúde entre pacientes psiquiátricos no Brasil

Perceptions about HIV/AIDS and health inequalities among psychiatric patients in Brazil

Lidyane do Valle Camelo1; Marina Celly Martins Ribeiro de Souza2; Maria Imaculada de Fátima Freitas3; Ana Paula Souto Melo4; Mark Drew Crosland Guimaraes5

1. Enfermeira. Doutoranda do Programa de Pós-Graduaçao em Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, membro do Grupo de Pesquisas em Epidemiologia e Avaliaçao em Saúde -GPEAS. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. Enfermeira. Doutoranda do Programa Pós-Graduaçao em Saúde e Enfermagem da Escola de Enfermagem da UFMG, membro GPEAS. Belo Horizonte, MG - Brasil
3. Enfermeira. Doutora em Ciencias da Educaçao. Professora Titular do Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da UFMG, membro GPEAS. Belo Horizonte, MG - Brasil
4. Médica. Doutora em Saúde Pública pela UFMG. Professora Adjunta da Universidade Federal de Sao Joao Del-Rey, membro do GPEAS, Belo Horizonte, MG - Brasil
5. Médico, Doutor em Epidemiologia. Professor Associado do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da UFMG, coordenador do GPEAS. Belo Horizonte, MG - Brasil.

Endereço para correspondência

Mark Drew Crosland Guimaraes
E-mail: drew@medicina.ufmg.br

Recebido em: 10/12/2013
Aprovado em: 19/12/2013

Instituiçao: Departamento de Medicina Preventiva e Social, Universidade Federal de Minas Gerais Belo Horizonte, MG - Brasil

Resumo

OBJETIVO: descrever as percepções sobre o conceito e formas de transmissão HIV/ Aids em pacientes psiquiátricos e verificar se essas percepções são diferentes segundo características sociodemográficas e de condições psiquiátricas. Investigou-se também se essas características foram associadas ao desconhecimento sobre o conceito e as formas de transmissão do HIV/Aids.
MÉTODOS: estudo transversal multicêntrico realizado com 2.475 usuários de 26 serviços públicos de saúde mental (11 hospitais e 15 CAPS) no Brasil. As percepções emergiram das seguintes questoes semiabertas: o que é Aids para você?; como você acha que a Aids é transmitida? O material textual foi analisado segundo a técnica de análise de conteúdo. Esses resultados foram estratificados segundo variáveis sociodemográficas e de condições psiquiátricas e analisados por meio do teste de qui-quadrado. Os participantes que não souberam responder sobre o conceito ou formas de transmissão do HIV/Aids foram comparados aos demais por meio de regressão logística.
RESULTADOS: em geral, as percepções foram de doença, transmissível (por via sexual e sanguínea), incurável e foram permeadas por aspectos negativos. Estas percepções apresentaram diferenças significativas segundo características sociodemográficas e de condições psiquiátricas por 18,6% não souberam indicar o conceito ou forma de transmissão do HIV/Aids e esse grupo teve mais chances de ter acima de 40 anos, menos de oito anos de estudo, não ter renda individual e estar recebendo tratamento em hospitais psiquiátricos.
CONCLUSÕES: os resultados reforçam a necessidade de medidas macrossociais para minimizar as desigualdades e políticas de prevenção do HIV direcionadas para pacientes com transtornos mentais no Brasil.

Palavras-chave: HIV; Síndrome de Imunodeficiência Adquirida; Percepção, Transtornos Mentais, Serviços de Saúde Mental; Desigualdades em Saúde; Vulnerabilidade em Saúde.

 

INTRODUÇÃO

Há significativas evidências de que indivíduos com transtorno mental apresentam mais riscos de infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV).1 Estudos têm demonstrado que os pacientes psiquiátricos estao envolvidos em comportamentos sexuais de risco e subestimam seu risco de infecção em maior proporção que a população geral.2-5 Essa baixa percepção de risco torna essa população ainda mais vulnerável ao HIV, tendo em vista que o risco percebido influencia na adoção de práticas protetoras.6 Além disso, pacientes psiquiátricos frequentemente têm dificuldade de estabelecer unioes estáveis, possuem histórico de abuso sexual, hospitalizações frequentes, juízo crítico prejudicado, tendem a apresentar piores condições socioeconômicas e enfrentam barreiras sociais, familiares e pessoais que os afastam de uma capacidade plena de vivência sexual saudável.7-11 Todos esses fatores tornam esses pacientes ainda mais expostos a relações desprotegidas com parceiros desconhecidos. Adicionalmente, o isolamento social vivenciado pelas pessoas com transtorno mental dificulta o acesso a informações. Isso contribui para o desconhecimento de fatores elementares sobre a transmissão do HIV e sua prevenção, além de proporcionar a construção de percepções inadequadas, aumentando substancialmente a vulnerabilidade dessa população ao HIV.12

A disponibilidade de informação sobre o conceito e formas de transmissão do HIV/Aids é um aspecto importante para a prevenção do HIV. Entretanto, a compreensão e a capacidade de assimilação dessas informações é que resultará na construção do conhecimento e esse processo é influenciado não apenas pela disponibilidade de informações, mas também pelas trajetórias de vida das pessoas, valores, sentimentos individuais e coletivos, representações e crenças. A adoção de práticas protetoras a partir do conhecimento estabelecido é influenciada, ainda, por questoes de gênero, posição social, cor da pele, geração e outros elementos sociais e populacionais, tendo em vista que essa ação é sensível ao contexto sociopolítico, econômico e cultural.13,14

A obtenção de informações acerca das percepções da população com transtorno mental sobre HIV/Aids pode identificar sentimentos, representações, indícios de carência de informações e o quao desigual essas percepções se distribuem nos estratos socioeconômicos e demográficos. Esse diagnóstico contribui para a construção de políticas públicas de saúde, por ter o potencial de revelar aspectos envolvidos na compreensão e assimilação das informações, bem como a consolidação do conhecimento. Apesar disso, são escassos os estudos sobre percepções sobre HIV/Aids em populações com transtornos mentais e nenhum com abrangência nacional. O presente trabalho teve por objetivos descrever as percepções sobre o conceito e formas de transmissão do HIV/Aids em uma amostra representativa nacional de usuários de serviços de saúde mental no Brasil e verificar se essas percepções são diferentes segundo características sociodemográficas e de condições psiquiátricas. Investigou-se também se essas características foram associadas ao desconhecimento sobre o conceito e as formas de transmissão do HIV/Aids.

 

METODOLOGIA

Tipo de estudo e população

Para esta análise foram utilizados dados obtidos do Projeto PESSOAS, estudo de corte transversal realizado em uma amostra representativa nacional de usuários de 26 serviços públicos de saúde mental (11 hospitais psiquiátricos e 15 Centros de Atenção Psicossocial - CAPS), cujo principal objetivo foi determinar a prevalência da infecção pelo HIV, sífilis e hepatite C. Foi obtida amostra aleatória (n=2.475) de pacientes maiores de 18 anos, capazes de fornecer consentimento informado e de responder a um questionário, ponderando-se proporcionalmente pelo tipo de serviço (Hospital ou CAPS).15

O projeto PESSOAS foi aprovado pelos serviços participantes, pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (COEP/UFMG, 125/05) e pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP 592/2006). Mais detalhes sobre a metodologia do estudo foram descritos por Guimaraes et al.15

Evento e variáveis explicativas

Todos os participantes foram submetidos a entrevistas semiestruturadas face a face, padronizadas para a obtenção de dados sociodemográficos, clínicos e comportamentais. O evento de interesse foi a percepção dos usuários dos serviços de saúde mental sobre o HIV/Aids e suas formas de transmissão obtidas pelas seguintes questoes semiabertas: o que é Aids para você?; como você acha que a Aids é transmitida? Adicionalmente, os participantes que não souberam responder pelo menos uma dessas duas questoes foram agrupados e comparados aos demais. Foram avaliadas as seguintes características demográficas: sexo, idade (< 40; > 40 anos), situação conjugal (casados; solteiros), cor da pele autorreferida (brancos; não brancos), escolaridade (< 8 anos de estudo; > 8 anos de estudo) e renda individual no mês que antecedeu a pesquisa (não tiveram renda; tiveram renda), local de tratamento (hospital; CAPS) e diagnóstico psiquiátrico principal. Os participantes separados e viúvos foram agrupados como solteiros. Os diagnósticos psiquiátricos foram obtidos por meio dos registros em prontuários médicos e classificados pela CID-10 e foram categorizados em transtornos mentais graves (TMG), i.e., diagnósticos de esquizofrenias, transtorno bipolar e depressão com sintomas psicóticos; os demais diagnósticos foram considerados transtornos mentais não graves (TMNG).

Análise dos dados

O material textual advindo das duas questoes semiabertas foi analisado utilizando-se a técnica de análise de conteúdo.16 Primeiramente foi realizado um exame dos discursos por meio de análise semântica e léxica. Posteriormente, as palavras evocadas foram agrupadas em categorias semanticamente próximas e analisadas descritivamente segundo frequência de evocação. A proporção de cada categoria que emergiu da análise de conteúdo foi comparada separadamente, segundo as variáveis sociodemográficas e de condições psiquiátricas por meio do teste de qui-quadrado de Pearson.

Em seguida, os participantes que indicaram não saber o que é Aids ou como ela é transmitida foram comparados aos demais, no que tange as variáveis sociodemográficas, por meio do teste do qui-quadrado de Pearson. Posteriormente, procedeu-se à análise univariada para a obtenção da odds ratio (OR) e seu intervalo de confiança de 95%, por meio de regressão logística. Somente permaneceram no modelo final aquelas variáveis com p < 0,05. As análises foram realizadas nos softwares Epi-Info 3.5.3 e Stata 10.0 (Stata Corporation, College Station, Estados Unidos).

 

RESULTADOS

Entre os 2.475 pacientes do Projeto PESSOAS, a maioria era do sexo feminino (51,6%), com idade superior a 40 anos (51,7%), branca (51,4%), solteira (67,1%), com menos de oito anos de estudo (70,6%), possuía renda individual no mês que antecedeu a pesquisa (59,2%) e tinha diagnóstico de TMG (56,6%). Houve predomínio de pacientes recrutados nos CAPS (63,7%).

O total de 5.138 evocações foi gerado a partir da pergunta "o que é Aids para você?" Da análise do material textual advindo dessa pergunta foram criadas 10 categorias que abrangeram 84,3% das evocações (Tabela 1). Do total de participantes, 12,9% não souberam conceituar Aids. Os participantes definiram a Aids como uma doença (67,9%), transmissível (22,5%), que leva à morte (18,5%) e é incurável (16,8%). Termos indicativos de percepções negativas da doença como "ameaça, ruim e sofrimento" foram citados por 25,1% dos participantes. A percepção sobre a Aids também perpassou pelo seu mecanismo de transmissão e etiologia, já que termos relativos a "prática sexual", "sangue" e "vírus" também estiveram presentes. Expressões relacionadas à "prevenção" apareceram em apenas 1,8% das falas dos participantes (Tabela 1).

 

 

Em relação à pergunta "como você acha que a Aids é transmitida?", o total de 4.104 evocações foi gerado e, partir da proximidade léxica e semântica, foram criadas cinco categorias, que contemplaram 91% das evocações (Tabela 1). Do total de participantes, 13,4% não souberam identificar a forma de transmissão do HIV/Aids. A maior parte dos entrevistados indicou que a forma de transmissão do HIV/Aids era por meio da prática sexual (77,7%), seguida pela via sanguínea (52,2%) (Tabela 1). Percepções incorretas acerca da transmissão da doença como por meio de uso compartilhado de objetos pessoais, contato social e beijo foram citadas por cerca de 10% dos participantes (Tabela 1).

A citação de termos adequados para se definir Aids como "doença", "incurável" e "transmissível" foi estatisticamente maior entre os participantes do sexo feminino, com idade inferior a 40 anos, oito anos de estudo ou mais, possuidores de renda individual, que estavam sendo tratados em CAPS e não tinham diagnóstico de TMG (Tabela 2). Percepções negativas como "ameaça, ruim e sofrimento" ou "morte" foram citadas em proporção estatisticamente maior entre indivíduos do sexo feminino, de maior escolaridade, com renda individual e casados (Tabela 2).

 

 

A citação de termos apropriados para indicar as formas de transmissão do HIV como por meio da "prática sexual" e pelo "sangue" foi estatisticamente maior entre os participantes do sexo masculino, com menos de 40 anos, com oito anos de estudo ou mais, com renda individual, casados, brancos, que estavam recebendo tratamento no CAPS e que não tinham diagnóstico de TMG (Tabela 3). Percepções incorretas acerca da transmissão da doença como por meio de uso compartilhado de objetos pessoais, contato social e beijo foram citadas em proporção estatisticamente maior entre os indivíduos do sexo masculino (Tabela 3).

 

 

A proporção de participantes que não souberam responder pelo menos uma das perguntas semiabertas (18,6%) foi maior entre as mulheres, os mais velhos, de baixa escolaridade, sem renda e hospitalizados (Tabela 4). Na análise multivariada, permaneceram associados: ter idade acima de 40 anos, ter menos de oito anos de estudo, não ter renda individual e estar em tratamento em hospital (Tabela 4).

 

 

DISCUSSÃO

O presente estudo indicou uma preocupante situação acerca das percepções sobre HIV/Aids e suas forma de transmissão em uma amostra representativa nacional de usuários de serviços de saúde mental no Brasil. Nossos resultados identificaram que em geral as percepções sobre o HIV/Aids foram de doença, transmissível (por via sexual e sanguínea), incurável e foi permeada por aspectos negativos. Verificou-se que percepções adequadas foram mais frequentemente citadas entre participantes mais jovens, com melhor situação socioeconômica, que estavam sendo tratados nos CAPS e não tinham diagnóstico de TMG. Além disso, os participantes que não souberam descrever o conceito ou forma de transmissão do HIV/Aids tiveram mais chances de serem mais velho, estarem em desvantagem socioeconômica e recebendo tratamento em hospitais psiquiátricos.

Os resultados encontrados foram ao encontro do processo de construção social da Aids, historicamente norteado por ideias de morte e promiscuidade, e na existência de grupos de risco, vítimas inocentes (ex. recém-nascidos, hemofílicos) e culpados (trabalhadoras do sexo, homossexuais e viciados em drogas). Essas representações e percepções possibilitaram a falsa ideia de segurança ou "imunidade" das pessoas não enquadradas nos grupos de risco frente ao vírus do HIV.1 Além disso, acrescenta-se que os primeiros anos da epidemia de Aids no Brasil foram marcados pela forma alarmista e sensacionalista adotada pelos meios de comunicação em sua divulgação, reforçando as concepções sobre a doença de "grupo de risco", "doença de gay" e "doença do outro".17

As percepções registradas neste estudo podem ter sua origem no estigma e representação no imaginário das pessoas de que a Aids é uma "doença que leva à morte". Essas representações do HIV/Aids são descritas desde o início da epidemia, tendo poucas variações de alguns elementos que ora aparecem mais fortes, ora não. Assim, de modo geral, não foram encontradas diferenças importantes entre as percepções sobre o HIV/ Aids dos participantes deste estudo e aquelas encontradas em diversos grupos populacionais.17-22 Entretanto, mais recentemente, outros elementos como "camisinha", "preservativo", "prevenção", "irresponsabilidade" e "descuido" têm sido reconhecidos como importantes nas representações sobre a Aids em estudos brasileiros18-21. Essa situação não foi apurada no presente estudo, tendo em vista que a citação de elementos relacionados à prevenção foi muito reduzida.

A proporção dos participantes que não souberam indicar o que é Aids ou como ela é transmitida foi alta. Esse resultado é preocupante, tendo em vista o alto investimento em políticas públicas direcionadas para a disseminação de informações sobre prevenção do HIV/Aids. Isso ilustra que a compreensão e a capacidade de assimilação de informações não dependem apenas de sua disponibilidade, mas envolvem a atuação de determinantes estruturais e fatores relacionados a trajetórias de vida dos indivíduos. Essas características precisam ser levadas em consideração na construção de políticas públicas mais eficientes, especialmente em populações vulneráveis como as de usuários de serviços de saúde mental.

Os participantes acima de 40 anos tiveram mais dificuldades para a construção de percepções apropriadas sobre o HIV/Aids e tiveram mais chances de não saberem o conceito e as formas de transmissão dessa doença. Indivíduos mais velhos podem não ter tido orientação focada em atitudes sexuais preventivas e ainda possuem forte representação de que a Aids é uma doença "do outro" e que não são susceptíveis à contaminação.23 Além disso, pacientes com transtornos mentais mais velhos costumam ser mais isolados socialmente, com limitado acesso a informações e outros elementos que podem auxiliar na consolidação de representações adequadas.24 Inquérito nacional que avaliou conhecimento sobre formas de transmissão do HIV na população geral também encontrou que os mais velhos possuem menos conhecimento sobre HIV/Aids.25

Os pacientes com transtornos mentais com menos de oito anos de estudo e que não tinham renda individual também tiveram menores proporções de percepções adequadas sobre HIV/Aids e mais chances de não saberem seu conceito ou suas formas de transmissão. Piores condições socioeconômicas têm sido associadas a menor grau de informação sobre HIV/Aids em estudos com a população geral25-27 e com população psiquiátrica.24,28 O acesso diferenciado a informações atualizadas e a serviços de prevenção somado a fortes fatores contextuais que dificultam a adoção de comportamentos protetores são motivos que podem explicar essa relação.29 No tocante à escolaridade em particular, a falta de habilidade para leitura pode ser uma barreira importante que limita o acesso à informação e a consolidação de representações adequadas.24,29 Esses resultados confirmam estudo anterior, que avaliou o conhecimento sobre o HIV/Aids de forma objetiva e quantitativa no Projeto PESSOAS. Utilizando um escore de conhecimento obtido por meio de acertos e erros de 10 declarações sobre HIV/Aids e suas formas de transmissão e prevenção, encontrou-se que ser mais velho e ter menos escolaridade também foram independentemente associados ao reduzido conhecimento sobre a Aids.28

Enquanto na população geral os solteiros são mais bem informados sobre o HIV/Aids25, no presente estudo eles manifestaram mais dificuldades para elaborarem percepções adequadas sobre a Aids. Ser solteiro foi associado a menor conhecimento sobre HIV/Aids em pacientes com transtorno mental em outras pesquisas.24 Os indivíduos com transtorno mental sem companheiros tendem a ficar ainda mais isolados socialmente, o que contribui para menos acesso a informações de prevenção e dificulta a construção de representações apropriadas sobre o HIV/Aids.

Encontrou-se maior proporção de percepções adequadas sobre concepção da Aids no sexo feminino, o que pode ser explicado pelo potencial de ampliação dos riscos de infecção pelo HIV entre as mulheres no rumo atual da epidemia no Brasil. Entretanto, assim como em outros estudos25, os homens estiveram mais informados sobre as formas de transmissão do HIV. As mulheres valorizam mais a relação afetiva, amor e fidelidade, possuem dificuldades para negociar as práticas sexuais e dispoem de pequenas opções de métodos preventivos sob o seu controle.29,30 Isso pode levá-las a buscar menos informações sobre as formas de transmissão do HIV, apesar de terem conhecimento sobre a doença, já que pode existir a ideia que isso não é necessário porque o parceiro é fiel ou que essa atividade é papel do homem.

Os participantes que faziam tratamento em hospital psiquiátrico e que tinham diagnóstico de TMG tiveram mais problemas para relatar percepções adequadas sobre HIV/Aids. Além disso, os pacientes hospitalizados tiveram mais chances de não saberem o conceito ou as formas de transmissão do HIV/Aids. Esses achados ilustram a necessidade de mais utilização do espaço institucional da atenção psiquiátrica, independentemente de sua natureza, para prover acesso à informação, bem como a testagem para o HIV e encaminhamento.

Os resultados evidenciam que a disponibilidade de informação é apenas um aspecto que deve ser considerado para a prevenção do HIV/Aids, principalmente em populações vulneráveis, como os pacientes psiquiátricos. Outros aspectos são importantes para a construção de percepções adequadas sobre o HIV/Aids, tais como a idade, gênero, posição social, estado conjugal diagnóstico psiquiátrico e tipo de instituição de tratamento. Além disso, fatores contextuais da família, do local de tratamento do transtorno psiquiátrico, bem como do contexto sociopolítico, econômico e cultural, que não foram analisados no presente trabalho, também devem ser levados em consideração.

O presente trabalho apresenta algumas limitações. Apenas duas perguntas semiabertas para descrever as percepções sobre HIV/Aids e sua forma de transmissão foram utilizadas. Assim, não foi possível conhecer as percepções em profundidade como em outros métodos de pesquisa qualitativa, incluindo entrevistas em profundidade ou grupos focais. Entretanto, o tamanho amostral, típica de um estudo de corte transversal, permitiu o diálogo entre distintas metodologias, possibilitando a construção de análises estratificadas para identificar diferenças estatisticamente significantes entre grupos.

 

CONCLUSÕES

Os resultados sugerem que existem desigualdades em saúde evidentes nessa população, já que aspectos sociais, demográficos e de condições psiquiátricas parecem estar envolvidos na compreensão e assimilação das informações pelos pacientes com transtorno mental. Medidas macrossociais e econômicas direcionadas para o enfrentamento das desigualdades sociais juntamente com intervenções de saúde pública e para os grupos mais vulneráveis, como os pacientes com transtorno mental, são necessárias para enfrentar a epidemia da infecção pelo vírus do HIV e constitui um desafio para os formula-dores e gestores de políticas públicas brasileiras.

 

AGRADECIMENTOS

O Projeto PESSOAS foi financiado pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, Ministério da Saúde, a partir da colaboração entre o governo brasileiro e a UNESCO (Projeto 91BRA3014). MIF Freitas é bolsista do Programa de Pesquisador Mineiro da FAPEMIG; LV Camelo é bolsista da FAPEMIG; MDC Guimaraes é bolsista de produtividade em pesquisa do CNPQ.

 

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