RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 19. 3

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Editorial

MG transplante: doação de órgãos

Charles Simão Filho; Eric Grossi Morato

 

A Revista Médica de Minas Gerais, novamente, não se furta à prima missão de transmitir e ressoar ciência, contudo, também se permite incentivar e promover um valor ímpar e essencial na arte do cuidar: solidariedade.

Nesse clima, apresentamos, com especial motivação, o diagnóstico de morte encefálica como tema central desta edição. Reconhecer pacientes com provável coma irreversível e realizar rigorosamente o diagnóstico de morte encefálica são os primeiros e mais importantes passos no longo caminho da captação, doação e transplantes de órgãos.

Minas Gerais possui 3.553 pessoas esperando por algum transplante de órgão. Encontram-se limitadas e completamente dependentes de hospitais, máquinas e cuidadores, impedidas de gozo da vida com qualidade e felicidade. São portadoras de doenças crônicas, que sobrevivem em contínuo sofrimento, agonia, limitação, perda da autonomia e desilusão. O Brasil aumentou em 24,3% o número de transplantes de órgãos no primeiro semestre deste ano, porém mantém taxa de 7,2 doadores efetivos por milhão de pessoas (pmp), com 70.000 pacientes, hoje, em fila de espera. A Espanha, uma economia 20% menor que a nossa, a quinta da Europa, contabiliza atualmente taxa de 45 doadores pmp, a Argentina 15,3 e o Uruguai 19,8. Foram realizados 378 transplantes de órgãos oriundos de cadáver em Minas Gerais no ano passado, abaixo apenas de São Paulo e Rio Grande do Sul, porém muito aquém do seu real potencial. A morte encefálica acomete 10 a 15% dos pacientes sob cuidado intensivo, porém em hospitais de referência para tratamento neurocirúrgico e tratamento do trauma essas taxas podem ser ainda mais altas. A prevalência de pacientes em coma (Glasgow=3) com causa identificável e irreversível, somente no HPS - João XXIII (referência em neurotrauma) em Belo Horizonte, é de pelo menos 2,3 pacientes/ dia em Minas Gerais, enquanto a taxa de recusa familiar para doação é de 18,1%, a terceira mais baixa do país. O índice de subnotificação ou não-realização do diagnóstico de morte encefálica (2008) é de 59% (14º lugar). Minas Gerais, infelizmente, demonstra pouca eficiência na procura por doadores. O estado ocupa o 17º lugar na doação efetiva de órgãos por milhão de pessoas/ ano (pdp). São oito para cada milhão de habitantes, sendo que poderíamos, com poucos ajustes, alcançar a taxa de 16 pmp, como Santa Catarina, por exemplo.

A ausência de efetiva busca ativa, a desinformação médica tanto em relação aos critérios para o diagnóstico de morte encefálica quanto das contraindicações para doação, a baixa ou ausente remuneração dos procedimentos em transplantes, desde o diagnóstico de ME até a retirada e transplante, associados a pouca disponibilidade de leitos de UTI são os principais responsáveis pela tímida atuação mineira e brasileira nessa área.

A campanha nacional de incentivo à doação de órgãos do Ministério da Saúde busca sensibilizar a população no tocante à solidariedade, compaixão e senso humanitário, que representam a doação de órgãos.

A associação de esforços entre MG-Transplante, Secretaria Estadual de Saúde, UFMG, FHEMIG, Sociedade Mineira de Neurocirurgia, PBH e outros resultou em inúmeras iniciativas para elevar a taxa de diagnóstico e, assim, aumentar a doação de órgãos. A escolha temática nesta edição da RMMG foi mais uma dessas ações. E mais: disponibilizar equipamentos e profissionais de neurologia para consulta e auxílio no diagnóstico e formação de novas equipes e centros especializados e introduzir novos tipos de transplantes nos centros já existentes, expandindo, assim, a possibilidade de transplantes além das regiões atuais, germinando esperança em Montes Claros, Uberlândia, Juiz de Fora, Pouso Alegre e Belo Horizonte. É dever solene e moral do médico conhecer, entender, realizar e disseminar os conhecimentos científicos para o diagnóstico de morte encefálica tanto na comunidade médica quanto entre os outros trabalhadores da área de saúde e entre a população em geral.

Espera-se que, assim, a completa potencialidade para transplantes em Minas Gerais seja alcançada e que o objetivo de oferecer um novo órgão a quem precisa seja atingido em curto espaço de tempo, com redução do sofrimento e obtenção de melhor qualidade de vida para todos.

Doe órgãos, divida esse desejo com seus familiares, dissemine essa ideia e justifique, assim, os sábios conselhos desse grande escritor mineiro e belo-horizontino:

"Façamos da interrupção um caminho novo. Da queda um passo de dança."
F. Sabino

Charles Simão Filho
MG-Transplante

Eric Grossi Morato
Hospital das Clínicas da UFMG-Hospital Pronto Socorro João XXIII-FHEMIG