RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 18. 4

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Educação Médica

Analogias em medicina - parte II

Medicine Analogies - Part II

José de Souza Andrade Filho

Patologista, professor de Patologia na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, ex-professor de Patologia Geral da UFMG, membro da Academia Mineira de Medicina

Endereço para correspondência

José de Souza Andrade Filho
Praça Carlos Chagas, 55/1502
CEP 30170-000
Belo Horizonte - MG

Instituição: Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais

Resumo

Trata-se da uma compilação de verbetes que, por analogia, passaram a ser utilizados como termos das diversas especialidades médicas. Essa compilação vem sendo efetuada ao longo dos anos de exercício das atividades de professor e de anatomopatologista. Os verbetes estão organizados em ordem alfabética e, devido ao seu número, a publicação dar-se-á em três partes, sendo todas completas.

Palavras-chave: Medicina; Educação Médica; Terminologia.

 

INTRODUÇÃO

Várias locuções e termos comparativos estão espalhados nas diversas especialidades médicas, sendo criados em grande velocidade com o progresso da ciência. Este trabalho tem sido de investigação e pesquisa há cerca de 10 anos, na tentativa, sempre que possível, de fazer uma enxertia em cada tema de modo a torná-lo mais interessante e atraente.

Água de rocha

O liquor, ou líquido cefalorraquidiano normal, de fundamental importância para proteção e homeostasia do sistema nervoso central, é incolor, límpido, semelhante ao soro, por isso comparado à água pura que sai de uma rocha. O seu exame, incluindo o aspecto a olho nu, é de grande valor propedêutico em muitas neuropatias. É secretado nas alças capilares dos plexos coróides dos ventrículos cerebrais, preenchendo os ventrículos, o canal central da medula e os espaços perivasculares e subaracnóideos do cérebro e da medula espinhal.

O líquido em água de rocha pode ser observado também em lesões císticas preenchidas por secreção serosa, como em cisto de paratireóide e de outros órgãos. Na punção aspirativa com agulha fina da tireóide, a retirada de líquido límpido com aspecto de água de rocha sugere cisto de paratireóide, sendo recomendável dosar paratormônio no mesmo para diagnóstico definitivo.

Na mama da mulher (raramente na do homem) podem ocorrer derrames ou descargas mamilares às vezes límpidas, quase sempre notadas pela própria paciente ou detectadas pelo médico ao exame. Nestes casos, faz-se necessária investigação clínica, radiológica e citopatológica, pois podem corresponder a uma simples ectasia ductal ou a uma neoplasia.

Amigo-da-Onça

Segundo alguns historiadores, surgiu uma anedota muito divulgada no início do séc. XX sobre dois caçadores que estavam na floresta. Um deles pergunta:

- E se aparecesse uma onça agora? - Eu dava um tiro nela.

- E se você estivesse sem arma? - Eu usava o facão.

- E se você estivesse sem facão? - Eu subia numa árvore.

- E se não tivesse árvore? - Eu corria.

- E se você estivesse paralisado de medo? - Afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?

Esta piada inspirou um jovem cartunista, o pernambucano Péricles de Andrade Maranhão, um dos talentos da imprensa brasileira. Péricles criou um personagem sem caráter, baixinho, de cabeça algo piriforme e olhos grandes, bigode cafajeste, cabelo engomado e de humor ferino: O Amigo-da-Onça.

O cartum Amigo-da-Onça foi publicado principalmente na revista "O Cruzeiro", a partir de 1943. Tornou-se muito popular e famoso, sendo registrado nos dicionários como amigo falso e infiel.

O trofozoíto da Giardia lamblia, entre outras características, tem forma de pêra e dois núcleos ovóides, relativamente grandes. Os parasitologistas, patologistas e biólogos, especialmente os da "velha guarda", logo perceberam a semelhança notável entre a expressão facial do personagem humorístico de Péricles e o trofozoíto da Giardia, quando visto de frente, principalmente em coloração especial. Esta comparação se transformou em preciosa "dica" para a identificação do protozoário.

 


Figura 1 - Trofozoíto da giardia semelhança de imagem com o personagem.

 

Atol

Atol é coroa de coral erigida sobre um pilar vulcânico, que forma um círculo, ou anel mais ou menos contínuo, assemelhando-se a uma ilha muito rasa que encerra uma lagoa. O coral é formado pelas estruturas calcárias de minúsculos animais marinhos, que se desenvolvem em colônias. Além da forma circular, o atol pode apresentar a figura de uma ferradura. Os atóis encontram-se aos milhares nas regiões tropicais dos Oceanos Índico e Pacífico.

O granuloma anular é dermatose benigna, geralmente autolimitada, de causa desconhecida, caracterizado por pápulas necrobióticas dérmicas que freqüentemente assumem configuração aneliforme. Colcott Fox descreveu essa dermatose em 1895 sob o nome "ringed eruption of the fingers" (erupção anular dos dedos). A denominação atual deve-se a Radclife-Crocker, em 1963. Ocorre predominantemente em crianças e adultos jovens. A forma mais comum de apresentação é a que configura um anel de pequenas pápulas ou lesões pápulo-nodulares que tendem a se agrupar em anéis ou arcos de círculos, às vezes ligeiramente deprimidas no centro, em relação à epiderme adjacente. São ora da cor da pele, ora avermelhadas ou violáceas e medem de 1 a 5 cm. Localizam-se de preferência no dorso das mãos e dos pés e, com menos freqüência, nos antebraços, braços, pernas e coxas, podendo haver uma ou várias lesões (Fitzpatrick's - Dermatology in General Medicine, 1999, 5ª. Ed. Mc Graw-Hill). Esse aspecto de pápulas isoladas ou coalescentes, anulares, deprimidas no centro e de bordas elevadas, torna o granuloma anular similar à figura geométrica de um atol.

 


Figura 2 - A. Bernard Ackerman. Differential diagnosis in dermatopathology.

 

Cantil, imagem em

Cantil é pequeno recipiente feito de pano grosso ou couro para transportar líquidos em viagem. A imagem em cantil refere-se a um tipo de câncer avançado (carcinoma), indiferenciado e infiltrante do estômago, quase sempre rico em células em anel de sinete, que cresce de maneira difusa pela parede gástrica. É acompanhado de neoformação conjuntiva, principalmente na submucosa e na subserosa, com conseqüente espessamento e rigidez do estômago. Este quadro anatômico foi comparado a um cantil ou garrafa de couro (leather bottle stomach). O estudo radiológico e principalmente o exame endoscópico com biópsia revelam as características que permitem o diagnóstico de certeza do tumor.

Outras denominações com o mesmo significado são estômago em odre de vinho, em chifre de novilho e linite plástica. O termo linite (gr. línon = tecido de linho + suf. itis = inflamação), empregado originalmente para uma suposta condição inflamatória, foi posteriormente reconhecido como sendo carcinoma difuso, associado à desmoplasia. O prognóstico nesse tipo de neoplasia, até então, é dos piores.

Caroço

É o núcleo lenhoso e duro dos frutos do tipo drupa, como a manga, o pêssego, etc. ou semente de vários outros frutos. Segundo muitos autores, 80% dos casos de câncer de mama são descobertos ou descritos como um "caroço no seio" (breast lump) e, muitas vezes, percebido pela própria mulher. Vários outros tumores superficiais ou do subcutâneo, bem como de vísceras profundas, incluindo os benignos, são também detectados sob a forma de caroço, tecnicamente nódulo, tanto pelos pacientes como pelo médico. A sua cor, limites e consistência variam segundo o grau de vascularização, a densidade celular, o caráter "benigno ou maligno" e a desmoplasia, isto é, a fibrose reacional.

C. D. Haagensen, famoso cirurgião e mastologista americano (Diseases of the Breast, 1971, 2. ed. W.B. Saunders) comenta o papel da mulher na detecção de doenças mamárias e cita as principais razões para retardar o diagnóstico, válidas ainda atualmente: fatores econômicos e psicológicos e falta de educação. Muitas mulheres (americanas) não procuravam assistência médica, dizendo ingenuamente que não sentiam dor e gozavam de boa saúde, concluindo que o lump era inocente. Freqüentemente argumentavam: "o caroço não tem me incomodado e por isso eu não o incomodo".

Champignon

É cogumelo comestível da família das agaricáceas (aport. champinhom, seg. Houaiss), cuja forma é arredondada, globosa e com um pequeno caule na sua base. Certas lesões poliposas como pólipos fibroepiteliais, tumores benignos como adenomas do intestino grosso e de outras localizações, e até mesmo certos tipos de câncer, apresentam um pequeno pedículo e expansão globosa na superfície, evocando um cogumelo ou champignon.

Clara de ovo nas juntas

A clara de ovo é rica em albumina, proteína solúvel em água e coagulável por aquecimento (egg albumin, albumina da clara de ovo). O líquido sinovial normal - óleo articular semelhante à clara de ovo - é de cor clara, transparente, viscoso e tixotrópico e lubrifica as articulações, bainhas tendíneas e bolsas, sendo rico em mucina, gordura e leucócitos. O termo sinóvia significa com ovo e foi criado por Paracelso, médico e alquimista suíço, em 1520, segundo Skinner (The Origin of Medical Terms, 2ª. Ed. The Williams & Wilkins Co.1961). Na esofagopatia chagásica, um dos principais sintomas é a regurgitação. Por vezes, o material regurgitado é constituído apenas de saliva e de ar deglutido, apresentando coloração esbranquiçada e consistência espumosa, sendo comparado, pelos próprios pacientes, à clara de ovo batida (Rezende JM. in: Dani, Paula Castro. Gastroenterologia Cínica. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan;1993).

Enxame de abelhas e ponto de exclamação em "pelada"

Na alopécia areata - tipo de alopécia (pelada), com perda de cabelos ou de pêlos em áreas arredondadas ou ovais, no couro cabeludo ou na barba - ocorre infiltrado inflamatório ao redor dos bulbos pilosos, com predomínio de linfócitos T auxiliares. Estes se apresentam frouxamente distribuídos e dispersos em torno dos bulbos pilosos, lembrando um enxame de abelhas (swarm of bees). A placa da pelada é lisa e brilhante. Na sua margem podem ser retirados pêlos que são mais largos na porção distal e afilados e descorados para o lado da raiz. São os chamados pêlos peládicos em ponto de exclamação (exclamation-mark hairs), característicos para o diagnóstico. A etiologia é desconhecida, porém parece haver participação de fatores emocionais, genéticos e imunológicos. A presença de linfócitos ativados e de células de Langerhans favorece um mecanismo imunológico para esta doença.

Linguado na perna

O linguado, solha ou sóleo é peixe muito apreciado pela excelente qualidade de sua carne. Seu corpo é alongado e extremamente achatado. Em anatomia, há uma estrutura cujo nome derivou-se de sua semelhança com aquele peixe. Trata-se do sóleo, músculo grande e plano da perna, que, junto com os músculos plantar e gastrocnêmio, forma massa muscular poderosa na panturrilha, convergindo para o tendão do calcâneo (tendão de Aquiles), responsável pela flexão plantar do pé (Moore e Dalley, Anatomia Orientada para a Clínica). Segundo Skinner, a derivação acima foi dada por Veslingius de Pádua, em 1649, quando afirmou, "soleus, a figura piscis denominatus".

Ovo frito ou estrelado no cérebro

O artefato em ovo estrelado ou frito (fried egg appearance) é um aspecto microscópico muito característico do oligodendroglioma - tumor cerebral oriundo de oligodendrócitos - sendo provocado pela embebição citoplasmática autolítica de H2O, associada à fixação retardada. Este processo forma halos perinucleares claros nas células tumorais, comparados à clara do ovo estrelado e o núcleo celular correspondendo à gema, que, ao menor aumento do microscópio, evoca, em conjunto, o aspecto de uma colméia. Embora este artefato seja de grande valor para o diagnóstico, nem sempre está presente (AFIP, Tumors of the Central Nervous System).

A mesma imagem de ovo frito ou estrelado pode ser observada em células infectadas pelo papilomavírus humano (HPV), que apresentam halos claros perinucleares (coilocitose) e na medula óssea infiltrada por tricoleucemia (leucemia de células cabeludas ou pilosas), etc.

Pilha de moedas no sangue

Os eritrócitos (glóbulos vermelhos) algumas vezes aderem-se uns aos outros pelas suas amplas superfícies, configurando arranjo semelhante a uma pilha de moedas. Este aspecto é referido pelos hematologistas como rouleaux, termo francês que significa rolos (= rolo de moedas, envolto por papel). Tais arranjos são atribuídos a forças de tensão superficial. Sua presença pode indicar níveis elevados de globulina no plasma ou ocorrer ocasionalmente em locais de estase sanguínea. Em casos de gamopatia monoclonal (mieloma), é freqüente o fenômeno do empilhamento no sangue periférico (Ham, Histologia, 9. ed.). A disposição em pilha de moedas é temporária e os eritrócitos podem se separar sem quaisquer danos. Em algumas doenças intestinais, como obstruções, as válvulas coniventes tornam-se visíveis e sobrepostas, como um empilhamento de moedas.

Seqüestro

é ato ou efeito de pôr à parte, insular, afastar; tomar com violência; crime que consiste em reter ilegalmente alguém o privando de sua liberdade. Infelizmente, é o que tem ocorrido com freqüência assustadora em nosso país.

A conotação/sentido de seqüestro está presente em algumas situações patogênicas. Uma das mais comuns refere-se à porção de tecido desvitalizado, principalmente de tecido ósseo, que, no decurso de inflamação e necrose, fica destacado ou isolado da parte sã: é o "seqüestro ósseo", visto, sobretudo, em casos de osteomielite provocada pelo S. aureus. A tuberculose ósteo-articular pode também provocar focos de necrose óssea nas extremidades opostas de uma articulação, como nas regiões distal do fêmur e proximal da tíbia, que acabam por ficar isolados do tecido vivo adjacente, criando a imagem radiológica de "seqüestro em beijo".

Em pneumologia, há o "seqüestro pulmonar", considerado um defeito do desenvolvimento, definido como massa de tecido pulmonar anormal, sem comunicação com a árvore traqueobrônquica, recebendo suprimento sanguíneo através de uma artéria sistêmica. Divide-se em "seqüestro extralobar", que se caracterizada por massa pulmonar fora do revestimento da pleura visceral, podendo ser torácico ou extratorácico, sendo mais encontrado nos primeiros seis meses de vida e associado a outras malformações. O outro tipo de seqüestro é o intralobar, que fica contido dentro da pleura visceral. Atualmente, parece tratar-se não de anomalia do desenvolvimento, mas de lesão pós-infecciosa. Ao exame microscópico, observa-se massa atelectasiada com múltiplos cistos, revestidos por epitélio cúbico ou colunar e com sinais inflamatórios (bas. em parte Bogliolo-Patologia 6. ed.Guanabara-Koogan). Em relação ao baço, pode haver o chamado seqüestro esplênico, isto é, isolamento de porção do baço, como também o aprisionamento de plaquetas na polpa esplênica, em casos de hiperesplenismo. Trata-se de síndrome que tem as funções esplênicas exacerbadas, com redução dos elementos sanguíneos, incluindo as plaquetas. Enquanto apenas um terço das plaquetas produzidas é armazenado normalmente por determinado período no baço, na esplenomegalia maciça até 90% do reservatório total das plaquetas podem ser capturados nesse órgão ("seqüestro plaquetário"). Ainda dentro dos distúrbios hematológicos, há as denominadas crises de seqüestração na anemia falciforme ou drepanocitose, isto é, hemoglobinopatia hereditária, com alteração da forma das hemácias. As crises de "seqüestro das hemácias" ocorrem em crianças com o baço intacto. Quando a seqüestração é maciça, nota-se rápida esplenomegalia, hipovolemia e choque, requerendo transfusão de sangue.

Alguns autores descrevem o "seqüestro pagético", referindo-se aos portadores de doença de Paget óssea (osteíte deformante), que, ocasionalmente, apresentam sintomas de tontura, visto que o sangue é desviado do sistema carótido interno para os ossos, privando o cérebro de vascularização satisfatória. Sabe-se que nessa doença há aumento significativo de fluxo sanguíneo para o esqueleto.

Em Psicologia, tem-se a "síndrome de Estocolmo", quando o seqüestrado mostra sentimento de simpatia pelos seqüestradores, por motivos políticos (Dicion. Houaiss). A síndrome recebeu esse nome por causa de famoso assalto em um banco de Estocolmo, Suécia, entre 23 e 28 de agosto de 1973. Nesse acontecimento, as vítimas defenderam seus seqüestradores, mesmo após a prisão dos mesmos. O termo foi cunhado pelo criminólogo e psicólogo Nils Bejerot, que ajudou a polícia durante o assalto e se referiu à síndrome durante uma reportagem. Houve adoção do termo por muitos psicólogos.

Segundo outra fonte, a síndrome de Estocolmo se revelou pela primeira vez naquela cidade, quando um diplomata alemão ocidental, seqüestrado e devolvido, declarou simpatia pelo grupo terrorista Baader-Meinhoff (Novo Dicion. Aurélio, Jornal do Brasil, 5.11.1985).